domingo, 23 de agosto de 2015

Guiné 63/74 - P15031: 3 anos nas Forças Armadas (Tibério Borges, ex-Alf Mil Inf MA da CCAÇ 2726) (6): Gadamael Porto



1. Parte VI de "3 anos nas Forças Armadas", série do nosso camarada Tibério Borges (ex-Alf Mil Inf MA da CCAÇ 2726, Cacine, Cameconde, Gadamael e Bedanda, 1970/72).


3 anos nas Forças Armadas (6)

Gadamael Porto

Gadamael Porto ficava mais no interior do rio Cacine e mais perto da fronteira, tendo a norte Guileje onde o corredor da morte era o espaço para a passagem de material de guerra dos turras. Eles dominavam a floresta desde a Guiné Konakry passando por Guileje, Bedanda e chegando a Catió depois de atravessarem o rio Cubijam. Toda a zona do Catanhez, a floresta que marginava os rios Cacine e Cumbijã, englobava Cabedú, a Sul, e Bedanda, a Norte.


Este território era fechado tendo apenas carreiros ao logo de toda a floresta e banhado por pântanos onde as sanguessugas se agarravam às nossas pernas sugando-nos o sangue. Para além dos quartéis ficavam as emboscadas, a morte assombrada de terror e as minas. Os quartéis ficavam sujeitos a bombardeamentos às mais diversas horas mas sobretudo ao anoitecer. Aqui em Gadamael fui apanhar uma Companhia no fim da comissão, e como tal tinha o terreno na sua mão, não tendo apanhado neste mês que ali estive acontecimentos de maior. Os bombardeamentos eram o prato do dia e como tal eram-nos muito comuns. Na maioria dos casos não chegavam aos nossos quartéis porque eles bem temiam os nossos obuses. Estes eram direccionados rapidamente para a direcção de onde vinham os clarões e varria-se aquela zona quer em longitude quer em latitude.

Fui parar a Gadamael por ordem do meu capitão que certamente recebeu ordens de Bissau. No caso de haver outra substituição noutro quartel que tivesse de ir alguém da nossa Companhia, certamente já não seria eu. Os nossos serões eram preenchidos com o jogo do bingo. Cada quartel tem o seu cariz próprio dependendo, evidentemente, das pessoas que o criam.

Certo dia alguém se lembrou de se vestir à muçulmano e foi logo à maneira da entidade religiosa. Mal sabíamos nós que ao irmos ter com ele, o mal estar iria fazer parte desse encontro. Por nossa parte nunca foi colocar nesta brincadeira qualquer intenção de crítica ou algo que pudesse nascer um mal entendido. Foi um espaço de tempo sem pensarmos nas consequências. O que é certo é que ele nos disse que apenas se vestiam daquela maneira eles, os dignitários religiosos.





Nota: no meu álbum estas fotos têm a data de 10Out1970

Gadamael não possuía obus 14 mas 10,5 - armas mais maneáveis e adequadas às circunstâncias ou por falta de capital para os obter. Possuía um jipão onde transportava uma metralhadora.
 
Nota: no meu álbum esta foto tem a data de 11Nov1970

Estando o capitão de férias, ficou a comandar as tropas o Alferes Silva. Neste espaço de tempo, Bissau, certamente, dá ordens a que se faça outra substituição, desta vez em Bedanda, dum alferes. Em Cacine era regulamentar estarem dois pelotões e os outros dois em Cameconde. Nesta situação não me lembro se estava ou num ou noutro lugar. O que sei é que o Silva veio ter comigo para eu ir preencher a falta dum alferes em Bedanda. Fui contra esta situação uma vez que já tinha sido incumbido de o fazer e como tal outro estaria na vez. Não sei o que o levou a vir ter comigo mas o que pensei foi que ele não teve coragem de indicar um dos outros dois, uma vez que ele próprio não poderia ser. Pensei que por os outros três serem continentais e eu açoriano ou eles ofereceram resistência a tal ponto que ele optou por me manejar. Apesar de recusar ele insistiu comigo. Fiquei revoltado com esta situação e não estava na disposição de a aceitar. Por outro lado sabia que uma desobediência traria algo de grave.

Como o material de guerra estava por minha conta planeei uma fuga a partir de Portugal para França. Nessa altura e antes de ir para Bedanda tinha as minhas férias planeadas para as passar nos Açores. No regresso de férias do Capitão e na minha ida para férias encontramo-nos em Bissau.

Na minha mala coloquei umas quantas granadas de mão pois falava-se que passar a fronteira de Portugal não era fácil. Contei ao capitão o que estava planeando.

Ele aconselhou-me primeiro ir a Bedanda ver o ambiente, falar com o capitão e tirar informações do que por lá se passava.

Não me lembro bem a sequência dos acontecimentos mas devo ter ido a Bedanda antes de ir de férias porque devolvi de regresso todas as granadas que levava ao Capitão.

A Companhia ali aquartelada era de nativos exceptuando a maioria dos graduados. Não gostei desta situação mas no cômputo geral mudei de ideias.

(Continua)

Texto e fotos: © Tibério Borges
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Nota do editor

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9 comentários:

Anónimo disse...

Camarada T.Borges
Sigo regularmente este blog e as várias estórias aqui relatadas e vem-me á mente uma dúvida. Será que no TO GUINÉ a tropa a que alguns pomposamente chamam exército se regia por normas e regulamento diferentes das outras organizações militares?Alguns desses relatos contam episódios de indisciplina por vezes a raiar a insubordinação e as consequências eram nenhumas.Se a sua nomeação era incorrecta devia ter usado os mecanismos regulamentares e que eram:Regulamento Geral do Serviço do Exército e o Regulamento de Disciplina Militar vulgo RDM.O primeiro definia as regras para as escalas, nomeações e respectivos critérios de nomeação. Não me recordo de ler o da insularidade. Só ouvi falar disso em uso na Madeira e era contra os continentais.Se o tal mandante Silva insistisse na sua nomeação,pedia-lhe a ordem por escrito, cumpri-a e de imediato dizia-lhe que ia reclamar.Inicialmente ele iria reiterar a e o camarada recorreria para o escalão superior. Isto ensinava-se nos cursos. Como era uma questão só entre milicianos, não envolvendo nenhum dignatário profissional, o superior burocrata certamente decidiria regulamentarmente a seu favor e com jeitinho o tal Silva até ia de mala aviada para o corredor de Guilege. Sabe, ás vezes havia Silvas que á falta de preparação em liderança, comando e chefia eram piores que os altos dignatários da organização. Quanto ao facto de se vestirem de muçulmanos foi um erro crasso. Mais uma vez a falta de preparação para interagir com as populações veio ao de cima.Há que não contundir com os usos e costumes locais.Tinha que se cativar a populção.Recorde-se da politica do caco baldé.Mas sobre isto falaremos noutra altura.
Saudações
José Pedro Grilo
Combatente

Hélder Valério disse...

Bem....

Eu tenho entendido estes relatos do nosso camarada Tibério Borges como a exposição das suas memórias, ou seja, de coisas que já passaram, que já ocorreram, não estão a acontecer agora.

Por isso, podemos concordar, ou discordar, mas isso não altera nada. Já passou!

O episódio de se vestirem 'à moda local' revela a impreparação que, no geral, foi dada (ou melhor dizendo, que não foi dada) aos militares que para lá partiram "em missão de soberania".
Acredito que boa parte dos Comandos (os Altos Quadros, não a tropa especial) não tivesse formação adequada para 'conhecer' os terrenos (a geografia, a fauna, a flora, a diversidade da população como os seus diferentes usos e costumes, etc.) para os quais mandavam os 'seus homens' e por isso também não lhes podiam transmitir grande coisa mas, no caso concreto relatado, a 'iniciativa' foi dos protagonistas e foi, no mínimo, pouco pensada.

Quando fiz a recruta, ou seja o 1º Ciclo do CSM, em Santarém, o Capitão Comandante do Esquadrão (neste momento não me recordo do seu nome mas tenho tenho a ideia que era Guilherme ou qualquer coisa assim parecida) em algumas sessões de acção psicológica fez o melhor que podia e sabia.
Em todo o momento não perdia a oportunidade de nos lembrar que o nosso destino mais provável seria a Guiné (num período em que na percepção da opinião pública, mesmo à boca pequena, já se ia assumindo que a guerra na Guiné estava a 'endurecer' mais que em Angola) e por isso a nossa instrução estaria 'virada' para essa mais que previsível realidade, com constantes acções de instrução nos paúis alagados e na zona das Ómnias que simulavam as bolanhas, com a informação de que as baratas voavam e tinham 5 cm, que as formigas infiltravam-se pela roupa e cravavam as tenazes nos nossos testículos, que os jagudis eram como perus mas que nos cagavam em cima do alto das árvores, que os mosquitos eram aos milhares, que as vacas cagavam bostas enormes e que devido ao calor secavam exteriormente de forma rápida e por isso não devíamos ter a tentação de nos sentar em cima daquilo que poderíamos pensar serem pedras e que afinal não seriam.... enfim, tínhamos alguma informação sobre fauna e flora....
Quanto ao relacionamento com a população ensinou-nos um truque: quando estivéssemos a falar com um nativo que eventualmente pudesse manifestar alguma simpatia pelo "Partido" (supostamente o PAIGC já que o tema era sempre a Guiné) usávamos um peço de telha e exemplificávamos o que era "partido", quebrando a telha e mostrando que em português "partido" era "quebrado".
Muito infantil, muito primário, mas não deixava de provocar sorrisos no pessoal: uns por acharem que 'aquilo' era miserável, outros porque, provavelmente, estariam de acordo, tanto mais que a sua 'cultura social' sempre lhe dissera que isso dos "Partidos" era coisa do diabo, eram a desgraça, bastava que houvesse um "Homem que mandasse", que se preocupasse e velasse por nós, para que a vida corresse bem a todos, desde que não fizessem ondas.

Mas tinha aprendido alguma coisa na Escola e também tinha lido umas coisas. Só não sabia era como era a realidade. mas isso são contas de outro rosário.

Quanto à foto datada de 11 de Novembro de 1070, dia de S. Martinho, tem a curiosidade de ter sido tirada dois dias depois de eu desembarcar em Bissau.

Abraço
Hélder S.

Vasco Pires disse...

Vamos lá então...
1- Outubro de 70 é no início da comissão da CCAÇ 2796 em Gadamael.
2 - Não houve mal estar de qualquer espécie nesse evento.
3 - Eu estou presente nessas fotos (de roupa branca),aliás, essa vestimenta foi-me cedida por um líder religioso (Braima,se não me falha a memória), com quem conversava regularmente, e que sempre me oferecia cola (de mascar)
4 - As fotos foram tiradas pelo Furriel "Psico", que tinha uma oficina de fotografia.
5 - O Cmdt. da CCAÇ assistiu ao evento(sem se paramentar),inclusive tenho fotos com ele dirigindo o jeep,com participantes paramentados.
Tenho dito...
Forte abraço a todos.
VP
Ex-soldado de Artilharia Gadamael

Anónimo disse...

5-"... com ele dirigindo o jeep, ..." Aqui está outro mau exemplo. Um Cmdt CCaç a conduzir uma viatura(dirigir é em brasileiro) devia saber que lhe estava vedado este comportamento. Só os condutores a quem as viaturas estava distribuídas o podiam fazer. Qualquer camarada com a especialidade condutor auto rodas sabe isto perfeitamente porque lhe lhe era transmitido na instrução. Na época constituía uma infracção grave e se houvesse acidente o processo era decidido no ME. Houve um oficial(Alô Vasconcelos, onde andas?) duma companhia do meu Bat que foi punido com prisão e transferido para local mais conveniente(?) por ter sido apanhado pelo Cmdt da Comp a conduzir um Unimog na picada. Outros tempos!
Saudações
José Pedro Grilo

Carlos Esteves Vinhal disse...

Caro camarada Grilo, não estranhe o Vasco Pires aplicar o termo dirigindo porque ele está no Brasil há décadas e não lhe fica mal escrever assim. Mal fica a nós, os portugueses de cá, sermos obrigados ao Acordo Ortográfico e aplicarmos voluntariamente termos brasileiros a torto e a direito, não esquecendo os famosos nomes copiados das telenovelas. Isto é um aparte, vamos à questão que me trouxe aqui.
Suponho que terá sido Condutor ou Furriel Mecânico. De algum modo terá estado ligado à "Ferrugem", homens que faziam autênticos milagres para porem a rolar as viaturas que lhes estavam destinadas a conduzir e a manter operacionais.
Quanto ao CMDT de Companhia conduzir um jeep, julgo não ser "crime" punido pelo RDM. Acho que era normal o CMDT de vez em quando utilizar esse meio ao seu dispor para fazer psico na tabanca, por exemplo. Ter direito a "motorista particular" só para se deslocar entre-muros é que era de estranhar. Como saberá, a classe dos condutores foi muito explorada, em termos operacionais, pois não chegavam para as encomendas. Nós, os outros, furtivamente conduzíamos viaturas, mesmo sabendo que se fôssemos vistos pelo Furriel Mec Auto levávamos um raspanete. (Continua)

Carlos Esteves Vinhal disse...

Se alguém tivesse de ser "julgado" e "punido" severamente, teria sido eu. Eu fazia sargento de ronda de 4 em 4 noites (mas fazia mesmo) e por maldade, para poupar o condutor de ter de me aturar a noite toda, porque eu não dormia nem uma hora entre as 00h00 e as 06H00, "mandava-o" dormir e conduzia eu o "burrinho" toda a noite. Se o meu camarada Fur Mil Mec Auto sabia, fazia de conta.
Em Dezembro de 1971, tivemos uma grande emboscada na zona de Mamboncó que custou a vida a dois camaradas e ferimentos graves a muitos outros. Pois não é que o meu camarada Fur Mil At Rui Sousa cometeu o crime de conduzir um Unimog 404 em alta velocidade, até ao aquartelamento, trazendo alguns dos feridos? Havia condutores no local, mas talvez se tivessem ido abaixo, quem sabe?
Abraço do camarada
Carlos Vinhal
Ex-Fur Mil At MA da CART 2732

Anónimo disse...

Camarada Vinhal
Concordo consigo. O que escrevi tem unicamente a ver com o plano dos princípios. A título de curiosidade, a condução de viaturas militares era regulada por uma Portaria, muito conhecida,a nº22936(se a memória me não atraiçoa) que era a bíblia para este assunto. As punições eram naturalmente feitas pelo RDM com remissão para esta Portaria. Era verdade que muitos cometiam estes pecadilhos e até aproveitavam para praticar a condução para posterior exame de condução e obtenção da respectiva carta de condução.Porém quando encontravam alguém mais fundamentalista a "porrada" era certa como no caso que exemplifiquei.Claro está que determinadas circunstâncias se sobrepõem á legislação e o estado de necessidade funciona como atenuante para eventuais juízos.
Sempre a considerá-lo com estima, as minhas saudações
José Pedro Grilo

Vasco Pires disse...

Bom dia Padrinho,
Cordiais saudações.
Fico muito grato, por ter-me livrado do julgamento pela "Santa Inquisição".
Quanto às décadas,o problema é que começam a pesar.
forte abraço
VP

Anónimo disse...

Alguns comentários que aqui leio, até me fazem duvidar se os seus autores estiveram na mesma Guiné onde passei 31 meses. Portarias da condução das viaturas e outros disparates do mesmo calibre.
Seria curioso como comandante de companhia assistir ao soldado que tinha distribuída a viatura chamar-me à atenção por eu a conduzir...e era miliciano.

Alexandre Margarido ex-capitão miliciano C.Caç 3520 (1971/1974)