terça-feira, 29 de novembro de 2016

Guiné 63/74 - P16775: Inquérito 'on line' (86): A "batota" que fazíamos quando em operações, no mato: depois do 25 de abril de 1974, continuávamos a fazer patrulhamentos ofensivos, encontrávamos gente do PAIGC que vinha "visitar família no Bissorã", "partíamos mantenhas" e depois lá seguíamos à procura... do "turra"!... Além de cansados, sentíamo-nos "ridicularizados"... (Henrique Cerqueira, ex-fur mil, 3.ª CCAÇ/BCAÇ4610/72, e CCAÇ 13, Biambe e Bissorã, 1972/74)



Foto nº 1


Foto nº 2 


Foto nº 3 


Guiné > Região do Oio > Bissorã > CCAÇ 13 (1969/74) > Pós 25 de abril de 1974 > Os primeiros (re)encontros, pacíficos, entre as NT e os guerrilheiros do PAIGC (fotos nºs, 1 e 2). Na foto nº 3, vê-se em primeiro plano o Henrique Cerqueiro, saindo em patrulhamento ofensivo com um Gr Comb da CCAÇ 13. 

Recorde-se que o Cerqueira esteve, como fur mil, no TO da Guiné, desde finais de novembro de1972 até inícios de julho de 1974, primeiro na 3ª CCAÇ / BCAÇ 4610/72 e depois na CCAÇ 13. 

Fotos ( e legendas): © Henrique Cerqueira (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentário, ao poste P16769 (*), 
de Henrique Cerqueira [, ex-fur mil, 3.ª CCAÇ/BCAÇ4610/72, e CCAÇ 13, Biambe 
e Bissorã, 1972/74; vive no Porto]:


Em determinada altura , ou seja, já em data posterior a Abril de 74 e já depois de haver encontros com os combatentes do PAIGC, encontros amigáveis,  o nosso comando continuava a enviar grupos de combate em missões  de patrulhamento ofensivo,  ao interior do mato, tal como no tempo em que a guerrilha estava activa.

A malta, para além de estar no fim da comissão,  achava ridículo esses patrulhamentos, pois que começou  a ser comum encontramos, várias vezes,  a meio do caminho, pequenos grupos de combatentes do "IN" que vinham visitar familiares a Bissorã. (**)

E até tinha alguma graça porque quando nos encontravamos e,  após os cumprimentos de cortesia entre os dois "inimigos",  era costume nós perguntarmos onde é que eles iam. E eles respondiam que iam "visitar família no Bissorã".  Então eles nos perguntavam o que fazíamos nós por ali,  em pleno mato e longe do aquartelamento. Nós, em jeito de "gozo",  respondíamos que andávamos em busca de "turra".  E lá partíamos para lados opostos,  cansados e com a sensação de estarmos a ser ridicularizados.

Vai daí,  e até ser verificado pelas nossas altas patentes que naquela altura seriamos mais úteis na zona de aquartelamento,  a malta de quando em vez  lá acampava nas proximidades sem dar muita bronca e assim evitar algum cansaço e quem sabe alguma mina esquecida nos trilhos.

Mais tarde,  e devido a alguma "rebaldaria" da época revolucionária que se estava a instalar na população civil,  veio a ser muito útil acabar com os patrulhamentos na mata, passando antes a ser feitos dentro da localidade. 

Outra das medidas ridículas era,  na época de guerra e de quando em vez, o comandante de Batalhão em determinadas operações enfiar-se numa DO-27  [, o famoso PCV, posto de comando volante]...  Ía a determinado ponto do local da operação e mandava via rádio a malta se pôr na vertical. Isto e só porque o Comandante não tinha mesmo a noção do risco em que punha a malta ao obedecer a tão ridícula ordem.

Após o aparecimento dos mísseis [Strela] deixaram por completo de fazer esses "voos turísticos" no teatro de guerra. Era por isso que  havia alturas em que a malta cá em baixo tinha mesmo que improvisar alguns malabarismos e enganar (?) os senhores estrategas.

Um abraço, Henrique Cerqueira

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Nota do editor:



(**) Vd. poste de 3 de agosto de 2012 > Guiné 63/74 - P10220: Os nossos últimos seis meses (de 25abr74 a 15out74) (12): Os primeiros encontros, em Bissorã, com o inimigo de ontem (Henrique Cerqueira, ex-fur mil, CCAÇ 13, 1973/74)

1 comentário:

Tabanca Grande disse...

Henrique, essas cenas, do pós 25 de abril, já não as vivi, mas mais parecem uma rábula da famosa "guerar do Solnado"!...

Quanto ap PCV, acho que todos lhe tínhamos, desde o início da guerra, um ódio de estimação... Também já não apanhei os Strela...

A tua guerra já era outra. Obrigado pelo teu contributo, sempre precioso e generoso!... Luis