terça-feira, 22 de março de 2016

Guiné 63/74 - P15888: (Ex)citações (305): A nossa Força Aérea viveu alguns dias de grande confusão com o aparecimento dos mísseis Strela (António Eduardo Ferreira, ex-1.º Cabo Condutor Auto da CART 3493)

1. Mensagem do nosso camarada António Eduardo Ferreira (ex-1.º Cabo Condutor Auto da CART 3493/BART 3873, Mansambo, Fá Mandinga e Bissau, 1972/74) com data de 21 de Março de 2016:

Amigo Carlos
Faço votos para que te encontres de boa saúde junto dos teus, pois se há coisas boas na vida a saúde é a principal.
A propósito do comentário feito pela camarada Manuel Joaquim ao último poste(*) que enviei, em que me pedia para esclarecer melhor o que se tinha passado para que os nossos feridos naquela tarde estivessem em Cobumba à espera do heli para serem evacuados e ele não apareceu, entendi que talvez fosse melhor enviar mais um poste sobre o assunto para esclarecer melhor o que se passou naquele dia.

Depois do almoço, alguns camaradas nossos que pertenciam a dois pelotões da nossa Companhia e a uma Secção de Armas Pesadas, que estavam instalados junto às primeiras tabancas logo a seguir ao rio Cumbijã, vinham a fazer o trajeto de Unimog 404 para o local onde “moravam” os outros dois grupos da Companhia, o Comando e quase toda a formação, que ficava junto a outras tabancas a poucas centenas de metros.

Já perto do arame que circundava o sítio para onde se deslocavam, junto a umas casas que a nossa Companhia estava a construir para a população, rebentou uma mina anticarro, de que resultaram quatro feridos a precisar de ser evacuados.

O estado em que ficou a viatura que acionou a mina

Feito o pedido de evacuação, como era normal, fomos informados que a mesma ia ter lugar, os feridos foram levados e colocados em macas no local onde os helicópteros costumavam aterrar, isto por volta das duas da tarde. O tempo foi passando e o barulho do heli, que todos esperávamos, não se fez ouvir. Já quase noite, recebemos ordens para levar os feridos para Cufar pelo rio Cumbijã, o que viria a acontecer, viagem que para além do nosso pessoal em três sintex que tínhamos na Companhia, contou com o reforço dos fuzileiros que estavam no Chugué, não muito longe de Cobumba.

Já noite chegou a Cufar um Noratlas para fazer a evacuação. Dos feridos, alguns voltaram à Companhia, mas pelo menos um ficou tão maltratado que não mais voltou, não sei o que o futuro lhe terá reservado… Chamávamos-lhe periquito porque tinha uns meses a menos que nós na Companhia, mas poucos, camarada sempre bem disposto gostava de dizer que era o Trinitá Cowboy Insolente.

Perguntava o Manuel Joaquim qual a razão para que aquilo tenha acontecido, tal situação ficou a dever-se aos dias de grande confusão que a nossa Força Aérea estava a viver, com o aparecimento dos mísseis Strela que até então eram desconhecidos, pelo menos para muitos de nós que em tal nunca tínhamos ouvido falar.

Foram muitos os dias difíceis que vivemos em Cobumba, mas aquele foi o que mais impacto negativo teve. Para além dos feridos e da sua não evacuação, do ponto de vista psicológico foi arrasador, o que nos levava a perguntar, mas onde é que nós chegamos se já não podemos contar com uma evacuação se tal for necessário? …

Durante algum tempo não tivemos abastecimento de frescos por helicóptero como algumas vezes acontecia. Nesse período houve um dia em que uma das refeições foi arroz com marmelada…
Passado aquele tempo de maior confusão, as evacuações voltaram a ser feitas dentro do tempo normal.
Tivemos mais uma situação em que três camaradas nossos foram evacuados, dos quais dois viriam a falecer mas não foi por falta de apoio aéreo.

A guerra na Guiné, com o passar dos anos, sobretudo com a introdução dos Strela, sofreu uma alteração radical, o que leva alguns camaradas que por lá passaram antes de tal acontecer a ter alguma dificuldade em entender como tudo mudou desde o seu tempo. Mas é certo que mudou e muito!
Para além dos terríveis mísseis, quase todo o armamento do IN era melhor que o nosso, possuíam um canhão sem recúo que quando se ouvia a saída, o rebentamento já estava a acontecer. Nós tínhamos dois na Companhia que depois de lançarem algumas granadas ficavam a necessitar de reparação, eles tinham o RPG, nós tínhamos a Bazuca arma completamente ultrapassada, apenas dois exemplos.

Um dos motivos para que as coisas se tornassem tão complicadas naquele sítio, como noutros, foi porque enquanto alguns locais foram abandonados pelas nossas tropas, outros muito difíceis vieram a ser ocupados, aquele calhou-nos a nós. Era um local onde os homens novos durante dias não se viam e, quando estavam, com o aproximar da noite abalavam…

As pessoas mais velhas estavam sempre por ali, algumas delas tinham estado ao serviço do PAIGC como carregadores de material de guerra, recordo-me do Miranda que dizia ter ir de vez em quando ao Xitole levar material.
Havia várias crianças, o filho do chefe da tabanca andava na escola do PAIGC em Pericuto, povoação próxima de nós, não sei qual seria a frequência de alunos.
Os mais velhos, que moravam na tabanca, passavam muitos dos dias próximo de um abrigo existente debaixo de um mangueiro, situação que nos servia de aviso para o que estaria para acontecer. Se algumas vezes nada de anormal ocorria, outras era a confirmação, embora sem escolher horário…

António Eduardo Ferreira.
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Notas do editor

(*) Vd. poste de 16 de março de 2016 Guiné 63/74 - P15866: Blogoterapia (276): Porque continuamos a falar da guerra que vivemos na então província da Guiné? (António Eduardo Ferreira, ex-1.º Cabo Condutor Auto da CART 3493)

Último poste da série de 29 de fevereiro de 2016 Guiné 63/74 - P15810: (Ex)citações (304): Duas Actas e a mesma evidência: Não foram os soldados a falhar na Guerra da Guiné!... (Manuel Luís Lomba, ex-Fur Mil da CCAV 703)

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