domingo, 25 de Abril de 2010

Guiné 63/74 – P6249: Estórias avulsas (85): Como foi assassinado o Alf Mil Op Esp Nuno Gonçalves da Costa, do Pel Caç Nat 51 (Fernando C. G. Araújo)




1. O nosso Camarada Fernando Costa Gomes de Araújo* (ex-Fur Mil OpEsp/RANGER da 2ª CCAÇ do BCAÇ 4512, Jumbembem, 1973/74), numa das nossas conversas contou-me que, na sua Companhia, foi assassinado em Julho de 1973, um Alf Mil OpEsp/RANGER, do Pel Caç Nat 51.



Solicitei-lhe então que, quando pudesse, nos contasse o que se lembra sobre este infeliz crime, dado que eu ouvira já duas versões sobre esta morte. Uma delas era atribuída a um acidente e outra que ele fora assassinado na parada do quartel de Jumbembem.


O Araújo acabou de me enviar o seu relato dos factos, com data de 23 de Abril de 2010, e que passamos a expor:


O assassinato do Alf Mil Op Esp Nuno Gonçalves Costa do Pel Caç Nat 51
16JUL1973 – 08h00/09h00 - Jumbembem - Estava eu no meu quarto, quando ouvi, nas traseiras da instalação, três disparos de G3.


A primeira coisa que pensei foi que o alferes Açoriano (cujo nome não me lembro) se tinha suicidado, pois, nos últimos tempos, vinha a dar sinais evidentes, não só de estar farto de permanecer em Jumbembem, como de graves complicações psicológicas.
Desloquei-me rapidamente para o local de onde ouvira as detonações, dando a volta às instalações do dormitório do meu quarto, cujas traseiras davam para as traseiras de outro edifício com quartos e fiquei muito surpreendido…
Ao contrário do que eu estava a pensar, não fora o alferes dos Açores a vítima dos tiros, mas sim o Alf Mil Op Esp Nuno Gonçalves Costa do Pel Caç Nat 51 e que jazia no chão gravemente ferido, pois tinha sido ele o alvejado com as três balas.
A sua imagem ali tombado a esvair-se em sangue, mortalmente, ainda hoje a retenho no pensamento.
Motivo da morte:
O Alf Mil Costa tinha aplicado como castigo (não sei a causa), um reforço a um nativo do Pel Caç Nat 51. O homem não conformado com a punição, foi à porta do seu quarto e disse-lhe:
- Alferes, eu não fazer reforço.
Ao que ele retorquiu:
- Já te disse que vais cumprir o reforço.
Foram trocadas mais algumas palavras de que eu já não me lembro.
O nativo tornou a reclamar:
- Alferes eu não fazer reforço.
- Já te disse que sim e não se fala mais nisso!
Acabado este diálogo, o nativo deslocou-se à tabanca em busca da G3 que lhe estava atribuída.
Passado algum tempo, talvez 30 minutos, regressou novamente para junto do quarto do alferes.
Pousou a G3 à porta e, chamando-o novamente, disse-lhe:
- Alferes eu não fazer reforço.
O alferes voltou a afirmar que ele tinha de cumprir o castigo, com que o tinha sancionado.
Presumo que o alferes devia estar deitado. Deve ter-se levantado e foi nessa altura que o homem pegou na G3 e, traiçoeiramente, disparou três tiros à queima-roupa sobre o oficial português.
Este último ainda foi levado para a enfermaria, onde se prestaram os primeiros socorros, ao mesmo tempo que foi pedido, com a maior urgência, a sua evacuação aérea.
Como estava a perder muito sangue, foi pedido sangue e, voltou a ser pedido insistentemente, o máximo de urgência na sua evacuação, que tardava em aparecer.
E tanto tardou que o alferes não resistiu aos ferimentos e faleceu, sem que aparecesse qualquer meio aéreo para o socorrer. Esta situação indignou todo o pessoal da companhia, desde o soldado até ao comandante.
O nativo foi preso com arames nos pulsos, atrás das costas, enquanto os próprios elementos do Pel Caç Nat 51, bem como a milícia queriam fazer justiça pelas próprias mãos (linchá-lo).
Valeu-lhe o nosso comandante, que ordenou:
- Não lhe toquem!
Mas, mal ele virava as costas, alguns militares mais revoltados descarregavam a sua ira em cima do assassino, que foi depois colocado na casa do motor (gerador), que se situava ao lado do tanque da água.
Ali permaneceu o prisioneiro até meio da tarde, altura em que o nosso comandante, penso que por causa da evacuação não se ter efectuado e achando que o comandante em Farim teve alguma culpa nesta falta, resolveu ir a Farim levar o corpo do alferes em sinal de protesto.
Deslocamo-nos então numa coluna motorizada (já não sei quantos nem quais pelotões), com o corpo do defunto numa viatura “Berliet” e uma bandeira nacional a cobri-lo, até Farim (sede do Batalhão 4512).
A coluna fez-se sem fazer a habitual picagem, tal era a revolta, desagrado e excitação que grassava em todo o pessoal da Companhia. Um risco acrescido, mas justificado pela hora tardia para o fazer.
Viam-se aqui e ali soldados e graduados com as lágrimas nos olhos, chocados com um desfecho fatídico que o alferes assassinado não merecia, porque todos eram conhecedores e concordantes de que ele era boa pessoa e bom para os nativos do Pel Caç Nat 51. Talvez bom demais ainda hoje o penso e digo!
Segundo ouvi dizer na altura, ele, quando isso lhe era solicitado, inclusive emprestava dinheiro aos militares do seu pelotão.
A coluna chegou à entrada de Farim, abrandou mais um pouco e continuou a sua marcha, enquanto os militares que a compunham saltaram para o chão e acompanharam as viaturas a pé.
Ao passar defronte ao edifício de comando, estava em posição de sentido e continência um graduado (ou era o comandante - Ten Cor Vaz Antunes -, ou o 2º comandante Major Menezes, já não me lembro bem).
Este é o relato com que fiquei gravado no pensamento desse dia.
Também trouxemos o nativo assassino que, pelo caminho fora na viatura onde seguia, alguns soldados, em certas alturas do percurso, continuaram a dar-lhe o “tratamento especial”, tendo o mesmo chegado a Farim num estado físico muito debilitado.
Disseram-me posteriormente que ficou preso em Farim e depois seria enviado para a “Ilha das Cobras”.
Para substituir o comando do Pel Caç Nat 51, foi destacado o Alf Mil At Inf Francisco Silva (Madeirense), que apareceu na 2ª Companhia do BCAÇ 4512 logo após esta tragédia.
Com o meu pedido de desculpas por eventuais lapsos de memória, que poderão sempre ser corrigidos, mas esta é a visão dos factos que ainda mantenho hoje, passados +/- 36 anos.

Breve anotação na minha agenda/diário, no dia 16 de Julho de 1973, da morte do Alf Mil RANGER Costa
Um abraço,
Fernando Araújo
Fur Mil OpEsp/RANGER da 2ª CCAÇ do BCAÇ 4512
Emblema do Pel Caç Nat 51 de colecção: © Carlos Coutinho (2009). Direitos reservados.
_____________
Notas de M.R.:
1. No dia 25 de Abril de 2010, dadas as dificuldades do Fernando Araújo em obter o nome completo do alferes assassinado, enviei um e-mail ao pessoal de que tenho contacto solicitando o auxílio nesta área, tendo obtido resposta do nosso camarada Santos Oliveira, que passo a citar com os devidos e melhores agradecimentos:
Caros,
Respondendo ao apelo de ambos e necessidade particular do Fernando Araújo, cá vai o que sei:
Alf Mil Op Esp 16207170 - Nuno Gonçalves Costa, natural de Campos de Sá – S.Jorge - Arcos de Valdevez – Mobilização CIOE para o Pel Caç Nat 51 / da 2ª Compª do BCaç 4512/72 (Guiné), morto em Acidente com Arma de Fogo, a 16/7/73 e sepultado em Igreja (freguesia Natal).
Espero tenha sido útil.
Abraços, do
Santos Oliveira
2. Vd. último poste desta série em:


25 de Abril de 2010 > Guiné 63/74 – P6245: Estórias avulsas (84): O lírico, ou com a ditadura não se brinca (Mário Migueis)

8 comentários:

Anónimo disse...

Vim agora ao blog e li O teu escrito.
Pode haver coincidências mas, esse Alferes de que falas pode ser o Nuno, um amigo meu.
Estávamos na mesma pensão.
Havia um grupo de professores do secundário, ele era um deles. Não me recordo o nome completo dele, nem o ano em que estivemos juntos. Sei que um, o Manuel foi para a Guine-Pirada.O Nuno, foi para a Guiné e,pouco tempo depois soubemos que tinha sido morto por um africano.Era óptimo rapaz. Não sei,mas creio que talvez lhe tenha dito que estive na Guiné.Ao Manuel disse e falamos da Guiné.
É-me difícil confirmar se foi o mesmo Nuno. São muitos anos e, como compreendes um fulano tem muitas vidas. Pedia um favor caro Fernando Araújo tenta saber se ele deu aulas no secundário e onde. Eu tentarei, é difícil, saber o nome completo dele. Era tão bom rapaz...eu quando soube que ia para a Guiné...
Um abraço do Torcato

Luís Graça disse...

Parabéns a ambos, os "rangers", Fernando Araújo e Eduardo MR, por terem conseguido pôr a limpo esta história... Tinha ouvido outra versão,ligeiramente diferente, da boca do Dr. Francisco Silva, há dois anos atrás, na Guiné-Bissau... (Camarada Francisco Silva, a partir do momento em que ele entrou para a nossa Tabanca Grande... Ele agora é cirurgião, ortopedista, no Hospital Amadora-Sintra).

Fiquei, na altura, com a ideia de se ter tratado de uma "revolta de caserna", envolvendo todo ou uma parte do Pel Caç Nat 51.

Luís Graça disse...

Segundo a preciosa informação do sítio Guerra do Ultramar, do nosso camarada e amigo António Pires (que as listas dos mortos por concelho), o nome completo do infortunado comandante do Pel Caç Nat 51 era Nuno Gonçalves da Costa, natural de Campos de Sá, freguesia de São Jorge, concelho de Arcos de Valdevez, no Alto Minho, morto por "acidente", em 16 de Julho de 1973... Pertencia ao Pel Caç Nat 51, adido à 2ª Companhia do BCAÇ 4512/72...

http://ultramar.terraweb.biz/Convivios_Imagens/BCAC4512/Mortos_BCAC4512_Guine.pdf

Torcato disse...

Já tenho uma informação que, para mim é suficiente.
Telefonei ao ex alferes ranger que esteve em Pirada, aquando da independência. O nome dele é Manuel Gonçalves e deve pertencer a curso CIOE de 72 ou 73. É natural de Portalegre e vive no Porto. Esteve ligado ao futebol. Disse-me que o Nuno era de Arcos de Valdevez e falamos de vários assuntos relacionados com a sua morte.
Estivemos juntos na mesma pensão e somos(éramos no caso do Nuno)amigos.
O Manuel, num poste do furriel do gasóleo e ambulância, vive em Silves e não me recordo agora o nome, aparece numa foto em Pirada. Confirmei, porque vi.Ele conhece o Blogue.
O Magalhães Ribeiro pode,se assim entender, ver nas listagens de CIOE estes dois Ranger's.
Com o Manuel falei da Guiné e ele sabia que eu tinha sido alferes etc.Falei antes, quando veio cá de férias e depois da guerra. Com o Nuno creio que não. Não falava da minha vida militar.Muito pouco.
Hoje, desde ontem,fiquei triste por ler sobre a morte, o assassínio, de um Amigo.
Um obrigado ao Araújo, ao Magalhães Ribeiro e ao Luís Graça pela informação.
Abraços do Torcato

Luís disse...

É espantoso, Torcato, como passados tantos anos, 30, 40..., ainda estamos a fazer os nossos lutos... É sempre estranho quando, mesmo passados estes anos todos, ouvimos dizer: " Morreu o fulano de tal, eh pá, era meu amigo, estivemos juntos aqui e ali, era um gajo fixe, porra, só morrem os gajos bons"...

Ajudar a fazer o luto: também é um dos nossos propósitos (implícitos). Como diz o Amadu Djaló, o chicote da guerra era muito comprido...e pouco certeiro.

Torcato disse...

Houve uma pequena confusão com email's. Sou alheio a essas questões e para peditórios desses ...não dou!

Não vou falar mais deste assunto.

De facto tens razão Luís, ainda fazemos o nosso luto. Fazemo-lo porque sentimos, porque há sempre um vazio que o tempo nunca preencheu. Tu já me conheces e sabes certamente. Ainda "choro" os dois mortos do meu Grupo,os da minha CART, do Alf Milicia Uro Baldé, do Campini...de tantos... camarada que a vida, não escolhida, um dia levou prematuramente. Há minutos o "nosso" MR enviou um mail e vinha uma listagem de Ranger's falecidos e, de pronto apareceram dois amigos. Eu sinto os amigos e fui perdendo tantos. Os anos LG...os anos e a dureza da vida e vamo-nos fechando, endurecendo...mas aparece o Nuno ou outro amigo e ficamos moles, sentimos novamente a perca, sentimos a tristeza. Ao fim e ao cabo somos um grupo pleno de gente que tem ainda um vazio, um espaço não preenchido. Fizemos e corremos vida fora, vimos mundos, fomos o que fomos e um dia, um dia sem por isso darmos regredimos e, quase,ao ler o facto passado...os tais 30,40 anos...estamos lá, estamos com eles...com os nossos camaradas.
Fui escrevendo ao correr da tecla. O que estará nas letras acima?
Vai, com um abração para este lugar de afectos e para ti Camarada TM

Manuel Sousa disse...

Queria só referir que este episódio do assassínio do alferes Nuno Gonçalves da Costa é um dos textos que integram o meu livro "PRECE DE UM COMBATENTE - NOS TRILHOS E TRINCHEIRAS DA GUERRA COLONIAL", na página 351.
Cumprimentos a todos

Manuel Sousa disse...

Queria só referir que este episódio do assassínio do alferes Nuno Gonçalves da Costa, em Julho de 1973, é um dos textos que integram o meu livro "PRECE DE UM COMBATENTE - NOS TRILHOS E TRINCHEIRAS DA GUERRA COLONIAL", na página 351.
Cumprimentos a todos
Manuel Sousa