quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Guiné 63/74 - P15044: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (XII Parte): Guia em fuga; Um descapotável em Bissau e Entram os Alouettes

1. Parte XII de "Guiné, Ir e Voltar", enviado no dia 26 de Agosto de 2015, pelo nosso camarada Virgínio Briote, ex-Alf Mil da CCAV 489, Cuntima e Alf Mil Comando, CMDT do Grupo Diabólicos, Brá; 1965/67.


GUINÉ, IR E VOLTAR - XII

Guia em fuga 

O Capitão Leandro era o novo Comandante da Companhia. Trazia boas referências operacionais, tinha vindo de Sangonhã, bem lá para o sul, encostado à Guiné do Sékou Touré.
Alguém no QG teria dito que o Comandante Militar se impressionara com uma acção da Companhia1, um ataque em beleza a um acampamento IN, ao raiar de um dia. Entraram tão sorrateiros que, conta quem viu, o capitão, curioso, espreitara para uma barraca e viu um tipo lá dentro com duas bajudas ao lado. Não pediu foi licença. O comandante IN como uma mola, atirou-se com toda a honra ao capitão, engalfinharam-se um no outro, as bajudas aos gritos, até que um soldado entrou na hora, e o meu capitão com a mania de resolver isto tudo com diplomacia.
É de um capitão destes que os gajos precisam, imagina-se que terá pensado. Mande-o cá vir. O Chefe do Estado-Maior enviou um rádio para o Batalhão, que se apresentasse com urgência no QG, ao Comandante Militar.

O capitão encarregou-o de os pôr na ordem. Tomou-lhes o pulso no início, os alferes desconfiados de um capitão de outra família. Com o tempo, a competência administrativa e operacional impôs-se, ganhou ascendência, confiança, corrigiu a organização, alterou alguns procedimentos, tudo embalado em diplomacia, acompanhando os processos todos, desde a escolha e preparação das saídas, até à logística de Brá, e sobretudo moralizara o pessoal, cada dia que passava mais satisfeito com a escolha.
Menino da Luz tinha conhecimentos por todo o lado, sabe-se como eles são, o Brigadeiro acertou na mouche. Ficaram a dar-se bem, fricções iniciais resolvidas, era sempre com satisfação que se encontravam.
E na primeira saída de um grupo fez questão de o acompanhar.


Informações referiam a existência de um acampamento IN na mata de Sabá.
O grupo, com o novo comandante como observador, deslocou-se até Mansoa em viaturas. Para evitar detecção prematura, mantiveram-se dentro das Mercedes, com as lonas corridas. A seguir, incorporou-se numa coluna da ronda, saindo de Mansoa até à extremidade da pista de aterragem, onde se apeou discretamente.
Noite de intensa luminosidade. 
Permaneceram imóveis no local cerca de um quarto de hora. Depois, apoiados por um experiente Grupo de Combate adstrito ao Comando de Batalhão sediado em Mansoa, começou a progressão apeada, a corta-mato, paralelamente à estrada Mansoa-Mansabá, até atingirem Caur.
À frente, um guia com as mãos atadas atrás das costas por uma corda que rodeava a cintura de um dos homens das milícias de Mansoa. Um trilho levou-os até Mancofine. Rodeada a tabanca, seguiram para a antiga tabanca de Sabá. Passaram ao largo, em direcção à bolanha. Localizaram um ponto de cambança utilizado pelo IN. Sempre nas margens da bolanha viram outro local de cambança, com algumas tábuas desfeitas. O guia disse existir outro local de cambança mais à frente, perto do acampamento e com acesso directo. Entraram na mata, progressão difícil.
Cerca de meia hora depois, barulho, correrias, vozes, uma rajada do primeiro homem do grupo. O guia tinha-se escapado. Alguém terá aliviado as cordas que o prendiam, não havia dúvidas. A procura no local não resultou, não havia qualquer hipótese de sucesso. Às 05h30, um carreiro levou-os a atravessar a mata até voltarem a ver a antiga tabanca de Sabá. Retiraram por Mancofine até à estrada que liga Mansabá a Mansoa.
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Nota:
1 - CCaç 640

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Um descapotável em Bissau

Desde que o Toni Ramalho fora para o mato formar milícias, deixara de ser frequentador do Hotel Portugal, parava lá, de longe a longe, só na esplanada para beber qualquer coisa, encontrar-se com alguém, muito raramente jantava. A mesa continuava no mesmo sítio, as pessoas é que tinham mudado.
Da mesa antiga só o Carlos e a sua Helena, os outros eram todos conhecimentos recentes. No final de um dia, viu-os na esplanada do hotel com uma roda de machos à volta, um fuzileiro de que não percebeu o nome e um conhecido capitão de artilharia, o Capitão Marques.
Apresentaram-se e foi aí que viu pela primeira vez as caras dos novos companheiros de mesa do Carlos.
Demorou-se um quarto de hora, se tanto, o tempo suficiente para ouvir de rajada relatos do capitão em batalhas que travou no Comodoro do Rossio, no famoso Ritz e na Cave da Avenida António A. Aguiar.

Então não se senta, fica de pé, o capitão a virar o pescoço, enquanto lhe vinham à lembrança os amigos de há uns tempos atrás.
Mudado o carregador, o capitão virado para um felizardo a passar as últimas noites na Guiné. Então, as escadas para a cave, o salão grande, o ambiente de tango, as mesas para dois, duas gentilezas em cada, uma no balde de gelo a aguardar que a abram, a outra sentada de perna traçada à espera que alguém as destrace, o pianista de brilhantina na careca, o do contrabaixo a abanar os cabelos encaracolados até aos ombros. Era como estivesse lá, os pormenores todos.
E você, para o que se mantinha de pé, não se esqueça, tome nota, que estou a ser seu amigo. Quando regressar, reserve para si a primeira noite em Lisboa, deixe a família e os amigalhaços para depois, que vai ter tempo para eles até se chatear. Diga adeus ao Depósito de Adidos, apanhe uma boleia da Ajuda para a baixa, suba o Chiado, encoste-se à Brasileira e deixe os olhos habituarem-se, deixe-os ver o que quiserem, até não quererem mais. Jante por aí, se quiser vá até ao Pic-Nic, um filme no Condes ou no S. Jorge serve para fazer tempo, suba depois até ao Marquês, aqui já sabe, com este nome é só coisa boa à sua espera, seja para que lado vá.

Fontes Pereira de Melo acima, pelo lado esquerdo, corte para a António Augusto de Aguiar, e suba a avenida pelo passeio da direita, vá olhando até dar de caras com a Cave e um porteiro fardado, lá para o meio da avenida.
Só tem que abrir a boca, diga-lhe que o Capitão Marques manda cumprimentos, aquele que está agora com os ossos na Guiné, é só o que tem a dizer, ele mete-o lá dentro, sem mais. Ao descer as escadas, preste atenção, ouça, mas não quer jantar com a malta, olhe que isto é tudo bom pessoal.
A insinuante Helena nem parecia a mesma de quando chegou, a voz mais rouca, um vestido preto, brilhante, pendurado só no peito, como é que aquele vestido consegue ficar assim, tão seguro? Os joelhos cruzados um em cima do outro, o cabelo apanhado, uns brincos aos saltinhos. O Carlos parecia-lhe mais adulto, um ar quase indiferente para os outros, e também para a Helena, pareceu-lhe. Só um sorriso para cima, envergonhado.
Já apanhara com a artilharia toda, cansado de imaginar o percurso até à Cave. Despediu-se deles, um aperto de mão para aqui e para ali, o Carlos dá cá um abraço, quando apareces para jantar?

A Helena estava alugada ao mês. O pai do Carlos convencera-a, finalmente, a fazer companhia ao filho, depois tratara de tudo com ela, o salário base, as diárias, as condições todas. A Helena fizera questão que todas as despesas em Bissau, todas mesmo, ficassem a cargo do Carlos. E ainda um carro para as deslocações em Bissau. Foram ao J. J. Gonçalves2 em Lisboa escolher a cor, a marca e o modelo ela já tinha dito qual era. Ficaram instalados no Hotel Portugal, numa espécie de suite.
Um ou dois meses depois, mais dia, menos dia, o Carlos, acompanhado da Helena, foi ao cais levantar o Austin Sprite, de um vermelho lindo. Um brinquedo, a subir devagar a Avenida, a capota para baixo, o Carlos ao volante, a brisa a cuidar dos cabelos dela, o maralhal no Bento e na avenida de boca aberta, olhos arregalados.
Depois dos primeiros tempos, em que para onde ia um, o outro ia atrás, pelo que se estava a ver, o Carlos estava a aprender depressa, mais calado ainda, mas menos submisso. Noites dentro era visto quase sempre só, quando lhe perguntavam pela companheira, se achava que o dono da pergunta merecia resposta, dizia que tinha ficado no Hotel ou em casa de alguma gente conhecida e não adiantava muito mais. Levavam uma vida cada vez mais independente e a certa altura o Carlos tirou as coisas dele do hotel Portugal e mudou-se para a base de Bissalanca. Depois, ela começou a ser vista hoje com este e com aquele amanhã.
O Gabriel, empregado do hotel, contou mais tarde que uma noite apanharam um empregado do hotel em cima de um escadote, pano na mão a passar pelo vidro, os olhos todos lá para dentro. A limpar vidro que a senhora mandou! Contaram também outras coisas, sabe-se como é.
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Nota
2 - Empresa imortadora de automóveis, nomeadamente os Austin.

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Entram os Alouettes

6 de Março, domingo. Manhã quente. Carregador fora da G3, balas extraídas, um pano macio nelas. Uma a uma dentro outra vez. Os outros três carregadores cheios em cima da cama, para o cinturão. 100 projécteis ao todo, como de costume. Arma aos pés da cama. Granadas de mão, duas defensivas, uma ofensiva e uma incendiária para o cinturão, mais duas de fumos laranja para o bolso esquerdo do dólman3. Em cima da cama o camuflado e as meias. Botas de borracha junto à mesa da cabeceira. Tudo conferido outra vez. Duche.
À civil, meteu-se no ME-14-04, com o Alegre ao volante, em direcção a Bissau. Às 11 e pouco, na esplanada do Bento cheia de militares, um bolo de coco e um café. Volta a pé pelo quarteirão, olhar para o Geba, mexer pernas. De novo com o Alegre, regresso a Brá.
Camarata do grupo. O Sargento Valente e o Furriel Azevedo com as equipas conferiam o material, G3, MG 42, granadas de mão, lança-rockets, tudo a ser vistoriado e limpo.
Reunião do grupo para informação sobre a missão. Heliportagem4 de assalto a uma base IN nas imediações de Jabadá. Pertencente ao batalhão aquartelado em Tite, o destacamento de Jabadá estava a ser flagelado, há meses, quase todas os dias, às vezes mais que uma vez no mesmo dia.

13h00, Bissalanca. 30 homens em 6 Alouettes-III da esquadrilha comandada pelo Major Piloto Mendonça iam finalmente pôr em acção as práticas treinadas desde meados de Janeiro.


Minutos depois descolaram, formados em duas colunas, aos pares. Ganharam altura, sobrevoaram Bissau e começaram a subir o Geba castanho-escuro.
Flectiram para a outra margem do rio, baixaram e, junto à orla, subiram o rio, a rasar as árvores.
De súbito, viraram à direita, dispuseram-se em linha, separaram-se, 3 helis para uma ponta da mata, os outros três para a outra.
Fumo a escapar-se das casas no mato em frente. Sinais do piloto, preparar para saltar. Portas abertas, olhos ansiosos. Junto ao solo, um metro para aí, saltar!


Um descampado seco, capim mais alto do que contavam. As equipas correram para a mata, em linha, torta como uma cobra a fugir.

Alguns guerrilheiros começaram a reagir. Rajadas de PPSH e Kalash, rebentamentos de morteiro, granadas, silvos de disparo de rockets, barulho das pás dos Allouettes.
Surpreendido, o IN retirou sem oferecer grande resistência, deixando baixas no terreno. Recolhidas crianças, mulheres e um velho. E algum material, meia dúzia de granadas, munições, correspondência vária, documentos.

13h45. Problemas na 2.ª Equipa. O Roberto à procura da parelha, o António Silva5. Deixara de o ver quando saltaram. Ouviam-se ainda chicotadas de disparos. A equipa do comandante do grupo voltou atrás, ao local de lançamento, a vasculhar o capim. Encontraram-no deitado, desajeitado, de barriga em cima da G3. Alguém o virou. Olhos abertos, um fio de sangue a espreitar da boca aberta e do nariz. Uma bala alojada no peito. Respiração boca a boca, uma golfada de sangue quente foi a única resposta.

Diabo Maior chama Lebre, evacuação, pediu e repetiu.
Lebre chama Diabo Maior, indique local com fumo.

Até o capim estava contra, recusava-se quase sempre a arder quando lhe atiravam granadas incendiárias, agora até uma simples granada de fumos lhe pegara, o vento a empurrar-lhes as chamas, nem sabiam para onde ir, o Silva na maca improvisada, nem sabes quanto pesas, pá, desabafa um! Esgotados, meteram-no no heli, junto ao rio.


Explosões de granadas, berros, chicotadas de projécteis, crepitar do capim a arder e o barulho das pás do heli a curvar rapidamente para a outra margem do Geba, directo ao Hospital Militar de Bissau.

Soldado Comando António Alves Maria da Silva, o segundo a contar da direita

Uns dias antes, os olhos do Silva molharam-se quando o Furriel Azevedo lhe disse que não ia mais para o mato, que a comissão já estava terminada e que não queriam mais nenhuma edição do Furriel Morais dos Fantasmas, morto no sul, em Maio do ano passado, duas semanas depois de ter terminado a comissão. O alferes transigiu, a história repetiu-se.

Às 17h30 dessa tarde de domingo, o Soldado-Condutor Alegre deixava o alferes, já à civil, em Bissau frente à esplanada do Bento.

(Continua)
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Notas
3 - Casaco justo e curto que fazia parte do fardamento camuflado.
4 - Operação "Hermínia", a primeira heliportagem de assalto efectuada na Guiné.
5 - Soldado António Alves Maria da Silva, oriundo da CCaç 674, natural de Erada, Covilhã, ficou sepultado na campa 247, no Talhão Militar do Cemitério de Bissau.

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Nota do editor

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3 comentários:

JD disse...

Caro Virgínio,
A tua escrita aprimora-se no estilo e, todavia, continua enfática. Belas descrições sobre os dois lados da guerra: a propriamente dita, e a que servia de compensação à primeira, a aventura do prazer.
Com um abraço
JD

antonio graça de abreu disse...

Muito bem meu caro Briote, é a Guiné, Portugal, todos nós.
Abraço de admiração e amizade,

António Graça de Abreu

Costa Abreu disse...

Continua Briote
Cada vez interessa mais, e sabe bem recordar os bons tempos da nossa juventude