Foto nº 1 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > Op Mabecos Bravios > 2 de fevereiro de 1969 > Concentração das NT em Canjadude, quartel guarnecido pela CCAÇ 5, "Gatos Pretos".
Fotos (e legendas): © Hilário Peixeiro (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. Este é o testemunho do cor int ref Hilário Peixeiro, ex-capitão, cmdt da CCAÇ 2403 / BCAÇ 2851, Nova Lamego, Piche, Fá Mandinga, Olossato e Mansabá, 1968/70. Reeditamos o seu relatório da Op Mabecos Bravios, agora na série "Documentos" (*).
Natural de Beja, vive atualmente em Elvas. É da colheita de 1941. Deu há dois anos uma extensa entrevista ao jornal "Linhas de Elvas, sobre a sua história de vida, a sua carreira militar e a sua participação no 25 de Abril. É membro da nossa Tabanca Grande desde 10 de maio de 2011. Tem 18 referências no nosso blogue. Tem página no Facebook. É particante de golfe,.
A retirada de Madina do Boé
por Hilário Peixeiro
Durante o mês de Janeiro [de 1969] tiveram lugar os preparativos e reconhecimentos na zona do Boé, com vista à Operação de evacuação de Madina do Boé, denominada “Mabecos Bravios”.
Para além da CCaç 1790, local, comandada pelo Cap inf [José] Aparício, participaram na operação outras 6 Companhias [incluindo a CCaç 2405, Destacamento F].
A 2 de Fevereiro [de 1969] a CCaç 2403, com 3 Gr Comb [Destacamento D ], deslocou-se para Canjadude e depois para o Cheche onde chegou já no final do dia, transportada nas viaturas destinadas ao transporte, no regresso, dos materiais da CCaç 1790 e da população de Madina.
Desta vez todos os Gr Comb eram comandados pelos respectivos alferes.
Juntamente com a CCaç 2405, do Cap Jerónimo [Destacamento F], atravessou o Corubal numa das jangadas, recém-construídas para o efeito, indo cada uma ocupar as colinas que flanqueavam a estrada para Madina, à esquerda e à direita.
Quando as Companhias se separaram, já noite fechada, o IN lançou 2 granadas de morteiro sobre a estrada, sem consequências, o que, 15/20 minutos antes, poderia ter tido resultados bem diferentes.
Na manhã seguinte [3 de fevereiro], as Companhias seguiram, apeadas, rumo a Madina, sempre sobrevoadas por 1 T6 ou 1 DO até ao final do dia.
Foto nº 3 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > 3 de fevereiro de 1969 > Progressão da coluna em direção a Madina do Boé, sob a proteção do DO 27 do srgt pil Honório
Foto nº 4 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > 3 de fevereiro de 1969 > Progressão da coluna em direção a Madina do Boé, sob a proteção do DO 27 do srgt pil Honório
A meio da manhã [do dia 3 de fevereiro] houve um reabastecimento de água, planeado e, mais à frente, não planeado, um fortíssimo ataque de abelhas à CCaç 2405 [Destacamento F] que deu origem à evacuação de alguns homens no heli do Comandante da Operação, Cor [Hélio] Felgas, que aterrara entretanto.
Este contratempo provocou grande atraso na coluna e, a certa altura, o efeito do calor e das abelhas fez-se sentir mais acentuadamente sobre a CCaç 2405, tendo a CCaç 2403 [Destacamento D] que ia na retaguarda, passado para a frente com o intuito de pedir a Madina reabastecimento de água para o pessoal mais atrasado que estivesse em dificuldades.
Quando, cerca de 10 minutos depois, um Gr Comb se preparava para sair do quartel, chegou a outra Companhia [CCAÇ 2405].
Enquanto o pessoal foi instalado, os Capitães receberam do Comandante a missão para o dia seguinte [4 de fevereiro] que consistia na ocupação dos morros que se estendiam a sul de Madina entre esta e a República da Guiné.
Foto nº 5 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > 3 de fevereiro de 1969 > Evacuação de vítimas de ataques de abelhas e insolação, com o helicanhão a sobrevoar a zona.
Foto nº 6 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé > 3 de fevereiro de 1969 > Viaturas das NT (Mercedes), abandonadas em colunas anteriores.
Foto nº 7 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé > 3 de fevereiro de 1969 > Viatura das NT abandonada (Berliet)
Foto nº 8 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé > 4/5 de fevereiro de 1969 > Viatura das NT abandonada (Berliet)
Foto nº 9 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > Madina do Boé > 5 de fevereiro de 1969 > Reparação de GMC (rebocada) e sem paragem da coluna, de regresso a Cheche.
Quando se fez dia [em 5 de fevereiro de 1969] o pessoal ficou surpreendido com o cabeço a que Madina estava encostada e os que a rodeavam. Eram autênticas “montanhas” na Guiné, onde tudo era plano.
As Companhias ocuparam as elevações que lhes foram indicadas e aí permaneceram nesse dia enquanto as viaturas chegaram e no dia seguinte enquanto se procedeu ao seu carregamento com os materiais da guarnição e da população civil que ia ser deslocada para Nova Lamego.
No dia 6 [de fevereiro], logo que se fez dia, deslocaram-se para a coluna que já se encontrava em movimento a caminho do Cheche, assumindo a segurança dos flancos e retaguarda.
Antes de atingir o rio Corubal, a coluna ainda foi alvo de mais um feroz ataque de abelhas que só provocou, como vítimas, a morte de dois cães da população.
Foto nº 10 > Guiné >Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > 6 de fevereiro de 1969 > Imagem da jangada com a CCaç 2403 a embarcar para a última travessia antes da tragédia, na maregm sul (esquerda) do rio Corubal
Foto nº 11 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > 6 de fevereiro de 1969 > Imagem da jangada com a CCaç 2403 a embarcar para a última travessia antes da tragédia.
Foto nº 12 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > 6 de fevereiro de 1969 > Imagem do pessoal da CCaç 2403 a embarcar para a última travessia antes da tragédia.
Fotos (e legendas): © Hilário Peixeiro (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
As viaturas e pessoal foram atravessando o rio até só restarem as 2 Companhias e parte da CCaç 1790 de Madina. Comandava a operação de carregamento da jangada o Cap Aparício [da CCAÇ 1790].
Na penúltima travessia foram transportadas a CCaç 2403 e parte da CCaç 2405, tendo a primeira recebido imediatamente ordem do Cor Felgas para montar a segurança do flanco esquerdo da coluna que partiria, logo que pronta, rumo a Canjadude.
Para a última travessia, seria embarcado o pessoal que restava das CCaç 2405 e CCaç 1790, muito menos de 100 homens.
Enquanto se aguardava a chegada do pessoal que faltava para a coluna se pôr em marcha foram disparadas 1 ou 2 granadas das armas pesadas do Destacamento do Cheche.
Nota do edidtor LG:
(*) Último poste da série > 17 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27741: Documentos (56): A retirada de Madina do Boé (José Jerónimo, ex-cap mil, cmdt, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Galomaro e Dulombi, 1968/70)
Pouco depois surgiu um soldado a correr em direcção ao rio, a chorar, dizendo que a jangada se havia virado e que muita gente tinha caído à água no meio do rio.
Através do rádio do Capitão, foi ouvido o cor Felgas em comunicação com o general Spínola, que não esteve no local, dizendo que havia muitos homens desaparecidos no rio.
Com grande atraso em relação à hora prevista, a coluna iniciou o deslocamento para Canjadude onde pernoitou.
No dia seguinte [7 de fevereiro] chegou a Nova Lamego, onde o Comandante-Chefe falou às tropas participantes na Operação.
No dia seguinte [7 de fevereiro] chegou a Nova Lamego, onde o Comandante-Chefe falou às tropas participantes na Operação.
Com a chegada da CCaç 1790 a Nova Lamego, a CCaç 2403 recebeu ordem de marcha para o Olossato com passagem por Fá Mandinga (...) e aí ficou mais de 1 mês, em missão de intervenção do Comando de Agrupamento de Bafatá. (...)
[Revisão / fixação de texto, parêntses retos, negritos: LG]
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Nota do edidtor LG:
(*) Último poste da série > 17 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27741: Documentos (56): A retirada de Madina do Boé (José Jerónimo, ex-cap mil, cmdt, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Galomaro e Dulombi, 1968/70)














23 comentários:
As fotografias nº 10 e 12, mostram bem a "categoria" das rampas de acesso e a sua utilização". De facto trata-se de uma obra espectacular.
A "Construção" mostra que o "Projecto foi seguido à risca e tinha tudo para dar certo".
Apenas nos resta compreender os traumas dos que ficaram vivos e que descansem em paz os camaradas que morreram.
55 viaturas passaram por aqui, 2 vezes, à ida para Madina do Boé e depois da retirada, já carregadas de tralha...As margens eram íngremes. Valentes condutores!...E nenhum foi ao charco!...
Confirma-se: ninguém tem coletes salva-vidas!... Hoje seria imperdoável... O Exército de então era muito "poupadinho"... Para quê ? As mães portuguesas eram boas parideiras!... (Desculpem o insulto!)
Poupado e de que maneira. Até utilizava ambulâncias que gastavam 80 litros aos 100.
Esta obra é muito parecida com a Ponte do Rio Tejo que os militares constriram na madrugada do 25 de Abril.
O cor Ref Hilário Peixeiro foi 9meu instrutor em Mafra, 1o trim 67.
Do 1o pelotão da 1a companhia, da caserna 13.
Era tenente e era um óptimo militar e instrutor.
Comparando com a maioria dos aspirantes E ALFERES novinhos acabados de sair da academia.
Tinham a mania de se armarem em MAUS.
MUITA SAÚDE PARA O O CORONEL PEIXEIRO.
JA POSTEI EM TEMPOS FOTOS DELE NA6RECRU
NA RECRUTA DE 4JAN67 ATÉ FIM DE MARÇO 67.
BEM HAJA
Falei por telefone uma vez há uns anos.
Não me reconheceu claro.
Quem diria que ele ia passar nos mesmos locais como eu em Nova Lamego.
O mundo é pequeno
Virgílio Teixeira
O anterior comentário era meu.
Perdão
Virgílio Teixeira
Virgilio,
Quando decidiram defender Nadina do Boé, o comando devia dotar a travessia de todas as infraestruturas necessárias para a defeza do território e isso implica a construção de rampas de acesso e jangadas eficazes e seguras. Por isso para mim este problema começou na raiz, diz o povo e com razão, tantas vezes, vai o cântaro á fonte, que um dia lá fica a asa, é básico.
Bem, a decisão de retirar Madina do Boé já tinha sido tomada há mais de 6 meses.
Havia tempo para planear tudo ao milímetro
Mas depois não há marinha, não há engenharia...
A jangada é tosca, não há rampas, não há coletes salva-vidas.
Nunca aprendemos com os nossos próprios erros.
É uma pecha nacional.
Vítor Costa e outros :
No meu modesto entender, nunca deveria ter sido abandonado a zona.
Em vez disso faziam uma ponte segura e nunca haveria esta tragédia, sem culpados.
E não haveria nenhuma declaração a anacronica de independência
Boa tarde e viva o Sol
Virgílio Teixeira
Reparem na foto nº 12 aqueles camaradas a descerem a rampa para a jangada para alem da arma e munições o que levam pendurados nas costas e se sobem para a jangada o dobro da lotação establecida as coisas podem correr mal, mesmo para quem sabe nadar com aquele peso se cairem á água vão logo para o fundo.
Quanto a rampas e outras coisas que faltavam era o que era , é ver as condições miseráveis em que eram transportados os nossos camaradas praças nos porões do Niassa e do Uíge e até 68 o Governo daquele tempo pedia aos pais o dinheiro do transporte dos filhos falecidos em combate e que não era assim tão pouco por isso é que muitos ficaram lá. Nós eramos carne para canhão. Um abraço.
Manuel Carvalho
Manel, és um bom observador!
Só agora reparei naqueles bornais que vão cheios, a abarrotar.
Autênticos pedregulhos que levam um homem ao fundo.
Ninguém tinha experiência de esvaziar um aquartelamento, arrumar a tralha, armadilhar os acessos, retirar, entregar a chave ao senhorio, meter-se nas viaturas e...cambar um rio!
Beli era um destacamento e estava a norte do Corubal
Estas coisas aprendem- se nas escolas de guerra.
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