segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Guiné 61/74 – P21308: Memórias de Gabú (José Saúde) (95): Um ranger no momento em que apresentava o grupo ao capitão (José Saúde)

1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem.
 
 Memórias de Gabu

Camaradas,  

Contar pormenores da nossa estadia na guerra colonial na Guiné, é tão-só o reviver de imagens que concentram, em todos nós, instantes vividos, mas que, por enquanto, nos vão ainda alimentando a alma.

E são precisamente essas histórias passadas no conflito guineense que me fizeram partir para a elaboração de obras, as quais deixo para a posterioridade, tendo como finalidade passar para as gerações atuais e vindouras, caso assim o queiram, saberem o que foi, de facto, a ida para a guerra de “miúdos”, intitulados então como "carne para canhão”, onde a juventude partia rumo ao desconhecido.

No terreno o “miúdo”, com uma arma na mão, defendia o corpo e a mais não era obrigado. Afinal, a guerra colonial é tão recente e há uma geração, a nossa, que, felizmente, ainda a vive.

Com a chancela da Editora Colibri o meu último livro “Um Ranger na Guerra Colonial Guiné-Bissau 1973/74” integra a Coleção “Memórias de Guerra e Revolução”, cuja direção é pertença do Comandante Almada Contreiras.


Um ranger no momento em que apresentava o grupo ao capitão  
Recordando  

O tempo passava por cuidados intensivos. Sair para o mato impunha precaução, quer a missão passasse por mais uma patrulha às tabancas onde a finalidade era efetuar a inevitável incumbência pela então chamada “psicó”, ou para a proteção de uma coluna, ou para mais uma noitada passada a contar as estrelinhas, sendo a guerra feita pelos zumbidos dos mosquitos que não davam folgas ao sossego do militar pronto a dormir, mas… acordado.

Usufruí de profícuos conhecimentos obtidos em Penude, Lamego, Curso de Operações Especiais / Ranger, para que, quanto da minha mobilização para a guerra acontecesse, jamais abdicasse do que me fora ensinado em pleno sopé da Serra das Meadas, a tal “bíblia sagrada” de todos os rangers.

O curso como instruendo fora, para todos, literalmente penoso, sendo que na condição de instrutor readquiri uma outra bagagem, esta acrescida como fundamental no momento áureo em que a guerra era uma verdade indesmentível. Estávamos no auge de uma peleja que não dava descanso e as nossas mobilizações invariavelmente assumidas como certezas absolutas.

Havia, aliás, preceitos, ordens e princípios básicos que impunham bastas regras de autodefesa. Em Gabu conheci a realidade da guerrilha e aos poucos consegui introduzir no grupo a noção da responsabilidade. Uma verdade que passava pela preparação eficaz para uma nova saída. Nada de “baldas” e nem tão-pouco jogarmos com o facilitismo.  

Ao cimo da parada do quartel de Nova Lamego, local onde o pessoal se concentrava mesmo defronte a um casario com diversos fins, ali ouviam-se os dizeres finais. O armazém de material ficava a dois passos. O pessoal ordeiramente formava, distribuíam-se as munições de entre outro material que porventura pudesse ser utilizado, organizavam-se as incumbências de cada militar e dirigiam-se palavras aos camaradas que partiam rumo ao desconhecido.  

Um belo dia preparei a rapaziada, falhei-lhes da minha intenção, adiantando à conversa para que não houvesse gozos e nem a mínima falta de respeito. Estávamos de partida para mais uma incursão aos matagais de Gabu e por perto passava o capitão Rijo, comandante da nossa Companhia, que esboçou a sua admiração com a inesperada postura que ocasionalmente o furriel lhe havia preparado.  

Com o grupo formado e com o capitão Rijo a olhar de soslaio, eis que solto um grito à ranger que se propagou exaustivamente por todo o recinto, dei então dois passos em frente, bem trabalhados, os calcanhares e as solas dos pés a emitirem um som enorme, corpo hirto, uma magistral paulada e com as minhas cordas vocais entoei uma frase que me fora ensinada nos rangers: “Vossa Excelência meu capitão dá-me licença que mande avançar o grupo para mais uma missão”.  

Reparei que a sua primeira atitude foi de espanto. Ele, que era capitão oriundo da GNR, jamais terá imaginado uma atitude tão autoritária de um mero furriel que, entretanto, levou o oficial a lisonjear-se com a bem-aventurada situação. 
 
Mas a sua reposta à minha inesperada solicitação não foi imediata. Meditou e num curto espaço de segundos a sua resposta ao devolver-me a continência foi com a singela palavra – “pode”. 
 
A malta, sempre traquina, divertiu-se depois à fartazana com a “peça” que o furriel tinha feito ao capitão. Mas a marca estava dada para que, em eventuais situações futuras, o capitão respondesse atempadamente ao monograma de um ranger que comandava um pelotão de destemidos soldados.  
Ali não existiam distinções, todos bebiam pelo mesmo cálice e comiam do mesmo prato. Um por todos, todos por um. E era assim a mensagem que diariamente propunha a uma rapaziada jovem que ainda recordo com um respeito enorme.

Histórias alegres empreendidas no interior do arame farpado, mas sempre com o devastador palcio de guerra ali por perto.


O mato

Um abraço, camaradas 
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523
___________

Nota de M.R.:

Vd. também o poste anterior desta série:

11 comentários:

Hélder Valério disse...

Caro Zé Saúde

O aprumo e o rigor nunca fizeram mal a ninguém.
Como deves saber não fui "especial" mas sempre considerei os valores/atitudes acima referidas como essenciais.
Por esse motivo estive algumas vezes em discordância com outros camaradas quanto ao "julgamento" que faziam do comportamento do então 2º Cmdt. do BCAV2922 (a comandar interinamente o Batalhão enquanto lá estive). Reconhecia que por vezes ele excedia-se em coisas que podiam configurar "prepotência" mas podia-se sempre ver por outro ângulo e "ver" as preocupações em manter o rigor (operacional e comportamental) como parte importante para manter a sobrevivência.

Quanto ao teu desempenho pode, de facto, ser entendido como "teatral", se assim alguém quiser entender, mas tenho para mim que sendo já uma espécie de rotina, apenas beneficiou da ocasional (?) passagem do Capitão.

Abraço, caro lutador/sobrevivente.

Hélder Sousa

Valdemar Silva disse...

Caro Zé Saúde, sempre impecavelmente fardado.
Provavelmente sou eu que não percebo, então o Furriel de Operações Especiais Ranger comandava uns homens? Então esses homens não faziam parte de um Pelotão , Grupo de Combate, que por sua vez faziam parte de uma Companhia?
As Companhias eram formadas por quatro Pelotões, ou Grupos de Combate, havendo um Alferes e um Furriel de Operações Especiais em cada Companhia. As saídas para o 'mato' no mínimo seriam a nível de Pelotão, comandados por um Alferes ou em sua substituição o Furriel mais 'velho' desse Pelotão.
Então havia no Batalhão uns homens, ou seja um pequeno grupo de soldados comandados por um Furriel que saíam para umas Oprações Especiais no 'mato' ? Não percebo.
Também não percebo '...distribuía-se munições de entre outro material que porventura haveria ser utilizado..', Então todos não tinham já consigo arma e munições distribuídas? (até para a retrete devia andar com eles).
Na minha Companhia, mesmo quando fixos em Nova Lamego, todos desde o Capitão ao Soldado tinham a arma e munições consigo, incluído os homens das respectivas Secções que tinham consigo granadas de bazuca, morteiro 60 e fitas da metralhadora, nas saídas para o operações só ao homem das transmissões é que distribuído 'material' para ser porventura utilizado.
Desculpa estar a chatear com esta conversa, que nada tem com a disciplina sempre necessária na tropa e muito especialmente no palco de guerra como foi o nosso caso na Guiné.

Ab., saúde da boa e cuidado com o bicho que nem respeita os alentejanos.
Valdemar Queiroz

José Saúde disse...

Camarada Valdemar,

Percebo as tuas interrogações. São sempre oportunas. Aliás, justas e creio que, no mínimo, atendíveis. Mas, como sabes, nem todas as situações enveredavam pelo mesmo diapasão. Isto que fique claro. Nada de inusitados "roncos", ou subir à montanha de Maomé só pelo prazer instantâneo de um eficiente caminhante.

Vamos à sucinta explicação: Eu furriel miliciano, Zé Saúde, e um outro camarada, também do meu curso de ranger, 1º de 1973, de nome Rui Fernandes Álvares, fomos ao longo da comissão, que foi mais curta devido à Revolução do 25 de Abril, os graduados que comandávamos o grupo que paulatinamente partia para o mato.

Tínhamos, sim, um alferes mas jamais se apresentou ao "serviço" quando a situação parecia correr perigo, ou mesmo que nem tanto assim o impusesse. Melhor, era um elemento que se acomodou ao gabinete operacional onde se estudavam os pormenores do conflito e comandado por um capitão. Fico por aqui.

Logo, tudo aquilo que fossem saídas para o mato, lá estavam os furriéis na linha da frente. Proteções a colunas, patrulhamentos diários, quer estes fossem de noite ou de dia, proteções avançadas, como eram os casos à pista de aviação, ou do próprio aquartelamento, ou em espontâneas chegadas de "gentes consideradas finas" ao quartel, visitas a tabancas, a chamada "psicó", ou ainda quando havia conhecimento da presença do IN em determinado local, sendo a nossa presença urgente, para além das muitas atividades que a guerra impunha, mesmo as noturnas, lá estávamos nós a carregar com o peso de comandar aquele grupo de homens que me deixaram saudades.

Repara que eu não falo em pelotão. Porquê? Bem, porque eu não vou entrar pelo pormenor da composição das unidades. Todos, julgo eu, o sabemos. Isto é um outro tema que obedece a um esquematizar das composição das unidades no terreno.

Mais, todos nós sabemos que ao longo das nossas comissões havia equipamentos de guerra que eram determinantes para um inevitável acompanhamento pessoal e sobretudo intransmissível. Todos, principalmente no mato, o conhecemos. Nada a dizer e nem tão-pouco a contrapor. Esta uma inquestionável verdade. A não ser que sejamos mais papistas que o Papa, ou condutores de mando divino onde as nossas verdades são superiores a um bombardeamento noturno vivido, e comentado, por cada um dos camaradas que viveu ao vivo e a "cores" esse terrível drama.

Havia situações em que era necessário um reforçar de material de guerra, mormente de granadas, de entre outras munições, porque a saída assim o impunha. Eis a razão pela qual o local onde normalmente reunisse-mos fosse ao cimo da parada onde estava situado o aquartelamento do respetivo material.

Fica porém a certeza que gostei das tuas oportunas interrogações. São sempre bem-vindas. A luz que nos ilumina vai, entretanto, recordando os tempos de uma guerra que nos fora adversa, no nosso caso na Guiné, sabendo-se, contudo, que este conflito colonial tende cair no limbo do esquecimento.

Mas nós, antigos combatentes, jamais deixaremos que a nossa força assim o deixe.

Já agora, se tiveres oportunidade, compra o meu nono livro editado - "Um Ranger na Guerra Colonial Guiné-Bissau 1973/74" - pela Editora Colibri, e certamente encontrarás em cada tema tratado resquícios de um passado que fora comum a todos os camaradas que palmilharam o solo guineense.

Abraço camarada Valdemar, força para encarares os tempos atuais e vindouros porque o "bichinho" continua a fazer estragos.

Zé Saúde

Carlos Vinhal disse...

Caro Zé Saúde, caso para dizer que "cagança" não te faltava ou não fosses tu um Rânger. Estragaste a estória ao escreveres mais à frente que "A malta, sempre traquina, divertiu-se depois à fartazana com a “peça” que o furriel tinha feito ao capitão". Onde estava então a disciplina e a verdade da continência ao CMDT de Companhia?
Normalmente, na minha 2732, as formaturas da manhã, para saídas para o mato ou colunas auto, eram informais e não havia honras militares. Cada um, quando passava pelo seu superior, a primeira vez no dia, batia a pala da ordem mas um respeitoso bom dia era suficiente.
Como o Valdemar, também eu não percebi muito bem a distribuição das munições, uma vez que cada militar tinha à sua guarda 5 carregadores de G3 e algumas granadas ofensivas para defesa pessoal. O que acontecia, era a cada militar das secções da bazooka e do morteiro 60, distribuir pelo menos duas granadas porque alguém tinha de ajudar nessa tarefa, porque raras vezes se levavam carregadores nativos.
Voltando aos Rângeres portugueses, tenho sérias dúvidas que os houvesse na nossa Guerra, assim como do uso da boina verde, no presente, pelos nossos camaradas, a qual não existia no nosso tempo, apenas foi instituída em 1989 a quem terminava o Curso de Operações Especiais.
Da minha experiência, sempre achei que os graduados com o curso de "Operações Especiais" não tiravam partido dos seus conhecimentos operacionais, porque integrados na tropa normal, pouco mais faziam que um alferes ou um furriel atirador. Aliás, estávamos quase sempre dependentes da Milícia e até dos Guias, que nos orientavam e tinham mais percepção dos perigos e da proximidade do IN, não estivessem eles no seu habitat. Parece que houve algumas experiências na Guiné com a criação de pequenos grupos de intervenção, comandados por graduados vindos das Operações Especiais, mas na Guiné não era prático porque todos éramos poucos quando saíamos. A tropa helitransportada, essa sim podia actuar em pequenos grupos porque tinha por trás apoio.
Deixo-te um abraço e os votos de boa saúde.
Carlos Vinhal

Valdemar Silva disse...

Ok Zé Saúde, percebi.
Não nos podemos esquecer que a 'ficção' criada nestes livros é um pouco para ser entendida por os mais jovens que não estiveram nas três frentes da guerra colonial e neste caso em especial na guerra da Guiné.
Zé Saúde, sabemos muito bem, e que me desculpem os Oficiais, que aquele guerra foi a 'guerra dos Furrieis', frequentemente muitos Pelotões eram comandados por Furrieis.
Também estou como o Carlos Vinhal, parece-me haver uma certa 'cagança' com isso dos Rangers de Operações Especiais. Naquela guerra não havia inimigo 'convencional' para ser sabotado de surpresa: sabotar pontes e outras estruturas do inimigo e regressar à base, não era naquele teatro de guerra de guerrilha. Aliás nem fazia sentido sabotar as nossas pontes.
A fotografia apresentada no 'mato' é o que se pode chamar 'é pra fotografia', não se ia pro mato com divisas à vista e de camisola branca.
Para não ferir suscetibilidades, ou melindre, quanto a guerra colonial, não nos podemos esquecer que quem foi para Angola, p.ex., no 'Uige' foi num navio fretado à CCN Companhia Colonial de Navegação, que manteve sempre esta denominação social sem problemas de consciência.

Ab. e saúde da boa
Valdemar Queiroz

Carlos Vinhal disse...

Caro Valdemar Queiroz, falaste na foto, coisa que eu evitei, mas já sim, com todo o respeito, consideração e estima que tenho pelo Zé Saúde, não posso deixar de dizer que nunca autorizei o meu pessoal a transportar a arma como se fosse um cajado, mesmo em locais considerados seguros. Contudo, pelas imensas fotos aqui publicadas, parece que era vulgar, mas acarretava algum perigo porque não se tinha controle visual sobre a posição da patilha de segurança da arma.
Carlos Vinhal

Valdemar Silva disse...

Pois Carlos Vinhal.
Aquilo é 'cajado arma'. Provavelmente o Zé Saúde, alentejano habituado às caçadas, andava no 'mato' com a G3 naquela posição.
A G3 creio que pesava 3,700 quilogramas, quando saíamos do Quartel que passado uns km começava a pesar cada vez mais.
Só havia duas maneiras de andar com a G3, mas sempre utilizando a bandoleira: ou de bandoleira atravessada do ombro ou simplesmente com a bandoleira ao ombro, mas sempre com a folga na bandoleira para o carregador ficar encaixado na nossa cintura ou quadril por forma a ser agarrada pelo cano assentando o ante-braço . A diferença da bandoleira ser atravessada ao ombro ou simplesmente ao ombro tinha que ver com a dificuldade de a seguir ao 'deitar' ter de haver uma reacção rápida numa situação de emboscada.
Cinquenta anos depois ainda estamos com estas conversas, vá lá que ainda nos lembramos, o pior seria a porra daquela pergunta: o que é uma G3? F....osga-se!!

Abraço e cuidado com o bicho que pelos vistos nem com 'verde ou maduro' lá vai.
Valdemar Queiroz

Fernando Ribeiro disse...

Eu não tencionava intervir nesta conversa. Afinal de contas, a cagança dos ex-rangers, ex-comandos e ex-outras coisas só aos próprios diz respeito. Não é daqui que vem mal ao mundo. Se eles se sentem felizes com a cagança que têm, pois que sejam felizes. Eu fui alferes miliciano atirador, não tenho cagança nem posso ter, e não me sinto infeliz por isso. Cumpri a minha obrigação, da melhor maneira que pude e soube fazer, e isso me basta. Tenho a consciência tranquila e não posso, nem quero, reivindicar mais.

O que me trouxe a este debate foi a afirmação seguinte do camarada Valdemar Queiroz: «...sabemos muito bem, e que me desculpem os Oficiais, que aquele guerra foi a 'guerra dos Furrieis', frequentemente muitos Pelotões eram comandados por Furrieis.» Ao ler isto, fiquei sem saber como reagir. Para não vir a interpretar mal o que acabei de ler, pergunto ao camarada Valdemar: porque é que muitos pelotões eram comandados por furriéis? Eu não fiz a guerra na Guiné, mas sim em Angola. Onde eu estive (região dos Dembos), os pelotões eram sempre comandados pelos respetivos alferes, sempre e em todas as ocasiões, quaisquer que elas fossem, a menos que os alferes estivessem absolutamente impossibilitados de o fazer, por se encontrarem doentes ou em gozo de férias, por exemplo. De resto, nunca um pelotão ou grupo de combate deixava de ser comandado pelo seu alferes, fosse em que missão fosse: operação militar, ação militar, patrulhamento, coluna auto, escolta, etc., etc. Porque é que diz que aquela guerra foi a "guerra dos furriéis", companheiro Valdemar?

Estou com o camarada Carlos Vinhal, quando afirma «...nunca autorizei o meu pessoal a transportar a arma como se fosse um cajado, mesmo em locais considerados seguros.» Eu posso afirmar a mesmíssima coisa e até mais: também nunca autorizei o meu pessoal a transportar a arma em bandoleira, fosse de que forma fosse. A bandoleira era para ficar no quartel. A G3 era por nós transportada "nua" nas mãos, e só nas mãos. Sempre, sempre, sempre e em todas as circunstâncias. Se uma operação durasse quatro dias, a arma era transportada nas mãos durante esses quatro dias. Custava? Ah, pois custava! Eram uma dores nos braços, que até as lágrimas nos vinham aos olhos! Mas nunca deixámos de transportar a G3, a peso, nas mãos. Sempre.

Um grande abraço


Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alferes miliciano da C.Caç. 3535, do B.Caç. 3880, Angola 1972-74

Carlos Vinhal disse...

Caro Fernando Ribeiro, o termo "cagança" fui eu que o utilizei, mas de modo nenhum com o sentido ofensivo/depreciativo do comportamento dos meus camaradas Op Esp. Se o quisesse fazer diria "presunção".
Quanto aos furriéis comandarem pelotões, era a coisa mais vulgar na "nossa guerra". O 4.º Pelotão da minha CART 2732 (Companhia independente) teve 3 alferes. Entre as saídas de uns e as novas "aquisições", quem comandava o Pelotão? O furriel mais velho ao serviço. Curiosamente, eu próprio comandei este Pelotão numa saída para o mato, sendo furriel do 3.º Pelotão.
Por outro lado, alferes a comandar Companhias, como se dizia então, era mato. A minha Companhia teve 6 capitães, posso enumerá-los. Nos intervalos, e foram muitos, quem comandou a CART 2732? Os alferes mais velhos, na altura ao serviço.
Já agora, vem a talho de foice, um cunhado meu, furriel miliciano em Moçambique no fim da guerra, foi graduado em alferes e passou a comandar um dos Pelotões da sua Companhia.
Abraço e saúde da boa.
Carlos Vinhal

Valdemar Silva disse...

Caro Fernando Ribeiro
O nosso coeditor Carlos Vinhal já deu a cabal explicação quanto aos muitos Furrieis serem os Comts. de Pelotão.
Evidentemente que se tratava de substituição do respectivo Alferes, nomeadamente nas férias,
mas havia muitas situações que a substituição era quase 3/4 da Comissão, por razões de transferências ou por motivos de saúde.
A 'guerra dos furrieis' é uma forma simples de explicar serem os furrieis os da primeira linha à alinhar em todas as acções de combate, evidentemente que aquela guerra na Guiné foi de todos os militares principalmente dos soldados metropolitanos que morrerem em combate, por os «grandes» políticos da época não terem capacidade de resolver o problema das colónias, e os soldados do recrutamento local que foram apanhados na defesa da bandeira portuguesa sem perceberem muito bem porquê.

Ab., e saúde da boa
Valdemar Queiroz

Fernando Ribeiro disse...

Obrigado pelas vossas respostas e pela paciência em dá-las.

É evidente que ao longo de uma comissão com a duração de dois anos iam acontecendo alterações na composição das unidades e subunidades, pelos mais diversos motivos, tais como baixas em campanha, doenças, acidentes, punições, etc., e até cunhas. Mas isso tanto acontecia ao nível de oficiais, como acontecia ao nível de sargentos ou de praças. A elevada rotatividade de oficiais na Guiné é que me provoca muita estranheza. A minha companhia em Angola teve dois capitães, não teve cinco ou seis! (Eu próprio a comandei, apesar de ser só alferes. Quem me valeu foi o primeiro-sargento, que me aconselhou como um pai aconselha um filho, senão eu estaria feito ao bife... Aliás, ele tinha idade para ser meu pai.) Um batalhão, companhia ou pelotão que está sempre a mudar de comandante não pode ter um mínimo de coesão, espírito de corpo e disciplina. O comandante do meu batalhão foi promovido a coronel a meio da comissão, mas nem por isso foi substituído. Mesmo com o posto de coronel, continuou a comandar o batalhão até ao último dia.

Nesta fotografia pode ver-se o meu grupo de combate quase todo, aparentemente antes de uma partida para uma coluna auto na região dos Dembos. Destacado, está um dos meus furriéis, o Luis Macedo, que foi um valente entre os valentes. Desta fotografia extraí e ampliei, tanto quanto pude, um dos soldados que está mais ou menos a meio da "formatura". É difícil identificá-lo, mas parece-me ser um moço de Silva Porto que se chamava Lucas Quinta. A imagem ampliada dele é esta. Julgo que é bem visível a coronha da sua G3, em que se pode observar a concavidade onde se prendia a bandoleira da arma, mas a bandoleira não está lá. Era assim mesmo, sem bandoleira nem nada, que na minha companhia (e não só) transportávamos as nossas espingardas. Repare-se também na aparente facilidade com que o Lucas segura a arma, como se a G3 fosse tão leve como um brinquedo de plástico. Ao fim de várias operações com muitos dias de sofrimento intolerável, acabávamos por nos habituar a transportar a G3 sempre nas mãos e já quase não dávamos por isso.

Um grande abraço


Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alferes miliciano da C.Caç. 3535, do B.Caç. 3880, Angola 1972-74