Mensagem de Manuel Reis, com data de 2 de Fevereiro de 2008:Apontamentos de Guileje e Gadamel, 1973 (P3788, Manuel Reis, Ex-Alf Mil CCAV 8350).
Caro Luís:
Sinto-me na obrigação de vir a terreno para fazer uns breves comentários aos comentários que foram feitos à minha mensagem (P 3788*), na sua maioria feitos por anónimos.
1. Manuel Peredo:
O teu comentário tem razão de ser, não fui devidamente preciso: A impossibilidade de saída refere-se à saída da vala, quando pretendiam efectuar qualquer missão. Partilhava a mesma vala. Foram muitas as vezes em que saíram da vala e foram de imediato alvejados, o que vos obrigava a voltar à vala. Após algumas tentativas frustradas acabavam por sair do aquartelamento e cumprir a missão.
Ao dizeres que se estava melhor na mata do que no aquartelamento, estás a referir-te à dificuldade de movimentação dentro do aquartelamento. Concordo contigo em parte, pois não esqueço os camaradas mortos na mata, a 500 metros do arame farpado. Aliás a vós se deveu a recuperação destes corpos, chegaram pouco tempo depois da emboscada se ter desencadeado. Eu sei lá, onde se estava melhor!
2. António da Graça Abreu
Não me parece importante dizer o nome do novo Comandante do COP 5 e não sou eu que irei colocar em causa a sua bravura e muito menos a sua competência profissional. Não me compete julgar ou emitir juízos de valor. O que eu disse e repito, são factos: A partir do dia 2 de Junho até meados de Julho, altura em que a C CAV 8350 saiu de Gadamael, nunca mais foi visto. Isto no momento mais crítico de Gadamael e em que mais precisávamos dele. Dizes que tinha terminado a Comissão e eu só posso dizer: Pura coincidência e azar nosso.
Respeito a tua opinião, mas em 1973 o PAIGC tinha uma força militar superior à nossa. Possuía armamento já bastante sofisticado, carros de combate e até aviões que aguardavam a preparação de pilotos na URSS (informação carecida de confirmação). E não era por acaso que existia um plano de contracção do dispositivo das NT!
Não sei se Nino era ou não um homem de más previsões. Era e é um militar de convicções, com virtudes e defeitos como todos nós. Não deixa de ser lógica a previsão que ele faz sobre uma hipotética retirada, aliás isto está devidamente explicada na minha mensagem. Outra vez, não!
A transformação da guerra de guerrilha noutro tipo de guerra, por parte do PAIGC, era uma ideia que quase todos os Oficiais do Quadro partilhavam e expuseram publicamente. Porquê tanto espanto?
Nesta guerra não se pode falar em vitórias e derrotas. Todas as guerras de libertação (e foram muitas) tiveram sucesso, independentemente dos seus opositores serem a França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Espanha e Itália. No nosso caso se alguém foi vencido, esse foi o regime político de Lisboa. Mas não é este o tema de debate do nosso Blogue!
3. Anónimo 1
Importa aqui clarificar os meios humanos utilizados nos reabastecimentos: Dois grupos de combate, um grupo de milícias, um pelotão de Artilharia e um grupo de combate de ajuda a cargas e descargas, tanto do lado de Guileje como de Gadamael. O grupo restante ficava de serviço ao aquartelamento e tinha como funções a limpeza do aquartelamento, o fornecimento de água, apoio à cozinha e a segurança nocturna.
Acresce um outro pormenor: Em Guileje ninguém se podia dar ao luxo de sair do aquartelamento sem sair com dois grupos de combate e meia dúzia de milícias, incluindo um guia.
Coutinho e Lima explica, no seu livro, a situação das obras e a necessidade de efectuar o reabastecimento. Na época das chuvas, que se estava a iniciar, Guilege ficava completamente isolado e tornava-se indispensável, para a nossa sobrevivência durante a referida época, efectuar com urgência o reabastecimento tanto em armamento como em géneros alimentícios.
Este foi o factor determinante para uma menor actividade operacional, no que aos patrulhamentos e vigilância diz respeito. Apesar disso ainda recordo um patrulhamento que fiz na picada de Gandembel e outros camaradas também se envolveram noutro tipo de vigilância e/ou patrulhamento.
De Novembro/Dezembro de 1972 até inícios de Maio de 1973 a actividade operacional era idêntica à das Companhias anteriores. Nesse período de tempo tivemos a colaboração, embora fugaz, dos grupos do Marcelino da Mata e do capitão Ramos, grupos meticulosamente preparados para a guerrilha.
Não tivemos qualquer emboscada no reabastecimento até 18 de Maio, tal como tu. A única, coincide com o início dos ataques a Guileje a 18 de Maio. Limitámo-nos a levantar e/ou rebentar umas minas anti-pessoal e anti-carro. Fazíamos o mesmo que tu: Armadilhar, reconhecer e emboscar e para que saibas até uma emboscada montámos no mítico corredor de Guileje. Infrutífera, é um facto, mas estivemos lá. Outra actividade, bastante arriscada foi o reconhecimento do local onde se projectava construir um novo aquartelamento (Quebo). A restante actividade de patrulhamento e segurança já a conheces, julgo que estiveste lá.
Durante a noite, quando o vento soprava de leste e se ouviam viaturas junto à fronteira, os obuses 11,4 despejavam sempre uma dúzia de granadas. Era um tiro no escuro, como dizia o Pinto dos Santos (Ex-Alf Mil Art), já falecido. De uma dessas flagelações fomos informados da destruição de duas viaturas e de dois mortos do PAIGC.
4. Anónimo 2
“Guileje caiu porque não cumpriu a sua missão”, afirmas. Esta é a tua opinião e vale o que vale. Para todos nós, que lá vivemos, trabalhámos e sofremos, temos a consciência tranquila do dever cumprido. Todos nós estamos, como sempre estivemos ao lado do nosso Comandante Coutinho e Lima. Não é um homem só, como julgas. Deu sempre a cara, nunca se acobardou como tu no anonimato.
“Deitaram-se a dormir e quando acordaram tinham o PAIGC a querer tomar o pequeno almoço”, dizes, no dizer do Comandante. Isto é provocatório, cheira a bafio, lembra outros tempos. Mais palavras para quê?
Não fiques por aí, vem, dá a cara.
5. Um abraço amigo para o Jorge Picado, Manuel Peredo, Colaço, José Dinis, Jorge Cabral, Joaquim Mexia Alves e António Graça Abreu. Todos com a sua opinião, sem se esconderem no anonimato, contribuíram para um melhor esclarecimento da situação de Guilege e Gadamael.
Para ti, amigo Luís, deixo a liberdade não publicares o que consideres menos próprio.
Um abraço
Manuel Reis
Ex-Alf Mil
CCAV 8350
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Nota de CV:
(*) Vd. poste de 24 de Janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3788: Dossiê Guileje / Gadamael 1973 (1): Depoimento de Manuel Reis (ex-Alf Mil, CCav 8350)
Vd. primeiro poste da série de 30 de Janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3818: Apontamentos sobre Guileje e Gadamael (Manuel Reis) (1): Gadamael, eu te amo, eu te odeio





































