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sábado, 2 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27980: Fotos à procura... de uma legenda (205): de que etnia ou grupo etno-linguístico seria a jovem mãe do "mininu" Adão Doutor ? O Cherno Baldé diz que não era felupe/jola, mas balanta-mané... Seria ? Uma desafio aos nossos leitores, no Dia da Mãe (que é amanhã)

 


Guiné > > Região do Cacheu > Bigene > c. 1966/67 > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o médico, "tuga", que a assistiu no porto.

Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Quem seria esta jovem mãe de Bigene ? Felupe/jola (lê-se: djola) ou balanta mané ? Ou até senegalesa ?

Esta é uma fotografia histórica fascinante e um testemunho tocante do nosso camarada Adão Cruz. A imagem capta um momento de profunda humanidade no contexto da assistência médica militar às populações locais durante o conflito.  

No entanto, identificar uma etnia específica apenas por traços visuais ou indumentária não é tarefa fácil, à distância de 60 anos (a idade do nosso "Adão Doutor", se for vivo, como desejamos que esteja). Para mais, tratando-se de uma localidade fronteiriça como Bigene, numa região caracterizada por grande porosidade demográfica, cultural e migratória (de um lado o Cacheu, na Guiné-Bissau,  e do outro Casamança, no Senegal).

Mas vale o esforço, tanto mais que amanhã, 3 de maio, primeiro domingo de Maio, é o Dia da Mãe em Portugal e na Guiné-Bissau.


2. Recorde-se a origem desta imagem e da história, feliz, que está por  detrás dela. Foi-nos contada pelo nosso camarada Adão Cruz, ex-alf mil médico, CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68). E ele foi o protagonista, juntamente com a primeira jovem mãe que "estreou" o "serviço obstétrico" do posto médico miliar montado em Bigene (c. finais de 1966/princípios de 1967). 

O primeiro parto a que ele assistiu deve ter ocorrido no princípio de 1967. E ninguém, da localidade, entendia a língua da jovem mãe:

(...) Quando cheguei à Guiné, uma das primeiras preocupa­ções que tive foi começar a conhecer as pessoas e os costumes (...).

Conhecer um povo, ainda que pequeno, originário de quarenta grupos étnicos, fragmentado e encurralado física e psicologicamente em zonas estanques por impo­sição de uma violenta guerra de guerrilha, não era fácil e a desvirtuação constituía um perigo possível.

Tentei iniciar a penetração neste novo mundo através da abertura que a minha missão de médico facultava e facilitava. (...)

As mulheres de Bigene, e não só de Bigene, pariam no mesmo local onde defecavam, uma pequena cerca de esteiras nas traseiras da tabanca, longe da vista das pessoas e sobretudo dos homens, como se o acto de parir fosse indigno e imprudente, obrigando ao mais submisso recato.

Como se não bastasse, uns dias antes da data prevista para o parto atulhavam a vagina com bosta de vaca, a qual sofria pútridas fermentações que exalavam o cheiro mais nauseabundo que imaginar se pode. 

Os tétanos, quer da mãe quer do recém-nascido, eram extremamente graves e frequentes, soube eu mais tarde.

Neste primeiro contacto fiquei boquiaberto e decidi atuar. Não seria difícil imaginar a resistência destas pessoas a qualquer tipo de reforma dos costumes, se não fosse tido em conta um facto importante. 

Ao contrário do que se diz e do que se pensa, os negros, sejam eles homens ou mulheres, são muito espertos, nada ficando a dever aos brancos e superando-os em muitas coisas dentro da mesma escala de cultura. (...)

Só assim foi possível a rápida aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca acerca de infeções e higiene, acerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efetuado na nossa enfermaria, ainda que pequena e modesta.

Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar nesta altura a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto.

Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. (...)

Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho que, apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim. Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia antirracista da natureza.

Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, indispensável aos primeiros meses de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de ma­neira tão eutrófica e tão perfeita.

Umas semanas após o nascimento vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente:

- Doutor, vou dar-lhe uma linda notícia que a mim, pes­soalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio... aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se?... A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de Adão Doutor. (...) (*)



3. Comentário do Cherno Baldé (**)

(...) O Sector de Bigene é predominantemente habitado pelo subgrupo balanta-mané, um substrato de população que resultou da assimilação de balantas sob o dominio mandinga (séculos XVIII-XIX) da mesma forma que aconteceu com os Banhuns, Djolas, Pajadincas, Landumas, Fulas, entre outros cujo processo foi interrompido com a entrada em cena da islamização, da autonomização e ascensão dos fulas e finalmente com as conquistas e partilha dos territórios entre as potências coloniais (segunda metade do séc XIX).

Desta feita, há uma grande probabilidade de a mulher da foto pertencer à etnia dos balantas-mané, um subgrupo em fase de transição entre o animismo e islamismo praticado na região, pelo menos é o que diz a sua postura e vestuário.´

A vila de Bigene, em meados dos anos 66 era um centro de trocas comerciais de produtos da época (amendoim, coconote, peles de animais, mel, cera, tecidos europeus, materiais e produtos para a agricultura entre outros), pelo que albergava uma população um pouco diversificada, empurrando os locais para a periferia fronteiriça.

sexta-feira, 1 de maio de 2026 às 12:05:00 WEST

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

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Guiné 61/74 - P27979: Fotos à procura... de uma legenda (204): "A mulher na imagem é igualzinha à minha mãe" (Cherno Baldé)..."Fermero, tua minina, tua mulher parte banana" (José Teixeira)



Guiné > > Região do Cacheu > Bigene > c. 1966/67 > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o médico, "tuga", que a assistiu no porto.

Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentários ao poste P27970 (*):

(i) Cherno Baldé

Cada época tem sua marca, sua imagem própria que nunca se confunde com outras de épocas diferentes. Anos 60, no território da Guiné (dita portuguesa) as imagens têm a marca da originalidade, de sofrimento agarrado a alma de gente simples, humilde, de gente que não controla o destino, de gente sujeita a violência e imprevisibilidade da guerra, uma guerra escondida em cada esquina, em cada árvore, em cada baga-baga.

A mulher na imagem é igualzinha à minha mãe, no tamanho, nas feições rudes e vincadas de uma mulher camponesa da Guiné dos anos 50/60. Os pés, duros e escarpados não sabiam o que era usar chinelas ou sandálias que, mesmo o que tivessem, para não atrapalhar no caminho da bolanha, preferiam colocá-los na cesta das roupas,  equilibrada encima da cabeça... Na verdade, eram mais para mostrar ao branco do que proteger os pés calejados de tanto morder a areia quente dos trilhos do mato.

A adornar o peito, aí estão os colares tradicionais feitos de sementes e raízes de aroma da maternidade africana que nenhuma mulher dispensava na época e que tinha o efeito benéfico de afastar o cheiro do leite com mistura do suor da criança colada ao seu corpo de forma quase permanente.

Quanto ao nome dado a criança, era sobretudo a vontade e a firma decisão da mãe, pois era um direito que ninguém podia questionar, mas na realidade o nome oficial e que seria válido dentro da comunidade, era sempre um direito do pai que, como mandam as regras, devia obedecer aos critérios da tradição do grupo étnico. 

Todavia, para a mãe e as crianças do núcleo familiar, em respeito à dor e sofrimento que constituem o dificil processo do parto, ela será sempre o "Adão Doutor" da sua querida e sofrida mãe.

quinta-feira, 30 de abril de 2026 às 19:48:00 WEST



Guiné- Bissau > Bissau > Maio de 1997 > "Eu e a minha mãe"

Foto (e legenda): © Cherno Baldé (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



(ii) José Teixeira

Como já contei no blogue, eu tratei uma bebé com alguns meses de uma crise de paludismo. O seu estado de saúde era muito grave, com elevada temperatura, muitos vómitos. E
stava tão débil que nem no peito da mãe pegava. Abusivamente, cometi um ato médico que lhe salvou a vida. Ao fim de duas horas, começou a baixar a temperatura. Pouco tempo depois, mamou um pouco. Foi uma tarde inteira de luta e sofrimento para mim e para a mãe, mas valeu a pena.

No dia seguinte, a mãe veio trazer-me a menina, logo de manhã, como combinado e trazia também um cacho de bananas. A primeira frase dela foi: "Fermero, tua mulher parte banana". A partir dessa data, ficou a ser minha mulher. Todos os dias de manhã, enquanto estive em Mampatá elas (mãe e filha) vinham visitar-me:  "Tua mulher parte mantenhas". Trazia quase sempre fruta ou uma caneca de água fresquinha que ia buscar à fonte de Iroel para mim.

À noite, ficavam as duas à porta da casa, a aguardar a minha passagem para o abrigo para partir mantenhas.

Fui cerca de dois meses para a Chamarra. Duas vezes por semana ia a Mampatá em serviço de apoio ao enfermeiro africano que me substitui. Procurava a minha menina para lhe fazer festinhas. No regresso definitivo para Buba, passei por Mampatá. Para minha grande alegria e grande sofrimento, lá estava a mãe com a minha mulher ao colo: "Pega minina. Leva tua mulher contigo!"

Este momento continua gravado na memória, pelo sofrimento que me causou, pela recusa que tive de dar.






Guiné > Região de Tombali > Mampatá (1)> 1968> O 1º cabo enfermeiro Teixeira (CCAÇ 2381, Buba e Empada, 1968/70), com a sua inseparável amiguinha Maimuna.

Foto (e legenda): © José Teixeira (2005). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27970: Fotos à procura... de uma legenda (203): Um "mininu" chamado Adão Doutor


Guiné >  > Zona do Cacheu > Bigene > c. 1966/67  > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o  médico, "tuga",  que a assistiu no porto. A mulher parece ser do grupo étnico diola, djola ou jola / felupe

Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A foto é do nosso camarada 
Adão Cruz, médico cardiologista, reformado,  ex-al mil médico,  CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68); nasceu em Vale Cambra, em 1937; poeta, escritor, pintor, com diversos livros publicados e exposições em Portugal e no estrangeiro; membro da nossa Tabanca Grande desde 27 de junho de 2016; tem mais de 240 referências no blogue; é autor das séries "Contos ser e náo ser" e "Memórias de um médico em campanha".

A CCaç 1547 / BCAÇ 1887 desembracou em Bissau, com o resto do pessoal do seu batalhão em 13 de maio de 1966, seguindo de imediato para  Fá Mandinga, a fim de efectuar a IAO (instrução de aperfeiçoamento operacional) sob orientação do BCaç 1888, substituindo a CCav 702 na função de intervenção e reserva daquele sector, e tendo tomado parte em operações na região de Xitole e no baixo Corubal.

 De 27 de maio de 1966  a 7 de junho de 1866, foi entretanto deslocada, temporariamente, para Nova Lamego, em reforço do BCaç 1856, em virtude de um previsível agravamento da pressão inimiga neste sector, tendo efectuado acções na região de Pataque e outras.

Em 13 de setembro de 1966, recolheu a Bissau, a fim de seguir para Bula, para realização de uma operação na região de Jol, sob dependência do BCav 790.

Em 27Set66 foi colocada em Bigene, tendo assumido a responsabilidade do respectivo subsector, com um pelotão destacado em Barro, em substituição da CCaç 762 e ficando então integrada no dispositivo e manobra do seu batalhão.

Em 29 de 0utubro de 1967, foi rendida no subsector de Bigene pela CArt 1745 e seguiu para Bissau, a fim de substituir a CCaç 1497 a partir de 2 de novembro de 1967 no dispositivo de segurança e protecção das instalações e das populações daquela área, sob ependência do BArt 1904 e depois do BCaç 2834. 

Manteve-se em Bissau até ao embarque de regresso, em 25 de janeiro de 1968,  tendo, entretanto, destacado um pelotão para Nhacra, em reforço da guarnição local.


Comentário do editor LG:

A fotografia e o testemunho do nosso camarada Adão Cruz dizem muito mais do que aparentam à primeira vista. Parece haver ali uma tensão silenciosa entre dois mundos: um médico miliciano, jovem, deslocado pela força de uma guerra que ele próprio rejeita, segurando nas mãos um recém-nascido (terá uns escassas semanas, talvez um mês e pouco de vida), símbolo absoluto de vida, no meio de um cenário que, no fundo, era (ou poderia viver a ser em qualquer momento) um palco de guerra, um cenário de morte organizada. 

Ali está um criança, vitoriosa, que sobrevive ao parto e ao primeiro mês de vida... O gesto de levantar o bebé é quase ritual. Não é só clínico, é um gesto humano, de triunfo da vida sobre a morte. É como se a imagem nos dissesse: “apesar de tudo, a vida continua”. 

E depois há o nome, esta maravilha: "Adão Doutor"!...  Nome, espontáneo, que lhe deu a jovem mãe,  fula, ao seu menino. É uma forma de reconhecimento profundo por parte dela: não é apenas gratidão, é também uma espécie de inscrição simbólica daquele nosso camarada na origem daquela vida. Como se ele tivesse participado não só no parto físico, mas no próprio destino da criança, há 70 anos atrás.

A presença da mulher,  ao lado,  digna, firme, composta, com o seu extenso e lindo colar (e por baixo dos panos que lhe cobrem o corpo, os amuletos protetores), deve merecer especial atenção.

Não está submissa nem apagada,  está ali como sujeito, pro direito próprio, como mulher, como mãe, como pessoa inteira. O olhar dela parece mais difícil de ler do que o do médico (embora ambos estejam viarados para o sol). Carrega  em todo o caso uma experiência que não está escrita, mas onde se adivinha dureza e sofrimento, mas também orgulho e dignidade.

E depois, quando lemos o texto do nosso Adão Cruz, tudo encaixa. Ele recusa a narrativa heroica clássica: não há medalhas, não há pátria exaltada, não há glorificação dos senhores da guerra. Há sofrimento, há dúvida, há humanidade. 

Isso dá ainda mais peso à imagem. Porque percebemos que aquele gesto não era exceção: era coerente com quem ele era, com o que ele pensava e sentia.  A sua guerra era outra: cuidar, salvar, ensinar, reconhecer o outro como igual, uma forma de resistência ética.

E aquela frase final dele (de que aqueles dois anos “valeram vinte”) é muito típica de quem passou por experiências-limite. Não é glorificação da guerra; é reconhecimento de que ali se viveu tudo em estado bruto, sem filtros.

(...) Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristeza e alegria, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualável fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos da minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou. (...)

 Ficamos na dúvida se a mãe é fula ou felupe (**).   As populações da Guiné, muitas vezes apanhadas entre duas forças anatgónicas, tiveram uma experiência particularmente complexa — ora vistas como colaborantes, ora suspeitas, ora simplesmente vítimas. E aqui temos  uma mulher, guineense,  que entrega o seu corpo e o seu filho aos cuidados de um médico militar português. Isso não era banal e algumas, por interditos culturais, de origem religiosa ou não, recusavam-se a ser vistas pior um médico "tuga". 

É um gesto de confiança num contexto onde a confiança era um bem raríssimo (**).

A fotografia, assim, ganha outra densidade:  n
ão é só mais uma criança que nasceu, é um momento de suspensão da guerra; não é só um médico militar, no exercício das suas funções de prestador de cuidados à população; não é só uma mãe, é uma mulher que atravessa o medo e decide confiar.

E o nome "Adão Doutor" torna-se ainda mais forte. Em muitas culturas da África Ocidental, dar o nome exótico (ou uma "alcunha")  ( Adão Doutor, Alfero Cabral, Capitão Fula, Tchombé,  José Manuel Sarrico Cunté,  José Carlos Suleimane Baldé, Nuninho,  Alicinha...)  é um acto profundamente simbólico, não é um capricho, é uma forma de inscrever relações, acontecimentos, memórias. Aquele nome fixa para sempre o encontro entre dois mundos naquele instante concreto.

É um  detalhe cultural (o nome “tuga” dado, em geral,  por agradecimento ou veneração) que bate certo com muitos testemunhos da época na Guiné: o nome funcionava quase como marca de relação, proteção simbólica ou memória do acontecimento.

A foto é de meados da década de 60, em pleno "consulado" de Arnaldo Schulz,o governador que não era propriamente uma figura carismática, popular e empática... Pelo menos, se comparada com António Spínola, o "Caco Baldé".

E há algo que nos fica a martelar: o alferes miliiciano médico, que não recusou a guerra,  não foi desertor, diz que não se considerava combatente... Mas nesta imagem há uma forma de combate, talvez a mais difícil: combater a desumanização.

Esta foto  tem, portanto, “lastro humano”, como dizem os especialistas de fotografia. E, sendo do Adão Cruz, ganha ainda outra espessura.


2. Perguntarão os leitores: que idade terá esta criança, ao certo ? Quantos dias, semanas ou até meses? E esta "cena" deve passar-se em Bigene, takvez no início de 1967...

Esta criança não é um "recém-nascido"... Terá já algumas semanas, até um mês e picos...Já usa adornos e amuletos. É um rapaz. A mãe vem agradecer ao médico, militar, português, Adão Cruz, a ajuda no parto. Não sabemos se é fula, muçulmana, ou de outra etnia: a zona era já de miscigenação (e hoje há balantas, balantas manés, mandinga, fulas, djolas/felupes...).  Em agradecimento pôs o nome do "Adão Doutor" ao filho. Era frequente dar nomes "tugas" às crianças que nasciam em zonas com quartéis. 

Analisando a foto com a ajuda de um ferramenta de IA, pode concluir-se que, de facto,  não se trata propriamente de um "recém-nascido":
  • já tem bom controlo da cabeça (não totalmente firme, mas não é aquele tombar típico de recém-nascido);
  • apresenta membros mais “cheios”, já com alguma gordura subcutânea;
  • a pele não tem aquele aspeto enrugado ou descamativo dos primeiros dias;
  • parece alerta e reativo, não em postura fetal;
  • já usa amuletos/adornos, o que muitas vezes só acontece depois dos primeiros dias (às vezes após o nome ou rituais iniciais).

Tudo isto sugere claramente que não é um recém-nascido (0–2 semanas). Estimativa mais plausível: (i) entre 4 e 8 semanas de vida; ou seja, cerca de 1 a 2 meses. Se tivessemos de afinar mais, diríamos: por volta de 5–7 semanas.

Menos do que isso (2–3 semanas), seria provável ver menos firmeza corporal. Mais do que isso (3 meses), o bebé tenderia a parecer ainda mais robusto e com outra expressão muscular.

Estivemos a reler o primeiro poste que o Adão Cruz publicou no nosso blogue, e não há dúvida, o seu "primeiro parto" no CTIG aconteceu em Bigene, mais provavelemente no 1º semestre de 1966  (**):

(...) Foi  rápida a aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca acerca de infec­ções e higiene, acerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efectuado na nossa enfermaria, ainda que pequena e modesta.

Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar nesta altura a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto.

Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. Até os olhos do meu enfermeiro Pimentinha brilharam de entusiasmo, entusiasmo que o levou a ler de ponta a ponta a minha sebenta de obstetrícia e a transformar-se em pouco tempo num habilidoso parteiro e carinhoso puericultor.

Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho que, apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim.

Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia anti-racista da natureza.

Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, indispensável aos primeiros meses de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de ma­neira tão eutrófica e tão perfeita.

Umas semanas após o nascimento vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente:

- Doutor, vou dar-lhe uma linda notícia que a mim, pes­soalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio... aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se?... A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de Adão Doutor. (...)



 3. Gostaríamos que os nossos leitores acrescentassem, na caixa de comentários, a sua própria legenda, sucinta, espontânea... Não há legendas certas nem erradas. Deixemo-nos levar pela memória, pela emoção.

Pode ser qualquer coisa como "Bigene, c. 1966/67: 'Adão Doutor entre a guerra e a vida, um instante suspenso". Mas eu espero que o nosso Cherno Baldé nos dê uma ajude... Nesta época ele já era um djubi com cinco ou seis anos feitos, o "Chico de Fajonquito"...

Um jovem médico militar português segura um recém-nascido, nu, que terá   chegado ao mundo há pouco tempo. Já ostenta adornos e seguramente amuletos. Ao lado, a mãe mantém-se de pé, firme, inteira, com a dignidade de quem acaba de atravessar uma fronteira invisível entre a vida e a morte.

O cenário é Bigene no norte da Guiné, junto à fronteira com o Senegal. Zona de tensão, de passagem, de incerteza. Zona de guerra.
 
E, no entanto, nesta imagem não há guerra. Há um gesto: o de levantar a criança, quase como uma apresentação ao mundo, há um olhar: o do médico, onde se cruzam cansaço e cuidado; e há um nome que ficou: “Adão Doutor”.

 O autor da fotografia e protagonista da cena, hoje quase nonagenário, recusou sempre a ideia de ter sido “combatente”. Disse de si próprio que apenas combateu a doença e a injustiça. E talvez esta imagem seja a melhor prova disso.

Num tempo em que a linguagem da guerra tende a apagar os pequenos gestos (mais ternos e mais íntimos), esta fotografia devolve-nos uma evidência simples e desarmante: mesmo nos lugares mais improváveis, a vida existe, insiste, persiste. (***)

(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT, Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27960: (In)citações (286): Guerra colonial (Adão Cruz, Cardiologista, ex-Alf Mil Médico)

(**) 25 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16235: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (1): O Parto - ou o nascimento do Adão Doutor em Bigene
 
(***) Último poste da série > 29 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27869: Fotos à procura de...uma legenda (202): No Dia Mundial da Poesia e da Árvore (Joaquim Pinto de Carvalho, régulo da Tabanca do Atira-te ao Mar)

terça-feira, 21 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27938: Humor de caserna (258): O andedotário da Spinolândia - Parte XXX: Dançando o tango com o Caco Baldé (Cristina Allen, 1943-2021)


Cristina Allen (1943-2021).
Foto: LG (2009)

1. O único retrato, impiedoso, do gen Spínola, que já aqui publicámos, foi feita por uma mulher, a nossa saudosa amiga Maria Cristina Robalo Allen Revez (1943 - 2021), a Cristina Allena ex-esposa de Mário Beja Santos, foto à direita, 2009, autora da série "Os meus 53 dias de brasa em Bissau"

A Cristina  casou com o Mário na Catedral de Bissau no dia 16 de abril de 1970. Tiveram duas filhas, a Maria da Glórian (1976-2009),  e a Joana, mãe da Benedita.

Cristina Allen, membro da Tabanca Grande desde novembro de 2008,  tem cerca de 2 dezenas de referências no nosso Blogue, incluindo  um dos postes dedicado à sua filha Maria da Glória (Locas) após o seu prematuro desaparecimento.

Era natural de Aljustrel e foi professora de liceu. 
 Os seus 12 últimos anos de vida  foram assombrados pelo pesadelo e desgosto de perder a filha mais velha, e depois pela sua doença crónica degenerativa. Era uma mulher dotada de grande inteligência, perspicácia, cultura e sentido de humor mordaz.
 
Já aqui disse, na devida altura, em 9/1/2009, que o texto que se segue, era/é  um "pedaço de prosa de antologia" (*). Aconselhei "o próximo biógrafo de Spínola" a não o ignorar.  Não teve tempo ou muito simplesmente  não li o nosso blogue. Mas foi uma pena, o modo como a Cristina, em duas pinceladas, fez um soberbo retrato-robô do nosso Com-Chefe, merece voltar a aqui a ser destacado, a agora nesta série "Humor de caserba".(**)

Ela chegou a Bissau a 15 de abril de 1970 e casou a 16... (E regressaria a Lisboa a 8 de junho.)

E também  ainda sobre ela, uma das "nossas grandes mulheres", escrevi em 9/1/2009:

(...) Sentiu-se útil e acarinhada por todos nós, ao apreciarmos o seu gesto (generoso e corajoso) de facultar ao seu ex-marido as cartas e aerogramas que ele lhe escreveu durante dois anos de comissão militar na Guiné. E não foram poucas: algumas centenas...

Quem já leu os dois volumes do "Diário da Guiné", do nosso camarada e amigo Beja Santos, sabe quão preciosas foram, para ele (e nós, seus leitores em primeira mão), essas cartas e aerogramas, como fonte de informação minuciosa sobre a actividade diária, operacional e não operacional, primeiro em Missirá e depois em Bambadinca, à frente do Pel Caç Nat 52, entre meados de 1968 e meados de 1970. (...)

Dançando o tango com o Caco Baldé 

por Cristina Allen (1943-2021)



Spínola em Dulombi, sector L5 (Galomaro) 
 em abril de 1972.
Foto: Luís Dias (2011)

(...) No dia seguinte, e de acordo com o que fora anteriormente combinado, o meu marido vadio ingressaria na ala de Neuropsiquiatria do Hospital Militar. Durante dois dias, eu não poderia vê-lo, já que o David Payne iria tentar pô-lo a dormir. Discretamente, o David passou-me para as mãos um frasco hospitalar de “Vesparax” (quem não dormia era eu…).

Apressava-me, na saída, não fosse encontrar Spínola, que, diariamente, visitava os seus doentes. Atrasei-me três vezes e três vezes me aconteceu encontrá-lo à porta de armas (chamava-se assim?) do hospital. Andávamos, ao que parecia, cronometrados…

Havia um toque (a  recolher? Por causa dele? Nunca perguntei).Mas via aquele homem passar para a mão esquerda o pingalim, encostá-lo firmemente à perna, pôr-se em sentido, crescer, enchendo o peito de ar, o ventre liso, o braço direito, o cotovelo, a mão, na mais perfeita continência que jamais vi. Ficava desmesuradamente imenso, desmesuradamente rígido, só o monóculo coruscava.

Estarrecida, não sabia que fazer dos pés, das mãos, da mala, da minissaia, parava, cruzava as mãos, endireitava-me (postura por postura, não baixaria a cabeça, olhava-o nos olhos, ou, melhor dizendo, no olho e no monóculo). 

Acudiam-me ideias bizarras – que o meu avô materno fora lanceiro e, certamente, teria sabido fazer aquilo mesmo; que ele, Spínola, escorregara em Missirá, numas cascas de batata e fora ao chão, pose, pingalim, monóculo e tudo, soltando palavrões… que aquele homem era o… “Caco Baldé”! Apertava os lábios para não 
me rir: "este é o Caco, Caco Baldé"…

Mas este era apenas o primeiro acto desta farsa. O segundo, começava com a questão “Passas tu ou passo eu?”. No terceiro, resolvia eu recuar, só então ele passava e, perfeito cavalheiro, punha-se de lado e cumprimentava: “Muito boas tardes, minha senhora”. E eu respondia-lhe: “Muito boas tardes, Senhor Governador”. 

Afinal de contas, era fácil dançar o tango com Spínola. Dobrado contra singelo, diria que, em seus tempos, o teria dançado na perfeição, sem pisar os pés do par…

Deixemos, por ora, o Mário na sua cama, entre dois outros perturbados, que, continuamente, discutiam…

Quando, escassos anos volvidos, leria atentamente "Portugal e o Futuro", fecharia o livro, e, olhos cerrados, para mim mesma o interpelava: “Então, meu Caco, só agora?!”

Para todas as coisas há o seu tempo. Nos anos de brasa que decorreriam, e, mais ainda, nos outros que vieram, ele seria, talvez, uma das mais contraditórias e inquietantes personagens.

Recordo, hoje, os três majores ( e seus acompanhantes) que, num gravíssimo erro de cálculo – ou num quase infantil erro de cálculo – ele enviou para o martírio /***) e penso em tantos jovens anónimos que perderam suas desgraçadas vidas. Nos estropiados, nos cegos, nos perturbados, nas nossas lágrimas.

E, todavia, ele, feito marechal António de Spínola, será sempre, para mim, a mais trágica figura do braseiro que outros atearam, sem ele, com ele, ou em seu nome.

Que Deus e a História sejam clementes para com este homem. (...) (*)

(Seleção, revisão / fixação de  texto, título: LG)
_____________


(***) Referência ao "massacre do chão manjaco", no Pelundo, 20 de abril de 1970, fez agora 56 anos,  em que foram assassinados 3 majores do CAOP1 e seus acompanhantes (1 alferes miliciano e 3 guinenses,  civis - 1 intérprete e 2 guias):

  • Major Passos Ramos
  • Major Osório
  • Major Pereira da Silva
  • Alferes João Mosca
  • Mamadu Lamine
  • Aliú Sissé
  • Patrão da Costa

sábado, 18 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27929: Humor de caserna (257): O anedotário da Spinolândia - Parte XXix Ainda a origem das alcunhas "Caco Baldé" (grafada pelos fulas...) e "Aponta, Bruno" (fixada pelos "tugas") (António J. Pereira da Costa / Cherno Baldé)

1. "Aponta, Bruno!"... era outra das alcunhas do general Spínola, na Guiné Portuguesa, no tempo em que foi governador e comandante-chefe (1968/73) (*)... Embora fosse mais conhecido, dentro e fora da  caserna, por  "Caco Baldé" ou simplesmente "Caco". (Os oficiais do QP  chamavam-lhe o "Velho", o seu nome de guerra era o "Bispo").

Bruno foi o seu primeiro ajudante de campo, o capitão de cavalaria 'comando' João Almeida Bruno (1935-2022) (morreu como general reformado).

António Spínola (1910-1996) quando foi para a Guiné em meados de 1968, escolheu a dedo os elementos da sua equipa, diz o seu biógrafo, o historiador Luís Nuno Rodrigues ("Spínola: biografia", Lisboa:  A Esfera dos livros, 2010, 
 pág. 106).

Uns vieram de unidades e subunidades de cavalaria com provas dadas em Angola: 

  • como Almeida Bruno (que foi cap cav, of inf op / adj, BCAV 745 , Angola, jan 1965/ fev 1967); 
  • ou  como Henrique Bernardino Godinho (cap cav, of op / inf ( adj), e Rui Mamede Monteiro Pereira (cap cav, cmdt da CCAV 295) oficiais que pertenceram ao célebre BCAV 345, que o Spínola comandou em Angola, como tenente-coronel e depois coronel, entre dezembro de 1961 e fevereiro de 1964.

Além de pertencerem à arma de cavalaria, outro critério era terem sido alunos do Colégio Militar, como ele (que foi o nº 33, no período de 1920 a 1928).

Independentemente da arma de origem e/ou da passagem pelo Colégio Militar, pesava muito a  "competência técnico-militar", que ele reconheceu em militares como Firmino Miguel, Belchior Vieira, Lemos Pires, Pereira da Costa, Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho, Carlos Fabião.

A alcunha "Aponta, Bruno!”, associada ao António de Spínola, faz parte da Spinolândia, aquele universo meio mítico, meio pícaro, de humor caserna, que se criou à volta da sua figura (e da sua "entourage") durante a guerra colonial na Guiné,  e mais exatamente no período em que foi governador e comandante-chefe (maio de 1968 / agosto de 1973).

A expressão ficou célebre porque, segundo relatos de militares da época, Spínola tinha o hábito de mandar , ao seu ajudante de campo, o capitão Bruno, “apontar” (registar, tomar nota, ou até preparar algo com rapidez), muitas vezes em tom perentório. 

A frase acabou por se transformar em refrão ou bordão de caserna.

Quanto às anedotas, elas circulam sobretudo na tradição oral e variam bastante, mas seguem quase sempre o mesmo padrão: brincar com a autoridade do general e a prontidão do Bruno.

A expressão nasce, pois,  da presença constante, quase obsessiva,  do seu primeiro ajudante de campo (1968/69), o então capitão de cavalaria 'comando' João Almeida Bruno:  andava sempre próximo dele, quase como uma extensão operacional.

Os outros dois ajudantes de campo, que sucederam ao Almeida Bruno,  também eram de cavalaria:

  • Cap cav Lourenço Fernandes Tomás (1969/72) ;
  • Cap Cav Carlos Domingos de Oliveira Ayala Botto (1972/73) (nosso grão-tabanqueiro).

2. A imagem que ficou (muito alimentada pelo humor de caserna e pelas memórias de antigos combantentes, além da documentação fotográfica) era a de um Spínola teatral, de monóculo, pingalim, luvas e postura aristocrática, de “cavaleiro”, sempre impecável no seu uniforme, e que apontava alvos, reais ou figurados, com determinação e dramatismo. O Almeida Bruno não lhe ficava atrás na pose.


(i) A anedota típica (em várias versões): circulavam versões diferentes, mas o núcleo era mais ou menos este:

Spínola, em visita a uma posição no mato, observa o horizonte com o monóculo e diz, com ar solene:

— Inimigo à vista!...

Pausa teatral.

— Aponta, Bruno!

O Bruno, sempre pronto, apontava…

E alguém murmurava atrás, meio a sério, meio na galhofa:

— Já está apontado, meu general… agora só falta aparecer o inimigo…


(ii) Ou noutra variante mais mordaz:


— Aponta, Bruno!

— P'ra onde, meu general?

— P'ra qualquer lado, homem! O importante é manter a iniciativa!


(iii) A solução para tudo

Entre soldados, qualquer problema,  desde a merda da comida até à falta de material, era resolvido com a frase milagrosa:

— Não te preocupes, caga nisso… aponta, Bruno!

Ou seja, tornou-se também sinónimo de “deixa andar” ou “alguém há de tratar disso”.


(iv)  A pontaria na carreira de tiro:

Noutra versão mais caricatural, durante a IAO ou na carreira de tiro, se alguém falhava um alvo, um outro gritava:

— Ó pá, isso não é nada!... Aponta, Bruno!

Como se o Bruno resolvesse até as falhas da pontaria dos "tugas".


(v) O apontar… tudo!

Dizia-se que o Bruno levava a ordem tão à letra que, se o general comentasse algo banal tipo “uff!, que calor”, ele pegava logo no famoso  bloco 
“Aponta, Bruno!”...  e lá ficava registado o desafo do comandante-chefe como se fosse uma ordem operacional. 

A piada acabou por evoluir para qualquer coisa como : “Põe-te a pau com o que dizes perto deles, as tuas bocas ainda vão parar ao QG.”


(vi) O milagre  impossível

Numa versão mais absurda, Spínola teria pedido algo completamente irrealista (tipo ter determinado material de engenharia  “para amanhã de manhã” ).

Resposta típica da tropa:

— Não há problema… aponta, Bruno, que há de aparecer, a tempo e horas!”

Era uma forma de gozar com  ordens impossíveis ou absurdas "vindas de cima".


(vii) A cunha:

Entre oficiais mais novos (onde Spínola, de resto, era popular), dizia-se:

— Queres subir na carreira? Não te chateies, não estudes… Aponta, Bruno!

Ou seja, bastava estar perto de quem mandava e cair nas suas boas graças, e ir dizendo ámen (isto é, “sim, meu general”).


(viii) A versão mais atrevida, pícara, brejeira  se não mesmo pornográfica:

Em linguagem de calão, quando alguém se gabava demais,  dava ordens sem sentido ou "se armava em carapau de corrida" (sic), corria o risco de  ouvir:

— Olha,  este!… Pensa que é o Aponta, Bruno, mas vê lá para onde é que apontas! — e virava o traseiro.

Aqui o humor já descambava para o duplo sentido, como era comum na caserna.


(x)  Omnipotência:

Havia ainda a ideia de que o Bruno resolvia tudo:

—  Falta cerveja ?!

— Aponta, Bruno!

— Faltam granadas de obus ?!

— Aponta, Bruno!

— Não há gajas?!

— Aponta, Bruno!

— Porra, nunca mais chega a peluda ?!

— Eh,  pá… essa já nem o Bruno aponta!


3. O que está por trás da graça ?

A piada joga com três traços atribuídos , mal ou bem, a Spínola:

  • encenação e estilo pessoal: ele cultivava uma imagem muito forte, quase cinematográfica (embora, curiosamente, não costumasse andar com fotógrafos atrás, até por que o heli AL III tinha limitações de espaço);
  • comando muito próximo da frente: visitava posições das NT, aparecia de helicóptero quando menos se esperava,  marcava presença no mato junto dos seus soldados;
  • dependência funcional e simbólica do ajudante de campo:  o “Bruno” transformou-se numa personagem, quase como um escudeiro, um verdadeiro "cromo" (secretário, que tomava notas, mas também era guarda-costas, andando sempre armado).

Este tipo de piadas funcionava quase sempre4 como uma válvula de escape. Num contexto duro como a guerra da Guiné, brincar com figuras de autoridade, mesmo que de forma exagerada, caricatural  ou irreverente, ajudava a aliviar a tensão ou de sublimar a revolta.


António de Spínola, governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, à direita, durante o discurso de um líder guineense, à esquerda (c. 1968/69).  Spínola promoveu o diálogo sob o lema: «Por uma Guiné melhor». O deputado ou futuro deputado James Pinto Bull (1913-1970) é visível, em segundo plano, entre o lider guineense que discurs e o Spínola. Possivelmente a foto, de autor desconhecida, foi tirada durante a campanha para as elieções legislativas (para a Assembelia Nacional) de 26 de outubro de 1969. Pinto Bull era o único candidato para o círculo eleitoral da Guiné, proposto pela União Nacional.

Fonte: Adapt de Museu da Presidência da República (com a devida vénia...)


4. Origem da alcunha "Caco Baldé”


A outra alcunha,"Caco" ou  "Caco Baldé, é diferente, mas a sua origem é mais controversa: mas, dizem,  viria  sobretudo do contacto com o meio guineense (os "guinéus") e da forma como os africanos reinterpretavam nomes e figuras portuguesas, muitas vezes com humor muito próprio. Caco seria o monóculo; Baldé, um apelido fula vulgar (como o nosso Silva)... 

Ficamos sem saber se a alcunha lhe foi dada pelos "guinéus", se pelos "tugas". O "Aponta, Bruno" é claramente castrense... Já o "Caco Baldé" teria sido uma expressão grafada pelos fulas, segundo a intuição do Cherno Baldé,

Também aí há histórias, mas são mais difusas e menos padronizadas do que o “Aponta, Bruno!”


António J. Pereira da Costa: 
nosso grão-tabanqueiro desde 12/12/2007, coronel art ref 

 (i) ex-alf art, CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69; (ii) ex-cap art, cmdt da Btr AAA 3434, Bissau;  (iii) cmdr CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo;  (iv) cmdt CART 3567, Mansabá, 1972/74.








4.1. O António J. Pereira da Costa fez uma leitura interessante sobre esta alcunha, mais recorrente e popular, o "Caco Baldé" (**)

(...) O Caco Baldé acaba por ser um nome carinhoso para materializar a popularidade o prestígio de um chefe. 

Sabemos bem que essa alcunha casa o monóculo (Caco) com um apelido frequente na Guiné (um espécie de Silva ou Oliveira) e nada mais. 

Creio que ele realizou uma aprendizagem e aproximação lúcida à vida do seu tempo. O seu modo de pensar terá evoluído desde o BCAV 345, em Angola (1961/64)  até à Guiné 73 que só poderia desembocar no 25Abril74.

Tenho para mim que era um dos melhores generais dos exércitos europeus. Ele tinha mais de 30.000 homens sob o seu comando e mais de meio milhão de civis à sua responsabilidade. 

Se tomarmos como referência os países da NATO não vejo nenhum que tivesse algo para lhe ensinar, na prática (bem entendido). Exceptuando os americanos que, riquíssimos em meios, perdiam a guerra do Vietname e os franceses que também não ganharam a da Argélia, todos andavam a "brincar aos soldados" em cenários hipotéticos em que o "insidioso, ardiloso e mauzinho In" vinha de Leste a correr pela Europa fora com uma foice numa mão, um martelo na outra e uma estrelinha no alto da cabeça.

Enquanto que ele tinha operações todos os dias (de todos os tipos e formas); logística (má e insuficiente) todos os dias; gestão de pessoal (insuficiente) todos os dias e todo o resto... e era tudo par ter efeitos ontem, porque amanhã já era outro dia com novos problemas. 

Depois veio o período mais conturbado que nenhum dos estrangeiros atravessou, mesmo os que poderiam ter tido intervenção na condução da política dos seus países. Andou mal. Poderia ter andado melhor. Talvez, mas os homens que não fazem asneiras normalmente também não fazem mais nada.

Um Ab.
António J. P. Costa


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013 às 18:14:00 WET


4.2. Não menos original  (e seguramente mais surpreendente e etnocêntrica)  é a leitura que faz o nosso amigo Cherno Baldé [foto à direita] (***), que se orgulha da sua origem fula:


(...) Caco Baldé tem origens no meio e língua fulas, é uma alcunha bem conseguida e duplamente interessante.

 Caco, khaco ou haco, originalmente, quer dizer cor castanha (a cor das folhas secas), na língua fula, e servia inicialmente para designar a cor da farda das autoridades administrativas e/ou da tropa colonial.

Mais tarde, para simplificar, este termo seria simplesmente utilizado para designar, de forma disfarçada e caricatural, as autoridades coloniais ou seus representantes.

O apelido Baldé seria lindamente encaixado em acréscimo, certamente, seguindo a lógica da brincadeira muito habitual entre grupos que se consideram primos por afinidade (sanguínea ou territorial), a  “sanencuia”.

Por exemplo, os Djaló são primos dos Baldé por afinidade sanguínea, da mesma forma que o grupo fula, na sua generalidade, é primo do grupo etnolinguístico mandinga que abrange Saracolés, Soninqués, Bambaras etc., por afinidade territorial.

Também é bastante lógico se tivermos em conta que a maior parte dos chefes tradicionais fulas (régulos) e colaboradores das autoridades coloniais, no chão fula, ou pertenciam a esta linhagem ou tinham este apelido, de modo que é uma homenagem e, ao mesmo tempo, uma caricatura dirigida a linhagem dos Baldé, na minha opinião bem conseguida, por um primo, resultante da brincadeira entre grupos de afinidade, usando a figura da maior autoridade portuguesa, de então, no território da Guiné.

Não tenho a certeza e trata-se de uma conjectura da minha parte como pista para uma pesquisa mais aprofundada. (...)

(Revisão / fixação de texto, títulos: LG)

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segunda-feira, 16 de março de 2026

Guné 61/74 - P27825: Manuscrito(s) (Luís Graça) (283): Maratona da amizade e da camaradagem


Lisboa > Largo da Madalena > 15 de novembro de 2009 > Pormenor da calçada à antiga portuguesa, à entrada da Igreja da Madalena... Se não forem os nossos amigos calceteiros, portugueses, de origem cabo-verdiana, já não há ninguém a faça... F*da-se, dá cabo das costas e dos joelhos!

Foto (e legenda): Luís Graça (2009). Direitos reservados


A maratona da amizade e da camaradagem

por Luís Graça

O João Crisóstomo
o mais famoso dos mordomos portugueses de Nova Iorque,
e agora régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona,
instituiu o dia 14 de fevereiro 
como o Dia da Amizade... e da Camaradagem (*), 
Pois que seja o Dia do Camarigo, por causa das confusões.

E eu lembrei-me da maratona
que vamos fazendo,
trilhando velhas picadas, 
cada um até ao seu dia,
cada um de nós, os amigos e camaradas da Guiné.
Lembrei-me, 
revisitando um velho, longo poema
que estava no baú das minhas blogarias (**).

Juram, os amigos,
que a amizade não se esgota
nas questões de lana caprina.
Nem se dilui na espuma dos dias.
Testa-se e reforça-se na provação.
A amizade e a camaradagem
(que só pode existir na guerra
e noutras situações-limite).

É verdade, Abel, Abílio, Acácio, Adão, Adelaide, Adelino, 
Adélio, Adolfo, Adriano, Afonso, Agostinho ?!

Dizem outros que eles, os amigos,
devem ser para as ocasiões.
Todas as ocasiões ?
As pequenas e as grandes ?
As boas e as más ? Sobretudo as más ?
A estação seca e a estação das chuvas  ?
A paz e a guerra ?

 ... Albano, Albertino,  Alberto, Alcides, 
Alexandre, Alfredo, Alice, Almeida,   

Ou tudo isso é letra morta, treta?!
Que os amigos conhecem-se
na adversidade, diz o provérbio.

Almiro,  Altamiro, Álvaro, Amaral, Amaro,  
Américo,  Amílcar, Ana, Anabela,  
Angelino Aníbal, Anselmo, Antero ?!

E os camaradas, na guerra,
dizia o senhor doutor Lobo Antunes.
E os colegas nas tainadas e nas putas,
dizia o teu instrutor
de minas, fornilhos e outras armadilhas da vida.

Dizem que sim com a cabeça, 
António, Arlindo, Armandino, Armando, 
Arménio, Armindo,  Augusto, Áurea

Quem em caça, política, guerra e amores se meter,
não sairá quando quiser.


Sairá ou não,
Belarmino, Belmiro, Benito, Benjamim, 
Benvindo, Bernardino, Braima ?!

Os amigos, os verdadeiros e os falsos,
conhecem-se nas ocasiões.
Que a adversidade é o teste da amizade.
A prosperidade traz amigos,
a adversidade os afasta,
diz o chinoca da tua rua,
que não tem amigos,
a não ser o dicionário de português-cantonês,


que poderia ter sido escrito
o que é que vocês acham ?!,
p'lo Campelo, Cândido, Carlos,
se tivessem nascido em Macau,
filhos desventrados e desventurados
do Fernão Mentes Minto ?!

Oh, Galissá, Galissá, 
que no céu se fazem amigos;
e, no inferno da guerra, inimigos,
canta o poeta, cego, da tua rua,
tocador de cora,
deambulando de tabanca em tabanca,
no que resta do regulado de Gabu.

Lembram-se Carmelino, Carvalhido, Casimiro, 
Cátia, Célia, César, Cherno, 
Cláudio, Conceição, Constantino, Cristina ?!

Que a amizade é um edifício
que leva uma vida a construir,
e que num minuto pode ruir,
garante o Esquilo Sorridente,
que era o nome de guerra de alguém,
quando bom escoteiro em Ingoré, 
lá no Norte da Guiné.

Pelo menos assim te contaram, 
Daniel, David, Delfim, Diamantino. 

Não, vocês, não passaram por Ingoré.
Mas passaram por outros sítios da Guiné 
onde Jesus Cristo nunca parou.
Nem Alá.

Diana, Dina, Domingos,  Duarte e Durval.

No aperto do perigo, conhece-se o amigo.
Essa é a verdade,
e a verdade é um osso duro de roer,
até para o cão que rói o osso,
na opinião de quem em Bissorã teve um cão.

Dizem que um cão é uma boa companhia,
Edgar, Eduardo, Egídio, Ernestino, Ernesto, 
Estêvão, Eugénio, Evaristo,
que nunca tiveram cão de guerra.

Que os amigos fazem-se,
praticando a amizade,
E os camaradas a camaragem.
E os camaradas que são amigos
a camaradagem.

Felismina, Fernandino, Fernando, 
Ferreira, Filomena, Fradique.

Tal como os caminhos que, se não se usarem,
ganham espinhos, ervas, silvas, moitas, carrascos,
pedras soltas, calhaus, pedregulhos,
tornam-se abatizes, obstáculos, bagabagas, 
cabeços, colinas, montanhas.

Vero ?!... Gabriel, Garcez, George, Germano, 
Gil, Gilda, Gina, Giselda.

Ou na versão de um velho homem grande, 
mandinga de Contuboel,
algures na velha Guiné agora Bissau:
"a amizade é uma picada
que desaparece na areia, na bolanha ou no mato,
se não a usares todos dias".
Disse-te ele um dia.

Gonçalo, Graciela, Gualberto, 
Guilherme, Gumerzindo, Gustavo.

Não aceito que digas:
"Amigo não empata amigo",
porque o amigo é isso,  
tens toda a razão, camarigo,
que o amigo é para se usar, se guardar
e se resguardar.

 
Achas que sim ou que não ?!, 
Hélder, Henrique, Herlânder, 
Hernâni, Hilário, Hugo, Humberto. 

Para se resguardar das pontadas de ar, 
dos tiros tensos do canhão sem recuo 
e das emboscadas
e dos estilhaços do "jato do povo"-
Não é para se usar, expor e deitar fora,
na berma da picada armadilhada.

Ah!, Idálio, Ildeberto, Inácio, Inês,
Ah!, Isabel, Ismael... 

A amizade não é um objecto descartável,
manda o profeta dizer no seu último mail.
(Ou foi o Sócrates, o grego, antes da cicuta ?).

A conselho amigo, não feches o postigo,
além de que amigo diligente é melhor que parente.
Sobretudo se te dói o dente.

Ah!, Jota A, Jota C, Jota F, Jota L., Jota M.
 
E já que tens físico amigo,
queres dizer médico no antigamente,
manda-o a casa do teu inimigo.
Escreveu o Dom Dinis, 
que foi rei, e régulo da Tabanca da Linha, 
e já morreu, em plena pandemia,
mandou lavrar cantiga de escárnio e mal dizer,
além do pinhal de Leiria.
Quem seu inimigo poupa, às mãos lhe morre.

Ah! Jacinto, Jaime, Jean, Jéssica, João
Joaquim, Jochen,
será que vocês assinam por baixo ?

Mas, atenção, 

amigo disfarçado, inimigo dobrado.
E o que fazer ao amigo que não presta
e à faca que não corta, 
Jorge ?

Também se diz que os amigos novos
metem os velhos no canto ou a um canto.
Se não se diz, pensa-se.
Será assim, mano,
que os amigos também cansam
como a sarna na pele,
como a pele e as suas sete camadas ?

Que se percam, pouco importa!
proclama pela telegrafia sem fios
o coro dos Josés de A a Z

Não sei o que é que vocês pensam:
"Os amigos têm prazo de validade" ?

Joviano, Júlia, Júlio, Juvenal.
 
Uma questão que nada tem de metafísica:
ovo de uma hora,
pão de um dia,
vinho de um ano,
mulher de vinte,
amigo de trinta
e deitarás boa conta.


Lázaro, Leão, Leonel, Lia, 
Libério, Lígia, Luciana, 
Luciano, Lucinda, Luís com s ou com z, 
conforme o desacordo ortográfico.

Amigo, vinho e azeite... o mais antigo,
garante quem passou por Buruntuma
onde não havia azeite (ou se o havia, era o de dendê)
nem vinho... mas havia amigos.

Mamadu, Manuéis de A a Z,  
Margarida, Maria, Mário.

O vinho e o amigo, quer-se do mais antigo,
recomendam o outro Jorge, que é engenheiro,
mais o Picado, que foi agrónomo.
E o que farás dos teus novos amigos, Virgílio,
que não fazem anos no mesmo dia que tu ?

Marisa, Marta, Martins, 
Maurício, Maximino, Melo, Miguel,
 
Faz como o vinho, Zé Manel da Régua,
se for bom mete-o a envelhecer
em cascos de carvalho.
Francês.
Ou castanho.
Português.
A amizade não tem pátria 
Nem é chauvinista. 
Nem é racista.

Garantem o Natalino, o Nelson, o Norberto, 
mais o Nunes e o Nuno,

E por que é que os amigos dos teus amigos 
teus amigos são ?
É como os filhos do teu filho, serão dele ou não…
Que ao menos,
Jorge, 
cresçam Narcisos no teu jardim.

Que sabem vocês, 
que sabemos nós, 
amigos e camaradas da Guiné ?!
Só sabíamos do desalento, 
e do vento
e da morte na alma
e da terrível secura na garganta
e das lágrimas que não podíamos chorar
quando trazíamos do mato, 
os camaradas mortos,
às costas...


Orlando, Orlando, Osvaldo, Otacílio.

Só damos valor às coisas,  
quando elas nos faltam,
e aos amigos
quando fazemos o luto pela sua perda.
E já perdemos tantos, "alfero" Cabral",
tantos de A a Z
camaradas como tu e o António, 
ou amigas como a Zélia!

São tantos os estereótipos, 
amigos e camaradas,
sobre os amigos e a amizade.
E os camaradas.

Pacífico, Patrício, Paula,  Paulo, Pedro.

Sem falar do 'Nino', e do Pires, e do Mané, e do Manecas, e do Indjai, 
dos teus inimigos, que, esses, afinal
eram os mais previsíveis,
estavam sempre do outro lado da ponte...

Que à volta eles cá te esperam,
Amílcar Cabral,
aliás Abel Djassi.
Bolas, vocês até podiam ter sido,
se não amigos,  bons vizinhos!
Que camaradas, salvo seja,
cada "dari" ou chimpanzé no seu galho!
Que chimpanzé não é macaco,
era ferreiro castigado por Alá 
por trabalhar ao sábado 
e andar a fazer drones e espadas de guerra
em vez de arados para lavrar a terra.

Ramiro, Raul, Ribeiro, Ricardo, 
Rogé, Rogério, Rosa, Rui.

Amigo verdadeiro, esse vale mais do que dinheiro,
meu pobre Amadu Djaló,
bom crente, bom muçulmano,
bravo combatente,
leal aos teus amigos "tugas",
tu a quem já te acusaram de mercenário.

Mas vale a morte que tal sorte, Marcelino,
quando os amigos que tens não os tens.
Como os velhos elefantes, 
devias ter voltado para o teu chão,
para morrer entre os teus
e seres enterrado debaixo do teu poilão
Zé Carlos Suleimane Baldé.

O próximo teste,
é quando ganhares o Euromilhões.
Ou quando ficares esticado no caixão, ao comprido:
será que lá terás todos os gatos pingados da companhia ?

Sadibo, Santos, Sebastião, Sérgio, Serra,  
Silvério, Sílvia, Sílvio, Souleimane, Sousa, Susana, 

Antes boa que má companhia, 
nem que seja a do gás e electricidade.
Amigos, amigos, negócios à parte,
dizia o teu primeiro,
que chegou a "mandjor"...

Tibério, Timóteo, Tina, Tomané, Tomás, Tony.

Afinal, quem vai à guerra dá e leva.
Quem te avisa, teu amigo é,
leste uma vez no bilhetinho anónimo
do tempo da delação e do inquisidor-mor.

Quem seu amigo quiser conservar,
com ele não há-de negociar.
E será que se pode blogar,
Carlos ?
Longe da cidade, tanto melhor, diz o
Vinhal,
que é da vila de Leça da Palmeira.

Mas... quem tem amigos, não morre na cadeia,
nem no exílio, dourado,
seja feio ou belo, 
e mesmo que se chame José, o viking.

Um rico avarento não tem amigo nem parente.
As boas contas fazem os bons amigos.
Ao bom amigo, com o teu pão e o teu vinho.
Ao rico mil amigos se deparam,
ao pobre até seus irmãos o desamparam.

Os camaradas, comandos, páras e fuzos, dizem: 
"Connosco ninguém fica para trás"...
Aquele que te tira do perigo, é teu amigo.
Bocado comido não faz amigo,
porque não é partilha...
Defeitos do teu amigo ?

Lamento, meu caro Mário, mas não maldigo
o teu nome de guerra, "Tigre de Missirá"
Em tempo de figos, não há amigos.
Chacun que se governe, Patrício,
em caso de peste (de que Deus nos livre!).
Ou de ataque de abelhas.
Ou de pânico mortal.
Ou de fobia,
acrescenta aí, "Duque do Cadaval".

Muitos conhecidos, poucos amigos:
não é nenhuma heresia,
é palavra do Senhor,
e o Senhor esteja contigo,
meu camarigo  Jaquim,
e com todos nós, filhos da humanidade,
de Abel e de Caim.
Afinal foi Jesus Cristo que nos mandou
amar a Deus acima de todas as coisas 
e ao próximo como a nós mesmos.
Mas parece muito mais fácil 
cumprir o primeiro mandamento do que o segundo,
dizia o camarigo  Jero
Ora, bolas, como podemos amar a Deus que não vemos, 
se não amarmos o próximo que está à nossa frente, 
pergunta o capelão Puim?!

Guardem-se, entretanto, do alvoroço do povo, 
todo os Josés e todo os Joões,
mais os Martins,
e de travar com o doido.

Mas se calhar não há maior amigo 
do que o mês de julho
com o seu trigo que dá pão.
Olha, mulher, se não tens marido,
pouca sorte a tua,
não tens amigo e acabas na rua,
Lena, Hiena, de Bafatá.

Amigo mesmo é aquele que sabe o pior
a teu respeito
e mesmo assim... continua a gostar de ti,
mesmo que tenhas perdido a tua caderneta de vôo,
meu inFélix piloto Jorge dos Allouettes...

Quando uma pessoa perde dinheiro, perde muito;
quando perde um amigo, perde mais,
ó herói de Gadamel, agora tabanqueiro na Maia;
quando perde a coragem e a fé, perde tudo.
Onde é que já leste isto, Gil,
da Tabanca dos Melros ?

Valente, Valentim, Vasco, Victor (com c e sem c).

Difícil, meus amigos e camaradas da Guiné,
é ganhar um amigo numa hora;
fácil é ofendê-lo
e perdê-lo num minuto.
O Torcato Mendonça "dixit", 
da sua janela do Fundão
que dava para a Gardunha,
a Serra da Estrela e a Cova da Beira.

Vilma,Virgílio, Virgínio,   Zé.

Hoje é o amanhã
que tanto nos preocupava ontem,
escreveste tu isto no teu diário,
nas páginas dos feriados 
e dos Dias de Todos os Santos guerreiros...

Mas não menos sábia 
do que a do teu amigo Cherno
é a sabedoria do mongol:
o vitorioso tem muitos amigos, fracos,
mas o vencido tem bons amigos, valentes.
E até o otomano aprendeu à sua custa:
"Quando o machado entrou na floresta,
as árvores disseram:
'O cabo é dos nossos,
mas a lâmina de aço... não a estamos a reconhecer'".

Resta-nos a agridoce memória do passado,
as toponímias da nossa peregrinação trágico-marítima,
do Pijiguiti ao Xime,
de Bolama a Buba,
de Gandembel a Guileje,
de São Domingos a Catió,
sem esquecer o Cheche, 

e o Paulo, e o Rui, e o Aparício 

O que foi duro de sofrer,
lá longe da Pátria,
é agora doce de recordar,
no lar, no doce lar, 
conclui o cadete da Academia,
na fria pedra de mármore de Vila Viçosa.

Olha o Cufeu, Amílcar,
olha o Cufar, Fitas!

Planta hoje a semente da amizade,
mesmo que não sejas lavrador,
para colheres amanhã a flor da gratidão.
Ser amigo é ser generoso,
é dar antes de te pedirem,
é um gesto gratuito.
Quiçá o mais puramente gratuito dos teus gestos.
Ou será interesseira, a amizade ?
Para ti, não é como dar aos pobres...
Aí emprestas a Deus,
tu que és Paulo e Lage, tu que és pedra,
e Deus paga-te em vida ou na morte,
com os dividendos do poder,
da glória, da fama, da riqueza 
ou da eternidade,
lá no Olimpo dos Camarigos

Se estás tão cansado, meu amigo,
Junqueira, Condeço, Tavares,
que não possas dar-me um sorriso,
eu deixo-te o meu,
a ti que és Victor,
E "In Hoc Signo Vinces".

Não, nunca digas:
"Chega-te para lá, que me tapas o meu sol".
Por que o sol quando nasce devia ser para todos.
As lágrimas dos bons caem no chão,

Arminda, Rosa, Áurea, Giselda, Ivone, Zulmira,

para poderem vir a engrossar os rios da revolta
e da indignação.
Inútil tentares juntar as tuas mãos,
se elas não estiverem vazias,
diz o teu guru do Tibete, agrilhoado.
Os amigos escolhe-os tu,
os parentes são os que Deus te deu.
Quando estás certo, ninguém se lembra;
quando estás errado, ninguém esquece.

Amigos e camaradas paraquedistas,
poucos e loucos mas bons,
que não são do arre-macho
nem da tropa-macaca,
que também é gente e primata,

Volta o teu rosto na direção do sol, 
tu, Miguel, que és o mais "strelado" de todos nós,
para que as sombras fiquem para trás, 
E não caias do céu aos trambolhões, 
tu, tenente pilav que chegaste a general.

À laia de conclusão,
amigos e camaradas da Tabanca Grande, de A a Z,
sintam-se todos evocados e convocados,
para esta maratona da amizade e camaradagem.
E honrados.

Antes de começares o trabalho de mudar o mundo,
dá três voltas dentro de tua casa...
E sobretudo não esqueças a lição
sobre a parábola da Sabedoria e da Asneira:
"Para os erros alheios,  
temos os olhos do lince;
para os nossos próprios, 
os olhos da toupeira".
 
 
PS - Requiem para os amigos e camaradas da Tabanca Grande
que já se despediram da Terra da Alegria

A. Marques Lopes (1944-2024) 
Agostinho Jesus (1950-2016) 
Alberto Bastos (1948-2022) 
Alcídio Marinho (1940-2021) 
Alfredo Dinis Tapado (1949-2010) 
Alfredo Roque Gameiro Martins Barata (1938-2017) 
Amadu Bailo Jaló (1940-2015) 
Américo Marques (1951-2019) 
Américo Russa (1950-2025) 
António Branquinho (1947-2023)
António Cunha ("Tony") (c.1950 - c. 2022)  
António da Silva Batista (1950-2016) 
António Dias das Neves (1947-2001) 
António Domingos Rodrigues (1947-2010) 
António Eduardo Ferreira (1950 - 2023)
António Estácio (1947-2022) 
António José Matias (1949-2022)
António Manuel Carlão (1947-2018) 
António Manuel Martins Branquinho (1947-2013) 
António Manuel Sucena Rodrigues (1951-2018) 
António Medina (1939-2025) 
António Rebelo (1950-2014) 
António Teixeira (1948-2013) 
António Vaz (1936-2015) 
Armandino Alves (1944-2014) 
Armando Tavares da Silva (1939-2023) 
Armando Teixeira da Silva (1944-2018) 
Augusto Lenine Gonçalves Abreu (1933-2012) 
Aurélio Duarte (1947-2017) 

Carlos Alberto Machado Brito (1932-2025)
Carlos Alberto Cruz (1941-2023) 
Carlos Azeredo (1930-2021) 
Carlos Cordeiro (1946-2018) 
Carlos Domingos Gomes (Cadogo Pai) (1929-2021) 
Carlos Filipe Coelho (1950-2017) 
Carlos Geraldes (1941-2012) 
Carlos Marques dos Santos (1943-2019) 
Carlos Rebelo (1948-2009) 
Carlos Schwarz da Silva, 'Pepito' (1949-2012) 
Carronda Rodrigues (1948-2023) 
Celestino Bandeira (1946-2021) 
Clara Schwarz da Silva (1915-2016) 
Cláudio Ferreira (1950-2021) 
Coutinho e Lima (1935-2022) 
Cristina Allen (1943-2021) 
Cristóvão de Aguiar (1940-2021) 
Cunha Ribeiro (1936-2023) 
Daniel Matos (1949-2011) 
Domingos Fernandes (1946-2020) 
Eduardo Jorge Ferreira (1952-2019) 
Elisabete Silva (1945-2024) 
Ernesto Marques (1949-2021) 

Fernando Brito (1932-2014) 
Fernando Calado (1945-2025)
Fernando Costa (1951-2018) 
Fernando [de Sousa] Henriques (1949-2011) 
Fernando Franco (1951-2020) 
Fernando Magro (1936 - 2023) 
Fernando Rodrigues (1933-2013) 
Florimundo Rocha (1950-2024)
Francisco Parreira (1948-2012) 
Francisco Pinho da Costa (1937-2022) 
Francisco Silva (1948-2023)
França Soares (1949-2009) 
Gertrudes da Silva (1943-2018) 
Horácio Fernandes (1935-2025)
Humberto Duarte (1951-2010) 
Humberto Trigo de Xavier Bordalo (1935-2024) 
Inácio J. Carola Figueira (1950-2017) 
Isabel Levezinho (1953-2020) 
Ivo da Silva Correia (c. 1974-2017) 

João Barge (1945-2010) 
João Cupido (1936-2021)
João Caramba (1950-2013)
João Diniz (1941-2021)
João Henrique Pinho dos Santos (1941-2014)
João Meneses (1948-2020)
João Rebola (1945-2018) 
João Rocha (1944-2018) 
João Silva (1950-2022)
Joaquim Cardoso Veríssimo (1949-2010) 
Joaquim da Silva Correia (1946-2021) 
Joaquim Peixoto (1949-2018) 
Joaquim Sequeira (1944-2024) 
Joaquim Vicente Silva (1951-2011) 
Joaquim Vidal Saraiva (1936-2015) 
Jorge Cabral (1944-2021) 
Jorge Rosales (1939-2019)
Jorge Teixeira (Portojo) (1945-2017) 
José António Almeida Rodrigues (1950-2016) 
José António Paradela (1937-2023) 
José Augusto Ribeiro (1939-2020) 
José Barreto Pires (1945-2020) 
José Carlos Suleimane Baldé (c.1951-2022) 
José Ceitil (1947-2020) 
José Eduardo Alves (1950-2016) 
José Eduardo Oliveira (JERO) (1940-2021) 
José Fernando de Andrade Rodrigues (1947-2014) 
José Luís Pombo Rodrigues (1934-2017)
José Manuel Amaral Soares (1945-2024)
José Manuel Dinis (1948-2021) 
José Manuel P. Quadrado (1947-2016) 
José Marcelino Sousa (1949 - 2023) 
José Martins Rosado Piça (1933-2021) 
José Maria da Silva Valente (1946-2020) 
José Marques Alves (1947-2013) 
José Moreira (1943-2016) 
José (ou Zé) Neto (1929-2007) 
José Pardete Ferreira (1941-2021) 
Júlio Martins Pereira (1944-2022) 

Leite Rodrigues (1945-2025) 
Leopoldo Amado (1960-2021) 
Leopoldo Correia (1941-2024)
Libório Tavares (Padre) (1933-2020) 
Lúcio Vieira (1943-2020) 
Luís Borrega (1948-2013) 
Luís Encarnação (1948-2018) 
Luís Faria (1948-2013) 
Luís F. Moreira (1948-2013) 
Luís Henriques (1920-2012) 
Luís Rosa (1939-2020) 
Luiz Fonseca (1949-2024)
Mamadu Camará (c. 1940-2021) 
Manuel Amaral Campos (1945-2021) 
Manuel Carneiro (1952-2018) 
Manuel Castro Sampaio (1949-2006) 
Manuel Dias Sequeira (1944-2008)
Manuel Marinho (1950-2022) 
Manuel Martins (1950-2013)
Manuel Moreira (1945-2014) 
Manuel Moreira de Castro (1946-2015) 
Manuel Varanda Lucas (1942-2010) 
Manuel Gonçalves (Nela (1946-2019 (*) 
Marcelino da Mata (1940-2021) 
Maria da Piedade Gouveia (1939-2011) 
Maria Ivone Reis (1929-2022) 
Maria Manuela Pinheiro (1950-2014) 
Mário de Oliveira (Padre) (1937-2022) 
Mário Gaspar (1943-2025)
Mário Gualter Pinto (1945-2019)
Mário Vasconcelos (1945-2017)
Nelson Batalha (1948-2017) 
Nuno Dempster (1944-2026)
Nuno Rubim (1938-2023)

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021) 
Paulo Fragoso (c.1947-2021) 
Queta Baldé (1943-2021) 
Raul Albino (1945-2020) 
Renato Monteiro (1946-2021)
Regina Gouveia (1945-2024) 
Rogério da Silva Leitão (1935-2010) 
Rui Alexandrino Ferreira (1943-2022) 
Rui Baptista (1951-2023) 
Suleimane Baldé (1938-2025)
Teresa Reis (1947-2011) 
Torcato Mendonça (1944-2021)
Umaru Baldé (1953-2004) 
Valdemar Queiroz (1945-2025)
Vasco Pires (1948-2016) 
Veríssimo Ferreira (1942-2022) 
Victor Alves (1949-2016) 
Victor Barata (1951-2021) 
Victor Condeço (1943-2010) 
Victor David (1944-2024) 
Vítor Manuel Amaro dos Santos (1944-2014) 
Xico Allen (1950-2022) 
Zélia Neno (1953 - 2023)
_________

Luís Graça (2009). O original foi escrito num noite de insónias,
há muitos anos (**).

Revisto e melhorado em 14/3/2026,
o dia em que a minha neta Rosa Klut Graça começou a andar,
às 20:15, na casa da Graça.
30 pequenos passos de gigante.
O primeiro "sprint" da sua vida. Aos 13 meses e meio.
E eu, por sorte, registei em vídeo esse momento único.
______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 14 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27734: Efemérides (383): O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o Dia dos Namorados”, é o ‘Dia da Amizade” (João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf)

João, já existe o Dia Internacional do Amigo e da Amizade. A Assembleia Geral das Nações Unidas resolveu convidar todos os países membros a celebrar o Dia Internacional da Amizade em 30 de julho. Só temos 365 dias por anos (mais um,  nos bissextos). O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca é...Grande. Por causa das confusões, fica o Dia do Camarigo, no dia 14 de fevereiro.

(**) Vd. poste 21 de novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5309: Blogpoesia (58): Para os amigos e camaradas da Guiné que esta noite tiveram insónias (Luís Graça)

(***) Último poste da série > 
16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27824: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): a crise da habitação não é apenas dos humanos, é também das... cegonhas que se renderam ao "fast food" e já não migram para África!