segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Guiné 63/74 - P15607: Álbum fotográfico de Armando Costa, ex-fur mil mec auto, CCAV 3366 / BCAÇ 3846 (Susana, 1917/73): Parte I: A caminho de CTIG, de 3 a 9/4/1971, no navio "insular" Angra do Heroísmo, fretado nesse ano ao Exército para transporte de tropas


Foto nº 1 > Lisboa, Cais da Rocha Conde de Óbidos, 3/4/1971: um dia chuvoso...


Foto nº 2 > Lisboa, 3/4/1971> T/T Angra do Heroísmo e, ao fundo, na margem direita do Tejo, o Monumento dos Descobrimentos e o Mosteiro dos Jerónimos


Foto nº 3 > Lisboa, estuário do Tejo, 3/4/1971 > Largada do T/T Angra do Heroísmo, vendo-se ao fundo o Bugio onde, dizem, acaba o rio e começa o mar...


Foto nº 4 > T/T Angra do Heroísmo, 3/4/1971 > A caminho da Guiné... A proa do navio


Foto nº 5 > T/T Angra do Heroísmo, 3/4/1971 > Convés: ao centro o Capitão QEO Daniel António Nunes Pestana, cmdt da CCAV 3366


Foto nº 6 >  T/T Angra do Heroísmo, a caminho da Guiné, em viagem de 3 a 9/4/1971...



Foto nº 7 >  T/T Angra do Heroísmo, a caminho da Guiné; 3 a 9/4/1971... Mais aspeto da proa...


Foto nº 8 >  T/T Angra do Heroísmo, a caminho da Guiné; 3 a 9/4/1971... Eu num dos barcos salva-vidas


Foto nº 9 >  T/T Angra do Heroísmo, a caminho da Guiné; 3 a 9/4/1971... Uma cena insólita... Uma Berliet no convés do navio...

Fotos (e legendas): © Armando Costa (2016). Todos os direitos reservados. 

1. Início da publicação de fotos do álbum de um dos nossos mais recentes grã-tabanqueiros, o n.º 707,  o Armando Costa, de seu nome completo Armando Silva Alvoeiro da Costa (ex-fur mil mec auto,  CCAV 3366 / BCAV 3846, Susana, 1971/73) (*).

O Armando, que ainda não tinha paga a sua "jóia", mandou-nos um lote de fotos (49) "das que possuo da Guiné  (Bissau, Cumeré, Susana e Varela), do período de 1971 a 1973". Prometo mandar mais... Diz-nos que "a qualidade é a que se pode arranjar, resulta da digitalização de postais de fotos que tirei, Os negativos perdi-lhes o rasto"...

Ele partiu para a Guiné em 3 de março de 1971, em dia chuvoso, como se depreende, da foto n.º 1 (Lisboa, Cais da Rocha Conde de Óbidos). O mais insólito (ou talvez não...) foi ter ido num navio da carreira Lisboa-Madeira-Açores, o T/T Angra do Heroísmo. O navio devia ir a abarrotar (foto n.º 7), transportando homens e material de guerra (foto n.º 8)...

Além do pessoal do BCAV 3846, deve ter levado também o pessoal da Companhia Independente CCAV 3378 (Olossato, Brá).

O BCAV 3846, além da CCAC 3366 (Susana, Cumeré), era composta pelas CCAV 3364 (Ingoré, Cumeré) e CCAV 3365 (S. Domingos, Cumeré), A unidade mobilizadora foi o RC 3. O Comando e a CCS ficarm em Ingoré. Cmdt do batalhão: ten cor cav António Lobato de Oliveira Guimarães. O pessoal deste batalhão regressou a casa em 8/3/1973, exceto o da CCAV 3365 que embarcou mais tarde (17/3/1973).


O T/T Angra do Heroísmo. Cortesia do blogue  Dicionário de Navios Portugueses, de   Luís Miguel Correia (um especialista neste domínio)


2. Já agora ficamos a conhecer as características do T/T Angra do Heroísmo:

(i) navio de passageiros de 1 hélice;

(ii) construído em Hamburgo, Alemanha, em 1954/55;

 [, "baptizado com o nome de 'Israel', foi oferecido nesse mesmo ano ao estado judaico, como indemnização pelos prejuízos causados à comunidade hebraica entre 1933 e 1945 pelos nazis e integrado na frota da companhia Zim Israel Navigation, com sede em Haifa"; (...) "colocado na linha regular de Nova Iorque, o navio manteve esse serviço durante dez anos";  (...) "em 1959 foi abalroado por um cargueiro norte-americano e reparado no estaleiro naval de Brooklyn"... Vd. o blogue Alernavios]

(iii) registado no porto de  Lisboa, depois de comprado, em segunda mão,  pela Empresa Insulana de Navegação, SARL,  de Lisboa, para fazer a carreira Lisboa - Madeira - Açores;

(iv) ano de abate: 1974;

(v) comprimento ff 152,71m;

(vi) comprimento pp 138,34m;

(vii) boca 19,87m;

(viii) pontal 11,00m;

(ix) calado máximo 8,71m;

(x) capacidade de carga 4 porões com capacidade para 9019m3 de carga, incluindo 536m3 de carga frigorífica;

(xi) tonelagem 10.187 TAB, 6.230 TAL, 6.870 TPB, 13.900 T deslocamento;

(xii) aparelho propulsor um grupo de turbinas a vapor AEG, construídas em Berlim Ocidental, por Allgemeine Electric Gesellschft, 2 caldeiras;

(xiii) potência 11.500 shp a 119 r.p.m.;

(xiv) velocidade máxima 19 nós;

(xv) velocidade normal 18 nós;

(xvi) passageiros: alojamentos para 80 em primeira classe, 43 em turística A, 80 turística B e 120 em turística C, no total de 323 passageiros;

(xvii) tripulantes 139

Esta detalhada e preciosa informação é da Revista do Clube de Oficiais da Marinha Mercante Nov/Dez 96, reproduzida  no sítio Navios Mercantes Portugueses: frota existente em 1958

Durante o ano de 1971, para além da carreira para a Madeira e Açores, o Angra do Heroísmo fez diversas viagens Lisboa - Bissau, fretado ao Ministério do Exército, para transporte de tropas e material de guerra.

Em 14/10/1973 saiu de Lisboa na última viagem à Madeira e Açores, imobilizando no Mar da Palha após regresso ao Tejo em 25.10.1973. Em 4/2/1974 passou a pertencer à CTM - Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos, SARL, na sequência da fusão entre as empresas Insulana e Colonial.

Em 5/4/1974 foi vendido a sucateiros espanhóis e a 14 desse mesmo mês chegava a Castellon, a reboque, procedente de Lisboa, para ser desmantelado. Assim acabou mais um glorioso navio da nossa gloriosa marinha mercante. (Sobre a curiosa história deste navio, ver mais informações aqui).

PS - Temos aqui mais camaradas da CCAV 3366 / BCAV 3846 (Susana, 1971/73), nomeadamente o Luís Fonseca, ex-fur mil trms, e o Delfim Rodrigues, ex-1.º cabo aux enf.

5 comentários:

Luís Graça disse...

O que é que terá levado o exército a recorrer a um navio que fazia a carreira regular entre o continente e as ilhas adjacentes, para o transporte de tropas e material de guerra para a Guiné ? É uma questão interessante... LG

Luís Graça disse...


Ora aqui está uma questão interessante que ainda não foi abordada no blogue... O transporte de tropas e material de guerra para o ultramar, com recurso do fretamenro de navios da marinha mercante... Foi um bom ou mau negócio para as companhias ? Quanto custava ao Estado (ou ao contribuinte) cada uma das nossas viagens à Guiné ?

Estava com a mão na massa e encontrei algumas portarias com a "requisição" (não sei se é a figura jurídica correta...) de alguns conhecidos navios da nossa marinha mercante... LG

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Portaria n.º 663/71 de 3 de Dezembro

Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro da Marinha, declarar que o navio Angra do Heroísmo, da Empresa Insulana de Navegação, é afretado pelo Ministério do Exército, a partir de 22 de Novembro de 1971, para transporte de tropas e material de guerra. Enquanto o navio tiver capitão-de-bandeira só poderá ser utilizado em serviço do Estado, e não comercial. Nestas condições, tem direito ao uso de bandeira e flâmula e goza das imunidades inerentes aos navios públicos. O Ministro da Marinha, Manuel Pereira Crespo.

https://dre.tretas.org/pdfs/1971/12/03/plain-239072.pdf

Portaria n.º 17684

Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro da Marinha, declarar que o navio Niassa, da Companhia Nacional de Navegação, é fretado, a partir do dia 23 de Abril de 1960, pelo Ministério do Exército, para transporte de tropas e material de guerra. Durante o tempo em que o navio tiver capitão-de-bandeira só poderá ser utilizado em serviço do Estado, e não comercial. Nestas condições, tem direito ao uso de bandeira e flâmula e goza das imunidades inerentes aos navios públicos. Ministério da Marinha, 19 de Abril de 1960. - O Ministro da Marinha, Fernando Quintanilha Mendonça Dias.
https://dre.tretas.org/pdfs/1960/04/19/plain-271468.pdf

Portaria n.º 23556

Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro da Marinha, declarar que o navio Ana Mafalda, da Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, é afretado pelo Ministério do Exército, a partir de 26 de Agosto de 1968, para transporte de tropas e material de guerra. Enquanto o navio tiver capitão-de-bandeira, só poderá ser utilizado em serviço do Estado, e não comercial. Nestas condições, tem direito ao uso de flâmula e goza das imunidades inerentes aos navios públicos. Ministério da Marinha, 24 de Agosto de 1968. - O Ministro da Marinha, Fernando Quintanilha Mendonça Dias.

https://dre.tretas.org/pdfs/1968/08/24/plain-250609.pdf

Portaria n.º 21459

Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro da Marinha, declarar que o navio Vera Cruz, da Companhia Colonial de Navegação, é afretado, a partir de 19 de Agosto de 1965, pelo Ministério do Exército, para transporte de tropas e material de guerra. Enquanto o navio tiver capitão-de-bandeira só poderá ser utilizado em serviço do Estado, e não comercial. Nestas condições tem direito ao uso de bandeira e flâmula e goza das imunidades inerentes aos navios públicos. Ministério da Marinha, 10 de Agosto de 1965. - O Ministro da Marinha, Fernando Quintanilha Mendonça Dias.

https://dre.tretas.org/pdfs/1965/08/10/plain-256721.pdf



Antº Rosinha disse...

Todas estas coisas tuas, Luís Graça, é que ajudam a escrever a história de uma maneira séria e com carácter.

História que a poucos interessa, mas não desistas, já que aqui chegaste continua, em memória daqueles que nunca puderam escrever.

Não eram só os navios e os aviões que foram mobilizados, também bancos e industriais foram mobilizados, "corruptos" ou sérios, muitas energias foram canalizadas para a guerra (para uns)ou para a paz(para outros).

Eu venho aqui, amiudado, talvez motivado por motivos opostos aqueles que levam outros a desistir de te visitarem.

Mas as curiosidades estão longe de se esgotar, porque uma guerra daquelas, para um mundo "como este" e um país como o nosso, tem que forçosamente haver muitas novidades para mostrar a nós que lá andámos e àqueles que um dia estudarão aqueles tempos.

A Marinha Mercante e de guerra, navio por navio, é de uma riqueza histórica que estudada, nos podia levar a compreender p que se passa hoje com os "estivadores" e com a TAP e com os submarinos.

Continua sempre!

Anónimo disse...

O n/m Angra do Heroísmo, como transpote de tropas, efectuou a sua primeira viagem à Guiné no dia 21 de Janeiro de 1971. Eu fui um dos felizardos dessa viagem. Fundeou no Geba no dia 26 do mesmo mês. Era um belo navio, mas tinha a particularidade de apenas servir três ilhas nos Açores, sendo que apenas acostava no cais de Ponta Delgada. Por isso mesmo, nas ilhas açorianas nunca fez esquecer o n/m Carvalho Araújo. Este velho navio, transformado em transporte de tropas, teve problemas graves naquela que acabou por ser a sua última vigem.
Em vésperas de Natal de 1970, ao sair de Lisboa, teve uma avaria grave que o imobilizou no estuário do Tejo. No regresso da Guiné sofreu um incêncio. Na chegada a Lisboa foi ancorar no mar da Palha, o cemitério naval do Tejo. Assim morreu o navio que no meu tempo de jovem mais vida deu aos Açores.
A requisição era a forma correcta que os serviços públicos empregavam na compra e aluguer de bens e serviços.
O último parágrafo do Rosinha tem muito que se lhe diga, sobretudo reflectir o nosso futuro como Nação.
Cumprimentos.
José Câmara

Carlos Vinhal disse...

Eu fiz uma viagem no Angra, da Madeira para o Continente, com saída do Funchal no dia 22 de Março de 1970. Tinha o regresso previsto para o dia 2 de Abril, mas por avaria no navio, acabei por regressar alguns dias depois no Funchal. Ambos os navios faziam nesse tempo as ligações regulares entre o Continente, os Açores e a Madeira.
Carlos Vinhal
Então, 1.º Cabo Miliciano
Leça da Palmeira