Cartaz do filme, "Good Morning, Vietnam" (EUA, 1981, 121 m, a cores) (em portuguès, "Bom Dia, Vietname). (Cartaz: cortesia da Wikipedia), Ver aqui o "trailer" oficial (2' 39'').
O boneco do Pifas
1. Haverá semelhanças entre o Pifas (Programa das Forças Armadas, no CTIG) e o "Good Morning, Vietnam" ? Sim, há pontos de contacto mas também diferenças fundamentais.
Antes de mais, os EUA era uma democracia política, e Portugal vivia numa ditadura, com polícia política, censura e um partido único. Os EUA era o maior exército do mundo... Portugal tinha um grande império mas era "pobreta"... Até 1969, a guerra colonial era praticamente tabu, nomeadamente na comunicação social e no debate público. As poucas notícias que chegavam aos jornais era os telegráficos comunicados das Forças Armadas com a lista dos mortes nas 3 frentes (Angola, Guiné e Moçambique).
No EUA a guerra do Vietname era dada em direto na televisão, o que teve um efeito contraproducente na opinião pública e na população jovem em idade militar. Em Portugal, a guerra chegava por aerograma e "boca à boca"... O resto era a paz dos cemitério e das ruas... E, claro, a solidão sofrida dos antigos combatentes que voltavam às suas vidas cinzentas ou emigravam (nomeadamente nos Açores e na Madeira).
Tanto o PIFAS na Guiné Portuguesa (atual Guiné-Bissau), durante o comando do general António de Spínola (final dos anos 1960/início dos 1970), como o famoso programa de rádio "Good Morning, Vietnam!", associado ao locutor Adrian Cronauer durante a Guerra do Vietname (1965), são exemplos de programas de rádio militares com um impacto cultural e psicológico significativo em contextos de guerra, colonial, de contraguerrilha, ou regional (como foi o cas0 da guerra do Vietname, com uso de meios bélicos poderosos). As duas guerras não são comparáveis... Aliás, Portugal não estava em guerra com nenhum país estrangeiro... Mas a Guiné foi o "osso mais duro de roer" das Forças Armadas Portuguesas, na época.
1.1. Vejamos os pontos de "similitude" entre os dois programas:
(iv) Contexto de guerra e propaganda
Os dois programas surgiram em contextos de guerra, prolongada, difícil, com forte componente psicológica. E crescentemente impopular na retaguarda (com manifestações nos EUA, o que em Portugal era ainda impensável) e cada vez contestada no plano internacional (levando, no caso português, a um boicote no fornecimento de material bélico e isolamento diplomático).
O PIFAS era parte de uma estratégia de "pacificação" e "sedução" de Spínola (e do seu estado-maior, de resto brilhante), enquanto o programa de Cronauer era sobretudo uma forma de "escape" para os soldados americanos (a par do elevado de álco0l e consumo de substâncias: marijuana, LSD, cogumelos alucinógenos, metanfetaminas, heroína...).
(v) Impacto cultural e memória
O "Good Morning, Vietnam!" tornou-se icónico, especialmente depois do filme de 1987 com Robin Williams, que imortalizou a figura de Cronauer.
PIFAS: era uma ferramenta de propaganda política e militar, dirigida sobretudo aos militares e às populações locais, com um tom mais institucional, com meios humanos e técnicos limitados (três emissões diárias, de 1 hora cada, difundidas pelo Emissor Regional da Guiné, localizado em Nhacra). Era da responsabilidade da Rep ACAP.
"Good Morning, Vietnam!": era um programa de entretenimento para tropas, com um tom mais informal e irreverente, sem uma agenda política explícita.
O grau de liberdade era muito diferente: o DJ do filme (baseado na figura de Adrian Cronauer) é marcado pela irreverência, crítica e até choque com a hierarquia militar. Terá havido, no terreno, mais liberdade para a contestação interna, liberdade também possível pela enorme popularidade do programa "in loco".
O PIFAS era, pelo contrário, um instrumento mais institucional, enquadrado na estratégia político-militar portuguesa e na política spinolista "Por Uma Guiné Melhor". Portanto, mais conservador e ponderado, nos seus conteúdos, na sua "play list", etc.. mais alinhado com a política oficial do regime, enquadrado por oficiais do quadro como Otelo e depois Ramalho Eanes.
1.1. Vejamos os pontos de "similitude" entre os dois programas:
(i) Objetivo e público-alvo
PIFAS: criado ainda em 1967 mas popularizado no tempo de Spínola, visava melhorar a imagem de Portugal junto das populações locais, transmitindo música, notícias e mensagens em línguas africanas, além de crioulo e português; era uma ferramenta de "ação psicológica" (sic) para ganhar corações e mentes, num contexto de guerra (colonial, ta,bém dita "subversiva").
"Good Morning, Vietnam!" (com o DJ interpretado por Robin Williams): também tinha como objetivo levantar o moral das tropas americanas no Vietname, mas acabava por chegar de igual modo à população local alguma da qual se esforçava por aprender inglês (aliás, o Adrian Cronauer também era professor de inglês, no filme); usava música popular americana, humor e um tom irreverente e descontraído, contrastando com a dureza da guerra. Mas o propósito principal era mesmo animar os soldados no terreno.
PIFAS: criado ainda em 1967 mas popularizado no tempo de Spínola, visava melhorar a imagem de Portugal junto das populações locais, transmitindo música, notícias e mensagens em línguas africanas, além de crioulo e português; era uma ferramenta de "ação psicológica" (sic) para ganhar corações e mentes, num contexto de guerra (colonial, ta,bém dita "subversiva").
"Good Morning, Vietnam!" (com o DJ interpretado por Robin Williams): também tinha como objetivo levantar o moral das tropas americanas no Vietname, mas acabava por chegar de igual modo à população local alguma da qual se esforçava por aprender inglês (aliás, o Adrian Cronauer também era professor de inglês, no filme); usava música popular americana, humor e um tom irreverente e descontraído, contrastando com a dureza da guerra. Mas o propósito principal era mesmo animar os soldados no terreno.
(ii) Uso da música popular
Ambos usavam música popular (rock, pop, música local) como forma de comunicação e aproximação. A discografia, do lado português, era necessariamente muito mais limitada, para não dizer "indigente"... A grande maioria das NT não estava ainda sensibilizada para a música anglossaxónica predominante já na época. Dos discos mais pedidos pelo soldado na mato era... o do Conjunto Maria Albertina, já muito populra na diáspora lusófona!
Ambos usavam música popular (rock, pop, música local) como forma de comunicação e aproximação. A discografia, do lado português, era necessariamente muito mais limitada, para não dizer "indigente"... A grande maioria das NT não estava ainda sensibilizada para a música anglossaxónica predominante já na época. Dos discos mais pedidos pelo soldado na mato era... o do Conjunto Maria Albertina, já muito populra na diáspora lusófona!
O PIFAS incluía músicas africanas e portuguesas (e uma ou outra canção de "cantiores proibidos"), enquanto o programa de Cronauer usava sobretudo rock'n'roll e hits americanos.
(iii) A linguagem era adaptada ao público
(iii) A linguagem era adaptada ao público
O PIFAS usava crioulo e línguas locais, para chegar à populaçáo guineense. Cronauer usava a linguagem brejeira e o humor irreverente, com muito calão de caserna, para fidelizar o público militar.
Em ambos os casos, a rádio servia como companhia no isolamento no mato; era um
estímulo psicológico; e uma tentativa de aliviar o stress da guerra.
O humor e a música eram “armas leves”; música popular, discos pedidos, recados, anedotas, humor, tudo isso aparece nos dois contextos. A ideia era humanizar o quotidiano militar e quebrar a tensão.
(iv) Contexto de guerra e propaganda
Os dois programas surgiram em contextos de guerra, prolongada, difícil, com forte componente psicológica. E crescentemente impopular na retaguarda (com manifestações nos EUA, o que em Portugal era ainda impensável) e cada vez contestada no plano internacional (levando, no caso português, a um boicote no fornecimento de material bélico e isolamento diplomático).
Tanto na guerra colonial portuguesa como na guerra do Vietname, a propaganda e a comunicação eram essenciais para manter o apoio ou, pelo menos, a neutralidade das populações, a par do moral das tropas.
O PIFAS era parte de uma estratégia de "pacificação" e "sedução" de Spínola (e do seu estado-maior, de resto brilhante), enquanto o programa de Cronauer era sobretudo uma forma de "escape" para os soldados americanos (a par do elevado de álco0l e consumo de substâncias: marijuana, LSD, cogumelos alucinógenos, metanfetaminas, heroína...).
(v) Impacto cultural e memória
O "Good Morning, Vietnam!" tornou-se icónico, especialmente depois do filme de 1987 com Robin Williams, que imortalizou a figura de Cronauer.
Embora inspirado na figura de Cronuaer, e na sua história, o filme vive muito do inimitável talento de Robin Williams e tem cenas de ação ficcionadas. Foi rodado na Tailândia.
O PIFAS não era de todo conhecido internacionalmente, é hoje apenas lembrado por quem trabalhou na Rep ACAP - A Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica como uma inovação na guerra psicológica portuguesa, embora com resultados limitados face à realidade do conflito (e que, de resto, nunca chegaram a ser estudadas de todo). É também lembrado por alguns dos ouvintes na época. Já se passou mais de meio século, é difícil (senão impossível) fazer hoje uma avaliação retrospectiva do seu impacto.
1.2. Vejamos algumas diferenças importantes:
O PIFAS não era de todo conhecido internacionalmente, é hoje apenas lembrado por quem trabalhou na Rep ACAP - A Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica como uma inovação na guerra psicológica portuguesa, embora com resultados limitados face à realidade do conflito (e que, de resto, nunca chegaram a ser estudadas de todo). É também lembrado por alguns dos ouvintes na época. Já se passou mais de meio século, é difícil (senão impossível) fazer hoje uma avaliação retrospectiva do seu impacto.
1.2. Vejamos algumas diferenças importantes:
PIFAS: era uma ferramenta de propaganda política e militar, dirigida sobretudo aos militares e às populações locais, com um tom mais institucional, com meios humanos e técnicos limitados (três emissões diárias, de 1 hora cada, difundidas pelo Emissor Regional da Guiné, localizado em Nhacra). Era da responsabilidade da Rep ACAP.
"Good Morning, Vietnam!": era um programa de entretenimento para tropas, com um tom mais informal e irreverente, sem uma agenda política explícita.
O grau de liberdade era muito diferente: o DJ do filme (baseado na figura de Adrian Cronauer) é marcado pela irreverência, crítica e até choque com a hierarquia militar. Terá havido, no terreno, mais liberdade para a contestação interna, liberdade também possível pela enorme popularidade do programa "in loco".
O PIFAS era, pelo contrário, um instrumento mais institucional, enquadrado na estratégia político-militar portuguesa e na política spinolista "Por Uma Guiné Melhor". Portanto, mais conservador e ponderado, nos seus conteúdos, na sua "play list", etc.. mais alinhado com a política oficial do regime, enquadrado por oficiais do quadro como Otelo e depois Ramalho Eanes.
Os radialistas que lá passaram estavam sujeitos a censura e sobretudo à autocensura ("a pior das censuras", segundo o Armando Carvalhêda). E não havia nenhum "cromo" com o enorme talento do Robin Willims no papel do Adrian Cronauer.
Conclusão:
Há, de facto, similitudes no uso da rádio como ferramenta de comunicação, influência e propaganda em contextos de guerra, mas com objetivos e públicos distintos. Ambos refletem a importância da comunicação de massa em conflitos modernos e a necessidade de manter em alta o moral dos combatentes.
Há, de facto, similitudes no uso da rádio como ferramenta de comunicação, influência e propaganda em contextos de guerra, mas com objetivos e públicos distintos. Ambos refletem a importância da comunicação de massa em conflitos modernos e a necessidade de manter em alta o moral dos combatentes.
(Pesquisa: LG + Wikipedia + IA (ChatGPT / Open AI | Le Chat / Mistral AI)
(Condensação revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:


3 comentários:
O Camacho Costa poderia ter sido o nosso Adrian Cornauer ?
Não me parece que o Silvério Dias fosse homem para correr riscos...
Em 1969 ainda éramos todos meninos bem comportados...
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