sábado, 17 de outubro de 2015

Guiné 63/74 - P15260: Por Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-mar em África, etc.: legislação régia (1603-1910) (2): "Que todos os que teuerem escrauos de Guinee os baptizem"... (Ordenações manuelinas, decreto de 1/1/1521)... Em busca do rei (cristão ?) de Guandem e Sará (Carta régia de 17/6/1603).




Portugal > Assembleia da República > Legislação régia > Ordenações manuelinas > Decreto de 1 de janeiro de 1521 >  Que todos os que teuerem escrauos de Guinee os baptizem
Sem Entidade, Livro Livro V.

Nesta época, e mais concretamente em meados do séc. XVI,  um em cada dez lisboetas era escravo (c. 10 mil em 100 mil habitantes). E temos uma ideia relativamente rigorosa das humildes ocupações ou profissões: lavadeiras, aguadeiras, vendedoras, varredores de ruas,  moços de fretes... Em termos demográficos, representavam uma compensação muito importante pela perda de homens que partiam para "a aventura dos Descobrimentos"... No Algarve, com graves problemas crónicos de despovoamento, os escravos trabalhavavam na agricultura... Estima em 2400 o número de portugueses que partiam, por ano, definitivamente para o ultramar, durante o séc. XVI... Foi uma sangria demográfica brutal...

Grande parte destes escravos eram oriundos da Guiné  (vasta região da costa ocidental de África  descoberta e explorada  pelos portugueses, a partir da dobragem do cabo Bojador, em 1434, conseguida por Gil Eanas: grosso modo, a Guiné começava no rio Senegal, que separava os "negros" dos berberes "mouros" do deserto do Sará, e ía até ao atual golfo da Guiné,  designando portanto um território muito mais vasto do que a atual Guiné-Bissau, que,como é sabido, é do tamanho do nosso Alentejo...

O tráfico luso-africano de escravos nasce ou intensifica-se, segundo os  historiadores, com a criação, em 1448, da feitoria de Arguim, na costa da atual Mauritânia. E diz-se luso-africano porque os traficantes não eram apenas os portugueses mas também os africanos.... Na costa senegalesa, os portugueses trocavm cavalos por escravos. O cavalo dava aos traficantes uma superioridade militar imprescindível para o sucesso das expedições de captura de escravos no interior do continente... Mais do que o ouro, o comércio de escravos tornou-se, para os portugueses que partiam "para dilatar a fé e o império", a principal fonte de lucro... De qualquer a história da escravatura não é linear, nem poderá ser vista à luz dos nossos valores de hoje... Em países muçulmamos como a Mauritãnia a escravatura só foi abolida oficialmemte... em 1980. No caso de África, as suas consequências foram trágicas, e ainda hoje é não é pacífica a estatística da escravatura... Cristãos e muçulmanos foram os grandes predadores dos povos africanos, essa é uma verdade histórica indesmentível. Mas também é verdade é que sem os escravos negros de África não teria sido possível a colonização do Novo Mundo, as Américas (15 milhões ? 5 para a América do Sul, 5 para a América do Norte, 5 para a América Central/ Caraíbas)... LG





Portugal > Assembleia da República > Legislação régia >  Carta Régia, 17 de junho de 1603
Carta Regia com esclarecimentos ácerca do Rei e Reino de Guandem, Guiné | D. Filipe II (1598-1621), Livro 1603-1612.

Onde ficaria, na Guiné,  esse reino de Guandem e Sará cujo rei, Dom António Gundão, seria cristão  ? Não encontro qualquer referência nos meus livros de história nem na Net... [LG]

4 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

O estudo e respectiva divulgação deste género de documentos dá uma ideia muito concreta da maneira como foram vistas as colónias, neste caso a Guiné, ao longo dos séculos, após a descoberta. Começou-se assim, à luz da maneira de ser e de pensar daqueles tempos. Depois, a evolução da sociedade portuguesa ditou a "evolução" e o relacionamento entre os dois povos: colonizador e colonizado. Porém, a lógica do pensamento nunca deveria ter-se sobreposto aos interesses quantas vezes mesquinhos e provincianos dos colonizadores.
De qualquer, modo a conversão em massa e à força, mesmo com o intuito de lhes "salvar as almas", se aceitável no Séc. XVII, alem de não dar resultados práticos deverá ter acicatado ódios ou, no mínimo, não terá tido significado, com os catecúmenos a serem baptizados como quem lava a cabeça e nada mais num acto que, para eles, não tinha qualquer significado.
A leitura destes documentos deita por terra a tese da "dilatação da fé e (como não podia deixar de ser) do Império" e da dádiva de "novos mundos ao mundo".
Enfim, um bocadinho de modéstia e de apreciação lógica da história não nos teria ficado mal quando chegámos à segunda metade do Séc. XX.
Um Ab.
António J. P. Costa

Antº Rosinha disse...

Continua-se a dilatar a fé em África, é a IURD, é o Boko Haram, e já não estamos na idade média.

Devia ser proibido, mas quem vai proibir se as pessoas teimam em salvar a alma e o físico?

Mas por cá o que há para aí de rituais importados de Bissau e Brasil?

Ele são galinhas pretas, velas acesas pelas encruzilhadas, e garrafas de aguardente de benzeduras.

Mas não há dúvidas que se abusou da boa vontade dos africanos durante muitos séculos.

Em Angola havia em 1960 e mais tarde ainda, populações no Sul, que nunca tinham tido qualquer contacto nem com missionários nem católicos nem anglicanos e muito menos com mussulmanos.

Mas tinham as suas crendices a que os brancos chamamos ainda hoje, feitiçarias.

Os arabes e europeus não têm feitiçarias, temos religiões.

Cumprimentos

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Encontrei esta citação de um pensador actual e de quem muita gente gosta...
"Quem tem medo de encarar o seu próprio passado e o descreve com mentiras, dificilmente será capaz de construir o futuro, porque para ele as transfere".
Vaclav Havel
Ler mais: http://www.a-bigorna.pt/
Daria para pensarmos tanto no que sucedeu no caso português, como no que provavelmente virá a suceder.
Através de um estudo atento, é necessário saber o que se passou com certeza, com verdade e de um modo claro.
Depois é uma questão de coragem e honestidade para na aplicação dos ensinamentos para que os erros não se repitam.
Mas isso... já é mais complicado.
Um Ab.
António J. P. Costa

Luís Graça disse...

Na carta régia de 17/6/1603, em se faz referência ao pedido do tal rei guinéu de Guandem e Sará, que terá chegado à corte portuguesa por mão de um português, o licenciado Miguel Simões, o lacaio filipino que subscreve a carta, em nome do vice-rei, recomenda que se saiba primeiro quem é o mensageiro, "se é limpo de geração" e que "letras tem"... Trocando por miúdos: vamos lá a saber se não é um intrujão (, se é mesmoum licenciado) e, mais grave ainda, se não é nenhum cristão-novo, de sangue judeu...

Nesta época, já desde 1536 (data da sua criação) e até revolução liberal de 1820 (que o extinguiu, em 1821), os portugueses foram vítimas da grande máquina de terror que foi o "Tribunal do Santo Ofício"... Durante 300 anos os portugueses foram divididos em dois grandes grupos: "cristãos-velhos" e "cristãos-novos"... Muita da nossa elite técnico-científica (banqueiros, médicos, matemáticos, diplomatas, empresários, comerciantes, mas também gente comum ligada às profissões artesanais...) foi perseguida pela Inquisição, ou teve que fugir (para o norte de África, França, Holanda, império otomano...). Apesar da "proteção" (interesseira) de alguns dos nossos reis...

No tempo dos Filipes, as perseguições aos marranos aumentaram... Ser "limpo de sangue" era não ter "gota de sangue judeu" até à 4ª ou 5ª geração (!)... Quem "certificava" essa condição era a Inquisição, e sem esse certificado não se podia entrar na universidade ou desempenhar um cargo público...

E a propósito leia-se esta página sobre um livro recente que vem a propósito, "Na rota dos marranos de Trás-os-Montes" (de Maria Fernanda Guimarães e António Júlio Andrade)...

http://www.vida-e-tempos.com/2014/07/judeus-nas-rotas-dos-marranos-de-tras_14.html

Nós, portugueses, temos que conhecer mais sobre (e sobretudo melhor) o nosso passado, onde há grandes momentos de glória e de orgulho mas também outros ignomínia e vergonha, como aliás na história de qualquer povo...