segunda-feira, 30 de abril de 2018

Guiné 61/74 - P18583: Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capítulos 45 e 46: como te disse, eles aqui fazem a festa do Fanado, que é para fazer umas coisas às mulheres que eu, quando for de férias, te explicarei.




Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3ª CART / BART 6520/72 (1972/74) > 1973 > Bajudas

Foto (e legenda): © José Claudino da Silva (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar): Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da pré-publicação do próximo livro (na versão manuscrita, "Em Nome da Pátria") do nosso camarada José Claudino Silva [foto atual à esquerda] (*)

(i) nasceu em Penafiel, em 1950, "de pai incógnito" (como se dizia na época e infelizmente se continua a dizer, nos dias de hoje), tendo sido criado pela avó materna;

(ii) trabalahou e viveu em Amarante, residindo hoje na Lixa, Felgueiras, onde é vizinho do nosso grã-tabanqueiro, o padre Mário da Lixa, ex-capelão em Mansoa (1967/68), com quem, de resto, tem colaborado em iniciativas culturais, no Barracão da Cultura;

(iii) tem orgulho na sua profissão: bate-chapas, agora reformado; completou o 12.º ano de escolaridade; foi um "homem que se fez a si próprio", sendo já autor de dois livros, publicados (um de poesia e outro de ficção);

(iv) tem página no Facebook; é avô e está a animar o projeto "Bosque dos Avós", na Serra do Marão, em Amarante;

(ix) é membro n.º 756 da nossa Tabanca Grande.


Sinopse:

(i) foi à inspeção em 27 de junho de 1970, e começou a fazer a recruta, no dia 3 de janeiro de 1972, no CICA 1 [Centro de Instrução de Condutores Auto-rodas], no Porto, junto ao palácio de Cristal;

(ii) escreveu a sua primeira carta em 4 de janeiro de 1972, na recruta, no Porto; foi guia ocasional, para os camaradas que vinham de fora e queriam conhecer a cidade, da dos percursos de "turismo sexual"... da Via Norte à Rua Escura;

(iii) passou pelo Regimento de Cavalaria 6, depois da recruta; promovido a 1.º cabo condutor autorrodas, será colocado em Penafiel, e daqui é mobilizado para a Guiné, fazendo parte da 3.ª CART / BART 6250 (Fulacunda, 1972/74);

(iv) chegada à Bissalanca, em 26/6/1972, a bordo de um Boeing dos TAM - Transportes Aéreos Militares; faz a IAO no quartel do Cumeré;

(v) no dia 2 de julho de 1972, domingo, tem licença para ir visitar Bissau, e fica lá mais uns tempos para um tirar um curso de especialista em Berliet;

(vi) um mês depois, parte para Bolama onde se junta aos seus camaradas companhia; partida em duas LDM parea Fulacunda; são "praxados" pelos 'velhinhos' (ou vê-cê-cês), os 'Capicuas", da CART 2772;

(vii) faz a primeira coluna auto até à foz do Rio Fulacunda, onde de 15 em 15 dias a companhia era abastecida por LDM ou LDP; escreve e lê as cartas e os aerogramas de muitos dos seus camaradas analfabetos;

(viii) é "promovido" pelo 1.º sargento a cabo dos reabastecimentos, o que lhe dá alguns pequenos privilégio como o de aprender a datilografar... e a "ter jipe";

(ix) a 'herança' dos 'velhinhos' da CART 2772, "Os Capicuas", que deixam Fulacunda; o Dino partilha um quarto de 3 x 2 m, com mais 3 camaradas, "Os Mórmones de Fulacunda";

(x) Dino, o "cabo de reabastecimentos", o "dono da loja", tem que aprender a lidar com as "diferenças de estatuto", resultantes da hierarquia militar: todos eram clientes da "loja", e todos eram iguais, mas uns mais iguais do que outros, por causa das "divisas"... e dos "galões"...

(xi) faz contas à vida e ao "patacão", de modo a poder casar-se logo que passe à peluda; e ao fim de três meses, está a escrever 30/40 cartas e aerogram as por mês; inicialmente eram 80/100; e descobre o sentido (e a importância) da camaradagem em tempo de guerra.

(xii) como "responsável" pelo reabastecimento não quer que falte a cerveja ao pessoal: em outubro de 1972, o consumo (quinzenal) era já de 6 mil garrafas; ouve dizer, pela primeira vez, na rádio clandestina, que éramos todos colonialistas e que o governo português era fascista; sente-se chocado;

(xiii) fica revoltado por o seu camarada responsável pela cantina, e como ele 1º cabo condutor auto, ter apanhado 10 dias de detenção por uma questão de "lana caprina": é o primeiro castigo no mato...; por outro lado, apanha o paludismo, perde 7 quilos, tem 41 graus de febre, conhece a solidariedade dos camaradas e está grato à competência e desvelo do pessoal de saúde da companhia.

(xiv) em 8/11/1972 festejava-se o Ramadão em Fulacunda e no resto do mundo muçulmano; entretanto, a companhia apanha a primeira arma ao IN, uma PPSH, a famosa "costureirinha" (, o seu matraquear fazia lembrar uma máquina de costura);

(xv) começa a colaborar no jornal da unidade (dirirido pelo alf mil Jor Pinto, nosso grã-tabanqueiro), e é incentivado a prosseguir os seus estudos; surgem as primeiras dúvidas sobre o amor da sua Mely [Maria Amélia], com quem faz, no entanto, as pazes antes do Natal; confidencia-nos, através das cartas à Mely as pequenas besteiras que ele e os seus amigos (como o Zé Leal de Vila das Aves) vão fazendo;

(xvi) chega ao fim o ano de 1972; mas antes disso houve a festa do Natal (vd. capº 34º, já publicado noutro poste); como responsável pelos reabastecimentos, a sua preocupação é ter bebidas frescas, em quantidade, para a malta que regressa do mato, mas o "patacão", ontem como hoje, era sempre pouco;

(xvii) dá a notícia à namorada da morte de Amílcar Cabral (que foi em 20 de janeiro de 1973 na Guiné-Conacri e não no Senegal); passa a haver cinema em Fulacunda: manda uma encomenda postal de 6,5 kg à namorada;

(xviii) em 24 de fevereiro de 1973, dois dias antes do Festival da Canção da RTP, a companhia faz uma operação de 16 horas, capturando três homens e duas Kalashnikov, na tabanca de Farnan.

(xix) é-lhe diagnosticada uma úlcera no estômago que, só muito mais tarde, será devidamente tratada; e escreve sobre a população local, tendo dificuldade em distinguir os balantas dos biafadas;

(xx) em 20/3/1973, escreve à namorada sobre o Fanado feminino, mas mistura este ritual de passagem com a religião muçulmana, o que é incorreto; de resto, a festa do fanado era um mistério, para a grande maioria dos "tugas" e na época as autoridades portuguesas não se metiam neste domínio da esfera privada; só hoje a Mutilação Genital Feminina passou a a ser uma "prática cultural" criminalizada.


2. Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capºs 45 e 46




[O autor faz questão de não corrigir os excertos que transcreve, das cartas e aerogramas que começou a escrever na tropa e depois no CTIG à sua futura esposa. E muito menos fazer autocensura 'a posterior', de acordo com o 'politicamente correto'... Esses excertos vêm a negrito. O livro, que tinha originalmente como título "Em Nome da Pátria", passa a chamar-se "Ai, Dino, o que te fizeram!", frase dita pela avó materna do autor, quando o viu fardado pela primeira vez. Foi ela, de resto, quem o criou. ]



45º Capítulo > O FANADO

A principal carta sobre sexo que escrevi data do dia 18 de Março [DE 1973]. Nela, falo de masturbação e explico porque a esponja dos colchões das camas estão furadas em certos locais. Mas, se querem saber mais, tirem o cavalinho da chuva, nunca divulgarei uma carta tão íntima.

A máquina de tirar café chegou no dia 19 de Março. No dia 20 escrevia mais uma das minhas burrices. Eis a descrição letra a letra:

“Neste mês realizam-se aqui umas festas em que não pode entrar homem nenhum, nem branco nem preto e que se chama O Fanado. Duram cerca de um mês, essas festas que fazem parte da religião dos Muçulmanos. O povo aqui é todo Muçulmano e o Deus deles chama-se Alá e como te disse eles fazem a festa do Fanado, que é para fazer umas coisas às mulheres que eu quando for de férias te explicarei. Ora como a festa é só para as mulheres elas este mês não trabalham de maneira que durante um mês vou ter de lavar a minha roupa o que para ser franco não me agrada nada.

(Apetece-me, por um momento, dar um grito de raiva, perante a clamorosa estupidez duma religião que não é mais do que um grotesco ritual, e um grito ainda mais forte contra governantes arcaicos que cometem o crime de mutilação genital feminina em jovens como as da foto que reproduzo. Penso que, por essa ignomínia, talvez nenhuma delas seja viva. A foto tem 44 anos. Acresce ainda o facto de que, em 2016, em Portugal, se conheceram cerca de 100 casos de mutilação genital feminina).

Quero também que saibas que o governador da Guiné, General Spínola, elogiou a nossa companhia por causa dos “turras” e armas que capturamos. Diz o meu capitão que a continuarmos assim a apanhar armas e “turras” somos de facto capazes de sair mais cedo daqui e irmos para Bissau onde não há guerra. Vamos ver no que isto vai dar”.

Pelo que me lembro sem ler mais, não deu em nada, porque a comissão foi toda em Fulacunda.


46º Capítulo > UM POUCO DE MÚSICA

Não vou sublinhar o que vos digo a seguir pois quero intercalar mais que um tema. Começo por uma encomenda que recebi no dia 22 de Março [de 1973]. Trazia vinho verde e chouriços para o dia de Páscoa. Essa encomenda foi a que menos tempo demorou; exactamente 17 dias. Foi uma agradável surpresa vir tão rapidamente; normalmente demoravam um mês.

O primo da Amélia ia regressar à metrópole por terminar a comissão mas já vinha para cá o Ferreira. Era sempre assim: uns a ir e outros a vir. Dizia eu que também o meu dia de regressar haveria de chegar.

Nesta altura, resolvi caiar a cantina, (isso é o que escrevi), mas não me lembro de o ter feito. Também por estes dias algumas coisas correram mal. Os dois geradores eléctricos avariaram em simultâneo e, embora eu me referisse a que os “turras” não se vinham meter na boca do lobo e tentar atacar-nos a coberto da escuridão, a verdade é que denotava bastante preocupação e, além disso, deixei de tomar banho pois, sem luz, não havia água. Em breve, iria cheirar mais a catinga que os próprios negros.

Também tive de pagar, nesse período, a viagem que tinha decidido fazer à metrópole, em gozo de férias, e, como não tinha poupado dinheiro suficiente para tal, a minha avó ia ter de mandar-me o resto.

Na carta seguinte, não fiz comentários. Decidi enchê-la de frases de amor e pétalas de flores das árvores de Fulacunda, até porque era um domingo.

Dediquei o resto do dia a ouvir música, juntamente com o Silva. Nessa semana, tinha recebido duas cassetes com os álbuns “Déjà Vu” de Crosby Stils Nash Young. O Abraxas de Santana. Onde estavam também incluídas mÚsicas de Melanie Safka etc. Escutem-nas.
______________

Nota do editor:

Último poste da série > 26 de abril de 2018 Guiné 61/74 - P18565: Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capítulos 43 ("A minha úlcera") e 44 ("Biafadas ou balantas ?")

3 comentários:

Tabanca Grande disse...

Dino, o que escreves, não é justo para a grande maioria dos muçulmanos:

(...) "Apetece-me, por um momento, dar um grito de raiva, perante a clamorosa estupidez duma religião que não é mais do que um grotesco ritual, e um grito ainda mais forte contra governantes arcaicos que cometem o crime de mutilação genital feminina em jovens como as da foto que reproduzo. (...)

A Mutilação Genital Feminina é apenas uma prática cultural, aliás muito mais antiga que o Islão, remontando possivelmente ao Egito dos Faraós... Ainda sabemos pouco sobre a sua origem... A prática disseminou-se pelos povos da Áfria subsariana, por alguns do norte de Ágfrica, do Próximo Oriente e da Ásia...

O Islão remonta ao séc. VI. Associada à poligamia, a MGF nãp é contudo uma imposição do Islão.

Tabanca Grande disse...

"Expresso"

Sociedade
Os “números dramáticos” da mutilação genital feminina em Portugal
06.02.2018 às 16h50

[Excerto com a devida vénia:]

(...) Quase 240 casos de mutilação genital feminina foram detetados em Portugal entre 2014 e 2017, avançou esta terça-feira a secretária de Estado da Igualdade, defendendo que estes "números dramáticos" têm de ser combatidos intensificando a luta contra esta prática.
Nos últimos três anos, "deu-se conta de 237 casos, é demasiado", afirmou a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro, num encontro na Associação Corações com Coroa (CCC), em Lisboa, que assinalou o Dia Internacional da Tolerância Zero Contra a Mutilação Genital Feminina.

"Estes números são dramáticos, mas a ideia da dor e da crueldade subjacente a esta prática, além de nos deixar arrepiados tem de nos mobilizar para a ação", sustentou Rosa Monteiro.

Para a governante, é preciso ter "muita coragem para enfrentar o 'status quo'", que "não fala porque desconhece", porque "é incómodo" ou "porque há outros assuntos prioritários".
Rosa Monteiro assinalou os progressos feitos em Portugal e no mundo para combater esta prática, mas advertiu que é preciso fazer mais.

"Se não fizermos de maneira diferente, se não intensificarmos esta luta", estima-se que, até 2030, 54 milhões de raparigas e mulheres possam vir a ser excisadas.
Rosa Monteiro observou que esta "é uma ameaça" que também aumenta com a intensificação dos fluxos migratórios: "Isto traz às nossas sociedades realidades com as quais temos de saber trabalhar".

"Temos de capacitar os profissionais de saúde, os magistrados, os profissionais de justiça", mas também quem trabalha nas escolas para que aprendam "a despistar, a apoiar, a encaminhar e a capacitar estas meninas e mulheres", defendeu.

Este trabalho tem também de ser desenvolvido junto das pessoas e nas comunidades no sentido de as levar a compreender que "há alternativas e caminhos diferentes para as raparigas e mulheres que lhes permitem um estatuto social igualmente valorizado que não passe por estas práticas de violência".

Para Rosa Monteiro, o "grande obstáculo" à denúncia é o "pacto de silêncio entre as mulheres", que "vem de gerações, das avós, das mães e das próprias meninas e raparigas que foram vítimas em Portugal ou quando vão de férias ao seu país de origem".

Em declarações à Lusa, no final do encontro, a embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP) e presidente da associação CCC, Catarina Furtado, disse à agência Lusa que ainda "há um trabalho gigante a fazer-se" para erradicar esta prática. (...)

http://expresso.sapo.pt/sociedade/2018-02-06-Os-numeros-dramaticos-da-mutilacao-genital-feminina-em-Portugal#gs.iHyJmFI

Tabanca Grande disse...

"Expresso"

Sociedade
Os “números dramáticos” da mutilação genital feminina em Portugal
06.02.2018 às 16h50

[Excerto com a devida vénia:]


http://expresso.sapo.pt/sociedade/2018-02-06-Os-numeros-dramaticos-da-mutilacao-genital-feminina-em-Portugal#gs.iHyJmFI


(...) "Já conseguimos, do ponto de vista legislativo, e Portugal teve aqui um papel fundamental, que existisse uma lei de 2011 na Guiné-Bissau", que é um dos países onde mais se pratica a mutilação genital feminina, a proibir esta prática.

A prática já está a ser erradicada nalgumas comunidades, "fruto do investimento político" e do trabalho de organizações não-governamentais nacionais e internacionais, mas ainda há muitas localidades onde continua a fazer-se "longe dos olhos da lei", lamentou.
"Curiosamente verificamos que as comunidades que, em Portugal, praticam a mutilação genital feminina, a maioria guineense, estão mais atrasadas ao nível do conhecimento sobre as consequências nefastas desta prática do que as pessoas que estão nos seus países de origem", frisou a embaixadora da FNUAP.

Isto acontece porque as pessoas "saíram há muito tempo dos seus países, vêm com os seus rituais, com as suas tradições, estão muito fechadas dentro das suas comunidades" e não têm esse conhecimento que resulta do trabalho realizado com as comunidades, líderes religiosos, profissionais, de saúde, professores que "tem sido muito positivo".

"Esse trabalho também tem de ser feito aqui com investimento político, com as associações que estão no terreno, para que estes números não nos envergonhem também a nós. Quando as pessoas dizem 'é lá longe', é mentira. É 'cá perto' e com cidadãos portugueses", salientou Catarina Furtado.

Segundo um estudo da Universidade Nova, feito com dados de 2015, existem em Portugal cerca de 6.600 mulheres excisadas.