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sexta-feira, 13 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27819: (in)citações (284): Os netos da guerra (Juvenal Amado)

Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872 (Galomaro, 1972/74)



OS NETOS DA GUERRA

Pois é, o tempo passou rapidamente e para trás ficaram os sonhos de juventude os perigos e malandragem.

Ficaram os namoricos os bailaricos os momentos com os nossos desaparecidos. Como foi possível a vida continuar após o seu desaparecimento?

Como não reviver os momentos tristes da partida e a alegria transbordante da chegada?

Sobrevivemos aos perigos e depois, à falta de grupo em que nos apoiávamos, muitos tornaram-se deserdados da vida, párias da sociedade. Muita da nossa sanidade mental ficou a dever-se à separação das coisas. Voltar e regressar a uma vida normal esquecer, distanciarmo-nos dos episódios que nos marcaram não enveredar pela autodestruição. Há milhares que o não conseguiram.

Há quem viva do passado. A vida é um processo que nos vai mostrando que ele não existe é só recordação e é triste viver de uma coisa, que não se pode alterar.

Usei uma arma até esquecer o peso, bebi demais, fumei demais só nunca amei demais, bebi a alegria da liberdade e nunca me fartei dela.

Desses tempos ficaram os desejos de Paz, a rejeição de classes a cor da pele. Numa busca desenfreada pelo que era justo fez-me abraçar causas, tentar transmitir o que era certo e o que era errado. Julgo embora algumas bravatas e arremedos guerreiros da minha geração, a guerra marcou-nos fundo a ponto de a não querermos para os nossos filhos e netos. Mas atrás dos tempos outros tempos hão de vir e a chegada aos poderes de gente com idade para serem nossos netos, a guerra voltou ao nosso quotidiano de forma feroz ao mesmo tempo que se incrementa um discurso de ódio num populismo de má memória, que nos promete empurrar para o abismo.

Os bombardeamentos, as matanças de inocentes, tudo é relativo em função dos interesses económicos e geoestratégicos. Voltaram ideologias do passado que julgávamos banidas pelas leis da Humanidade. Aplaude-se a constituição de um Mundo dominado por uma potência, que decreta como vivermos ou se vivemos. Quem compra e quem vende, quem morre e quem vive. O intolerável uso de armas nucleares é hoje aceite no cúmulo da ignorância e estupidez.

Fizemos mal o nosso trabalho? Tornamos a guerra, o caos o cortejo de fome e miséria material de interesse para as gerações mais novas como uma coisa romântica?

Estão hoje no poder os netos dos dirigentes, que reconstruíram os países após a hecatombe da II Grande Guerra, que fizeram compromissos para uma paz duradoira assente em tratados e na criação de organizações com a participação de todos os países. Declarou-se fim do colonialismo e da escravidão, enfim o fim da exploração do Homem pelo o Homem, mas estes em vez de honrarem a memória dos pais e avós encetaram uma corrida ao armamento, uma verborreia de guerra onde se medem todos os dias a importância do país pelo armamento e nunca pelos benefícios sociais.

Governos autocráticos dominam e os outros deixam-se arrastar. Discutem a liberdade de outros povos para esconder a repressão dos próprios países.

Estou demasiado velho para acreditar que há ainda volta a dar, que o bom senso voltará e que as nações unidas lutarão para erradicar a fome e a doença.

Como foi possível voltar a este estado de coisas?

Conhecem a Cantiga da Velha E dos Seus Dois Filhos?

Reza assim:

Sei Que Estou Velha E Doente
Mas Pra Ver o Mundo Girar de Forma Diferente
Ainda Sei Gritar e Arreganhar o Dente
*

Dito isto, agora vou para a hidro-ginástica e assim tentar enganar a idade, já que a água não é suficiente para limpar os maus pensamentos.

Juvenal Sacadura Amado
13/03/2026, dia em que se espera de azar, quando afinal o azar e a sorte é coisa de todos os dias.

(*) Cantiga Da Velha Mãe e Seus Dois Filhos, por José Mário Branco
_____________

Nota do editor

Último post da série de 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27719: (in)citações (283): "Se a minha mãe estivesse aqui dava-lhe um beijo" (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

11 comentários:

Eduardo Estrela disse...

Nós já éramos trinetos da guerra camarada Juvenal! Carne para canhão dos maléfico/desígnios de alarves denominados ( des ) governantes. Sempre ou quase sempre fizeram a guerra, mandando não os seus filhos mas os dos outros, para a fogueira da imbecilidade. Quase sempre em nome de coisa nenhuma a não ser a que ressalta da parte económica, tendo em conta razões que se prendem com a exploração. dos outros. Em nome da liberdade comentem-se crimes que acabam por trazer riqueza a quem os pratica.
Grande abraço
Eduardo Estrela

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Juvenal, a vida é curta e a memória ainda mais..."Si vis pacem, para bellum": já vem do tempo dos nossos colonizadores romanos... "Se queres a paz, prepara-te para a guerra". A nós, nem nos perguntaram o que queríamos... Aliás, não nos perguntaram nada. Como nãoperguntaram

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Juvenal, a vida é curta e a memória ainda mais..."Si vis pacem, para bellum": já vem do tempo dos nossos colonizadores romanos... que nos quiseram civilizar à força... "Se queres a paz, prepara-te para a guerra".

A nós, nem nos perguntaram sequer o que queríamos... Aliás, não nos perguntaram nada. Como não perguntaram aos nossos pais, que apanharam a II Guerra Mundial, e aos nossos avós, que apanharam a I... E por aí fora.

Pode ser uma utopia, mas um mundo sem guerra nem armas deve continuar a ser "um sonho que devemos continuar a sonhar", nós que fizemos a guerra e a paz... Não será, por certo, no nosso tempo. Nem nunca o será. Somos um erro de "casting" da natureza (ou do Criador, para os criacionistas e os crentes). Nunca teríamos existido se os dinossauros não tivessem sido extintos há 65 milhões de anos atrás.

Anónimo disse...

O que seria de nós sem a utopia? O sonho deve comandar a vida

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Mas podes ass(ass)inar...o comentário.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Sim, desde que não se transformem em bandeiras, bíblias, exércitos, espadas, canhões ... O cristianismo era uma utopia, transformou-se na religião dos escravizados e depois a religião oficial dos escravizadores...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Há hoje uma revolta dos criadores contra estas criaturas, que são as ferramentas de IA. Como acautelar os direitos, por exemplo, dos criadores de conteúdos digitais, músicos, escultores, ilustradores, ficcionistas, poetas, jornalistas, historiadores, sociólogos, jornalistas, linguistas, físicos e outros cientistas ? Temos que encontrar uma solução. A IA vive deles como a lampreia vive do sangue do peixe.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Há hoje uma revolta dos criadores contra estas criaturas, que são as ferramentas de IA. Como acautelar os direitos, por exemplo, dos criadores de conteúdos digitais, músicos, escultores, ilustradores, ficcionistas, poetas, jornalistas, historiadores, sociólogos, jornalistas, linguistas, físicos e outros cientistas ? Temos que encontrar uma solução. A IA vive deles como a lampreia vive do sangue do peixe.

Victor Costa disse...

Arroz de lampreia é muito bom, pena ser caro.
Os peixes e os animais comem-se uns aos outros.
É a lei da vida.

Anónimo disse...

Fui eu não reparei que estava anónimo. Juvenal Amado

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Juvenal, não ligues ao meu comentário (nem ao do Victor Costa): está deslocado. Eu falo da IA, que não vem a propósito. E o Victor de lampreia, ainda menos. Enganei-me na "caixa do correio". Desculpa. Vou devolver ao remetente...