quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Guiné 63/74 - P7751: Notas de leitura (200): Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Fevereiro de 2011:

Queridos amigos,
Depois de se ler o “Nó Cego”, fica-se com a garganta seca. E manda a lucidez que nos resignemos a uma literatura muito mais banal, isto de obras-primas absolutas é, por definição, um achado raro, Vale Ferraz escreveu o livro da guerra, o que de essencial há a dizer brota nestas centenas de páginas.
Como muitos de nós andam a reivindicar dignidade no tratamento dos ex-combatentes, não me parece estapafúrdio que se devia pôr um exemplar do “Nó Cego” em todos os estabelecimentos do ensino obrigatório.

Um abraço do
Mário


A guerra é a vida em passo de corrida

Beja Santos

Há sérias razões para acreditar que o classicismo de “Nó Cego”, de Carlos Vale Ferraz venha a ser superado pela gente da nossa geração. Não se trata do uso da linguagem, do calão e do jargão; não se trata da reconstituição da vida de uma companhia de comandos no norte de Moçambique, como podia igualmente ter ocorrido noutros teatros de operações, sujeitos a níveis de confronto similares; não se trata da reconstituição da atmosfera dos quartéis e dos retratos sociais e psicológicos de alferes, furriéis e praças, e até mesmo o desfasamento entre a experiência e as motivações dos oficiais superiores e o comportamento das tropas em combate. O que verdadeiramente é insuperável é a gradual visão desencantada da guerra, pelo punho do capitão (autobiografia?) e o impressionante cortejo de figurantes plasmados num romance que não se confina a quartéis e picadas, através da Ilha, local onde os guerreiros fazem uma pausa antes de regressar às brutais lides bélicas, ficamos a conhecer o estado de espírito dos colonos de vários matizes, apoderou-se deles o medo que procuram vencer através da derrisão e de várias bacanais, outro olhar sobre a decomposição, no fim do Império.

Mas voltemos à trama do livro, na última operação morrera o Bento de quem o Cardozo guardou uma pequena harmónica. Aquela operação, perceptivelmente, mudara muita coisa, por exemplo o alferes Lino tomara o gosto pela guerra, na sua vertente da morte e do mando. Numa emboscada, tinham sido abatidos dois guerrilheiros e capturadas duas Simonov. Pierre anda furioso porque o capitão lhe proibira de cortar orelhas aos mortos. O novo tenente-coronel repreende o capitão, a missão não fora integralmente cumprida, grita encolerizado: “Não admito indisciplinas destas, as ordens são para cumprimento até ao fim, até ao minuto, os itinerários para serem seguidos. Vocês não estão habituados a serem comandados, mas eu habituo-os! Porque não falou pela rádio de duas em duas horas como foi determinado! Não admito repetições destas iniciativas, a guerra que vamos fazer é uma coisa séria, cada um tem o seu lugar e a sua missão, resta-lhe cumprir, para pensar e para planear existem os órgãos competentes. Percebeu?”. Aquele oficial nunca entenderá a vida de relação daquela companhia, o espanhol, o Cardoso, o Fernandes, o Lencastre, o Freixo, o Vergas, como todos eles já não podiam esconder o cansaço de tanta saída constante. Na operação seguinte, uma sortida acaba numa matança de que sobrevive uma criança. Vejamos o vigor e a secura da descrição:

“O grupo que fez a batida às imediações voltou trazendo uma criança de dois, três, quatro anos, vá-se lá saber, nu, a barriga inchada em balão, quase a rebentar pelo umbigo saliente, a pele acobreada denunciando misturas de raças, os grandes olhos a brilharam como os do leão, inteligentes, sem lágrimas.

– Que lhe fazemos? Levamo-lo? – perguntou o Fernandes com a criança à ilharga. –

Estava escondido perto da mãe morta.

O Lopes saiu do seu lugar e sem pedir licença pegou nele, escanchou-o em cima do pescoço e carregou-o para a viagem de regresso a M.

Passou a tratá-lo como filho e a companhia considerou-o sua mascote. Vestiram-no, fardaram-no de camuflado, deram-lhe um nome: Alfredo, ensinaram-no a fazer continência militar, averbaram-lhe um posto: alferes dos comandos. O capitão vai a Nampula, segue-se uma orgia numa casa de meninas, é uma descrição hilariante. O capitão regressa com boas notícias, volta às suas funções de “empresário de circo”. Sempre que necessário, Vale Ferraz usa a técnica do flashback tanto para o primeiro-sargento, como para o Casal Ventoso ou o Lencastre, é graças a este antiquíssimo expediente literário que vamos identificando as categorias sociais, as aspirações estatutárias, o que os comandos estão a fazer por autênticos náufragos de múltiplas emigrações e infortúnios.

E estamos chegados à Operação Nó Cego, o supra-sumo da vaidade do comandante-chefe que sonha juntar Moçambique às potências racistas da África austral. O importante agora é percorrer de lés a lés o planalto dos Macondes, devassar as suas bases, mostrá-las na televisão e gritar ao mundo que a Frelimo entrou no estertor. É um momento fulcral da obra, a partir de Mueda junta-se a companhia de comandos acabada de voltar de um mês de descanso, pára-quedistas, fuzileiros, milícias transformados em grupos especiais, soldados de cavalaria dos esquadrões de reconhecimento e a tropa macaca constituída por todos os indiferenciados. O capitão e o seu “circo” vão ser recebidos à metralha em bases temporariamente abandonadas, é uma espiral de horror, a brutalidade a espirrar para todos os lados. A fama daquela companhia não era muito boa, falava-se mesmo na sua dissolução. A todo o custo, o capitão quer chegar à base Gungunhana, há depois a base Alfa. Haverá corpos dilacerados, pessoas aparentemente serenas e equilibradas vão transformar-se em pequenos monstros, um medroso será equiparado a herói para efeitos da folha de serviços de um tenente-coronel, não vão faltar violações brutais onde até um antigo seminarista revela a sua bestialidade, todos os ingredientes desse mesmo circo vão aflorar na trepidação da Nó Cego: o medo puro, mais do que visceral, o soldado a rebolar com os intestinos à mostra misturados com terra, o recurso à “erva” numa tentativa de ver surgir um bom sonho, a captura do comissário Alberto Chinavane que indica o caminho da base e os avisa para a reacção que os espera. A base Alfa é o acampamento de que todos os combatentes guardam recordação: parecia-lhes irreal, um cenário de papelão, uma vala de mais de um metro servia de trincheira e de vedação, como se descreve:

“O capitão foi sentar-se na barraca que deveria ter sido do comandante e manteve-se a olhar os seus soldados, parecia muito mais velho e enrugado, mando que lhe trouxessem os papéis e os livros encontrados, passou os olhos por eles, demorou-os nas citações do livro vermelho do Mao. Depois, observou à sua volta, a base estava tacticamente bem instalada, no interior do vale, com bons itinerários de retirada, elevações para a vigilância e protecção, cercada de pequenos aldeamentos funcionando como campainhas de alarme; e passaram um curso inteiro na Academia Militar a estudar que se deviam procurar os pontos altos e isolados, as posições defensivas! Naquela guerra tudo era diferente… como haveria algum dia os generais e os Estados-Maiores perceber alguma coisa dela?”.

A base será tomada, o general exibirá a sua vaidade mostrando-a às televisões, na véspera à noite os guerrilheiros da Frelimo devastaram-na provocando mais baixas na companhia. Toda aquela noite será horrível, com revelações de homens famintos de ternura e outros que procurarão matar quem odeiam e praticar o suicídio.

“Nó Cego” é a grande metáfora da guerra colonial. Ou existe uma confissão escondida de tanto deslumbramento bestial e teremos então acesso a uma outra obra-prima ou este capitão de Moçambique, recorrendo modestamente à ilusão, deu-nos o retrato acabado do desfalecimento para onde nos levou a guerra colonial.

Na revista Colóquio/Letras, em Novembro de 1983, o escritor João de Melo terminava a sua recensão de “Nó Cego” da seguinte maneira: ”Nó Cego” é, de facto, um livro profundamente assumido. Um dos grandes romances de 1983, sem dúvida, mas à espera de ser redescoberto em toda a sua dimensão”. Hoje já se sabe que não precisa de ser descoberto, ganhou todas as credenciais do que é insuperável em literatura. Como antigos combatentes, podemos estar orgulhosos deste tesouro que Vale Ferraz legou à posteridade. Todos nós, os que combatemos no mato, estamos lá, na servidão e na grandeza, como deve ser.
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Notas de CV:

Carlos Vale Ferraz é o pseudónimo literário de Carlos Matos Gomes, hoje Coronel Cav COMANDO na situação reserva

Vd. poste de 5 de Fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7724: Notas de leitura (199): Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz (1) (Mário Beja Santos)

4 comentários:

an disse...

Com todo o respeito pelo Carlos Matos Gomes, o que é isso de "uma obra prima absoluta"?
Obra prima é obra prima. Ou será que existem obras primas relativas e obras primas absolutas? Será que existem obras primas magnificentes,incontestáveis, e obras primas despudoradas e contestáveis?

Que o irã da Caboiana, (Teixeira Pinto, Cacheu, Jolmete) tenha piedade da minha limitada inteligência!...

António Graça de Abreu

Anónimo disse...

O articulista agora sabuja-se ao Vale Ferraz?


Este livro é sobejamente conhecido e aqui e ali, discutível, naturalmente... mas não ia agora precisar de adjectivação de suporte.

SNogueira

Anónimo disse...

De facto, o livro é bem mais conhecido do que muitos outros.

Abreu dos Santos (senior) disse...

... em determinado momento da leitura desta "recensão" requentadíssima (a 1ªed, já toda a gente leu em 78...!) – sobre matéria que, uma vez mais, nada tem a ver com o (antigo) teatro-de-operações da Guiné –, fiquei em dúvida se estaria perante uma "análise literária", produzida por um ex-militar que chegou a instrutor de cadetes na máfrica, ou um "panfleto marxista-machelista" escrevinhado por um soixante-huitard com insónias:
– «Operação Nó Cego [sic], o supra-sumo da vaidade do comandante-chefe [CCFAM general Kaulza Oliveira de Arriaga] que sonha juntar Moçambique às potências racistas da África austral. [...] O general exibirá a sua vaidade mostrando-a às televisões. [...] “Nó Cego” é a grande metáfora da guerra colonial.»...
Recensão? Isto?! Ora, um ferrenho frelimista não teria escrito melhor...
– «Podemos estar orgulhosos deste tesouro que Vale Ferraz legou à posteridade.»?!
Falta pouco, para que um dia possamos ver o prolífico analista, louvar-se no "tesouro" que o camarada Carlos Manuel Serpa de Matos Gomes "legou" no, e desde o, prec...
Se dúvidas haja, está lá tudo na preambular manipulação deste "post": «Como muitos de nós andam a reivindicar dignidade no tratamento dos ex-combatentes, não me parece estapafúrdio que se devia pôr um exemplar do “Nó Cego” em todos os estabelecimentos do ensino obrigatório.»
Mais palavras, para quê? É um defensor do consumidor!