terça-feira, 10 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14343: Notas de leitura (690): "Neste mar é sempre inverno", romance de Tibério Paradela (edição de autor, 2014) (Parte I): a epopeia da pesca do bacalhau à linha, em plena guerra colonial (Luís Graça)


Capa do livro de Tibério Paradela, "Neste mar é sempre inverno" > Ficha técnica: ed. autor, agosto de 2014 (Execução gráfica: Oficina Digital -. Impressão e Artes Gráficas Lda, Aveiro). Depósito legal: 379001/14. Tiragem: 500 ex. 262 pp. Capa de José A. Paradela. O livro pode ser pedido através do mail: paradela.tiberio@gmail.com



1. Comecemos pelo autor, Tibério Paradela [à esquerda, foto de perfil da sua página no Facebook. com a devida vénia]

Tibério Paradela: é o seu primeiro livro. E é um romance (ou obra de ficção) que tem como horizonte temporal a campanha de bacalhau na Terra Nova e na Groenlândia, entre abril de 1965 e abril de 1966.

A capa é do irmão, José António Paradela, arquiteto. meu amigo e vizinho (*) [, Ábio de Lapara, no Facebook]. Tibério Paradela, capitão da marinha mercante, é ilhavense, concluiu o curso de pilotagem da Escola Náutica, em Lisboa, em 1960. Embarcou como  praticante de piloto em 1961, no arrastão  "Santa Mafalda" e, no ano seguinte, como imediato no navio bacalhoeiro à linha "Novos Mares" [, o último bacalhoeiro em madeira, construído na Gafanha da Nazaré, fez parte da Frota Branca até 1986, data em que foi abatido à frota  por ordem do Secratário de Estado das Pescas; em 1991 foi oferecido para se transformar em museu, o que nunca se concretizou; por incúria, deleixo ou crime, acabou por se afundar no porto de Aveiro].

Entre 1962 e 1964,  entre os 21 e os 24 anos,  Tibério Paradela andou na pesca do bacalhau, tendo passado depois para a marinha mercante. Fez as rotas comerciais do Índico (Moçambique e África do Sul), do Atlântico (países da África Ocidental, norte da Europa, Açores, Madeira e Canárias) e Mediterrâneo. Foi ainda piloto de barra no porto da Beira, Moçambique, entre outras atividades profissionais. Vive na Costa Nova, concelho de Ílhavo, tal como o nosso camarada Jorge Picado (de quem, de resto, os irmãos Paradela são amigos).(**)


2. Romance > Contexto:

Se o livro tivesse sido escrito (e publicado) ainda no tempo do Estado Novo, teria pela certa um título mais prosaico e pitoresco: "Cenas da vida da pesca do bacalhau". Mas não, não de trata de um livro de memórias, muito menos de registo etnográfico das campanhas do bacalhau e da vida a bordo nos últimos barcos da pesca à linha da nossa "frota branca". Não é sequer um simples diário de bordo duma viagem, de seis meses, aos bancos de pesca da Terra Nova e da Groenlândia. O que não quer dizer que o livro não tenha uma grande riqueza de informação etnográfica, recomendando-se a sua leitura também por essa razão adicional.

"Neste mar é sempre inverno" é um título de homenagem aos homens do mar. Na pág. 105,  percebe-se melhor a escolha do título. O autor atribui ao filósofo grego Platão a afirmação segundo a qual haveria 3 espécies de homens: "os vivos, os mortos e os  homens que andam no mar"...

Mas por que é que os homens do mar teimam em sê-lo pela vida fora, de modo contínuo ? Para Tibério Paradela, há uma razão, "talvez a única", para explicar por que é que o homem do mar o é para toda a vida: seria o "esquecimento". E esclarece o autor:

"Não o varrimento da memória, mas o alijamento das agruras e anmraguras para o sótão das lembranças indesejadas numa sucessão infalível, porque no mar é sempre inverno" (p. 105).

Poderia tresler-se: "neste mar é sempre inferno"... Neste mar, e na frota branca do bacalhau!

É esta epopeia, já esquecida pelos portugueses nascido no pós-25 de abril, que prende o leitor ao longo das mais de 260 páginas do romance. Li e reli o livro e tirei inúmeras notas de leitura, algumas das quais vou aqui partilhar, com todo o gosto,  com os leitores do nosso blogue. (***)

Confesso que o meu convívio e amizade com o arquiteto José António Paradela e outros ilhavenses me têm levado a desenvolver um crescente interesse e viva curiosidade  pela história e pela socioantropologia da pesca do bacalhau, sem de modo algum me poder arrogar o título de especialista. É um tópico (a pesca do bacalhau à linha, com botes, com os célebres dóris) que me apaixona. Já aqui, no nosso blogue, fizemos de resto referência a dois livros do capitão Aveiro (****), outro ilhavense que deve ter inspirado o nosso romancista: a figura do capitão Valério tem alguns traços autobiográficos mas também terá algumas semelhanças com o mítico capitão Aveiro, um lobo do mar, ilhavense, pois claro...

Por outro lado, tenho ainda bem presentes as imagens dos anos 60, da benção dos bacalhoeiros, ancorados frente ao Mosteiro dos Jerónimos. De as ver ao vivo. Era, de resto, uma das imagens recorrentes da Radiodifusão Portuguesa, ainda a preto e branco. Era uma das imagens de marca do regime de Salazar. Portugal era então o único país que ainda mantinha a longa tradição da pesca do bacalhau à linha.

Ora o romance de Tibério Paradela começa justamente em abril de 1965, com a benção e a partida dos bacalhoeiros, "todos eles brancos, talvez por serem negros alguns dos seus destinos" (p. 5). Na praça frente aos Jerónimos, amontavan-se os tripulantes da frota (pescadores e marinheiros) e as respetivas mulheres. É poderosa a imagem desses "cepos axadrezados" que íam partir para um viagem de seis meses., deixando em terra as suas mulheres, nalguns casos já grávidas:

"Mulheres soluçantes apoiavam-se nos ombros daqueles que eram os seus homens, cepos axadrezados, inseguros nas botas de borracha pretas de cano alto, dobradas abaixo dos joelhos, homens desengonçados  de postura inacabada, em dança algo frequente herdada do mar (...)". (p. 6).

O que tinha de especial aquele dia em que o povo humilde do mar, gente recrutada ao longo da costa,de e norte a sul (de Viana do Castelo a Olhão, passando por Ílhavo, Aveiro, Figueira da Foz, Nazaré, Peniche, Setúbal). se misturava com os "grandes" da Nação (bispos, cónegos, ministros, armadores,  militares de alta patenta...) ?

A resposta, épica,  vem nas páginas 7/8:

"Naquele dia eles eram os Grandes, os Ínclitos, a Raça. Neles se projectava toda uma história marítima riquíssima nos dons que imortalizam os heróis - a abnegação e  a coragem! Era a eles - sem excepção de classe - dos capitães aos moços de convés -  que se atribuia a capacidade restante de continuarmos a nossa saga de marinheiros galgandos mares, desafiando o ignoto, descobrindo riquezas"... 

A cerimónia  terminava com o bispo, de hissope em punho, benzando barcos e homens e arrematando:

"Eu vos abençoo e aos vossos barcos também! Ide com Deus!...

E lá parte o barco, o "Nova Esperança", para a sua viagem de 2 mil milhas até aos bancos de pesca do bacalhau, a atingir em 10 dias (à velocidade de 200 milhas por dia),  com a sua tripulação de oitenta homens:

"Os pescadores, os moços do convés,  os maquinistas, o imediato e o capitão" (p. 18), com "os paióis carregados de víveres para seis meses, câmaras friogoríficas atulhadas de blocos de lula congelada, para isco, milhares de linhas de pesca e anzóis, muitos cestos de vime, um para cada pescador (...); selhas enormes para lavagem do peixe, baldes  de madeira individuais, para o isco,  garfos de dois dentes finamente acerados com cabo quase do tamanho dum homem para a remoção do bacalhau, muitas pás para a remoção do sal no porão; facas para fins distintos, pedras de afiar; cordas (...), enfim, um sem número de aprestos e parlamentas. Nos tanques duplos-fundos cinquenta toneladas de água potável e outras tantas de gasóleo. E no porão,que é a barriga dos navios, oitocentas toneladas de sal carregadas em terras saleiras" (p. 13).

3. Legislação de 1927: dispensa do serviço militar aos mancebos com seis campanhas ou temporadas na pesca do bacalhau, desde que matriculados em navios nacionais 


O romance tem como persomagem principal o "Nova Esperança" e gira à volta de 4 ou cinco figuras da tripulação: o capitão Valério, comandante do navio,o seu velho imediato (que foi o único sobrevivente do naufrágio do "São Cristóvão", em finais dos  anos 20), o Tio Quico (velho pescador que tem um filho a fazer a guerra em Angola), o Atílio (um homem revoltado contra a sua dura condição proletária) e o "Serranito" (moço de convés, beirão, que se alistou para fugir à guerra de África),,,

Recorde-se que a pesca do bacalhau na Terra Nova e na Groenlândia era, então, uma alternativa à guerra colonial: eu ainda  não vi isso escrito preto no branco, no Diário do Governo, mas devia haver um acordo de cavalheiros entre o governo, as autoridades militares e o grémio dos armadores dos navios da pesca do bacalhau e, proventura, os sindicatos (corporativos) dos pescadores, no que diz respeito à isenção do serviço militar dos mancebos, ao tempo da guerra colonial (1961/74)... No romance, o "Serranito", a conselho do abade da aldeia, e da sua madrinha,  professora, está convencido de que se fizer 7 (sete) campanhas da pesca do bacalhau está safo da tropa e da guerra...

Ao que parece, já havia legislação nesse sentido, remetendo aos tempos da Ditadura Militar (vd. Diário do Governo, 1.ª série, Decreto n.º 13441, de 8 de Abril de 1927), como forma de responder às dificuldades de recrutamento de pessoal e às duras condições de trabalho, segundo o historiador Álvaro Garrido (em artigo sobre a revolta dos bacalhoeiros de 1937):

(...) "Entretanto, mantinha-se o incentivo ao recrutamento previsto na legislação de Abril de 1927: os pescadores que tivessem cumprido um mínimo de seis campanhas de pesca consecutivas eram
dispensados do serviço militar, sendo transferidos para a 'reserva naval' " (...) (Fonte: GARRIDO, Álvaro - Os bacalhoeiros em revolta: a «greve» de 1937. Análise Social, vol. XXXVII (165), 2003, 1191-1211, disponível aaqui em formato pdf).

Sobre a pesca do bacalhau vd. entrada da Wikipédia > Pesca do bacalhau pelos portugueses... Recorde-se que durante a II Guerra Mundial foram afundados,  por submarinos alemães, dois lugres da frota do bacalhau  o Delães e o Maria da Glória, o que custou a vida a 36 pescadores (do segundo). No total, a marinha alemã afundou 11 navios de bandeira portuguesa durante a II Guerra Mundial, facto que é desconhecido pelos portugueses mais jovens.










(Continua)

_____________

Notas do editor

(*) Vd. poste de 30 de outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10596: Memória dos lugares (194): Ilhavo, Costa Nova... a terra do meu amigo e irmão mais velho e, porque não ?, meu camarada, o arquitecto Zé António Paradela, que hoje celebra 3/4 de século de existência, antigo marinheiro da pesca do bacalhau, último representante de um povo que tem o mar no ADN!... (Luís Graça)

(**)  Vd. poste de 28 de setembro de  2008 > Guiné 63/74 - P3248: Eu, capitão miliciano, me confesso (1): Engenheiro agrónomo, ilhavense, 32 anos, casado, pai de 4 filhos... (Jorge Picado)

(***) Último poste da série > 9 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14337: Notas de leitura (688): A minha querida Aldeia do Cuor! (Mário Beja Santos)

(****) Vd postes de:

24 de novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2300: Memórias de outra tropa, de outra guerra, a da pesca do bacalhau: escovar a história a contra pêlo (José A. Boia Paradela)

17 de outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7137: Agenda Cultural (86): DocLisboa2010, 14-24 de Outubro de 2010: a pesca do bacalhau na Terra Nova como alternativa à guerra colonial (Luís Graça)

7 comentários:

Luís Graça disse...

Acho que o Tibério Paradela é credor, antes de mais, do nosso agradecimento pela partilha das suas memórias de uma vida no mar, e dos verdes anos (de 21 a 24) em que andou na pesca do bacalhau...

Os portugueses não são homens de escrita, são homens de acção. Mas é pena que com tanto séculos de pesca do bacalhau, à linha, com os frágeis dóris, haja uma escassa literatura memorialística!...

Tibério Paradela é um homem de Ílhavo, terra que deu durante séculos muitos dos capitães e outrps homens do mar da nossa marinha (quer de guerra., quer mercante, que r de pesca)... Ele honra a sua terra e as bravas gentes...

O seu livro, embora sendo um romance, é tributário destas memórias do mar que estão nosso ADN...

Antº Rosinha disse...

Havia um homem de mão de Salazar que tomava conta do grémio do bacalhau e de todas as pescas em geral.

Era o Comandante Henrique Tenreiro que se dizia que seria um homem poderosíssimo do regime.

Também se dizia (quem era do contra) que devia ter uma enorme fortuna, tal os poderes que detinha sobre a pesca, pescadores e armadores.

No 25 de Abril falou-se com uma certa ansiedade onde estaria a fortuna dele.

Mas que tempos danados! E que gente que nós fomos!

Luís Graça disse...

Rosinha, podes saber mais sobre o Henrique Tenreiro, neste artigo, do Álvaro Garrido, publicado em 2001, na revista "Análise Social":


Álvaro Garrido*

Análise Social, vol. XXXVI (160), 2001, 839-862

Henrique Tenreiro — «patrão das pescas»
e guardião do Estado Novo**

INTRODUÇÃO
Por finais de 1982, Henrique Tenreiro vivia o exílio brasileiro num
discreto apartamento situado à Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio
de Janeiro. As cartas quase indecifráveis que dirige à família mais chegada são um desfile de lamentos; exprimem amargura e ignomínia1. No crepúsculo
da vida sobrava-lhe a vontade de reabilitar a dignidade que julgava ter perdido e de evocar repetidamente o poder que acumulara ao longo de um
percurso político tão exuberante quanto insólito.

Reunindo informação que o próprio e os seus advogados haviam decidido
compilar ao correr do processo judicial que lhe fora movido pela Repartição de Justiça da Marinha em Maio de 1974, acaba então de redigir um volume de memórias. Por meio delas evoca sem contenção elegíaca algumas das realizações mais emblemáticas do Estado Novo de que fora protagonista: o «ressurgimento das pescarias» e o «regresso de Portugal ao mar». Esse
volume de notas soltas, a que podemos chamar memórias inéditas, é, como
seria de esperar, o registo apologético de uma obra feita no singular.(...)

________

* Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; membro do CEIS 20.

** O presente artigo constitui um pequeno ensaio biográfico que integra um projecto de maior fôlego que visa redigir uma biografia de Henrique Tenreiro a publicar pelo Círculo de
Leitores. Embora a pesquisa documental ainda esteja em curso, o texto que aqui se apresenta
recupera e desenvolve parte do conteúdo do artigo introdutório que publicámos na revista História, 3.ª série, n.º 26, Junho de 2000, pp. 16-25. Boa parte da documentação inédita a que tivemos acesso, pertença do espólio pessoal de H. Tenreiro, foi-nos gentilmente cedida pelo Dr. Henrique Marçal, sobrinho-neto do biografado, a quem devemos um especial agradecimento.
1 H. Tenreiro, Cartas de Família (1974-1994).


http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1218729406D7rDD2xe0Dy51UR4.pdf

Luís Graça disse...

Excerto final do citado artigo de Álvaro Garrido, reproduzido com a devida vénia... É umn incentivo para ler o artigo na íntegra... LG

http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1218729406D7rDD2xe0Dy51UR4.pdf

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EPÍLOGO

Em Dezembro de 1973, H. Tenreiro atinge a reforma e abandona a marinha.
Tido pelos militares de Abril de 1974 como um dos mais indesejáveis
símbolos do regime deposto, é preso, primeiro, no quartel dos fuzileiros
navais, no Alfeite, depois, na Trafaria e, por fim, em Caxias. Durante cerca
de um ano e meio em que permaneceu em cativeiro foi alvo de um extenso
inquérito instaurado por oficiais da marinha, a cuja comissão presidiu o almirante António Garcia Braga e alguns meses depois o juiz Ricardo da Velha.

Em corpo de delito foi indiciado um extenso rol de factos que apenas no plano político seriam susceptíveis de integrarem ilícitos criminais. Submetido durante um ano a sucessivos interrogatórios, envolvendo mais de duas centenas de testemunhas, o processo acabará por ser inconclusivo quanto às responsabilidades
de Tenreiro em matéria de corrupção activa. Em 1982 o processo ainda
permanecia em instrução. Jamais haveria lugar a julgamento.

Tenreiro fora acusado pelo Estado-Maior da Armada de factos criminosos
que eram «objecto de rumor público»: tráfico de influências, peculato e
associação criminosa. A partir de 1 de Janeiro de 1976, data em que fora
demitido da marinha, seria também acusado de desertor47. Desde esse momento até finais de Junho de 1979 não lhe é paga qualquer reforma. É então que sobrevive com maiores dificuldades. A amargura e o desânimo tomam conta de si. Não teme a pena dos tribunais, mas deseja a absolvição dos homens. Crê que a única forma de alcançar uma dignidade condizente com os poderes que detivera é a reintegração na marinha, no posto em que a deixara quando se reformou — contra-almirante. Trava esse último combate com a energia de sempre, mas sem meios para o vencer. Alguns mimos de gente importante da colónia portuguesa do Brasil não chegam para lhe aquietar a alma. O espectro da doença e a amargura de nada sobrar do poder que tivera fazem dele um homem a quem a vida pesa. Temendo que a sua obra seja irremediavelmente injuriada ou rasurada pela memória dos homens,
Tenreiro procura que a história não lhe seja ingrata e procura ele
próprio escrevê-la. Representa o seu percurso individual numa narrativa
desajeitada, apontamentos de memória pontuados de emoção e dissabor.
_______________

47 Entrevistas com o Dr. Luís Rodrigues, advogado de defesa de H. Tenreiro, e com o Dr. Ricardo A. da Velha, juiz instrutor do processo.

(Cont)

Luís Graça disse...

(Continuação)


A 12 de Setembro de 1975, fisicamente debilitado, saíra em liberdade por ordem do Conselho da Revolução. Num momento em que a contra- -revolução de direita agrupada em torno do movimento spinolista do MDLP já dava sinais de fragmentação e o estado de saúde de H. Tenreiro tornava incómoda a sua permanência na prisão, a libertação fora inevitável. Na madrugada seguinte parte rumo a Madrid, onde permanece em tratamento
clínico durante uma semana, e dali segue para o Brasil, onde se fixa como asilado político.

Viria a falecer na Casa de Portugal do Rio de Janeiro a 22 de Março de
1994, depois de frustradas tentativas para a sua reintegração nas forças
armadas. A seu pedido seria sepultado em Portugal. A cerimónia fúnebre
decorreu sem qualquer representação oficial da marinha ou do governo.
Sinal da ingratidão que sentira com a recusa das autoridades portuguesas em
reintegrá-lo na marinha — condição que sempre pusera para regressar a
Portugal —, o corpo de H. Tenreiro foi vestido com a farda da marinha
brasileira e a urna envolvida com as bandeiras de Portugal e do Brasil.
Acompanhado o percurso de H. Tenreiro nas suas etapas e episódios mais
relevantes, resta-nos um breve balanço.

Retomando a proposta de Weber que deixámos em suspenso, poder-se-
-á concluir que a legitimidade do poder de H. Tenreiro se caracteriza por um carisma institucionalizado que repousa num conjunto de expedientes e
canais de submissão política tanto do aparelho burocrático das pescas e da
sua extensa legião de funcionários como das empresas e instituições corporativas, tanto do capital como do trabalho.

Em síntese, a invulgaridade do domínio carismático de Tenreiro repousa na conjugação de factores diversos: as suas insólitas qualidades pessoais de
homem de acção; o apoio de Oliveira Salazar, que em parte advinha do
reconhecimento da eficácia de uma obra de «ressurgimento marítimo» que
se tornara emblemática do Estado corporativo. Por último, os poderes de H. Tenreiro resultam de um contexto político particularmente favorável à acção dos homens da direita radical que, em tempos de vincada crispação anticomunista,
assumiram funções relevantes no aparelho de Estado, na oligarquia
corporativa ou nas organizações milicianas de retoque fascista.
Oriundo da marinha, Tenreiro fizera a tarimba política na organização corporativa.

Nos tempos de descrença do pós-guerra acabou por ser um dos que
mais contribuíram para projectar e legitimar as pretensas virtudes do sistema
corporativo. Actuou sempre na linha de um estreme corporativismo de Estado — obsessão doutrinária que, de resto, nunca o preocupou —, antiliberal, paternalista e preventivo da repressão. Foi seguramente um dos homens que
tornaram a organização corporativa mais comprometida com o poder político.
De 1936 a 1974, H. Tenreiro actuou como uma espécie de condottieri
para quem todo o poder foi sempre pouco. À medida que consolidou poderes cuja mobilização o regime não dispensou, fez das pescas um património pessoal para seu engrandecimento político. Com o decorrer dos anos, a
racionalidade política cedeu o passo à ambição e a uma volúpia de poderes
de escrutínio personalista e de fundamentos emotivos.

http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1218729406D7rDD2xe0Dy51UR4.pdf

Antº Rosinha disse...

«ressurgimento das pescarias» e o «regresso de Portugal ao mar».

Luís Graça, obrigado, fui lá ver, porque não perco uma, pois andei anos e anos sem querer saber destas «porras», e agora é uma espécie de hoby, aqueles 48 anos, que nos tiraram daqueles 16 de República e nos trouxeram a estes 40 actuais.

(Sou de opinião que a República foi interrompida)

Este Tenreiro faz parte daqueles eleitos que fizeram o bom e o mau do Estado Novo.

Foi com este Tenreiro que o Arsenal do Alfeite se modernizou, e foi com opiniões dele que os Melos chegaram à Lisnave e que as CNN e CCN e Sogeral eram aquilo que sabemos e deixamos de precisar de viajar nos barcos ingleses.

Os outros «eleitos» tais como Delgado que nos leva à TAP, Duarte Pacheco com as escolinhas do centenário para aprendermos a contar até 3, mais os caminhos empedrados, (ia-se em terra de Alcântara a Cascais em 1926).

Havia outro eleito, H. Galvão que dinamiza a EXPO 34 do Porto e foi um grande propagandista a par de António Ferro, da política de Salazar.

A maior diferença entre uns e outros é que alguns queimaram as asas por quererem subir tão alto.

Com a selecção destes homens «muito capazes», Salazar faz-me lembrar um dirigente futebolístico pós Abril, que só escolhe treinadores bons, mesmo anónimos e medíocres, acabam todos internacionalmente célebres e grandes campeões.

Obrigado Luís e desculpa qualquer coisinha.



Joel Inácio disse...

O Caso (Alm) HENRIQUE TENREIRO...
Saída de Alm TENREIRO da prisão - diz-se que foi colocado em liberdade ou fugiu da prisão, por encontra-se bastante doente e com 73 anos de idade.Em Tribunal Judicial não foi apurado nenhum crime do foro judicial mas sim politico, os meses iam-se passando e o Alm TENREIRO, ainda preso, cada vez pior de saúde, sem culpa formada As entidades oficiais militares que fazer a um Almirante preso sem culpa formada. Há que coloca-lo em liberdade...mas como Almirante! É preparada uma "fuga" convencendo o velho Almirante a ir até Madrid, afim de encontrar o General António Spínola, desejo manifestado pelo próprio general. Assim, acontece a motivação da ida para Espanha. Espanha como não encontra o General Spínola em local combinado, prevê que foi alvo de cilada, assim parte para o Brasil. Em Portugal começa a circular a fuga do Alm TERREIRO, na imprensa, a Armada levanta processo disciplinar que resulta na destituição da patente de Almirante a Tenreiro por fuga! Situação resolvida para a Armada à época.