quinta-feira, 3 de março de 2022

Guiné 61/74 - P23046: Memórias do Chico no Império dos Sovietes (Cherno Baldé) - Parte VI: Com a Ucrânia hoje a ferro e fogo, o meu coração está dilacerado

1. Porque alguns dos nossos leitores mais recentes não acompanharam, na altura, a série "Memórias do Chico, menino e moço" (de que se publicaram, a partir de 2011, mais de meia centena de postes), decidimos "repescar" alguns postes do Cherno Baldé, no contexto do pós-independência da Guiné-Bissau, relacionados com o seu  percurso escolar (ciclo preparatório e liceu, em Bafatá e Bissau, 1975/1982, e depois universidade, na URSS, Moldávia e Ucrânia, 1986/1990). 

 Voltará ao seu país, em 1990, com uma licenciatura em Planificação e Gestão Económica, pela Universidade de Kiev, já depois da queda do muro de Berlim e do fim da URSS.(*)

Sobre o tempo de Kiev (1986/90), só temos alguns poemas, que republicamos, juntamente com alguns comentários sobre essa época, de que ele guarda, naturalmente,  boas e más recordações,

Recorde-se que o Cherno Baldé, que vive em Bissau, é nosso colaborador permanente para as questões etno-linguísticas e, profissionalmemte, é gestor de projetos na empresa MF CAON FED, Guiné-Bissau. (Vd. aqui a sua página do Facebook). 

Segue-se então  colagem de vários comentários e excertos de postes ainda relacionados com o seu tempo passado no "império dos sovietes", inckuindo uam seleção dos seus poemas de Kiev (1986-1990).


Memórias do Chico no Império dos Sovietes, 1985-1990
(Cherno Baldé) - Parte VI:  Com a Ucrânia hoje a ferro e fogo, o meu coração está dilacerado


por Cherno Baldé (*)


(...) Neste preciso momento a Ucrânia está a ferro e fogo. O meu coração está dilacerado e lamento que gente boa e pacífica que aprendi a gostar e admirar, esteja a sofrer por motivos que os ultrapassam.

Choro por Ucrânia, mas compreendo a Rússia. É uma guerra entre irmãos da mesma mãe, a Kievski Rush. A Russia tem suas raízes enterradas terras ucranianas apelidada nostálgicamente de "Ukraína" a nossa terra distante, longínqua.

Não há palavras para expressar nem de justificar (...)

24 de fevereiro de 2022 às 21:32

&&&&&&&&&&&&&&&

(...) Eu estudei na antiga URSS, sim, onde, juntamente com o leite e mel servido na cama individual, também nos serviam expressões agradáveis como " Ó macaco preto,  volta para a tua terra!".

Uma vez, em Kiev, conversando entre amigos e colegas de turma de várias nacionalidades, um Russo nos interpelou cheio de curiosidade:
- Disseram-me que vocês,  africanos,  nos vossos países, vivem em cima das árvores, mas como é que conseguem montar as camas ?

E alguém dos nossos respondeu-lhe:
-Sim,  é verdade,  e se queres saber mais digo-te que o vosso embaixador que vive lá connosco, está hospedado e dorme na árvore mais alta da nossa floresta. (...)

14 de setembro de 2010

&&&&&&&&&&&&&&&


(...) Para aqueles que não sabem (o que é pouco provável) quero informar que, também, nós, Africanos (Pretos, se quiserem), tivemos a oportunidade de viver em terras da Europa, esta velha Europa, orgulhosa e racista, mas que também sabe ser, às vezes, acolhedora e bondosa. E também nós tivemos, temos e teremos as nossas experiências não menos dramáticas com as Marias e as Natachas.

Diz um ditado popular que "o mundo é como o rabo de uma pomba" que faz viragens permanentes. Eu nunca utilizarei o termo puta porque penso que o não foram e aí o Jorge Cabral é bem explícito. Se todos os homens fossem tão humanos como o são as mulheres (todas as mulheres), o mundo seria mais justo e a vida mais fácil de viver. (...)  

20 de julho de 2009

&&&&&&&&&&&&&&&


(...) O meu pai era um homem muito decidido e sensato para a sua época e, ao mesmo tempo, era um homem de convicções muito fortes, sobretudo religiosas. 

Da mesma forma que nunca aceitou a ideia da chegada do homem a lua, também não aceitava a teoria da terra redonda. Não discutia isso com as outras pessoas fora do circuito restrito da família, mas não admitia que os seus filhos metessem na cabeça muitas fantasias. Uma vez, ameaçou mesmo retirar-me da escola se continuasse a falar dessas coisas anti-religiosas que nos ensinavam na escola. Isso aconteceu quando ainda estudava no ciclo preparatório e depois no Liceu de Bafatá (1975/79).

Um dia, depois do meu regresso da URSS em 1990, numa conversa em família, inadvertidamente falei de uma viagem que tinha feito às cidades históricas de Samarcanda e Bucara (Uzbequistão), no âmbito de uma excursão escolar, pensando que ele ficaria satisfeito por ter perdido o meu tempo a visitar localidades islâmicas históricas. No fim, o meu pai perguntou-me onde estavam situadas. Respondi que estas cidades eram da Ásia Central, para lá da cidade santa de Meca.

Não devia ter falado. O velho levantou-se visivelmente irritado e foi para a sua casa, sem dizer mais nada. No dia seguinte atirou-me à socapa : "Tu,  Cherno, não sei o que a tua escola te serviu, pois ainda continuas a mesma criança idiota que saiu daqui há mais de 15 anos e nem consegues entender que Meca é o fim do mundo?!... Como podes afirmar que há outro mundo para lá de Meca e que tu estiveste lá?!"

Era assim o meu pai, muito corajoso e sensato, mas completamente irascível nas suas crenças, de tal modo que não valorizava muito os nossos estudos na escola dos brancos, exceptuando, claro, a contrapartida monetária que podíamos fornecer.

Ao que parece e por aquilo que aprendi das suas relações, os brancos (portugueses e franceses) desconfiavam sempre dos fulas e da sua religião islâmica, da mesma forma que os homens grandes fulas (como bem disse o Mário Migueis) aceitavam e suportavam com dignidade o domínio dos brancos, mas sempre desconfiados da sua comida, da sua ciência e das suas reais intenções a longo prazo. (...)


&&&&&&&&&&&&&&&

Poemas da Juventude (Kiev, 1986-1990) (seleção)

PENSAR

Acontece-me pensar…Pensar…pensar…
Como aos poetas, sonhar.

No denso sepulcro da memória
No despertar inadiável da vida
O caminho ainda longo.

Acontece-me querer voltar ao passado longínquo da origem
Sempre presente em silêncio.
No passo das minhas pegadas, mal varridas pela erosão do tempo
Medir a força das lianas, razões de tropeço na caminhada.
Acontece-me pensar, acontece-me querer voltar
Aos tempos primeiros da infância
A altura daquelas montanhas agrestes, sulcadas pela corrente de suor,
Do meu corpo na luta
Uma vista de olhos passar a Baobab que eterniza a tabanca
Berço dos meus sonhos
Sentir no corpo e na alma, a brisa que embalou a infância
A voz da floresta em pranto e o gosto amargo das raízes violadas

Lá, mais para oeste …
De El-miná ou Ouida
De Badagry ou N´goré
O caminho do mar,
Em ondas lacrimosas da viagem sem regresso

(Kiev, Dezembro de 1987)



OBSERVADOR



Observador
Espectador
Nos parques
O mundo a renascer
Em cada primavera
Nas ruelas,
Em compassos lentos
Dos pares e dos sonhos floridos

E tu desvairado, aonde vais? Ao “magazin" (1)
Não! Eu vou para Magadan (2),
Ainda antes do Buran (3),
Antes do voo e das vozes do mundo,
Que estão por nascer.

(Kiev, Abril de 1990)

Legenda do autor:

1- Magazin – Loja, mercearia de produtos de primeira necessidade
2- Magadan – Localidade Russa situada algures na Sibéria oriental
3- Buran – Vaivém Espacial Soviético inaugurado em finais da década de 80


[Seleção, fixação e revisão de texto / negritos / título e subtítulo: LG]


24 de fevereiro de 2022 > Guiné 61/74 - P23023: Memórias do Chico no Império dos Sovietes (Cherno Baldé) - Parte III: Em Kichinev, Moldávia... Pôr-se em pelota, na inspeção médica perante um mulher?!... Mostrar tudo?!... Subahaanallai!...

23 de fevereiro de 2022 > Guiné 61/74 - P23018: Memórias do Chico no Império dos Sovietes (Cherno Baldé) - Parte II: Casar com uma tubab!?... Hééé Tchernô!!!...Tubab é uma senhora e senhora não é mulher

2 comentários:

Mário Migueis disse...


A sabedoria e o bom-senso dos "homens grandes fulas", que tanto respeitámos, continua presente na voz e na escrita do nosso companheiro e amigo Cherno Baldé. Uma vez mais, estivesse o seu pensamento na Guiné, na Ukraína ou em Lisboa, gostei muito de o ler.
Um grande abraço,
Mário Migueis

Antº Rosinha disse...

Na ONU do nosso Guterres:
A resolução teve apenas cinco votos contra (Rússia, Bielorrússia, Síria, Coreia do Norte e Eritreia) e 35 abstenções, entre as quais Angola e Moçambique. Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste votaram a favor, como Portugal e Brasil, e o voto da Guiné-Bissau não ficou registado. (folha 8)

Penso que o voto de Bissau não ficou registado por talvez não estar nomeado neste momento embaixador, certamente votaria como Caboverde, a favor.