quarta-feira, 23 de março de 2016

Guiné 63/74 - P15894: In Memoriam (247): António da Silva Batista (1950-2016)... A segunda morte (esta definitiva!) de um camarada a quem carinhosamente chamávamos o "morto-vivo do Quirafo". O funeral é amanhã, às 15h45, na igreja de Santa Cruz do Bispo, Matosinhos


Cópia da 2.ª via da caderneta militar do António da Silva Baptista (1950-2016)

Segunda via da caderneta militar do nosso camarigo António da Silva Baptista, emitida a 4 de Junho de 1987 (!), treze anos depois do seu regresso a casa, vindo do cativeiro...

Nascido a 15 de março de 1950, na freguesia da Moreira, concelho da Maia, foi incorporado no RI 13 a 26 de Julho de 1971, tendo passado à disponibilidade em 25 de Novembro de 1974...

O Baptista fez parte do lote de 7 prisioneiros portugueses (, pós-operação Mar Verde, de 22/11/1970), entregues pelo PAIGC às NT em 14 de Setembro de 1974, em Aldeia Formosa. Era sold at inf, pertenceu à  CCAÇ 3490 (Saltinho) do BCAÇ 3872 (Galomaro, 1972/74).

Imagem reproduzida, com a devida vénia, do blogue do nosso camarada Sousa de Castro, CART 3494 & Camaradas da Guiné)...


António da Silva Batista, em 21/7/2007.
Foto de João Santiago (2007)
1. A notícia chegou-nos hoje de manhã pelo Zé Teixeira. O António  da Silva Baptista, o nosso querido "morto-vivo do Quirafo", acaba de nos deixar...  Desta vez, a notícia, infelizmente, é verdadeira!... É a sua segunda e derradeira morte! (*)

Vivia ultimamente com a filha, que tinha um café em Santa Cruz do Bispo, Matosinhos, e estava doente.  Já há muito que não aparecia na Tabanca de Matosinhos, às quartas-feiras. Sofria de cancro dos pulmões, facto que nunca partilhou com os amigos. Nos últimos dias a situação agravou-se até ao momento... Tem outra filha que vive na Alemanha.

O corpo está em câmara ardente na capela de Santa Cruz do Bispo.  O funeral é amanhã,  5.ª feira, às 15h45, na igreja matriz de Santa Cruz do Bispo, seguindo depois para o crematório de Matosinhos... Estes dados foram-nos dados e confirmados pelo Zé Teixeira e o Álvaro Basto (que sempre o acarinharam nestes últimos anos da sua vida; foram, de resto, o Álvaro Basto e o Paulo Santiago quem o trouxeram até à Tabanca Grande, em julho de 2007).

Ainda há uma semana, a 15 do corrente, a malta lhe tinha mandado os parabéns pelo seu aniversário, os seus 66 anos!... O nosso camarada e editor Luís Graça escreveu-lhe, com o seu sentido humor de caserna, o seguinte:

"Grande Silva!... Passaste, pelas minhas contas, dois aniversários natalícios, nas 'regiões libertadas' do PAIGC, em 1973 e 1974... Certo? Foste dado como morto pelas NT e 'enterraram-te vivo'...  Ao fim de dois anos e meio, 'ressuscitaste'... Não haverá muitas histórias como a tua, no decorrer da nossa guerra em África... O que mais te desejo é que gozes, o mais que puderes, este teu dia de aniversário... E que a saúde não te vá faltando. 
Um alfabravo fraterno, 
Luís Graça".

Uma quinzena de camaradas, só no blogue, tirando a nossa página do Facebook, tinham-lhe desejado votos de saúde, que era o que ele mais precisava.


Maia > Moreira > Cemitério local > Foto do Jornal de Notícias, edição de 18 de Setembro de 1974, mostrando o soldado António da Silva Batista, a visitar a sua própria campa, depois do regresso do cativeiro. O título da notícia do jornal era: "Morto-vivo depôs flores na sua campa". Na lápide pode ler-se: "À memória de António da Silva Batista. Faleceu em combate na província da Guiné em 17-4-1972".

A foto, de má qualidade, foi feita pelo nosso camarada Álvaro Basto, com o seu telemóvel, na Biblioteca Pública Municipal do Porto, e remetida ao Paulo Santiago. O Álvaro Basto, ex-fur mil enf da CART 3492 (Xitole, 1971/734), mora em Leça do Balio, Matosinhos.

Foto: © Álvaro Basto (2007). Todos os direitos reservados.


2. Recorde-se que o  António da Silva Batista, ex-sold at inf da CCAÇ 3490, Saltinho, 1972, foi dado como morto na terrível emboscada do dia 17 de abril de 1972, em Quirafo, junto ao Corubal... Viria a ser libertado pelo PAIGC em setembro de 1974. A sua história  teve alguma triste notoriedade, até mediática, pelo insólito.  A RTP, por ex., no seu programa "Memórias da Revolução", chamou-lhe o "soldado morto-vivo", e associou-o às efemérides de setembro de 1974:

(...) O soldado António Silva Baptista, combatente na Guiné-Bissau durante a Guerra Colonial, no seguimento de um ataque do Partido Africano para a Independência da Guiné Bissau (PAIGC) a tropas portuguesas, foi dado morto pelas autoridades portuguesas, tendo a sua família realizado um funeral em sua memória. Em boa verdade, António Silva Baptista foi prisioneiro do PAIGC, tendo sido libertado em setembro de 1974. Esta história, devido à sua natureza caricata, alcançou bastante notoriedade em Portugal. (...)

Temos mais de quatro de dezenas referências (*) ao nosso camarada que agora nos deixa de vez.

O nosso pobre camarada morreu, de facto, duas vezes, tendo sido "vítima de um processo kafkiano", no dizer do nosso editor Luís Graça: primeiro, morreu, não fisicamente, mas militar e socialmente; depois, roubaram-lhe a memória, roubaram-lhe os dias e as noites que passou no cativeiro!

O seu nome passa hoje a figurar na lista (já longa, 43!) dos camaradas e amigos da Guiné, grã-tabanqueiros e grã-tabanqueiras, que "da lei da morte se foram libertando". (Vd. lista alfabética da Tabanca Grande, na coluna do lado esquerdo!)...

À família, à viúva, às duas  filhas e demais família, apresentamos as  sentidas condolências da Tabanca Grande,  bem como aos camaradas da sua companhia e aos amigos que com ele mais de perto conviveram, nomeadamente os da Tabanca de Matosinhos.  (**)


Maia > 21 de Julho de 2007 > O encontro com o António da Silva Batista (ao centro); à esquerda, o Álvaro Basto, ex-fur mil enf da CART 3492, Xitole, 1971/74) ; à direita, o Paulo Santiago (ex-alf mil, cmdt do Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72)

Foto: © João Santiago (2007). Todos os direitos reservados.


Maia > Águas Santas > Cemitério > Talhão dos combatentes falecidos na guerra colonial >  17 de abril de 2009 > Ao centro, a Cidália Ferreira, viúva de António Ferreira,  e, à sua direita, o António da Silva Baptista, também natural da Maia (e que já tinha tido,  até setembro 1974, jazigo com o seu nome e data de falecimento)...  Estiveram presentes nesta cerimónia outros camaradas nossos como o Zé Teixeira e o António Pimentel (à esquerda, na foto)  e o Paulo Santiago, que veio acompanho da sua filha, Maria Luís Santiago (, que foi quem tirou a foto). À direita na foto vê-se, de perfil, a filha do António Ferreira e da Cidália, mais a nossa amiga Cátia Félix, que está entre ela e o Paulo. Por detrás do Paulo, e segundo informação do José Teixeira, está o Sulimane Baldé, régulo de Contabane, que vive no Saltinho, e à data dos acontecimentos pertencia ao Pelotão do Santiago (,o Pel Caç Nat 53). Há ainda mais dois camaradas nossos: o António Barbosa, de barbas, de Gondomar; e o Santos Oliveira, de boina e óculos escuros.

Foto: © Maria Luís Santiago / Paulo Santiago (2009). Todos os direitos reservados [Legenda: LG, Paulo Santiago e José Teixeira]



 III Encontro Nacional da Tabanca Grande > Quinta do Paul, Ortigosa, Monte Real, Leiria > 17 de Maio de 2008 > Depoimento do António da Silva Batista (1950-2016) sobre o tempo de cativeiro, em Conacri e depois na região do Boé (1972/74)

Vídeo (5' 43''): Alojado no You Tube > Luís Graça (2008)
_____________

Notas do editor:

(*) Vd. aqui alguns dos postes publicados com referência ao António da Silva Batista:

22 de julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1983: Prisioneiro do PAIGC: António da Silva Batista, ex-Sold At Inf, CCAÇ 3490 / BCAÇ 3872 (1) (Álvaro Basto / João e Paulo Santiago)

22 de julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1985: Prisioneiro do PAIGC: António da Silva Batista, ex-Sold At Inf, CCAÇ 3490 / BCAÇ 3872 (2) (Álvaro Basto / João e Paulo Santiago)


(...) Caído numa emboscada com o seu grupo de combate, foi feito prisioneiro e levado para as prisões do PAIGC, primeiro em Conacri e depois na região do Boé; o Exército deu-o como morto, tendo alguém (que não o alf mil médico Azevedo nem o fur mil enf Basto) passado uma falsa certidão de óbito.

O Batista foi contabilizado entre o monte de cadáveres desmembrados e calcinados, que ficaram na picada do Quirafo e levados - os restos - para os balneário do Saltinho. Quem tomou essa decisão, de ânimo leve? O capitão da CCAÇ 3490, do Saltinho? O comandante do BCAÇ 3872, de Galomaro? No mínimo, há aqui descuido, incompetência, grosseira insensibilidade, desumanidade!...

O Exército (e a PIDE/DGS que deve ter interceptado as cartas que ele enviava do cativeiro para a família, através da Cruz Vermelha…) nunca mais quis saber dele… E a prova é que o mantiveram na lista dos mortos… durante muito tempo… Hoje, felizmente, já não consta, pelo menos, da lista (oficiosa) dos Mortos do Ultramar da Liga dos Combatentes...


A odisseia do Batista, no pós-25 de Abril, do Porto a caminho de Lisboa, munido de um certidão de óbito (!), gastando tempo, dinheiro e emoções para recuperar a sua identidade (como vivo!) e a sua dignidade (como português, homem, cidadão e militar!) é outro processo kafkiano!...

Amigos e camaradas: este caso, mesmo passados muitos anos, deveria incomodar-nos a todos e sobretudo indignar-nos! Como ao Paulo Santiago, que aqui escreveu: "Filhos da puta!... Roubaram-lhe, na caderneta militar, os 27 meses de cativeiro!"...

O Exército ainda deve uma reparação, mesmo que seja meramente simbólica e moral, ao nosso camarada António da Silva Batista, a quem eu proponho que aceite figurar na nossa lista de amigos e camaradas da Guiné!

É o gesto mais elementar de solidariedade que nós, todos nós, podemos ter para com ele, acarinhando-o e ajudando-a lidar melhor com uma vida passada feita de pesadelos. Espero que o Paulo e o Álvaro possam fazer-lhe chegar esta singela homenagem do nosso blogue, e que ele a aceite! (..)

19 comentários:

antonio graça de abreu disse...

António da Silva Batista, VIVA!

Descansa em paz.

António Graça de Abreu

Hélder Valério disse...

À família, os meus sentimentos.

Ao António, que possa descansar em paz!
Pela nossa parte tentaremos que a memória perdure.

Hélder Sousa

José Marcelino Martins disse...

Lamento a partida do António Batista.
Condolência á família e a todos os camaradas.

António José Pereira da Costa disse...

Numa situação como esta, nada do que se possa dizer tem interesse ou valor.

Poderia dizer que "finalmente descansou". Mas é uma frase feita e, cada vez mais vazia.
Esta afirmação, sobre alguém que tanto sofreu em vida, não tem significado. O que é isso de descanso para quem morreu? É um consolo para os vivos.
O "Culto dos Mortos" é para os vivos. Para se desobrigarem e aceitarem o que lhes há-de suceder. Que é que se há-de fazer para que a memória perdure? Escrever sobre a sua "aventura" que, infelizmente, se reiniciou com a aproximação da velhice. Pode ser que um dia um estudioso (mestrando, doutorando ou investigador de qualquer arte) se interesse por ele e imagine o que terá passado, enquanto preso e longe dos seus e depois na "reconstituição burocrática" do sucedido, num processo impiedoso, mas, pior do que isso, absolutamente idiota. Mas isso não consola nada, nem ninguém.
Apresento os meus sinceros pêsames à família.

António J. P. Costa

Juvenal Amado disse...

António Baptista

Meu camarada de batalhão, a terra te seja leve, já que a vida foi tão dura.

Até sempre

Torcato Mendonca disse...

Descansa em paz camarada.

Mereces figurar, aqui no Blogue, como uma figura impar.

Merecias ter um tratamento condigno pelas nossas Forças Armadas.

Condolências á tua familia e amigos.

Até um dia, T.

José Botelho Colaço disse...

Sentidos pêsames, somos de facto uma espécie em vias de extinção hoje além do Baptista também já vi anunciado a partida de mais dois camaradas ex-combatentes o Joaquim Madureira e o José Fernandes.

JD disse...

Foi um homem com azar, mas recuperou a convivência e teve a camaradagem amiga do pessoal de Matosinhos, grandes camaradas.
À família e aos amigos apresento os meus sentimentos
JD

Manuel Carvalho disse...

Meu Camarada Baptista

Até aqui as coisas não foram fáceis para ti que estejas num bom lugar e até um dia.

Manuel Carvalho

Anónimo disse...

Para a família as minhas condolências
O António Baptista que descanse em paz
Não será esquecido pelos amigos e camaradas
Carlos Silva

Manuel Reis disse...


As minhas sentidas condolências aos familiares do António Baptista.

Para ele o desejo que repouse em Paz.

Manuel Reis

Anónimo disse...

Os meus sentidos pêsames para todos os seus familiares.

Que o António Baptista descanse agora em Paz.

JPicado

Anónimo disse...

Lei da vida.
Um Homem simples, humilde, cativante.

V Briote

Luís Graça disse...

O Zé Teixeira, perplexo, telefonou-me há 3 horas atrás, com mais uma notícia do tipo "não vais acreditar!"...

Pois não é que esta manhã morreu o José António Almeida Rodrigues, companheiro de infortúnio do António da Silva Batista?!...

Há coincidências trágicas, estranhas, misteriosas!... O mensageiro desta vez foi o José Manuel Lopes!...

Alguém sabe de mais pormenores ?


18 DE OUTUBRO DE 2011

Guiné 63/74 - P8920: Banco do Afecto contra a Solidão (15): O caso do José António Almeida Rodrigues, ex-prisioneiro de guerra (entre Junho de de 1971 e Março de 1974): uma história de coragem e de abandono (José Manuel Lopes)

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2011/10/guine-6374-p8920-banco-do-afecto-contra.html

Juvenal Amado disse...

Também o José António Almeida Rodrigues pertenceu ao meu batalhão desta vez da companhia 3489 Cancolim.

Fugiu da prisão indo ter ao Saltinho já o batalhão 3872 se preparava para regressar a casa

A vida dele foi dura que esteja em paz finalmente.

Sousa de Castro disse...

Á família enlutada apresento sentidas condolências! Paz á sua alma.
Sousa de Castro

Unknown disse...

À família sentidas condolências.
Paz à sua alma
Benito Neves

Anónimo disse...



À família do camarada António Baptista envio os meus sentidos pêsames. Sentei-me algumas vezes com ele na mesa grande da Tabanca de Matosinhos, como nunca estive próximo dele nunca falei com ele sobre a desgraçada aventura da sua vida. Outros me contaram alguma coisa e porque ele estaria cansado de falar nela a pedido de uns e outros nunca tive coragem de me dirigir a ele para lhe falar sobre isso. Hoje tenho pena de nunca ter trocado algumas impressões com ele.
Paz à tua alma camarada.
Francisco Baptista

paulo santiago disse...

Há um erro na legenda da foto tirada no cemitério.À direita,não é a minha filha,é a filha do Ferreira e da Cidália.