sexta-feira, 13 de maio de 2011

Guiné 63/74 - P8263: Controvérsias (123): A guerra. As realidades locais e as bajudas de mama firmada (José Belo)

1. Mensagem de José Belo (*), ex Alf Mil Inf da CCAÇ 2381, Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70, actualmente Cap Inf Ref, a viver na Suécia, com data de 10 de Maio de 2011:

Caros Editores e Camaradas.
Näo sei se devido às inúmeras deslocações minhas, alguns dos e-mails por mim enviados lhes terão chegado ao conhecimento."Espero" que sim.

Nos últimos postes sobre bajudas, surgiu alguma incompreensäo quanto ao "meio" real dos contactos entre os nossos jovens soldados e as mesmas. Por muito incompreensível que possa ser para quem por lá não andou, muito havia TAMBÉM de romantismo lusitano à mistura com uma iniciacäo sexual (!) da parte dos mesmos, vindos na maioria de meios rurais bem conservadores. Escrevi algo sobre este assunto aparentemente até agora não focado.

Um abraco do José Belo.


A guerra. As realidades locais e as "bajudas de mama firmada"

O ponto de partida... dos jovens de vinte anos - os nossos Soldados - era uma sociedade fechada, rural, governada em ditadura, com enormes influências dos valores morais Católicos, e inerentemente com imensos "tabus" sobre tudo relacionado com sexo.

O ponto de chegada... era a África em guerra. Uma África, no caso da Guiné, com variados grupos étnicos, de culturas e valores morais díspares, e atitudes relacionadas com o sexo muito diferentes do catolicismo português. Dentro destes diferentes grupos étnicos as variações de atitudes a este respeito eram também marcantes. Num ambiente de guerra e pobreza indescritíveis, as realidades de subrevivência seriam também fortíssimas. As populações das Tabancas com tropas portuguesas procuravam, lógica e humanamente, tirar os melhores proveitos deste facto. Prioritariamente em assistencia médica e sanitária, em educacäo para os jovens, ou ainda no pequeno comércio com as guarnições em produtos alimentares dos pouquíssimos disponíveis. Como pano de fundo, milhares de deslocados e refugiados das suas zonas tradicionais, independentemente do que pensariam no seu íntimo sobre os guerrilheiros ou os portugueses. Muitas famílias estavam separadas por aquela guerra! Deste modo o ambiente social no interior da Guiné estava bem longe da... normalidade. Mas näo se deve esquecer que os jovens Soldados de Portugal viviam também em Guarnições e Destacamentos perdidos na mata em situações extremas, e bem longe da... normalidade. Desde o alojamento, à saúde, à alimentação, e näo menos ao isolamento total, as situações e realidades eram de tal modo que se não torna necessário referir as minas, os combates, as embuscadas e as flagelações aos aquartelamentos (diárias em alguns locais!).

Mansabá > Quotidiano das mulheres
Foto de Carlos Vinhal

Sugem "As Lavadeiras". Jovens, bonitas, simpáticas, amigas... "normais" em toda aquela anormalidade que é a guerra. Para alguns moralistas sentados algures na Europa, lendo livros sobre África (onde não estiveram por razões suas)... as fotografias dos nossos jovens Soldados na companhia destas lavadeiras, provoca reacções pseudo político-moralistas totalmente desenquadradas das realidades factuais. As tais "lavadeiras" lavavam de facto as nossas fardas. MAS, e ao mesmo tempo, aos olhos daqueles jovens seriam a tal imagem "sublimada" da normalidade rural (!) e sentimental das suas terras (e namoradas) tão distantes. Tudo isto somado à necessidade tão humana de exprimir outros sentimentos que não os da violência que os envolvia, dia após dia, noite após noite! É claro que havia também busca de sexo nestes "romances". Mas näo só. Para muitos destes jovens Soldados foi através destes contactos que tiveram a sua iniciação sexual, feita mais de ingenuidades várias do que de violências colonialistas! Mas explicar "isto" a quem nunca o viveu?

Recordo uma noite no então bem isolado Destacamento de Mampatá, na estrada para Gandembel, então unicamente guarnecido pelo meu pelotäo. Quando fazia uma ronda normal aos postos de vigia, encontrei um dos soldados passeando romanticamente de mão dada com a sua lavadeira, ao luar, por entre as moranças silenciosas. Confesso que parei, pensei, e sorri. Imagem mais bucólica de aldeia lusitana perdida algures não havia. Não vamos ser täo ingénuos e acreditar que não terão também existido abusos mais ou menos graves. Seria a primeira guerra sem os mesmos. Mas, por muito que ofenda os "inquisidores", algo de romântico havia em muitos destes contactos, principalmente do lado dos nossos tão "verdes" jovens.

Quantos não assistiram às chegadas de camaradas vindos de saltada a Bissau, ou de férias em Portugal, acompanhados de embrulhos com vestuário, e mesmo comida vária, para a "sua" lavadeira (e família!)? É claro que, e isto para os mais românticos, as guarnições substituiam-se e as lavadeiras... ficavam. Novas tropas chegavam à Tabanca e... as lavadeiras lá estavam! Sei que alguns dos nossos "veteranos" de hoje por certo pensam por lá ter vivido um "amor dos vinte anos". E, creio mesmo que alguns terá havido. Mas, e mais uma vez, (para se näo cair em ridículos moralismos pseudo-políticos fora do contexto REAL), não se pode esquecer que os valores morais, as regras, as atitudes, os pragmatismos da maioria daquela gente criada numa vida bem perto da natureza envolvente, não daria a "tal" importância a alguns encontros sexuais casuais, se, e principalmente, voluntários.

Estocolmo 10 de Maio 2011.
José Belo.
____________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 21 de Março de 2011 > Guiné 63/74 - P7977: Blogpoesia (124): Eternidade (J. Belo)

Vd. último poste da série de 10 de Maio de 2011 > Guiné 63/74 - P8256: Controvérsias (122): Exemplar de Bilhete Postal da Guiné, edição da Casa Mendes - Bissau (Augusto Silva Santos)

3 comentários:

Alberto Branquinho disse...

Amigo e Camarada José Belo

Perfeito!
Está tudo dito.
É necessário, claro, ter vivido os tempos, os ambientes e as situações, mas, fundamentalmente, "ver" com uma mente aberta.
Abraços
Alberto Branquinho

Torcat Mendonca disse...

Olha José Belo, escrevi e o envio borregou.
Gostei do teu escrito.
Tentei escrever,tempos atrás, "O Sexo nas NT".
Nunca enviei.
Pessoalmente não tive qualquer problema religioso, de fidelidade, de cor de pele...etc. Não praticava com a assiduidade que desejava...
Hoje fico pasmado com tanto puritanismo. Pois que o tenham!
Um abraço do
Torcato

Anónimo disse...

Camarigo José Belo

O meu apoio a esta tua apresentação, muito sintética, diga-se de passagem, sobre um tema que é bem complexo para ser colocado em tão poucas palavras.
De facto só quem viveu naquelas situações, viu e sentiu usos e costumes locais, pode compreeender tal realidade.
Esses usos e costumes (sexualidade) não tinham e não sei se na actualidade continuam a não ter comparação com aquilo em que estavamos educados. Mas se sexualmente, entre eles (guinéus) e em certas etnias, havia "liberdades" que "nos espantavam", como podiam eles achar anormal, certas convivências desta natureza com os tugas?
Actos, reprováveis, evidentemente que os houve. Pois se no Continente já nessa época havia e continuam a existir hoje em dia...
Porém e tendo em conta o número de militares que passaram por aquele TO, qual a % de actos indignos? Teria sido elevada?
Pela minha experiência em Terras de Balantas, Mandingas e Manjacos e tendo em conta os casos que chegavam ao conhecimento superior, creio que foi mesmo muito reduzida.
E todos sabem que no "Consulado" Spínola, no meu tempo, ele tinha "decretado intolerância" a esses actos. E as POP´s sabiam-no e queixavam-se sempre que, no seu ponto de vista se julgavam mal tratadas.

Apenas uma achega, já que vi o comentário do Camarigo Torcato. Que pena não teres escrito esse teu "O Sexo nas NT". Insiste e fá-lo, pois não tenho dúvida que seria um belo trabalho.

Abraço
Jorge Picado