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segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27532: Documentos (45): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed. (Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte III: "Tenho a 2ª edição, 1969... Não há nenhum mapa desdobrável... A capa é ligeiramente diferente... O paleio é o mesmo" (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS / BCAÇ 2912, Galomaro, 1970/72)



1. Comentário do António Tavares ao poste P 5943 (*):

(...) Em 2010 foram publicados dois escritos, no blogue da Tabanca Grande, com a capa do livro "Missão na Guiné": um escrito é meu (poste P5943) (**) e o outro é do Eduardo Campos (poste P5886).

O autor de ambos os livros é o Estado Maior do Exército: Lisboa, SPEME, 1969 (2ª. Edição) e 1971 (referido pelo Campos).

As capas com a foto de Bissau são diferentes e o teor um pouco desigual, mas o essencial é igual. Nos dois livros não existe nenhum um mapa desdobrável do Comando Territorial Independente da Guiné (...)


Capa da 2ª edição, Lisboa,
SPEME, 1969

2. Recorde-se um excerto da mensagem de António Tavares (ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, Galomaro, 1970/72), com data de 3 de Março de 2010

(...) Ao ler o P5886 (**) , do Eduardo Campos, fui comparar a capa do meu “Missão na Guiné” com o reproduzido no dito poste e verifico que a capa é diferente. Tenho a 2.ª Edição de 1969, do Estado Maior do Exército. (...)

Os escritos devem ser os mesmos, não vejo capacidades financeiras nem intelectuais para outras doutrinas numa outra edição com diferença de dois anos!

Era mais fácil aos pensadores de então mandarem trabalhar as máquinas das oficinas da SPEME do que ocuparem as suas já gastas ideias!

A segunda página começa com a fotografia anexa  e o Canto VII, de “Os Lusíadas”.

Aqui, a minha perplexidade! …”Os Lusíadas”, de Luís de Camões, poema épico! “Os Lusíadas”, escrito do séc. XVI, de 10 Cantos,  versejados com 1102 oitavas.

Luís de Camões que me foi ensinado nos anos 50 do século passado… uma das obras mais difíceis de interpretação… Confesso a minha dificuldade na interpretação desta oitava (no livro,  quadra!)

Consultei a minha 3.ª edição de “Os Lusíadas”, de Emanuel P. Ramos, da Porto Editora Lda., que me custou 40$00, e confirmo que a 3.ª oitava do dito canto está incompleta!

Começa a doutrinação  moda do governo de então!

Mas o que interessava para uma população maioritariamente sem alfabetização era passar a ideia “do cumprimento do teu DEVER de Soldado e de Português – a defesa da PÁTRIA” (sic).

A Pátria que tantos dissabores causou à geração dos ex-combatentes.

A Pátria que obrigava a terminar a correspondência oficial … A Bem da Nação!

A Pátria que esquece os seus ex-combatentes!


A monografia  (estudo geográfico e histórico) da Guiné tem descrições, que os ex-combatentes tão bem conheceram e tanto sofreram naquela terra mártir.

Uma obra à medida (literatura) e feitio (fotos) do antigo regime.

Quatro decénios decorridos a "Missão na Guiné" é um livro de consulta que me faz lembrar a história daquele país de tanta diversidade étnica, autóctone e não-autóctone como brancos, mestiços, cabo-verdianos e libaneses em que o crioulo é a língua usada para se entenderem entre si!

Transcrevo passagens da "Missão na Guiné#:

(...) "O cumprimento da nossa MISSÃO vai exigir, ainda, tempo e muitos sacrifícios. Mas, a Vontade dos Homens de todas as raças e credos que a nossa História juntou sob a mesma e gloriosa Bandeira há-de, necessariamente, prevalecer! 

"Basta seres como tu próprio és, para, na alegria do regresso, poderes gritar bem alto àqueles que no cais orgulhosamente te aguardem – MISSÃO CUMPRIDA!" (...
)

Um abraço do,
António Tavares
ex-Fur Mil SAM
Foz do Douro, 03-03-2010

(Revisão / fixação de texto, negritos,  título: LG)
________________________

Notas dos editores CV/LG:

(*) Vd. poste de 13 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27525: Documentos (44): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed., Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte II: "Monografia da Guiné: Aspeto físico (pp. 11-23)

2 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Tavares, obrigado pelos teus esclarecimentos...Acrescento eu., com uma interrogação: quem seria o "ideólogo" da brochura ? Quem escreveu a primeira parte ("Missão no Ultramar"), que era obviamente a verdadeira mensagem-massagem de natureza político-ideológica, destinada ao Zé Soldado ? O resto, era "folheto turístico"...

Recordo que na época, em 1967, era CEME (Chefe do Estado Maior do Exército) o general Luís da Câmara Pina (1904–1980), um "alfacinha", engenheiro militar, matemático (!), considerado um homem culto no meio castrense (leia-se: erudito) e sobretudo muito poderoso e influenre...

Eis o que diz dele a "minha IA", que é uma "rapariga" bem informada e ponderada, e que em geral não diz grandes asneiras:

(...) Foi uma das figuras mais influentes e controversas das Forças Armadas Portuguesas durante o Estado Novo, sobretudo no período da Guerra Colonial (1961–1974). A sua importância resulta menos de feitos no campo de batalha e mais do papel político-militar central que desempenhou como Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) durante vários anos decisivos.

(...) Cargo principal: CEME (Chefe do Estado-Maior do Exército) (1958-1969, portanto nos anos 1960, em plena Guerra Colonial).

Câmara Pina era visto como um militar de aparelho, profundamente integrado na lógica do regime, com enorme influência sobre promoções, doutrina militar e posicionamento político do Exército.

(...) Durante a Guerra Colonial, Câmara Pina foi: (i) m dos principais defensores da continuação da guerra em África; (ii) apoiante firme e intransigtente da doutrina do “Portugal do Minho a Timor”, rejeitando qualquer solução política ou negociada; (iii) um obstáculo sistemático a reformas estratégicas, tanto militares como políticas

Enquanto CEME, teve poder real sobre: (i) nbomeações de comandos; (ii) progressões na carreira; (iii) Marginalização de oficiais considerados “liberais” ou críticos do regime e da guerra em África.

Isto fez dele uma figura temida e respeitada, mas também profundamente contestada dentro do Exército, sobretudo por oficiais mais jovens.

Em relação ao regime, Câmara Pina foi: (i) eal a Salazar e, mais tarde, a Marcelo Caetano; (ii) fazia parte da chamada “linha dura” do regime; (iii) foi um dos generais que viam qualquer contestação interna como ameaça política, não apenas militar.

Embora Marcelo Caetano tentasse alguma abertura limitada (a famosa "primaver política!, que nem sequer chegou às casernas da tropa), Câmara Pina manteve uma postura intransigente, contribuindo para o bloqueio de soluções alternativas para o conflito colonial.

Conflito com os capitães e o MFA: o seu legado acaba por estar intimamente ligado à génese do Movimento das Forças Armadas (MFA): (i) as políticas de Câmara Pina em matéria de promoções e carreiras; (ii) as desigualdade entre oficiais do quadro permanente e milicianos; (iii) a sensação de impasse militar e político, etc. foram fatores centrais para o descontentamento que culminaria no 25 de Abril de 1974.

(..:) Hoje, Luís da Câmara Pina é geralmente visto como: (i) um defensor coerente da visão estratégica do regime; (ii) um dos principais responsáveis pelo prolongamento da Guerra Colonial (e os seus sacrifícios inúteis); (iii) uma figura que contribuiu para a ruptura entre o Exército e o poder político, ao tentar manter controlo absoluto sobre uma instituição em transformação.

Em resumo, é uma personalidade-chave para compreender porque falhou a adaptação do regime e porque o Exército acabou por se revoltar contra ele próprio.


Pesquia: LG + IA / ChatGPT (Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Tavares, já não me lembrava de todo do que tinhas escrito em 26/2/2010!...Não leves a mal... O teu poste era o P5943 (!), e a gente já vai no 27 mil quinhentos e tal... Quanto água já passou pela tua Foz do Douro...

Mas o que dizes sobre a estrofe 3 do Canto VII dos nossos imortais "Os Lusíados" (genial poema épico, tão mal tratado no nosso tempo, por toda a toda a gente, a começar pelos nossos professores a acabar pelos nossos dirigentes...), merece o meu acordo.

Essa estrofe é uma das mais belas e significativas que o poeta constrói em termos de visão do mundo e da vida , sobre o povo português. Mas não pode ser transposta, à letra, para o Portugal de meados do séc. XX, com incapacidade (estratégica) para fechar um ciclo de 500 anos da sua história.

É preciso ver o contexto: neste ponto do poema, Camões faz o elogio dos Portugueses, que, muito embora fosse, "poucos em número" e com "limitados recursos", empreenderam grandes feitos (ou seja: a expansão marítima e mas também "a divulgação da fé cristã")...

E aqui temos de dar o devido desconto à liberdade de criação poética: seguindo a tradição da anntiguidade clássica, era preciso aliar à "ambição" de um povo", pequeno e humilde, a o favor e a benção dos deuses ("Providência divina", para um cristão do séc. XVI).

Vejamos verso a verso a estrofe 3, Canto VII:

(i) "Vós, portugueses poucos, quanto fortes" (=pequenez numérica dos portugueses, contraposta à sua grande força moral e coragem);
(ii) "Que o fraco poder vosso não pesais" (=apesar das limitações do seu poder material, não se deixavam deter pela consciência dos seus pontos fracos);
(iii) "Vós, que à custa de vossas várias mortes" (=as perdas em vidas e cabedais);
(iv) "A lei da vida eterna dilatais (=cristianismo);
(v) "Assi do Céu deitadas são as sortes" (=destino como vontade dividina):
(vI/vii) "Que vós, por muito pouco que sejais, / Muito façais na santa cristandade" (=um povo pequeno e humilde capaz de realizar grandes feitos em prol dum ideal, que era mais do que a fé; a santa cristande era também uma cultura e uma civilização);
(viii) "Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!" (= Cristo exalta os humildes; e, como tal, eleva Portugal aos olhos do mundo apesar da sua pequenez).