sábado, 26 de março de 2016

Guiné 63/74 - P15902: (De)Caras (38): homenagem ao saudoso grã-tabanqueiro António da Silva Batista (1950-2016), ao infortunado António Ferreira (1950-1972) e aos demais camaradas mortos no Quirafo, em 17/4/1972: republicação do conto do Mário Migueis da Silva (pseudónimo, "Leão da Mata") "O morto-vivo" (, originalmente publicado no JN, de 28/9/1985)


A fatídica GMC,,, Ainda lá estava em 2006! (*)
Foto de Paulo e João Santiago
O Morto-Vivo





Um conto
 de Mário Migueis 
Ferreira da Silva (*)

(Esposende)

JN, 28/9/1985 








O Mário Migueis da Silva, ex-fur mil rec Inf, Bissau,Bambadinca e Saltinho (1970/72), bancário reformado, cartunista, artista plástico,  com morança em Esposende, viveu de muito perto a tragédia do Quirafo; este conto que ele mandou para um concurso literário do JN, em 1985, é também uma forma de exorcisar fantasmas e de render a devida homenagem aos mortos e aos vivos da CCAÇ 3490 (Saltinho), do BCAÇ 3872 (Galomaro, 1972/74), a que ele esteve adido. 

No conto, o Batista é o Alfredo, de seu nome próprio, com a especialidade de transmissões. O António Batista, aprisionado pelo PAIGC, na sequência da emboscada do Quirafo, em 17/4/1972,  era sold at inf.,  e a sua identidade foi trocada um outro camaarada morto, o António Azevedo. Outro camarada que morreu foi 1º cabo trms, António Ferreira, tendo deixado uma viúva, a Cidália, e uma filha órfã, que ele nunca chegou a conhecer. Com a ajuda da nossa amiga Cátia Félix, a família Ferreira conseguiu fazer o luto, ao fim de 40 anos, num processo que, na altura,  nos emocionou a todos. (*)

Justifica-se a republicação deste conto que retrata ou reconstitui, muito  bem, o clima de tragédia que se viveu, no quartel do Saltinho,  nesse já longínquo dia 17/4/1972, uma segunda feira, quinze dias depois da Páscoa....  

Nesta semana, em que os cristãos de todo o mundo, celebram um dos mistérios da sua fé, a morte e ressurreição de Cristo, este conto  é inspirador... Trata-se além disso de uma semana em que morreram, no mesmo dia, dois camaradas nossos que foram companheiros de cativeiro durante quase dois anos... Pertenciam ao mesmo batalhão (BCAÇ 3872, Galomaro, 1972/74), e não  estavam distantes, um do outro; um no Saltinho, na CCAÇ 3490; outro em Cancolim, na CCAÇ 3489. Estamos a referirmo-nos, respetivamente,  ao António da Silva Batista (1950-2016) e ao José António Almeida Rodrigues (1950-2016). O facto de terem morrido no dia,  ambos com 66 anos, não deixa de ser um estranha coincidência, daquelas que estatísticamente são explicáveis, mas que humanamente são difíceis de compreender e de aceitar (**).



"António Ferreira" > Homenagem do nosso camarada Mário Migueis 

ao 1.º Cabo TRMS António Ferreira,
 morto durante a emboscado do Quirafo  > 
Acrílico: © Mário Migueis da Silva (2010). 
Todos os direitos reservadosnda


Nunca é de mais recordar os nossos camaradas da CCAÇ 3490, com sede no Saltinho, mortos no Quirafo, naquele dia fatídico de 17 de Abril de 1972:

Alferes Miliciano Armandino Silva Ribeiro - Magueija / Lamego
Furriel Miliciano Francisco de Oliveira Santos - Ovar
1.º Cabo Sérgio da Costa Pinto Rebelo - Vila Chã de São Roque / Oliveira de Azemeis
1.º Cabo António Ferreira [da Cunha] - Cedofeita / Porto
Soldado Bernardino Ramos de Oliveira - Pedroso / V. N. Gaia
Soldado António Marques Pereira - Fátima / Ourém
Soldado António de Moura Moreira - S. Cosme / Gondomar
Soldado Zózimo de Azevedo - Alpendurada / Marco de Canaveses
Soldado António Oliveira Azevedo - Moreira / Maia [Originalmente dado como "desaparecido em combate", confundido com o António da Silva Batista, que foi dado como morto,. e que também era de Moreira, Maia]
Milícia Demba Jau - Cossé / Bafatá
Milícia Adulai Bari - Pate Gibel / Bafatá
Trabalhador Serifo Baldé - Saltinho / Bafatá




Oito da manhã. De uma calma e radiosa segunda-feira, convidando a um bem disposto espreguiçar. Ora escorrendo, sonolento, ora escorregando, brincalhão, em pequenas e ridentes cataratas, o rio Corubal espelhava o já abrasador sol daquele dia.

Ainda com a última bucha do pequeno-almoço na boca, os piras do segundo pelotão chegavam e iam ocupando as duas viaturas, que, roncando, aguardavam o sinal de partida. Através de umas seteiras do seu abrigo, o olhar inquieto do furriel Simões esperava alguém. E, quando o soldado Batista se aproximou, baixou-se instintivamente, procurando esconder a sua envergonhada condição de observador furtivo.

Dobrado sob o peso do grande rádio de transmissões que lhe cobria todo o magro dorso, o Batista subiu, com certo esforço para uma das viaturas. Mentalmente, recordava a cena da noite anterior no posto de rádio:

Recorte do JN, 28/9/1985
 — Um minuto ou mais é a mesma coisa! A rendição do posto tem que ser feita à hora exacta e não é admitido quaisquer desculpas. Amanhã, vais tu com o grupo do Quirafo.

O furriel Simões parecia adivinhar-lhe os pensamentos. Na verdade, tinha sido estúpido ao castigá-lo tão duramente. Era necessário disciplinar os homens, é certo... mas o Batista até nem era mau rapaz. Era educado, respeitador... Bastaria tê-lo admoestado, talvez... Mas, enfim, agora nada havia a fazer.

Às cavalitas da velha GMC da frente, o alferes lançou um rápido olhar à retaguarda e deu ordem para avançar. O condutor não se fez rogado: pisando o acelerador com alegria, logo deixou para trás o arame farpado do aquartelamento, seguido de perto pelo burrinho, que, gingando e pulando a cada cova, não queria ficar para trás.

Do lado de cá das espessas núvens de pó, o Simões magicava. Aquele aspecto guerreiro dos homens, armados da cabeça aos pés, deixava-o, desta vez, preocupado. Arrependido da decisão que tomara em relação ao Batista, começou, de repente, a recear que o destino lhe reservasse alguma partida. Aquela picada que andavam a desmatar, lá prós lados de Boé, poderia, em sua opinião, ser um bico-de-obra dos graúdos.
— E se, por azar, acontecesse alguma coisa? E se caíssem numa emboscada? E o Batista?!... E se o Batista ficasse gravemente ferido ou até morto?...

A ideia de tal peso na consciência passou a assustá-lo e não pôde deixar de continuar a preocupar-se.
— Só estarei sossegado quando todos regressarem sãos e salvos.

Tentando dominar todo aquele pessimismo de circunstância, puxou de mais um cigarro. Mas foram nervosas aquelas chupaças profundas com que, cabisbaixo, se dirigiu para a messe. Escrevia para a família, quando ouviu o primeiro rebentamento. Estremecendo, distinguiu perfeitamente, na direcção do Quirafo, o matraquear contínuo das armas automáticas e os rebentamentos que se sucederam, galopantes.

Quando deixou de os ouvir, correu para fora. Apurou o ouvido, mas nada mais escutou.
—  Tudo tão rápido! Um minuto ou dois, no máximo... Que se teria passado?!... Emboscada?... Haverá baixas? Mortos?!...

A imagem sombria e triste do Batista passou-lhe diante dos olhos. Aturdido, sacudiu a cabeça, como quem quer acordar de um sonho mau. Já os grupos de intervenção partiam em direcção a Madina, quando o Simões correu para o posto de transmissões. Depois daquele tremendo choque eléctrico, que lhe percorrera o corpo todo, atormentavam-no agora a incerteza, o medo... Não queria acreditar no que lhe estava a acontecer.

Entraram em contacto com o destacamento de Madina, mas as primeiras notícias concretas trouxe-as, porém, um nativo, vinte minutos mais tarde. Viera correndo, a corta-mato, para avisar a tropa do Saltinho.
—  Morreram muitos! Prá'i vinte! Morreu tudo queimado!...

Simões sentiu-se desfalecer. Gemeu um "Meu Deus" e quis agarrar-se a alguém para não cair. As pernas, porém, dobraram-se-lhe pelos joelhos e tombou pesadamente no chão.

Visivelmente traumatizado no espírito, mas ileso no corpo, chegaria, pouco depois, o condutor da primeira viatura, que o acaso poupara a tão trágico fim. Nervosíssimo, deambulando de um lado para o outro, parecia não sentir-se ainda em segurança. Respondia, no entanto, a cada pergunta, a cada súplica.
—  Os que iam comigo morreram todos. Além de mim, o único que saiu vivo da picada foi o Batista. Vi-o correr, todo ensanguentado, pelo mato...

Quando o Simões recobrou a consciência e soube que o Batista, afinal, não estava morto, ganhou novo alento. Mas não almoçou. Nem jantou.
—  Onde estará o rapaz?! Por que não apareceu ainda? Serão os ferimentos tão graves que o impeçam de chegar ao Saltinho ou, pelo menos, a Madina, que fica a dois passos apenas do local da emboscada?!...

Às duas da manhã, só, num canto da messe, continuava a esperar que o Batista aparecesse ou desse sinal de vida. Lá fora, aparentemente indiferentes a toda aquela tragédia, os cangalheiros trabalhavam. O Simões, esse, desesperava. Cada martelada parecia querer rebentar-lhe os tímpanos e o sistema nervoso.

JN, 18/9/1974.. O Batista visitando a sua própria campa...
Mas controlou-se. E ele, que nunca fora muito de ir à missa, começou antão a rezar todas as orações que aprendera em criança. E entre cada oração, a súplica constante:
—  Ó Minha Nossa Senhora, fazei com que ele apareça! Não permitais que eu viva com tamanho remorso o resto da minha vida!...

E prometeu ir a Fátima, a pé.

Alvoreceu. Com o apoio de helicópteros, começaram as buscas, palmo a palmo, tentando localizar o homem. O Simões que nelas participava activamente, não se cansava nem se esquecia de orar em silêncio, renovando vezes sem conta a sua promessa de ir a Fátima. Mas o pobre do Batista não havia de aparecer. Nunca mais!... Nem vivo, nem morto...

Vinte meses após tão fatídico dia, o Simões descia a escada do avião que o trazia definitivamente para a metrópole. O seu semblante, carregado e tristonho, recordava agora, com mais intensidade ainda o desventurado Batista que, por sua culpa, morrera tão brutalmente. À sua volta, a companhia inteira cantava, gritava, dançava...
- Podia estar aqui agora, rindo e cantando como os outros!... Talvez com os pais, velhinhos, a esperá-lo lá no fundo!...

Ao imaginar a ternura daquele abraço impossível, duas grossas lágrimas lhe rolaram pela face. E sentiu, de novo, aquele tremendo nó seco na garganta, que lhe comprimia a alma.

Já depois da independência, quando, um dia, lhe perguntaram, lá no escritório onde trabalhava, se já tinha lido a história do "gajo que tinha sido dado como morto na Guiné e que acabava de regressar", arrepiou-se todo.
Inquieto, cheio de pressentimentos, não esperou pelo intervalo do almoço. Desculpou-se e correu a comprar o jornal:

"MORTO-VIVO DEPÔS FLORES NA SUA CAMPA",

Ainda na primeira página, a fotografia de um moço de bigodito. Curvado sobre uma campa. E na campa, uma lápide onde podia ler-se distintamente:

"À MEMÓRIA DE ALFREDO COSTA BATISTA.
FALECEU EM COMBATE NA PROVÍNCIA DA GUINÉ EM 17/4/72"

Dias depois, o Simões enfiou o seu velho camuflado da tropa e, terço na mão, soriso nos lábios, começou a caminhar em direcção a Fátima.

Fim

LEÃO DA MATA (***)

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12 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13724: Fotos à procura de... uma legenda (39): Cátia Félix e a sua amiga Cidália Ferreira, viúva do António Ferreira, 1º cabo trms, CCAÇ 3490 (Saltinho, 1972/74), morto em 17 de Abril de 1972 na emboscada do Quirafo 

18 de abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4207: In Memoriam (20): Para o António Ferreira e demais camaradas mortos no Quirafo (Juvenal Amado)

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