quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Guiné 63/74 - P16785: Manuscrito(s) (Luís Graça) (103): E no 1º de dezembro, a banda a tocar o Ti Zé da Pera Branca...


E no 1º de dezembro,
a banda a tocar
o Ti Zé da Pera Branca

por Luís Graça





(...) E no 1º de dezembro, a banda a tocar
o Ti Zé da Pera Branca,
que era uma paródia  do hino da Restauração,
o hino que um punhado de patriotas,

vagamente monárquicos e republicanos do reviralho,
fazia seu, na tua aldeia,
quiçá para acicatar o Franco de Espanha
e o Salazar de Portugal...


... mas a gente sabia lá 

quem era o Franco, o Salazar
e os grandes deste mundo!
Na escola, só sabíamos do tal Vasconcelos,

que seria defenestrado 
na manhã libertadora do 1º de dezembro,
para exemplo dos traidores da pátria,
os lacaios que  tinham servido os Filipes,

durante a longa noite de sessenta anos,
como te ensinava a tua professora.
Fonte: portugal. Ministério da Educação Nacional -
Livro de leitura da 3ª classe . Carvalhos :
 Liv. dos Carvalhos, imp. 1958. 1 vol., p. 159

Fazia frio, de tremer o queixo, 
nas efemérides do 1º de dezembro de 1640,
e ias agarrado ao capote do teu pai,
a gritar morte ao traidor,

atrás da banda,
pelas ruas e vielas da tua aldeia:
Vais Com Cuspo e Selo, Vais, 
Vasconcelos!
Morte a Castela

e aos seus serviçais!


Sabias lá tu, meu menino,
quem era a pátria,
e o pai da pátria?!
E os seus heróis,
mais do que homens,
menos do que deuses,
sabias lá tu
quem era eles, os heróis 
e os traidores?!

Sabias lá tu quem era o senhor,
professor,
doutor,
Salazar,
o rapa-o-tacho,
a colher de pau
que a tua mãe usava na cozinha ?!


Não sabias, pois claro,
mas tinhas-lhe medo,
ao cara de pau,
de nariz aquilino, 

especado na parede da tua escola do Conde de Ferreira,
olhando-te de soslaio,
vigiando-te e punindo-te,
que os símbolos do poder, 

–   Ouve lá, menino ou menina!  ,
eram como o código de barras da zebra: 
–  Ou memorizas ou morres, 
logo à primeira,
mal nasças, ó zebrinha!


De um lado, o Craveiro Lopes,
que irá a marechal de opereta,
e do outro o Salazar,
ou era ainda o Óscar Carmona,
o dos bigodes farfalhudos ?


Não te esqueças dos nomes 
dos altos magistrados da Nação
que tos podem perguntar, em Lisboa,
no teu exame da admissão! (...)



Excerto de:

Luís Graça - Autobiografia: com Brughel domingo à tarde
(poema, inédito, 2005, c. 40 pp)

5 comentários:

Tabanca Grande disse...

Provavelmente nunca existiu uma letra parodiada do Hino da Restauração... No meu tempo de menino e moço, íamos atrás da banda filarmónica lá da terra, no 1º de dezembro, eu, agarrado ao capote do meu pai, mais os putos da rua..., trauteando uma letra ininteligível para miúdos como nós...

Se calhar foi o meu pai que a inventou, para me passar o gosto pela banda e por estes eventos, já há muito esvaziados de calor patriótico pelo Estado Novo que tinha na Espanha de Franco um importante aliado regional e até internacional...

Nem os adultos sabiam a letra do Hino da Restauração... Não creio que fosse ensinado, sequer, em meados dos anos 50, quando eu andei na Escola...

Hoje creio que já se perdeu o hábito de festejar a efeméride do 1º dezembro com a banda da terra a percorrer as ruas...

O Hino da Restauração é de 1861... A letra original era outra, muito mais veemente, patriótica (ou patrioteira...) e panfletária,

Lusitanos, é chegado
O dia da redempção
Caem do pulso as algemas
Ressurge livre a nação.

... Mas também fazendo, sem rebuço nem pudor, a defesa da Dinastia de Bragança que iria cair meio século depois:

(...) Esta c’roa portugueza
Que por Deus te foi doada
Foi por mão de valerosos
De mil jóias engastada.
Este sceptro que hoje empunhas,
É do mundo respeitado,
Porque em ambos hemisférios
Tem mil povos dominado! (...)

Tinha um refrão que inevitavelmente apelava às armas, à semelhança da Marselhesa:

Às armas, às armas
O ferro empunhar;
A pátria nos chama
Convida a lidar.(...)

http://www.1dezembro.pt/?p=670


Tabanca Grande disse...

E preciso saber a origem do Hino e o contexto em que apareceu...

Ver o o blogue A Viagem dos Argonautas:

CANÇÕES DE INTERVENÇÃO – Hino da Restauração da Independência

By carlosloures / 1 de Dezembro de 2012



(...) O Hino da Restauração (...) foi criado, em 1861, por Eugénio Ricardo Monteiro de Almeida (1820-1869) para uma peça teatral – 1640 ou a Restauração de Portugal, dedicada ao rei D. Pedro V e estreada no dia de aniversário do rei-viúvo D. Fernando II.

O Hino da Restauração era o tema que acompanhava a apoteose final de coroação de D. João IV. Criado em plena Monarquia, a letra deixava de poder ser cantada após a proclamação da República. Porém, a grande popularidade do Hino, permitiu-lhe sobreviver ao repúdio que maioritariamente os símbolos monárquicos provocavam e a letra terá sido adaptada, tanto mais que foi o regime republicano que determinou que o dia 1º de Dezembro fosse feriado nacional.

O hino foi amplamente utilizado pelo regime ditatorial que de Maio de 1926 a Abril de 1974 ocupou o poder. Eis algumas das alterações feitas à letra. A letra original dizia:

Lusitanos é chegado o dia da redenção. /Caem do pulso as algemas. /Ressurge livre a Nação.

Sendo substituída por:

Portugueses celebremos o dia da redenção/em que valentes guerreiros/nos deram livre a Nação.

Onde se dizia:

O Deus de Affonso, em Ourique/Dos livres nos deu a lei:/Nossos braços a sustentem,/Pela pátria, pelo rei

Passou a dizer-se:

A Fé dos Campos d’Ourique/Coragem deu, e Valor,/Aos famosos de quarenta,/Que lutaram com ardor.

Foram também da letra original retiradas as referências à Casa de Bragança. Tudo isso é natural. Registe-se que o hino sobreviveu à febre antimonáqrquica e sobreviveu ao aproveitamento que o regime salazarista dele fez. Os portugueses, em geral, não conhecem a letra, mas sabem de cor a música. (...)

https://aviagemdosargonautas.net/2012/12/01/cancoes-de-intervencao-hino-da-restauracao-da-independencia/

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Lembro-me de uma outra "letra" que era assim:

Oh compadre Zé das Barbas
Isto assim não pode ser...

Um Ab.
António J. P. Costa

Tabanca Grande disse...

Tó Zé, adorava conhecer o resto da letra... No tempo da outrea senhora, o Zé Povinho acabou por desenvoler um certo sentido de humor, que hoje as nossas gerações desconhecem. Desde o teatro de revista aos jornais, a malta aprendeu a dar a volta aos censores, que curiosamente eram... coronéis da tropa, muito para o quadrado... Ab. Luis

Tabanca Grande disse...

No exame de admissão ao liceu, aqui em Lisboa - o que era uma aventura de terror para um puto da província! - recordo-me de me terem perguntado por todos os reis de Portugal, por dinastias, e respetivos cognomes... Tinha tudo na ponta da língua, e até recebi elogios dos seus examinadores!...Sessenta anos depois ainda sou capaz a lista com os nomes, mas não me pergunto pelos cognomes, já fallho alguns...

Hoje caímos no polo oposto, os putos desta geração mão sabem nada de história, e menos ainda da história pátria... Saber algumas datas-chave e contextualizá-las não lhes fazia mal, antes pelo contrário. Um povo sem memória é um povo sem futuro! LG