sábado, 8 de maio de 2021

Guiné 61/74 - P22182: Os nossos seres, saberes e lazeres (450): Quando vi nascer a Avenida de Roma (7) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Março de 2021:

Queridos amigos,
Aqui se põe termo a uma jornada de saudade, embora com a convicção de que muito mais se podia mostrar. Dou um exemplo. Aqueles tempos de passeata, depois da tarde na escola, deambulávamos pela Avenida João XXI em direção ao Campo Pequeno, nessa altura esse troço da avenida aguardava o asfalto. Íamos bisbilhotar a Fábrica de Cerâmica Lusitânia que desapareceu para dar origem ao mastodonte da Caixa Geral de Depósitos, resta um sinal da sua existência, uma chaminé na Avenida João XXI. A própria Biblioteca das Galveias fora recuperada como escombro, e por isso se mostra a imagem, teve recente qualificação e o seu acervo é opulento. Também ficou por mostrar a fração neutra da Avenida de Roma até junto à estátua do Santo António, aquele imenso espaço central fora previsto como pavilhão polivalente mas o mundo dá muitas voltas, tem agora um emolduramento de prédios modernos. E escusado é dizer que quando acabámos a instrução primária seguimos rumos diferentes. E nunca esqueço que o meu amigo Nelo ofereceu-se para voluntário paraquedista, encontrámo-nos na Avenida dos Estados Unidos, ambos com 20 anos, ele dava sinais de um envelhecimento precoce, falou-me da guerra da Guiné e nesse encontro que decorreu na Pastelaria Nova Iorque, que há muito não existe, ele preveniu-me com o ar mais sério do mundo que eu devia estudar muito para evitar viver os horrores que ele tinha experimentado. Pareceu-me exagero a mais, até que escassos anos depois eu pisei aquele solo por onde o Nelo se martirizou, mas já era muito tarde para lhe dar razão.

Um abraço do
Mário


Quando vi nascer a Avenida de Roma (7)

Mário Beja Santos

A romagem de saudade está a chegar ao fim. Disse-se e repetiu-se que esta avenida foi um rico laboratório arquitetónico, aqui surgiram novos locais de lazer, os snack-bar, as discotecas e livrarias que nos evitavam ir à Baixa. Parte desse comércio inicial desapareceu, sobretudo as lojas de mobiliário e de eletrodomésticos. Guardo a recordação das estruturas de cimento a elevarem-se aos céus, de sentir os odores da caliça e ouvir o fragor de toda aquela movimentação de operários, ladrilhadores, estucadores, pintores. Ficaram e permanecem marcas de um comércio com nota bairrista, as engomadorias, ourivesarias, os novos negócios dos chineses. Era inevitável lançar o meu olhar sobre o Campo Grande, a Rua de Entrecampos, contive-me na descrição das zonas periféricas da Avenida de Roma, um espaço único, tal como o grande escritor Mário de Carvalho registou num seu livro de 2010, "A Arte de Morrer Longe":
“Eis a bela Avenida de Roma, nem grande nem pequena, nem larga nem estreita, epítome da mesura e da moderação, nos volumes, nas linhas, na dimensão, na cor.
Eis os vastos passeios reticulados de pedrinhas de lioz, a dar brilho às fachadas, com os golpes de sol, ou a refleti-las, em florescências multicolores, quando escorridas de chuva.
Eis a elegância das cores esbatidas, sossegados verdes e rosas-pastel, os prédios discretamente comedidos, num alimento de harmonias burguesas, distintas, reservadas, boas marcas, bons colégios, talvez mais reputados que bons, negócios turvos, recato de vida, golas altas, casacos de tweed, bombazinas caras, livros em francês.
Ressalta a impressão de clareza, a nitidez dos contornos, a contenção das formas, um meado de século que perdura na decadência entristecida dos velhos snacks, com as presas de cobre gasto, engastes de vidros glaucos, madeirames escurecidos, as lojas dos anos 50, ainda com gavetões de fórmica, convivem com a sofisticação, já a roçar o duvidoso, das vitrinas caras, negros brilhantes, fúcsias e lilases, a desviar para o modernaço… Esta avenida não há pátina que a estrague porque não quis ser pesadona de ornamentos e volutas, com ostentação cortesã da idosa fanada que já não tem nada para dar, senão enfeites. Toda ela é de uma meia-idade simples, de bom gosto, gama média, cores discretas, sem o cinza-chumbo das cidades no Norte, repassadas de bolores, sem a alacridade faceira do Sul, a sobrar de sol, sem a velhice tristonha das metrópoles ricas, sem a decadência abandonada das pobres”
.

Confesso que me despeço a custo para a Avenida que vi nascer, que foi para mim uma placa giratória para cirandar no Campo Pequeno, no bairro do Arco do Cego, nas artérias próximas da Avenida Almirante Reis. Quando cheguei à adolescência, quando juntava escassos cobres, ia à procura na livraria Barata dos sinais da modernidade, e mais tarde passei a ter o privilégio de acesso a comprar livros proibidos pela censura. Não é por acaso que dela me despeço com mágoa, descendo depois até ao Campo Grande, mas também recordando a Biblioteca Galveias, que continuo a frequentar e o último adeus à minha infância também fica registado com uma fotografia tirada ao lado da mana, eterna companheira, que vive agora os seus tempos de definhamento, com o meu pesar.
Interior da então pequena livraria Barata
José Rodrigues, genro de António Barata, faz parte da nova alma da icónica livraria
A Avenida de Roma, vê-se o letreiro da Papelaria Emílio Braga, um pouco mais abaixo é o cruzamento da Avenida João XXI. Era um estabelecimento muito frequentado pela malta estudantil, o Liceu Filipa de Lencastre era ali bem perto, e havia os colégios, um sortido de cadernos e lápis provocavam um forte atrativo para frequentar tal loja. Encerrou e transferiu-se para a Rua Oliveira Martins, também já desapareceu.
O Palácio das Galveias, então num completo estado de degradação. É a biblioteca da minha vida, e recordo o dia em que o então diretor, Dr. Rodrigues Cavalheiro, fez uma visita-guiada, mostrando recortes do estado deplorável em que se encontrava este belo edifício que pertencera aos Távoras. Chegou a ser covil de ladrões, foi recentemente beneficiado, é uma das mais belas casas de livros que há em Portugal.
Asilo D. Pedro V, hoje Fundação da Cidade de Lisboa. Lembro-me perfeitamente de passar à porta e ver uns velhinhos a apanhar sol, o edifício muito maltratado, fez-se uma bela recuperação.
Entrada do restaurante-café do Lago do Campo Grande, mantém-se tal qual
Sala principal da Biblioteca Nacional
Café Londres, na praça do mesmo nome
A icónica Discoteca Roma ficava mesmo ao lado daquele arco que se vê do lado esquerdo, na confluência com a Rua Edison. A discoteca rivalizava com a concorrência, nunca perdendo, exibia a tempo e horas o melhor da música clássica, do rock, da música de contestação e até da música portuguesa. Aguentou-se a custo até ao DVD e ao CD, as cópias, os walkman, o Spotify, teriam sempre liquidado este nicho da indústria em que cada um dos melómanos pretendia ter o que se chamava a cópia fiel – um mundo que perdeu o seu significado.
Recém-chegado ao Bairro Social de Alvalade, alguém sugeriu que tirasse uma fotografia com a mana, então interna no Colégio da Bafureira (Parede), mantivemos ao longo da vida uma lídima relação fraternal, que conservamos, a despeito da doença a obrigar a viver num lar, com a pandemia recorremos ao telefone ou às visitas com as severas normas de segurança. Estamos empoleirados no muro da Escola Primária N.º 151, de frente à nossa casa.
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Nota do editor

Último poste da série de 1 DE MAIO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22161: Os nossos seres, saberes e lazeres (450): Quando vi nascer a Avenida de Roma (6) (Mário Beja Santos)

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