quinta-feira, 24 de março de 2016

Guiné 63/74 - P15897: In Memoriam (249): "No Dia da Minha Morte"... A história de amor que o António da Silva Batista (1950-2016) gostaria que eu vos contasse no dia da sua morte... (José Teixeira, régulo da Tabanca de Matosinhos)






Recorte de jornal: O Comércio do Porto, 18 de setembro de 1974. Gentileza do Mário Miguéis (que nos mandou, em 22/4/2009,  o recorte completo com a reportagem). Este prestigiado jornal diário do Porto deixou de se publicar. Na foto acima, o "morto-vivo" António da Silva Batitsa (1950-2016), na sua terra, Maia,  prestando declarações ao repórter.  O texto da reportagem é de Helena Policarpo, e as fotos de Amadeu Botelho. A nossa gratidão a todos. Este também é um pedacinho da nossa história.


1. Mensagem do José Teixeira, um dos régulo da Tabanca de Matosinhos que tanto acarinhou o António da Silva Batista, no dia da sua morte "verdadeira (já que ele "morreu duas vezes"):

Texto com memórias que recolhi ontem, no velório do corpo do nosso infortunado camarada Batista, com valor histórico e afetivo, não lhe dei título e não sei se deva ser publicado, dado o seu conteúdo, mas vocês, editores, se entenderem que pode ser,  tudo bem!... Acho que o Batista iria gostar de "relembrar" esta história ou gostaria de a ouvir no dia da sua morte, contada por um amigo e camarada da Guiné... É uma bela história de amor que merece ser partilhada com os demais amigos e camaradas da Guiné, onde o Batista morreu uma vez e nasceu outra vez para a vida. (JT):

 - Sou eu! Não se assuste! Sou eu mesmo!
António da Silva Batista, sold at inf,
foto da caderneta militar

Foi assim que o António Batista se dirigiu à Camilinha, uma amiga da namorada que ele tinha deixado na Metrópole, mais propriamente em Santa Cruz do Bispo, Matosinhos, quando embarcou para a Guiné.
- Ó rapaz, não podes ser tu! Eu fui ao teu funeral! - respondeu-lhe a Camilinha, com o coração aos saltos.
- Sou eu mesmo e quero pedir-lhe um favor...
...

- Ele teve um “funeral” como nunca houvera em Crestins, Maia, ai se teve! - disse-me a Camilinha.

Toda a freguesia saiu para o acompanhar ao Cemitério de Moreira da Maia e fizeram-lhe uma campa bem linda. A mãe, coitadinha, não falhou nem um dia na sua visita à campa do filho, até ao dia em que ele lhe apareceu em casa.
- Era uma dor, ver a pobre mulher, magrinha, ela foi sempre muito magrinha, descalça, a fazer aquele caminho e olhe que ainda é longe! - disse um velhinho, que estava ao lado, velho amigo da família do António Batista.
- Pois ele chegou ao pé e a mim assim de surpresa e disse-me:
- "Camilinha! Vim falar consigo, porque sei que você é muito amiga da Lola e eu sei que ela gosta muito de si. Queria pedir-lhe para ir lá dentro e peça-lhe para ela vir consigo cá fora, mas não diga que sou eu que estou aqui".
Ele já devia saber que a Lola lhe guardou respeito enquanto ele esteve na Guiné, foi ao dito funeral quando foi dado como morto e entregaram o corpo à família, em julho de 1972. Depois de fazer o luto que ele lhe mereceu, partiu para outra. À data do seu regresso, em setembro de 1974, a Lola namorava para outro rapaz e estava em vias de casamento.

E continuou a Camilinha:
- Como ele me pediu, fui junto da Lola que estava sentada fora da porta ao sol, descalça, a conversar com umas amigas - era uma tarde de Setembro e estava um lindo dia de sol - e disse à Lola:
- "Anda comigo que está ali uma pessoa que quer falar contigo".
Ela calçou os chinelos e seguiu-me. Quando encarou com ele, ficou muda a olhar, a olhar,  e passados uns segundos correram um para o outro e ficaram ali abraçados. Foi lindo vê-los abraçados, se foi!

E prosseguindo:
- Foi um dia muito lindo, sabe! Ela tinha outro namorado, mas desfez o namoro e voltou para o “morto vivo”. É por este nome que toda a gente o conhece.... Ó Lola, como se chamava o teu marido?...  É que eu nunca sabia o nome dele - rematou a Camilinha -, sempre o conheci pelo “morto vivo”!...
- Chama-se António! António Batista!" - respondeu a Lola, ao meu lado.

A filha do António Batista ouvia em silêncio. As lágrimas teimavam em deslizar pela face, neste dia em que o António Batista faleceu de verdade, depois de um ano de intenso sofrimento.

José Teixeira
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Nota do editor:

Vd. os dois poste anteriores desta série >

24 de março de 2016 > Guiné 63/74 - P15896: In Memoriam (248): Morreu também, ontem, o José António Almeida Rodrigues (1950-2016), natural da Régua... Foi companheiro de infortúnio, no cativeiro, em Conacri e no Boé, do nosso António da Silva Batista (1950-2016)... Fugiu dos seus captores, em março de 1974, andou 9 dias ao longo das margens do Rio Corubal até chegar ao Saltinho... Teve uma vida de miséria, mas também conheceu a compaixão humana, a solidariedade e a camaradagem... É aqui evocado pelo José Manuel Lopes.

23 de março de 2016 > Guiné 63/74 - P15894: In Memoriam (247): António da Silva Batista (1950-2016)... A segunda morte (esta definitiva!) de um camarada a quem carinhosamente chamávamos o "morto-vivo do Quirafo". O funeral é amanhã, às 15h45, na igreja de Santa Cruz do Bispo, Matosinhos

14 comentários:

Anónimo disse...

Para os camaradas que deram sempre o seu apoio e ajudaram estes nossos camaradas o meu abraço de pesar.
BS

Jose Marcelino Martins disse...

António Batista e todos os Combatentes, sempre PRESENTES!

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Seria bom que os jornalistas "cá do bairro" em vez de se andarem preocupar com os filhos do vento e outros temas igualmente tolos se tivessem debruçado sobre a vida destes e de todos os outros homens que ficaram prisioneiros do PAIGC e recolhessem os seus depoimentos. A tropa (em especial os psiquiatras militares) que eu saiba não o fez, mas os historiadores e outros investigadores...
Agora é tarde.
Pensemos no momento da captura e da "fuga" para o Senegal ou para a Rep. Guiné e imaginemos o sofrimento. E a primeira noite de prisão!
Não sabemos nada dos "esforços" para a sua libertação feitos pelas "autoridades". Provavelmente nenhuns.
Não sabemos nada sobre a fome e o frio - físico, mas especialmente espiritual - que passaram encafuados numas "prisões" vigiados pelos guerrilheiros devidamente mentalizados acerca da maldade dos colonialistas.
E as datas festivas de cada um: anos, Páscoa, Natal, aniversários dos familiares, festas das respectivas terras, etc.
E a incerteza de como tudo ia acabar. Sendo certo que não estavam a coberto de eu um diligente guerrilheiro resolvesse purificar o mundo...
Mas acima de tudo: aquilo nunca mais acabava...
Se houver gente habilitada por aí talvez fosse boa ideia dar-lhe os contactos deste sobreviventes a ver se ainda se aproveita algo.

Um a ba Páscoa para todas
António J. P. Costa

Luís Graça disse...

Parabéns, Zé, pela delicadeza, sensibilidade e carinho com que recolheste e trataste estas "confidências" da Camilinha... Na realidade, acabas de dar densidade poética e humana a uma linda história de amor que enobrece os seus protagonistas, o António e a Lola (Maria da Glória)... Seria bom fazeres chegar uma cópia em papel para entregarm oportunamente à filha deles, que vive em Santa Cruz do Bispo, e à Camilinha...

JD disse...

É um lindo texto este do Zé Teixeira, e revelador de um drama que acabou em bem. O nosso Baptista, por momentos, ter-se-á esquecido dos horrores que viveu, e com a sua amada, deve ter sentido que vale a pena viver, enquanto a vida nos reservar surpresas agradáveis, como diria Ortega y Gasset.
Para o Zé Teixeira e os restantes camaradas de Matosinhos vai o meu apreço pela solidariedade demonstrada.
Abraços fraternos
JD

Anónimo disse...

Um jovem, um militar, um soldado na guerra, um morto na guerra, um prisioneiro ignorado e um ressuscitado. Ontem foi sepultado, anonimamente, um dos nossos irmãos do mato. Até um dia destes, Baptista - irmão do mato.

Carvalho de Mampatá

Luís Graça disse...

Ò Zé, adorei a frase: "À data do seu regresso, em setembro de 1974, a Lola namorava PARA outro rapaz e estava em vias de casamento"...

Zé: há subtilezas do "falar do norte" que os gajos do sul, os "mouros", não apanham facilmente... Eu, mouro, esforço-se por entender as vossas idiossincrasias... mas nem sempre alcanço...

Consultado o dicionário, vejo que o verso namorar é: (i) transitivo (namorar um rapaz); (ii) namorar com um rapaz; e (iii) pronominal (namoro-te).

Agora essa do "namoro para um rapaz" (por conta de ?), nunca tinha ouvido dizer... Mas quem faz a língua é povo falante... Ah!, grande Camilinha!... E grande Zé, que registou e reproduziu a fala ... É por isso é que eu continuo a ser "fã" dos blogues... Devo ser dos últimos, os blogueiros estão em vias de extinção com o aumento exponencial do feicebuqueiro.... Ebntendo o "Facebook": é fácil, é barato, e dá milhões... Tenho que me conformar... A Tabanca Grande está a "desertar" para o "Facebook"... Valerá a pena a continuar, por aqui, teimosamente, ingloriamente ? O "Facebook" é, sme dúvida, muito mais amigável, interativo, e agradável como o pudim instantâneo... Quem é que tem a pachorra de ler um texto sublime como este, do Zé Teixeiro ? Quanto tempo leva a escrever (e a editar) um bom texto, com qualidade ?... Acho que está na hora de me reformar, Zé, e começar a olhar só para o meu umbigo... O mundo lá fora está feio, triste e inumano... LG





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namorar | v. tr. | v. intr. | v. pron.

na·mo·rar - Conjugar
verbo transitivo
1. Andar de namoro com; requestar.
2. Seduzir, encantar.
3. Cobiçar.
verbo intransitivo
4. Fazer namoro.
5. Ser namorador.
verbo pronominal
6. Sentir amor; apaixonar-se.

"namorar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/DLPO/namorar [consultado em 24-03-2016].

Anónimo disse...



Amigo e camarada Luís Graça:

A expressão "namorar para" é uma expressão popular que só conheci aqui na região do Porto. Em Trás-Os-Montes não é usada e soa mal, tal como em Viana do Castelo terra da minha mulher. No Porto é frequente ouvirmos essa expressão, inclusivé ainda hoje, entre as moças de 14 ou poucos mais anos que frequentam a E.B 2,3 aqui perto da minha casa. Já há muitos anos que me deixei encantar por ela e pelo significado mágico que comporta. Talvez tu, que gostas de tocar muitos instrumentos, ou um linguista teu amigo o saiba decifrar.
Um abraço. Francisco Baptista

Manuel Carvalho disse...

Tive algumas conversas com o camarada Batista que não se cansava de falar sobre a sua terrível aventura, lembro-me de ele dizer que no momento em que foi capturado o guerrilheiro a primeira coisa que fez foi apalpar o cano da G3 e ele percebeu que se estivesse quente ( sinal que tinha disparado) já não saia dali vivo. Na viagem até ao acampamento onde ficou também foi muito cansativa e com muita fome e cede. Não foi muito ou nada agredido fisicamente porque também procurava não criar problemas.Já o camarada José Almeida Rodrigues foi agredido várias vezes porque era mais rebelde e tentava fugir.Este camarada quando vinha à Tabanca com o Zé Manel era muito pouco falador, não me lembro de lhe ouvir uma palavra.
Que Deus os tenha num bom lugar porque enquanto andaram por aqui já sofreram bem a sua parte.

Manuel Carvalho

paulo santiago disse...

Achei estranho o escasso número de camaradas a acompanharem o Batista à última morada,mas é uso dizer-se "só faz falta quem cá está"...

Boa Páscoa.

Santiago

josé Teixeira disse...

Meu caro Luís Graça.
Sobre o que escrevi "namorava para outro rapaz" o Xico já deu uma explicação cabal.É isso mesmo. Sobre o texto, tentei apenas ser fiel ao que a senhora Camilinha me disse,numa conversa franca e aberta sobre "morto vivo", como o Batista era conhecido em toda a freguesia de Santa Cruz do Bispo. Estava eu, a esposa do Batista e a Camilinha, mais um casal de Crestins, amigo da família do Batista, que acompanhou de perto todo o drama da "morte" do enterro e do regresso à vida, passados vinte e tantos meses. Foram momentos de fazer regressar à vida tempos de mágoas, dores e sofrimentos de quem viveu de perto o terrível drama.

Nota que faço minhas as palavras do Santiago. O Batista não era um camarada qualquer. Transportava com ele uma história de dor e sofrimento. Foi feita uma tentativa de dar a conhecer o seu falecimento, nomeadamente pelo nosso Blogue de modo a que o maior número de ex-combatentes tomassem conhecimento. Ele pelo que sofreu merecia mais solidariedade.

Aproveito para desejar a todos os camaradas uma Santa Páscoa.

Zé Teixeira

Sandra Batista disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sandra Batista disse...

Obrigada a todos os presentes, e as mensagens enviadas.
Foi um lutador.....
Sandra Batista

Sandra Batista disse...

Fez seis meses que o meu pai foi embora....fica uma saudade intensa...um aperto muito grande, quero acreditar que está num cantinho "bom", agradeço a todos mais uma vez, e sim essa história que o srº Zé Teixeira contou foi verdade.
A Camilinha é uma senhora amiga da minha família...
obrigada a todos...