quarta-feira, 27 de junho de 2018

Guiné 61/74 - P18785: Historiografia da presença portuguesa em África (121): A Guiné nas duas guerras mundiais, dois curtos episódios (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Fevereiro de 2018:

Meus queridos amigos,
Temos alguns esparsos quanto ao impacto que os dois conflitos mundiais tiveram na Guiné. Os relatórios do BNU e a documentação avulsa que é possível consultar falam sobretudo dos aspetos económicos, da vigilância britânica, pretendiam a todo o transe travar quaisquer transações que chegassem à Alemanha, tinham sobejos motivos para se inquietar, a presença alemã até ao fim da I Guerra Mundial foi relevante.
Há qualquer coisa de pitoresco no documento referente à reunião secreta promovida em agosto de 1942 pelo Governador Ricardo Vaz Monteiro, fala-se numa invasão iminente e olhando à volta não se encontra, nem de longe nem de perto, uma potência com capacidade invasora, naquele momento, o exemplo de Timor era muito mal escolhido para aquele cenário.
Com isto chama-se a atenção para continuar a investigar o que se passou na Guiné, no tempo destes dois conflitos.

Um abraço do
Mário

Ricardo Vaz Monteiro, 1891-1975


A Guiné nas duas guerras mundiais, dois curtos episódios

Beja Santos

A participação da Guiné nos eventos dos dois conflitos mundiais tem sido alvo de investigações fragmentadas, o que é compreensível na ausência de uma obra histórica abrangente. Dois documentos encontrados no Arquivo Histórico do BNU, um de 1916 e outro de 1942, permitem uma certa aproximação ao que se viveu. Recorde-se que só há relatórios de execução do BNU na Guiné a partir de 1917, não se iludem as dificuldades criadas pelo primeiro conflito mundial, designadamente o que tinha a ver com a atividade das empresas alemãs na colónia e também as relacionadas com o período de carência, inflação e dificuldades na exportação. A II Guerra Mundial tem mais holofotes a iluminar a cena, e a documentação depositada no Arquivo Histórico do BNU é de consulta obrigatória. Aquela porção da África Ocidental francesa não obedeceu ao governo de Vichy, com quem Salazar procurou prezar um relacionamento diplomático cordial, pelo menos nas aparências. As dificuldades aumentaram com o contrabando, que era praticamente incontrolável, pela perda de divisas, os orçamentos da colónia, neste período, eram extremamente austeros, procurou-se exportar o que interessa aos beligerantes, caso da borracha, as importações eram dificílimas.

Vejamos o primeiro documento, é expedido de Bolama em 9 de julho de 1916 para Lisboa. Refere que tinha vindo da sede a autorização para um crédito de vinte contos a favor de Joaquim António Pereira, antigo gerente da firma Salomão Pereira Neves & Ca. O gerente de Bolama é perentório, tal senhor era acusado de negociar com alemães, Bolama preparava-se para cortar o crédito.
E importante é o que se escreve a seguir:
“Ultimamente disseram-nos que negociava com dinheiro emprestado por Rodolf Titzch & Ca. e por isso achamos prudente não lhe dar aviso de crédito sem primeiramente ouvir V. Exas. Nós não temos nenhuma denúncia por escrito mas estamos convencidos ser verdadeiro o que dizem. De uma lancha soubemos nós que foi carregada em Bafatá, saindo o coconote dos armazéns do Titzch, apesar do coconote ser comprado a um cabo-verdiano que fingiu ser intermediário. Não estando V. Exas. de acordo connosco, sirvam-se telegrafar a receção desta”.

Convém notar que os gerentes informavam sistematicamente a criação de empresas, a natureza das suas hipotecas, as falências, as chegadas e partidas notáveis, etc. Um exemplo curioso foi o dossiê que li sobre a empresa Bambay States Limited, que pretendia implantar-se nos Bijagós, enviara um inglês de pele escura, Burmester Ellis Bull, e na informação para Lisboa logo se dizia que tal senhor não era pessoa de confiança, havia mesmo quem dissesse que tinha cadastro. Falamos do pai de James Pinto Bull, deputado da Assembleia Nacional que faleceu em 1970 num acidente de helicóptero no rio Mansoa, que vitimou outros deputados, para além do piloto. A carta confidencial de 7 de agosto enviada de Bissau para Lisboa tem um tom muito mais dramático, o gerente refere que mandara um telegrama cifrado, procurara fugir à vigilância inglesa.

Atenda-se ao que escreve:
“Em 29 do mês findo (julho), o Senhor Governador Vaz Monteiro convocou os chefes de serviço para uma reunião secreta a que nos convidou a ir.
Em curtas palavras, indicou o caminho que cada um devia seguir caso se desse aqui uma invasão estrangeira como a que se verificou em Timor e informou que ele, governador, em tal emergência, se encontraria onde se encontrassem as forças militares da colónia.
Aos que não tinham funções militares, recomendou que, houvesse o que houvesse, não saíssem dos seus lugares e aconselhassem a mesma atitude aos seus subordinados e às demais pessoas que porventura estivessem à sua volta, para que se evitassem dificuldades ao movimento das tropas.
Das suas palavras e talvez, mais ainda, do modo como as pronunciou, ficou-me a impressão e aos outros também de que estava iminente qualquer agressão à colónia, não se dizendo, ou não se sabendo, de que lado vinha.
Mais me convenci que assim era quando o Senhor Governador, já a sós comigo, me perguntou que destino daria eu aos valores do Banco, principalmente ao ouro; se conviria retirar com tudo para o mato; se enterrar o ouro em qualquer parte do interior.
Respondi que não tinha ordens especiais a tal respeito mas que ia pedir imediatamente a V. Ex.ª. e foi daqui que nasceu o telegrama de 30, feito em termos a que deu acordo o Senhor Governador. O ouro foi imediatamente colocado em sólidas caixas e o peso dividido de modo a facilitar o transporte.
As notas podem ser ensacadas com relativa rapidez, se não foi mais rápida ainda a acção que parece temer-se contra a colónia.
O que se tornará mais difícil é obter transporte rápido que tudo carregue, pois a falta de gasolina é cada vez maior.
Suponho que V. Ex.ª. me dará depressa as instruções que pedi.
Caso as não receba, considero-me na obrigação absoluta de defender os valores à minha guarda. Caso V. Ex.ª. me dê ordens tendentes a não saírem do lugar em que estão os valores do Banco e se verificar que, para honra da nossa terra é preciso responder a qualquer agressão pela força, eu peço a V. Ex.ª. que me julgue bem quando lhe constar que eu fui um dos primeiros a enquadrar nos da primeira linha. A nossa força aqui, pelo lado material é tão pequena que, se for preciso utilizá-la, todos têm de dar o seu máximo esforço”.




Não se atina, na ausência de outros elementos, quem seria a potência invasora. Algo mudara, é certo nos acontecimentos do Norte de África. Em 21 de junho desse ano, Rommel conquistara Tobruk, suponha-se que estava aberto o caminho para que as tropas alemãs atingissem rapidamente o Cairo e sufocassem o canal de Suez. Mas não se consegue descortinar um avanço impetuoso alemão sobre a África Ocidental. Também não se descortina a possibilidade dos britânicos irem em socorro da Gâmbia, não podiam hipotecar meios navais para tal operação. E os norte-americanos estavam ainda a formar um corpo de exército destinado a desembarcar no Norte de África. A hipótese que se pode pôr era de que o governador recebera instruções para proceder a simulações de defesa, de modo a que as populações ganhassem sensibilidade para a guerra avassaladora na Europa, África, Ásia e Oceânia. Mas tudo isto não passa de especulação, seria necessário consultar a documentação referente a este período da governação no Arquivo Histórico Ultramarino.

Imagem da receção à Tuna Académica em Bissau, onde deu espetáculo, retirada da obra “Uma Apoteose - duas visitas - uma despedida”, obra relacionada com a partida do Governador Raimundo Serrão, 1953.
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Nota do editor

Último poste da série de 26 de junho de 2018 > Guiné 61/74 - P18782: Historiografia da presença portuguesa em África (119): O primeiro voo, ligando Lisboa a Bolama, em 1925, e a primeira tentativa de usar a aviação com fins militares naquele território (Armando Tavares da Silva) (Parte II)

1 comentário:

Antº Rosinha disse...

"...em agosto de 1942 pelo Governador Ricardo Vaz Monteiro, fala-se numa invasão iminente..."

O nosso BS acha absurdo esta ideia.

Visto hoje até parece mesmo que seria impossível tal hipótese.

Mas também sabemos hoje, documentadíssimo, que as nossas colónias estavam destinadas a ser carniça cobiçada por muita gente, até mesmo pelo vizinho aliado de Hitler Franco e seu 1º ministro, e em que mesmo este triste portugal, corria o perigo de vir a ter umas "fronteiras" que chegariam dos pirineus ao atlântico.

Em 1942, os loucos ainda acreditavam em todos os sonhos.

Mas visto hoje, BS tem razão, europeus projectar uma invasão de Bolama, ou Bissau...para quê? se até já há guineenses e imensos vizinhos deles que já estão a fugir a caminho da Líbia?

Se a máquina do tempo pudesse voltar atraz!