Pesquisar neste blogue

domingo, 17 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28030: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (1): A "bidera" (vendedora ambulante) de Bissau (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)




Guiné-Bissau > Bissau > c. março / abril de 2026 > A "bidera" Ramatulai


Foto (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Publicou o João Melo, no passado domingo, dia 10 de maio de 2026, na sua página do Facebook, esta "retrato da Guiné-Bissau", com a seguinte legenda: 

As "bideras" são vendedoras de rua,  fundamentais na economia informal da Guiné-Bissau, comercializando frutas, legumes e produtos essenciais, dependendo dessa venda de rua para o sustento familiar.

Há tensões frequentes entre as vendedoras e a Camara Municipal de Bissau, devido à sua ocupação de passeios e vias públicas,  especialmente na zona de Alvalade, tentando com isso centralizar o comércio no Mercado de Bandim (a alma de Bissau) ou no Mercado Municipal no centro da cidade.

Esta simpática vendedora, de seu nome Ramatulai, está quase sempre no mesmo local a vender essencialmente bananas e mandioca, onde muitas vezes se compra não só por necessidade, mas também com um sentido de cooperação para complemento de renda familiar.

Obrigado, Ramatulai,  por permitires a divulgação da tua foto.

João Melo (ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74); vai todos os anos à Guiné-Bissau, já mais para o fim da época seca (março / abril), em viagem de saudade e solidariedade.


2. Comentário do editor LG:

É uma retrato (des)humano que se multiplica pela África fora, que encontrámos na Guiné do nosso tempo, que voltei a encontrar em março de 2008, quando lá voltei, que eu encontrei em Luanda quando lá fui por várias vezes em trabalho (a partir de 2003), enfim, que os turistas ainda encontram no Mindelo, na Praia, no Sal (embora em menor escala)...

Esta jovem mulher guineense, Ramatulai de seu nome ou apelido (será de origem senegalesa, imigrante, Ramatoulayye ?), sorri com aquela dignidade de quem todos os dias transforma o passeio da cidade de Bissau, no seu "posto de trabalho volante" (e volátil)... A sua banca é "pobre", em variedade de produtos: dois paus de mandioca, uma dúzia de bananas (será que já tinha feito alguns CFA nesse dia ?) ...e um balde de plástico, que parece vazio (mas, não, é onde guarda a garrafa de água)...

Que história de vida será a sua ?  A da luta quotidiana pela sobrevivência, uma história feita de lições  de coragem, persistência, simpatia, humildade, paciência, sorriso franco mas também manha e  pé ligeiro para fugir ao fiscal camarário e à polícia (e, calhar, a outros "predadores sociais").

As “bideras” não são apenas as  simples vendedoras ambulantes de que os turistas gostam de bater uma "chapa" para ilustrar, no regresso a casa, o "exotismo da pobreza" em África: são também uma das colunas invisíveis da chamada economia informal, como bem diz o João Melo. Alimentam bairros, criam redes de solidariedade, dão alma às ruas de Bissau. 

7 em cada 10 mulheres da Guiné-Bissau vivem na pobreza,  pelo que têm de recorrer, para sobreviver,  às atividades informais e ao frágeis sistemas comunitários de apoio (incluindo ONGS, nacionais e estrangeiras).

No sorriso aberto desta Ramatulai que se deixou fotografar pelo nosso João Melo, deixa transparecer também uma lição que aqueles de nós, que ainda conseguem, hoje na Europa, viver com dignidade e liberdade: a pobreza é um círculo vicioso exasperante, mas nem sempre, como neste caso,  consegue derrotar a alegria, a dignidade e a humanidade de quem vive com o  muito pouco que tem.
 
(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

12 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Na Guiné-Bissau, no país do caju (c. 85%/90%) do total das exportações, se não fora a economia informal o país provavelmente colapsava: ela é o verdadeiro motor da subsistência das famílias e da dinâmica de mercado...

Qual a proporção da economia informal (a que não paga impostos, não desconta para a segurança, escapa à estatística...) ?

As estimativas mais conservadoras (ou "lisonjeiras") apontam para cerca de 35% a 40% do PIB (Produto Interno Bruto), conforme a metodologia de cálculo. Na prática deve ser mais de 50%.

O que ajuda também a explicar por que é que a Guiné-Bissau é um dos países que tem a menor taxa de pressão fiscal do mundo (9% do PIB!).

Antº Rosinha disse...

Essa imagem de Bideira não é mais nem menos de uma mulher africana a adaptar-se forçadamente à maneira da mulher das feiras europeias.

Curiosamente, com o sistema comunista à PAIGC de Luis Cabral, este tentou acabar com esta atividade, porque todo o comercio tinha que ser através dos Armazéns do Povo.

Até o simples camarão que as próprias mulheres apanhavam com as suas redes, e a mancarra cultivada e torrada por elas, Luis Cabral mandava a policia impedir de negociar na rua ou de porta a porta.

A colonização e a descolonização das antigas colónias de África e seus autores, tais como Luís e Amílcar Cabral na Guiné, Lucio Lara, Agostinho Neto, Viriato da Cruz em Angola...e seus progenitores, mereciam um historiador isento.

O sistema colonial português foi muito mal substituído, com muitas desvantagens para os guineenses, pelo sistema soviético-berdiano.

Anónimo disse...

Caros amigos,

A palavra "Bideira" vem da palavra portuguesa "vida", isto eh o esforco do "dia a dia", a luta diaria, para se sustentar a si e a familia. Mas, atencao que ser "Bideira" nao significa ser miseravel, pois da mesma forma que as "lavadeiras" nao forneciam a parte mais importante do sustento das familias nas localidades com aquartelamentos durante a guerra, a "Bideira" vulgar, sentada a berma da estrada ou que deambula a procura de clientela com uma cesta de mancarra ou outros produtos do cotidiano nao pode sustentar uma familia, eh tao somente um complemento das mulheres para nao ficarem em casa sem fazer nada de util. Esta eh a parte economica e financeira que o justifica. Outra parte, mais social e humana eh a necessidade da interacao com o mundo, com as pessoas fora do circulo familiar para efeitos de saude mental em contextos urbanos menos abertos para pessoas de origem rural, habituadas a interacao social permanente com o meio ambiente e com as pessoas e que ficam um pouco perdidas sem esta alimentacao da palavra e da "fofoca" habitual nas aldeias e meios urbanos do interior. Uma particularidade bem marcante dessa realidade eh o facto de que, em Bissau, mesmo vivendo numa casa cercada com muros, as pessoas, sobretudo mulheres e criancas, poucos aguentam o sufoco de viver intra-muros, preferem a rua, as feiras e a liberdade de deambular com uma cesta de produtos agricolas com valor abaixo de 1 euro. Vao a cidade, para os mercados dos Bairros ou ao Bandim, muitas vezes a revelia dos maridos e familiares que nao concordam com este "nomadismo" com disfarce de "Bideira". as verdadeiras "Bideiras"encontram-se dentro dos mercados na revenda do pescado, legumes e frutas. Estas sim, sao vendedeiras de verdade e com rendimentos que rivalizam com os comerciantes (homens) de nivel medio no mercado nacional, algumas fazendo actividades de import-export de diversos produtos e bens de consumo.

Voltando ao retrato da mulher (a Ramatulai), ve-se que ela nao tem fome, pelo contrario, esta obesa de um certo grau (peso a mais), deve ser mulher casada com um pequeno comerciante, funcionario publico ou ainda com o marido no exterior e a espera de agrupamento familiar. Entretanto, precisa fazer alguma coisa para nao morrer de ansiedade ou de solidao como acontece um pouco por toda a parte.

Pelo nome Ramatulai (de origem arabe_Bencao/Graca de Allah) percebemos que eh fula (sub-grupo fula-preto), e ha muitas variantes (Rama, Ramatu, Aramatu/a, Tulai, Matu), um nome tipicamente muculmano e da regiao da Africa Ocidental e de alguns paises do Magreb (Marrocos-Argelia...)

Com um abraco amigo,

Cherno AB

Eduardo Estrela disse...

O que aprendemos contigo Cherno!!
É um privilégio ter um homem como tu neste blogue de memórias.
Obrigado meu vizinho de Fajonquito.
Abraço
Eduardo Estrela

Cherno disse...

Obrigado Eduardo Estrela,
É com muito gosto que partilho ideias, opiniões e saberes sobre a minha terra com os veteranos da Guiné nas páginas deste Blogue, uma quase enciclopédia. Passei quase toda a minha vida a tentar descobrir os pilares em que se assenta a civilização Ocidental e sobre as suas gentes, sem todavia descurar, também, dos nossos. É sempre justo e util a partilha para um maior e melhor conhecimento sobre nós e sobre o outro.

Um grande abraço

Cherno AB

Cherno disse...

Obrigado Eduardo Estrela,
É com muito gosto que partilho ideias, opiniões e saberes sobre a minha terra com os veteranos da Guiné nas páginas deste Blogue, uma quase enciclopédia. Passei quase toda a minha vida a tentar descobrir os pilares em que se assenta a civilização Ocidental e sobre as suas gentes, sem todavia descurar, também, dos nossos. É sempre justo e util a partilha para um maior e melhor conhecimento sobre nós e sobre o outro.

Um grande abraço

Cherno AB

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Cherno, a Tabanca Grande podia continuar a ser "Grande" sem ti, mas seguramente seria mais "pobre"...

Tu não está aqui para compor o ramalhete, mas por mérito próprio, começaste por ser um dos nossos "djubis", ladinos, em Fajonquito, vendo com os teus esbugalhados olhos o monstro da guerra a crescer...(e depois o "desastre" que foi a ascensão ao poder dos "cabra-machos", filhos de Cabral).

Tu, que nunca "glorificaste" a guerra, e és um crítico da arrogância (de todas as arrogâncias) no poder, hoje és um homem grande, um sábio, mas sempre o nosso "irmãozinho", e o teu olhar, certeiro como o da águia, ajuda-nos a não cometer os erros do nosso inevitável "etnocentrismo", "eurocentrismo"...(Afinal, tivemos apenas 2 anos na tua terra, tu tens sessental e tal e "mais mundo" do que muitos de nós, pertencendo a um "povo" que não tem fronteiras físicas a amarrá-lo.)

Vou publicar como poste o teu fabuloso comentário sobre a "bideira" Ramatulai!...Em honra de todas as "bideiras" de Bissau, mas também de Luanda, que eu conheci.

Mantenhas, mano! Luís

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Pois é, Cherno e Eduardo, nem só de pão vive o homem ( e a mulher)!... As "necessidades socais" também são "tão" ou mais importantes como o encher a barriga todos os dias.... A Ramatulai pode não vender uma banana, nem um CFA, mas convive, interage, fala com os outros, partilha, socializa, tem ali naquele canto da rua uma janela mais larga do que na sua modesta morança.

Ah!, os estereótipos, os preconceitos, as ideias feitas, as certezas de quem vive do outro lado da lua!

Há coisas que nos escapam completamente quando, armados em etnógrafos amadores (que somos todos nós enquanto turistas estrangeiros, mesmo simpáticos que não é a mesma coisa que empáticos), fazemos uma foto de uma "bideira" de Bissau e a publicamos publica.ls nas redes sociais...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Ok final saiu gralhado: "e a publicamos nas redes sociais".

Anónimo disse...

Caro amigo Luis Graca, Ramatulai como nome feminino ou Aramatulai ( que a paz ou bencao esteja contigo) como expressao religiosa eh muito presente no meio muculmano e equivaleria a popular "Maria da Graca" no meio portugues.

Em Fajonquito havia uma das minhas primas que tinha esse nome e que, no acto da matricula lhe atribuiram o nome portugues "Maria da Graca", logo a juncao dos dois dava "Maria da Graca Ramatulai Balde", um nome desnecessariamente comprido e por sinal, tambem, redundante, mas que so estou a descobrir agora, coisas que a ignorancia e o mimetismo africano permitiram largamente em contextos de encontros e de integracao de culturas e crencas religiosas. A forca simbolica do nome esta no facto de que, em todas oracoes, que se fazem cinco vezes durante o dia, as ultimas palavras que se ouvem, sistemanticamente, sao as seguintes : "Assalamu-alaikum wa-rahmatullai Wa-barakatuh", ou seja "Que a paz, a misericordia e as bencaos de Allah estejam convosco".

Embora as circunstancias actuais nao permitam proibir a pratica, o trabalho das "Bideiras ambulantes" nao eh um trabalho respeitado nem desejado no seio das familias, independentemente do estatuto (rico, remendado ou pobre) porque esta ferido de uma desconfianca generalizada devido ao carater ambulante e incerto do negocio, de modo que, da mesma forma que as lavadeiras podiam ser "Lava-Tudo" aos olhos do povo, entao esta metafora pejorativa tambem se aplica as Bideiras como vendedeiras "Vende-tudo".

Mas, apesar de tudo nisso, a liberdade e as oportunidades sociais que esta atividade proporciona as bajudas e mulheres (noivas) na sua interacao com o mundo e o meio envolvente, compensa largamente o desafio de ultrapassar as barreiras sociais impostas e/ou qualquer tentativa de as limitar nos seus movimentos, de modo que eh uma dor de cabeca social com que os pais, maridos e chefes religiosos e comunitarios estao confrontados numa epoca de grandes e rapidas transformacaoes sociais, culturais e economicas, ou seja na fase da globalizacao mais acelerada e mais invasiva da vida em geral e familiar em particular.

Cdte,

Cherno AB

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Oh, "mano" Cherno, o que a gente aprende contigo!... Queres tu dizer que a minha mãe, Maria da Graça, seria "batizada" como Ramatulai, em 1922, quando nasceu, se a minha avó materna (Patrocínio, ou "Patxina"...) fosse fula, guineense ou senegalesa...ou melhor, "índígena" (a viver na colónia portuguesa da Guiné ou na África Ocidental Francesa!)...

A minha mãe (1922-2014) chamouse Graça, Maria da Graça, porque nasceu no dia 6 de agosto, dia da santa padroeira da sua terra, Nadrupe, Lourinhã... Ainda hoje, as festas anuais da terra são em honra da Nossa Senhora da Graça...

Como sabes, Cherno, Portugal é uma país mariano, e nomeadamente ao longo da costa ocidental atlântica, predomina(va) o "matriarcado"... Afinal, ao longo de séculos, fomos um país de homens ausentes, perdidos ou por achar nas guerras do Norte de África, n a"aventura das Descobertas" (como se dizia no teu tempo de escola, no Estado Novo), na pesca do bacalhau, na emigração transatlântica (para o Brasil, etc) e depois continental (França, Alemanha, Suíça, Luxemburgo, etc.), enfim perdidos e por achar nas "guerras do fim do Império", da descolonização, "coloniais", "de África (como se diz na Academia Militar), "do Ultramar" (como gostam de dizer outros...).

A família da minha mãe, do lado paterno, era a dos "Barbosa"... A minha mãe é simplesmente Maria da Graça, e eu herdei esse apelido, Graça (da mãe) e Henriques (do pai)... Graça, Ramatulai...

Anónimo disse...

Caros amigos, Luis Graca e Eduardo Estrela,
Como dizia a escritora caribenha Maryse Condé (Pointe-à-Pitre, 11 de fevereiro de 1934 – Apt, 2 de abril de 2024), "debaixo do sol, nao ha nada de novo...". O ser humano, onde quer que esteja e o que quer que seja, no fundamental, eh sempre o mesmo sentimento: o (H)eremakono africano (a espera da felicidade, mesmo nao querendo fazer nada por isso) e a graca da salvacao divina das religioes abraamicas ( Judeus-Cristao-Muculmanos), mesmo nao merecendo nada para isso.

Cherno AB