Pesquisar neste blogue

sábado, 7 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27803: Os nossos seres, saberes e lazeres (725): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (246): O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Só a posição em si é um deslumbramento, lá em cima o Castelo dos Mouros, na grande varanda desfruta-se do espetáculo da Quinta da Regaleira à esquerda e um pouco da vila de Sintra à direita. É tudo aprazível em termos de arborização desde a cascata dos plátanos até ao Palácio, da primavera para o verão deve ser um espetáculo no jogo de cores caleidoscópico, todo aquele arvoredo exótico a dialogar com os fetos arbóreos, os plátanos. As obras de conservação e restauro revelam-se magníficas, o Palácio, cuja construção esteve a cargo de um dos nomes sonantes da época, contou com a colaboração de Luigi Manini e um entalhador de nome sonante, Leandro de Souza Braga; e há, como é inevitável, alguns acepipes para aficionados do esoterismo, cabala e ramos afins com o que se pode especular da Capela templária e da Câmara iniciática. Asseguro que ninguém sairá desta visita decepcionado. Boa visita.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (246):
O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um parque de sonho - 2


Mário Beja Santos

Quem gosta de obras românticas de grande aparato, o Palácio Biester, que alguns tratam por chalé, satisfaz plenamente os aficionados mais exigentes. O Palácio está no ponto alto de um Parque de indiscutível beleza. Era, para a época, uma proeza paisagística, uma conceção com um elevadíssimo grau de dificuldade, com espaços que aparecem designados no mapa que se oferece ao visitante com nomes tais como Cascata das Camélias, Ponte dos Fetos Australianos, Passeio Bordallo Pinheiro, Largo dos Fetos Australianos ou Tanque dos Plátanos.
É andando no interior deste Palácio, contemplando as panorâmicas, quer as do parque em si, quer o desfruto de olhar à esquerda o edifício mais significativo da Quinta da Regaleira e à direita a vila de Sintra, que se sente na perfeição a integração do Palácio no parque, a grande variedade de exemplares exóticos, e mesmo na caminhada obrigatória entre a Cascata dos Plátanos e o Palácio ver como resultou em cheio este desenho em declives quase labirínticos, obra do paisagista francês François Nogré que foi construindo o jardim com uma série de patamares com diferentes vistas para o Palácio, o resultado é a variedade de cenários e de cromáticas com um aproveitamento estético da beleza natural do declive e dos cursos de água. Referi no número precedente ao leitor o deslumbramento da nogueira-do-Japão, das garbosas faias, os altíssimos plátanos, os fetos arbóreos, e andei à procura de uma árvore nativa da América do Norte e das regiões montanhosas do México a Liquidâmbar, que no outono pode adquirir uma fabulosa miríade de cores. Saí do Palácio por instantes só para vos mostrar este cenário florestal ímpar.

Não sei como é o jardim do Éden, mas no caminho entre o passeio Bordallo Pinheiro, o lago dos Fetos Australianos há um ajardinamento onde despontam palmeiras, sabe-se lá o que me passou pela cabeça, até imaginei que estava nos palmares de Gambiel ou Chicri, no meu regulado do Cuor, no Centro-Leste da Guiné.
Regresso ao interior, não tirei esta imagem ao acaso, no Palácio Biester trabalhou um artista de nomeada, Leandro de Sousa Braga, os seus arcos ogivais ornamentais de desenho neogótico são insuperáveis, e veja-se o entalhamento da cimalha para o teto.
Há soberbas pinturas nas paredes e no teto, figuras angélicas de Paul Baudry, e Luigi Manini, cenógrafo reputado de profissão deixou aqui vegetalismos que conferem ao espaço uma atmosfera onírica que nos remete para o romantismo no seu expoente máximo.
Obras de Luigi Manini, sempre presente pelos seus magníficos trabalhos conferem um estreito diálogo entre o neogótico das decorações com a arquitetura.
Como se disse anteriormente, o construído no rés-de-chão é eminentemente espaço de convívio social, abra-se exceção para a biblioteca, o primeiro andar é área dos aposentos e também da Capela, chamemos-lhe uma Capela Templária, talvez devido à presença dos Cavaleiros Templários na história de Sintra. No teto, a Capela mostra as mais soberbas pinturas de todo o Palácio, dois anjos atribuíveis a Paul Baudry.
Escadaria principal do Palácio Biester, foi na totalidade realizada em madeira, é uma construção entalhada e vazada de Leandro de Sousa Braga, vejam-se os arcos ogivais ornamentais de desenho neogótico.
Aproximei-me de uma janela para bisbilhotar o parque, é a luz do entardecer, daí os dois tons de verde e lá no alto o Castelo dos Mouros.
Um arco gótico na janela onde se avista esfumado uma lembrança do parque
Estamos na Câmara iniciática. Seguindo a legenda aqui patente, este é um local profundamente ligado à ideologia religiosa que domina toda a conceção do Palácio Biester, sendo que, juntamente com a Capela, se encontra conectado com a sua prática, através da iniciação do individuo a uma Ordem sacra Templária. Trata-se de uma pequena divisão totalmente dividida em pedra, que apresenta um teto abobadado e, na parede imediatamente à frente de quem entra, uma janela à maneira de um altar medieval rudimentar, que em galgando nos dá acesso a uma bifurcação de túneis, cuja saída vai dar aos jardins do Palácio. A estrutura foi delineada tendo como base modelos de santuários medievais, nos quais as paredes em pedra despida, de construção em abóbada com arcos, eram inspiradas pelos santuários cristãos da antiga cidade de Jerusalém. A modéstia desta camara iniciática, onde o voto de pobreza do aspirante observava os mandamentos originais, à imagem da Terra Santa com a riqueza da Capela neogótica do Palácio.
Estamos de novo cá fora, ainda houve intenção de ir até ao miradouro do Castelo, e depois visitar o miradouro das Descobertas, optou-se pelo Lago dos Fetos Australianos. Este feto arbóreo australiano, segundo consta na brochura, é uma das espécies mais elegantes do parque Biester, tendo sido integrada pelo paisagista François Nogré com o objetivo de difundir alguns exotismos em determinadas zonas da propriedade, e aquela queda de água vem mesmo a propósito deste parque romântico em que o paisagista foi bastante feliz no aproveitamento dos declives e dos cursos de água.
Despedimo-nos com uma visita às instalações onde convivia o pessoal entre criadagem e cozinheiros. Anda-se por aqui a pensar nas comédias britânicas de downstairs e upstairs, está tudo conservado e recuperado e, confesso bem alindado, até podemos imaginar os comentários dos que conviviam cá em baixo ou os modos de ser dos multimilionários que habitavam entre os salões e os aposentos privados.
Impossível, perante tanta beleza e a qualidade de recuperação do Palácio de Biester não deixar de sugerir uma visita a património de edifício e parque tratado com cuidados requintados e com um restauro de primeiríssima classe.

_____________

Nota do editor

Último post da série de 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27781: Os nossos seres, saberes e lazeres (724): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (245): O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 1 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27802: In Memoriam (575): António Lobo Antunes (1942-2026): "Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa" (seleção de uma crónica de 2008, por António Graça de Abreu)


António Lobo Antunes (1942-2026) (*)
Foto: Cortesia de Instituto Camões (2018). com a devida vénia.
Editada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa

por António Lobo Antunes / António Graça de Abreu


Caríssimos tertulianos, camaradas e amigos:

António Lobo Antunes, enorme escritor, foi alferes médico no leste e centro de Angola, de 1971 a 1973.  Na sua crónica na revista Visão, ontem, quinta feira, a 19 de Junho de 2008, escreveu:

(…) Todos os anos a minha companhia lá da guerra [CART 3313 / BART 3835, Angola, 1971/73] faz um almoço com os que sobejam da miséria em que andámos. 

Não neste último almoço, no penúltimo, o furriel Firmino Alves começou a anotar os telemóveis dos nossos camaradas para os contactos da refeição seguinte, até que chegou ao 'Pontinha'. 

'Pontinha' é a alcunha do ordenança da messe de oficiais, que morava na Pontinha. Como a cabeça dele era grande (continua a ser grande), chamavam-lhe também 'Porta-aviões', porque dava para os aviões aterrarem.

O 'Pontinha', como muitos dos soldados, vive com dificuldades. Ao fim de semana engraxa sapatos para equilibrar o orçamento.

(…) Falar dos meus camaradas comove-me: a expressão irmãos de armas é tão verdade. Enquanto nos aguentamos por cá. Mesmo depois. Zé Jorge, continuamos irmãos de armas. Cabo Sota: admiro a tua coragem até ao fundo da alma. Sozinho com a Breda, uma metralhadorzeca, aguentou um ataque. E vive mal, percebem? Como se deixa viver mal um herói? Ao acompanhá-lo ao táxi em que voltava, doente, ao Alentejo, avisei o condutor:

- Você leva aí um grande homem, sabia, um dos maiores homens que conheço e, como todos os grandes homens da guerra, de uma infinita modéstia, bondoso, sereno. Não lhe chego aos calcanhares. Cabo Sota, tu mereces a continência de um general. O Zé Luís, oficial de operações especiais que em matéria de coragem não necessitava de aprender com ninguém:

- Eram duros

expressão que constitui para nós o supremo elogio. Adiante. Contava eu que o furriel Firmino Alves anotava os telemóveis até que chegou ao 'Pontinha' e como fizera com os outros perguntou:

- Tens um telemóvel, 'Pontinha'?

E o 'Pontinha' logo a mostrar serviço:

-Não, mas a minha mulher tem um microondas.


(…) Boaventura, Nini, Licínio, vocês todos, caramba, como a gente somos irmãos. Unamuno, que muito respeito, tem páginas admiráveis sobre a valentia dos portugueses. 

Tens razão, Zé Luís, eram duros. Ganas de explicar às mulheres deles, aos filhos deles, o orgulho que tenho em ser amigo dos pais, em que os pais sejam meus amigos. Não: irmãos de armas. Não: irmãos. E bons como o pão. 

Ao lado disto que maior elogio se pode fazer? Ao menos que o País os beije antes de os deitar fora e lhes peça desculpa. E há mais anjos para além dos padeiros, de arma nas unhas mata fora. 

Nenhum deles é banqueiro, claro. Nem administrador. Nenhum deles joga golfe. Jogaram golfe num campo de um só buraco onde não é a bola que cai. É um rapaz de vinte anos.

E acabo aqui, antes que seja tarde para marcar o número de um microondas. (...)


Camaradas de Portugal e da Guiné, depois de ler este texto, duas grossas lágrimas correram-me pelo rosto. Que o nosso País nos “beije antes de nos deitar fora e nos peça desculpa”. Que a vossa Guiné-Bissau vos beije também, “antes de vos deitar fora e vos peça desculpa.”

Sem complexos nem traumas de colonialista, sem complexos, sem traumas de colonizado, vamos ler outra vez o texto do António Lobo Antunes.

Depois, vamos adormecer em paz.

Um abraço,
António Graça de Abreu
S. Miguel de Alcainça,

20 de Junho de 2008
Ano do Rato
________________

Nota do editor  L.G.:

(*) Último poste da série > 6 de março de 2026 >
Guiné 61/74 - P27801: In Memoriam (574): António Lobo Antunes (1942-2026): até sempre, camarada! (Luís Graça)

sexta-feira, 6 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27801: In Memoriam (574): António Lobo Antunes (1942-2026): até sempre, camarada! (Luís Graça)


António Lobo Antunes, alf mil médico,
Angola, c. 1971/73, nosso camarada
antes de ser escritor famoso.
Foto: arquivo da família, com a devida vénia,
editada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas
da Guiné (2026)


1. O António Lobo Antunes morreu ontem, dia 5, quinta feira, aos 83 anos (*). 

Um dia, daqui a uns anos, vai ter honras de Panteão Nacional, a avaliar pelas homenagens que o país e as suas elites lhe estão a prestar. 

Hoje o seu corpo está em câmara ardente, desde as 16h00, na Igreja de Santa Maria de Belém, no Mosteiro dos Jerónimos, um privilégio que é só para os nossos "maiores". O Governo decretou um dia de luto nacional em sua homenagem. Vai ser amanhã, dia em que se realiza o seu funeral.

Vai ser também condecorado, a título póstumo, com o Grande-Colar da Ordem de Camões, 
por serviços relevantes à língua portuguesa e à projeção  da cultura lusófona no mundo. Como sabemos, foi durante  anos e anos um "nobelizável", um candidato ao Nobel. 

Como alguém disse (o editor e escritor Francisco José Viegas, entrevistado ontem pelo "Diário de Notícias"), não foi o Lobo Antunes que perdeu o Nobel, foi o Nobel que perdeu o  Lobo Antunes. Como perdeu muitos grandes escritores universais, desde o russo Tolstói ao irlandês James Joyce, do argentino José Luís Borges ao  nosso Fernando Pessoa (os suecos têm uma desculpa: não podiam adivinhar o que estava lá dentro, no seu baú)...

Segundo a RTP,  e de  acordo com a agência funerária responsável, as cerimónias fúnebres realizam-se, sábado,  a partir das 10h00, com a celebração de uma missa de corpo presente,  pelas 12h00.

 O funeral seguirá depois para o cemitério de Benfica, em Lisboa, o bairro onde ele nasceu e cresceu, e que é também uma das fontes primordiais das suas memórias.

Recorde-se que o António Lobo Antunes  (um de seis irmãos de uma "ínclita geração") foi nosso camarada, tendo cumprido o serviço militar como alferes miliciano médico, em Angola, no BART 3835 (1971/73), e tendo ficado com uma ligação muito especial à malta da CART 3313.

O título deste poste pode parecer  ser pretensioso: "até sempre, camarada!"... Mas, não, não estamos a pôr-nos no pedestal, à boleia desta triste notícia necrológica: afinal, ele foi nosso camarada, mesmo sendo o Dr. Lobo Antunes, e antes de ser um escritor famoso, tendo cumprido o serviço militar como alferes miliciano médico, em Angola, no BART 3835 (1971/73). Ficou com um ligação muito especial ao pessoal da CART 3313. E emocionava-se ao falar, em público, dos seus camaradas de armas.

Contrariamente ao que alguns pensam ou opinam, ele não foi o chefe de fila da literatura da guerra colonial, embora a guerra colonial seja um tema recorrente e obsessivo dos seus livros (e são mais de 4 dezenas). Mas, se não fosse a guerra, muito provavelmente ele nunca teria sido o escritor que foi (e é, porque as suas obras vão sobreviver à sua morte física).

Mas todos reconhecemos que os seus primeiros livros tiveram um efeito de catarse na nossa geração de antigos combatentes, surgidos a partir de 1979, com Memória de Elefante, Os Cus de JudasConhecimento do Inferno (1980), Explicação dos Pássaros (1981)..., obras marcadas pela sua experiência da guerra e pela sua prática clínica como jovem psiquiatra. 

Tornou-se, de facto, o escritor de cabeceira de muitos de nós, nessa época. Nós, que com o 25 de Abril, tínhamos posto uma pedra em cima do vulcão das nossas memórias da guerra, da sua violência e do seu absurdo.

Temos 33 referências no nosso blogue ao António Lobo Antunes, e nem uma ao José Saramago, outro "mal-amado", o que não representa qualquer discriminação. Simplesmente, o José Saramago (1922-2010) não tinha vivências de (nem escritos sobre) a  guerra colonial. Era mais velho, era da geração dos nossos pais. (Referências, acrescente-se, que são, em boa parte, devidas às notas de leitura do nosso crítico literário, o Mário Beja Santos.)

Por estes dias vai-se falar, "ad nauseam!", do escritor e do homem, o António Lobo Antunes, que em vida tinha fama de "enfant terrible".  Muitos que o detestavam (sem nunca o terem lido...), vão pô-lo agora no altar da Pátria. Tem acontecido a todos os nossos grandes escritores. De Camões a Fernando Pessoa. É sempre assim, na hora da morte, ou muitos anos mais tarde (no caso de Pessoa). A morte  tem o condão, em Portugal, de fazer uma besta passar a bestial....

Conheço histórias (e anedotas) da vida dele (e algumas deliciosas mas impróprias para meninos de coro), porque ambos estávamos ligados à saúde, e de algum modo modo à psiquiatria, e ao Hospital Miguel Bombarda. E porque Lisboa é (ou ainda era nos  anos 80/90) uma aldeia. A relação do escritor com a sua "corporação" nunca foi fácil. Afinal, ele era um iconoclasta e um exorcista. Mas em 1986 os seus romances já eram "best-sellers".

A última vez que o vi, já depois da pandemia de Covid-19, foi num hospital privado, onde fui fazer um teste de avaliação neuropsicológica de diagnóstico precoce e diferencial de demências (sempre mais vale prevenir do que remediar, camaradas...).

Fiquei chocado de o ver: passou por mim, ia numa cadeirinha de rodas, empurrada por familiares, entubado, cabisbaixo, ao longo do corredor. O verdadeirpo retrato da nossa miserável condição humana. Bolas, não fomos feitos para sofrer e morrer (nem para matar...), dizia ele, nas inúmeras  entrevistas que deu. No elevador, encontro depois, nessa mesma tarde, a descer comigo no elevador, um outro grande escritor, o poeta algarvio Nuno Júdice (1949-2024), que morrerá uns tempos mais tarde... 

Escrevi no meu bloco de notas, nesse dia: "se calhar escrever, é isso mesmo, uma ilusão de eternidade, um combate (sempre desigual) contra a morte, o esquecimento, o absurdo da vida".

Fui repescar também o que escrevi sobre ele, no nosso blogue, há quase 20 anos atrás:

(...) "O Lobo Antunes conheceu, no Hospital de Santa Maria, aos 65 anos, a terrível e frágil condição do doente oncológico... 

Em março de 2007 deixou-se operar por um amigo de longa data. Ele próprio revelou, em crónica publicada na Visão (12 de Abril de 2007) e ainda escrita no hospital, que estava a lutar (mal) com um cancro...

Na crónica da última semana, publicada na Visão (4 de Outubro de 2007), evoca com grande ternura e com o seu talento de escritor genial o seu camarada Zé, que terá falecido recentemente em brutal acidente de viação na autoestrada de Cascais. Dele diz: 'África ficou para sempre dentro de ti, a roer-te, e deu cabo da tua vida'...

A crónica começa assim, dando a melhor definição que eu alguma vez li sobre o que é ser um camarada. Só o Lobo Antunes poderia escrever isto:

'Não morreste na cama mas morreste entre lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e a gente ali, diante do teu caixão, tão tristes. Eras meu camarada, que é uma palavra da qual só quem esteve na guerra compreende inteiramente o sentido: não é bem irmão, não é bem amigo, não é bem companheiro, não é bem cúmplice, é uma mistura disto tudo com raiva e esperança e desespero e medo e alegria e revolta e coragem e indignação e espanto, é uma mistura disto tudo com lágrimas escondidas' (...). (**)

Nunca o conheci na intimidade, mas apenas como figura pública, e esporadicamente nas feiras do livro de Lisboa. Não fazia parte da Tabanca Grande. Nem nunca poderia fazer parte. Além de nunca  ter escrito sobre a Guiné, ao que eu saiba (nem por lá ter passado), não tinha, ao que se consta, email, computador ou telemóvel (nem carro)...

Não deixava por isso de ser nosso camarada, naturalmente ilustre. Tivemos aqui algumas picardias, de que ele nunca teve conhecimento porque também não nos lia, mas também nos demos conta, rapidamente, de que o mal-entendido foi nosso, que não o sabíamos ler nem tresler (***).
_______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 5 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27796: In Memoriam (573): Rui Manuel da Silva Felício (Coimbra, 09/10/1944-Ericeira, Mafra, 26/02/2026): Cerimónia fúnebre, hoje, às 14 horas, na igreja de Santa Marta de Casal de Cambra e cremação, amanhã, às 14 horas, no Complexo Funerário de Casal de Cambra

(**) Vd. poste de 6 de outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2161: Pensamento do dia (12): Camarada, uma palavra que só quem esteve na guerra entende por inteiro (António Lobo Antunes)

(***) Vd. poste de 25 de setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7034: Carta aberta a... (4): Camarada (de armas) António Lobo Antunes (António Graça de Abreu)

Guiné 61/74 - P27800: Notas de leitura (1902): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
O Marquês do Lavradio consegue traçar e enquadrar os elementos fundamentais que levaram as potências coloniais a reunirem-se em Berlim para se tomarem decisões sobre o continente africano. A questão do Zaire foi um dos detonadores, as potências coloniais melhor apetrechadas, ambicionavam os negócios africanos, fazer caminhos de ferro, pagaram dispendiosas expedições científicas, o rei dos belgas, sob o pretexto de criar uma associação internacional para melhorar a civilização em África, fundou o Estado do Congo, surgiram conflitos para nos afastar das margens do Zaire; é facto que a Conferência de Berlim fez reconhecimento às possessões coloniais portuguesas, mas não passou do mero interlúdio para novas tentativas de reduzir a presença portuguesa em África. As hostilidades não vinham só da nossa mais velha aliada, a França já não escondia as suas ambições na África Ocidental, veremos adiante a questão do Casamansa e a sua tentativa de nos humilhar com a questão do navio Charles e Georges.

Um abraço do
Mário


Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 5

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, Subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência. O aspeto mais curioso deste seu trabalho é a franqueza que ele põe nas suas considerações da decadência imperial portuguesa, como se procurou mostrar nos quatro textos anteriores revela como até ao século XIX a nossa presença circunscrevia-se praticamente à orla da costa de regiões que só no século XIX passaram a ser designadas ou até fronteiras, caso da Guiné, Angola e Moçambique (os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Dentro da franqueza que o Marquês usa na sua narrativa é patente a crítica por vezes brutal face ao imperialismo britânico; no entanto, dirá nas conclusões que o Império português só poderá sobreviver à sombra da proteção britânica.

O que se entende por a questão do Zaire? O Governo português sustentava os nossos direitos aos territórios da Costa Ocidental de África, ao norte de Ambriz, o que indispunha a diplomacia britânica. Como observa o Marquês do Lavradio, quando se ocupou Ambriz, em 1855, fez-se a declaração da intenção de ir sucessivamente ocupando os territórios ao norte, caso de Cabinda. Logo em 1856 o Governo inglês dava instruções ao almirantado para que se opusesse pela força a qualquer nova tentativa de ocupação por parte de Portugal. Estas medidas de força violavam os Tratados existentes entre Portugal e a Grã-Bretanha. Que justificação davam os nossos aliados para tão tenazmente se oporem à nossa presença no Ambriz e mais ao norte? Que não tínhamos possibilidade de impedir o tráfico de escravos. O Ambriz, antes de ser novamente ocupado pelos portugueses, era o grande mercado dos escravos, e depois da ocupação não constava que saísse daquela localidade um só escravo.

Comentando a situação, escrevia o Visconde de Sá da Bandeira: “Parece-me que o Governo inglês tem preparado para pouco a pouco estabelecer no Zaire e costa adjacente o mesmo sistema que tem conseguido fundar na Costa da Mina, isto é, uma espécie de protetorado sobre todos os régulos. A consequência de tal protetorado tem sido que o comércio britânico adquiriu, com o andar do tempo, tal supremacia na Costa da Mina que quase que monopolizou as transações que se fazem nos portos.” A diplomacia portuguesa continuou a insistir nos seus direitos, como abonam as iniciativas de Andrade Corvo e as do Duque de Saldanha. Toda aquela região era ambicionada por potências coloniais, expedições como as de Livingstone, Stanley ou Brazza revelavam o valor dos territórios. As viagens, que haviam chamado a atenção das potências para a questão da escravatura em tráfego, originaram a conferência Internacional de Bruxelas, que se reuniu a 12 de setembro de 1876, Portugal não se fez representar, e foi nessa conferência que nasceu a Administração Internacional para a Exploração e a Civilização da África Central.

Em 1878, em resultado das novas explorações de Stanley, fundava-se em Bruxelas a Comissão de Estudos do Alto Congo e posteriormente a Associação Internacional do Congo. Foi nessa ocasião que a Inglaterra se decidiu finalmente em encetar negociações connosco para um Tratado que nos devia reconhecer o direito de ocuparmos o que legitimamente nos pertencia. A Inglaterra impunha-nos que se declarasse a liberdade de navegação no Zambeze e Congo, que se concedesse o tratamento de nação mais favorecida aos súbditos britânicos, que se desistisse de qualquer pretensão sobre terrenos ao sul ou no interior que não estivessem efetivamente ocupados e que se suprimisse o tráfico da escravatura.

Numa tentativa de recapitulação podemos considerar que a questão do Zaire, a criação de uma associação internacional sobre a égide do rei Leopoldo da Bélgica, a delimitação da bacia do Congo, a própria política hostil dos Estados Unidos que exigia uma total liberdade comercial na região do Congo, as expedições de Stanley, numa tentativa de encontrar apoios junto das chefaturas nativas em detrimento dos interesses portugueses estão entre as causas principais que conduziram à Conferência de Berlim, na justa medida em que a Alemanha também cobiçava porções de território africano. A Alemanha já pusera o pé na África Oriental entre Zanzibar e Tanganica, e começava a assentar arraiais no Togo. Como escreve o Marquês do Lavradio, “Ingleses, franceses e alemães lançaram-se sucessivamente nos sertões africanos, ou com fins meramente científicos ou com intuitos de especulação comercial, resultando destas viagens o conhecimento completo da geografia africana, a criação de novas colónias ou protetorados e, ainda, o nascimento de um Estado novo.”

O autor procura denunciar que grande parte destas expedições em que pessoas como Livingstone ou Stanley ou Cameron alegavam que eram os primeiros a atravessar África escondiam o facto dos portugueses já terem importantes viagens, e avança com dados históricos:
“Não devem ser esquecidos os nomes de João Fernandes, o primeiro europeu que penetrou no terreno de África, ficando no Rio de Oiro em 1445, para aprender a língua e costumes, a fim de informar o Infante D. Henrique; padre Gonçalo de Silveira, que em 1561 conseguiu batizar solenemente o rei de Monomopata, que meses depois o mandava assassinar; frei João dos Santos, que de 1568 a1597 encontrámos exercendo a sua missão na África Oriental; padre Jerónimo Lobo, que em 1624 estava na Abissínia; Domingos de Abreu e Brito, 1592 reconhecia a facilidade de passar de Benguela para as minas de Monomopata; Baltazar Rebelo de Aragão; Manuel Cerveira Pereira; Luís Mendes de Vasconcelos.”

E, mais adiante:
“O Tenente-coronel Francisco Honorato da Costa, Comandante da Feira de Cassange, mandou em 1802, por ordem do Governador de Angola, dois dos seus pioneiros a Tete com cartas para o Governador dos rios de Sena. Estes dois homens, Pedro João Baptista e Anastácio José, saíram de Cassange em fins de novembro de 1802 chegaram a Tete em 2 de fevereiro de 1811, onde Pedro João Baptista entregou ao Governador dos rios de Sena um roteiro do caminho seguido. É esta a primeira travessia entre as duas costas africanas de que há conhecimento afetivo.”

Como iremos ver adiante, estávamos a pagar forte e feio a nossa negligência e não possuíamos nem meios nem poder para concorrer com as grandes potências. Houve, é facto, uma comoção nacional face a esta corrida em África, o que levou à formação de uma comissão geográfica africana e à fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa.


D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)

(continua)
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 27 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27778: Notas de leitura (1900): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27787: Notas de leitura (1901): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27799: Em busca de ... (332): ex-alf mil médico Luís Tierno Bagulho (Artur Sousa, CCAÇ 2782 / BCAÇ 2927, Encheia e Bissorã, 1970/72)


Guiné > Região do Oio > Bissorã > CCS/BCAÇ 2861 (1969/70) > Receção aos "periquitos" do BCAÇ 2927 (set 70/ set 72) > Outubro de 1970 > "Esta até a mim me surpreendeu. Sobretudo ao ver que os pilantras foram aos fundos da enfermaria 'gamar' as batas que não eram utilizadas mas que faziam parte do espólio a entregar. Aos protagonistas peço desculpa por me 'faltarem' os nomes, mas vamos, a partir da esquerda: 1- 'Setúbal', pintor;  2- Lameiras, mecânico; 3- Condutor da GMC rebenta-minas; 4- Bate-chapas.. O 5º sou eu, que também quis ficar para a posteridade. Cartazes: 'Assistência à velhice', 'Serviço de saúde ao domingo' " (*).

Foto do álbum do ex-fur mil enf Armando Pires,  CCS/BCAÇ 2861 (Bula e Bissorã, 1969/70)

Foto (e legenda): © Armando Pires (2012). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do Artur Sousa, recebida através do Formulário de Contacto do Blogger:

Data - 5 mar 2026, 09:43

Assunto - Alf mil médico Bagulho

Bom dia,

Estive em Encheia e Bissorã, com IAO no Cumeré,  na CCAÇ 2782 / BCAÇ 2927, entre 1970/72.

Tivemos um oficial médico,  Dr. Bagulho, e, ao ver as vossas publicações, lembrei-me que poderia ser ele.

Tenho uma grande estima e consideração por ele e até a minha Companhia o considera.  

Se puder informar se está bem,  agradecia muito.

Muito obrigado.
Cumprimentos,
Artur Sousa  (...)

 2. Resposta do editor LG:

Camarada Artur Sousa, obrigado pelo teu contacto.  Presumo que te queiras referir ao dr. Luís Tierno Bagulho, o único alferes miliciano médico que consta  do nosso blogue com esse apelido. 

Tínhamos até agora apenas 4 referências a esse nome. Não sei se se trata do mesmo militar, nosso camaradas na Guiné. Mas o apelido é pouco comum. Deve ser essa pessoa que procuras. Infelizmente já faleceu há mais de 40 e tal anos. Convivi com a sua família (mulher e filhos), já depois da sua morte. Nunca o cheguei a conhecer pessoalmente.

Eis o que sabemos dele:
 
(i) o cirurgião Luís Tierno Bagulho era  filho do almirante Manuel Tierno Bagulho (nascido em Elvas, 1911);

(ii)  como estudante de medicina, participou  na crise académica de 1962 (em Lisboa);

 (iii) esteve na Guiné portuguesa, no tempo da Guiné colonial, e possivelmente em rendição individual;

(iv) esteve no BCAÇ 3863 (Teixeira Pinto / Canchungo, 1971/73) (este batalhão esteve no CTIG entre  setembro de 1971 e dezembro de 1973):

(v) terá passado também pelo  Hospital Militar de Bissau (HM 241),  sendo já cirurgião e mais velho do que os restantes colegas médicos, sem especialidade (geralmente os médicos, com especialidade ou com prática em cirurgia, mobilizados para a Guiné, na época da guerra colonial, acabavam por ser destacados para o HM 241; era grande a falta de cirurgiões militares; e  só em Bissau havia condições para a prática da cirurgia hospitalar);

(vi) ficou com um grande amor àquela terra e àquele povo, voltou à Guiné-Bissau, depois da independência como cooperante médico, em 1978;

(vii) morreu, de doença de evolução prolongada, no final dos anos 70, deixando três filhos menores.

Artur, e é tudo o que sabemos do dr. Bagulho. E infelizmente não temos uma única foto dele. 

Ele terá passado pelo teu batalhão, BCAÇ 2927 (Bissorã, set 1970/ set 72) ?

Segundo o depoimento de um camarada nosso, o António Graça de Abreu (alf mil, CAOP 1, Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74), que o conheceu em Teixeira Pinto, o Luís Tierno Bagulho deverá ter terminado a sua comissão em setembro de 1972, tal como tu e a malta do teu batalhão.

Tens aqui mais referências ao ex-alf mil médico Luís Tierno Bagulho. Se souberes algo mais sobre ele, contacta-nos.

3. Aproveito para te convidar a integrar o nosso blogue. Bastam 2 fotos tuas (uma antiga e outra mais recente). E duas linhas de apresentação da tua pessoa (posto, naturalidade, onde vives, etc.). Como camaradas de armas, que fomos, tratamo-nos por tu.

 Só temos um representante do teu  BCAÇ 2927, o falecido comandante da CCAÇ 2781, Gertrudes da Silva. 
________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste dee 23 de julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10185: Humor de caserna (27): Recepção aos piras do BCAÇ 2927 em Bissorã, em fins de outubro de 1970 (Armando Pires)

(**) Último poste da série > 21 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27758: Em busca de... (331): Pedro Leones procura notícias de Diamantino Lopes Dias, Soldado Condutor Auto Rodas da Companhia de Transportes/CTIG, vítima mortal de uma mina antipessoal na estrada Cuntima-Jumbembem, em 20 de Março de 1972

quinta-feira, 5 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27798: Fotos à procura de... uma legenda (200): Bingo, Paulo Raposo e Nelson Herbert!... Acertaram: é o antigo edifício da Marinha e Oficinas Navais, junto ao cais do Pijiguiti, Bissau



Foto nº 1A e 1 > Guiné - Bissau > Bissau > c. 2010 > Foto aérea da zona ribeirinha, porto, cais do Pijiguiti (ou Pindjiguiti) e Instalações Militares da Marinha de Guerra (*)




Foto nº 2A e 2 > Guiné - Bissau > Bissau > c. 2010 > Foto aérea da zona ribeirinha, cais do Pijiguiti (ou Pindjiguiti) (à esquerda) e Instalações Militares da Marinha de Guerra (à direita, edifício em L) (*)



Foto nº 3 > Guiné - Bissau > Bissau > c. 2010 > Foto aérea da "Bissau Velho": em primeiro plano, o telhado e as torres sineiras da catedral católica (à esquerda), um troço da Av Amílcar Cabral, o estuário do Geba, o porto, o ilhéu do Rei, e, assinalado a amarelo, o edifício em L das Instalações Militares da Marinha de Guerra, sito na Av 3 de Agosto (antiga marginal)



Foto nº 4 > Guiné - Bissau > Bissau > c.  2010 > Foto aérea da parte meridional da "Bissau Velho"... Alguns pontos de referência: cais do Pijiguiti (1), porto (2), catedral (3), rua Eduardo Mondlane (4) e av Amílcar Cabral (5)  (*)


Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 


Infografia nº 1 > Guiné-Bissau > Bissau > Planta de Bissau (edição, Paris, 1981) (Escala: 1/20 mil) > Alguns pontos de referência: a nordeste, assinalada a verde,m a zona de Santa Luzia (à esquerda,. o Pilão); o Hospital Nacional Simão Mendes (assinalado a vermelho); e as Instalações Militares da Marinha de Guerra (assinalado a azul).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)




Foto nº 5 > Guiné > Bissau > 15/10/1968 > "Aspecto de uma rua de Bissau". Foto do álbum do  Eduardo Figueiredo, já falecido, ex-alf mil, CCS/ BCAÇ 1933  (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69).

Foto alojada em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzidas com a devida vénia).

Foto (e legenda): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 
1. Mensagem de nosso amigo guineense, de origem cabo-verdiana, Nelson Herbert, jornalista reformada da VIA - Voz da América, com data de hoje, às 11:18, em resposta ao poste P27791 (**)


Saudações:

Por aquilo que a memória reteve da cidade que me viu nascer, Bissau (nasci na rua Engenheiro Sã Carneiro, junto à Messe dos Sargentos da Força Aérea) [hoje, e desde de 1975, Rua Eduardo Mondlane], portanto no muito distante de onde me parece estar localizado o edifício da foto, nos idos anos de “formatação” dessa área que viria dar origem à Avenida Marginal ao longo do Rio Geba …e a Avenida Republica … [ hoje Av 3 de Agosto e Av Amílcar Cabral, respetivamente].

Diria que o edificio com as guaritas, na foto nº 1, mais me parece ser o Quartel da Marinha ou as “Oficinas Navais”, este já junto ao Cais de Pindjiguiti e da Avenida Marginal no Geba.

Digo isto já que é visivel, na foto,um pantanal e o Rio Geba num dos angulos da imagem, área que diria viria a aer o “backyard” do aquartelamento da Marinha….que se estenderia (não o e visível na imagem) à Estrada da Sacor e em direcão a um Centro de Transmissões (no fim da mesma via) de que provavelmente os postes/ antenas da imagem seriam parte.

A foto provavelmente foi tirada de um edifício junto ao “Porto de Pindjiguiti”, e da Avenida Marginal ao longo do Geba. Provavelmente de algum prédio da então Casa Ultramarina~, nas redondezas.

Digo isto, e a tÍtulo de curiosidade que de criança, e da casa /rua onde nasci , eram parcialmente visiveis as obras da construção do que viria a ser a parte lateral (o muro) do quartel da Marinha, pelas bolanhas da estrada da Sacor.

Mais tarde, com a construção de duas novas ruas paralelas à Engenheiro Sá Carneiro (a rua que ia dar ao Hospital de Bissau, à Praça Honório Barreto, à Pensão/ Restaurante Ronda, do tal atentado bombista e ao Cemitério de Bissau … , em direção conytraria, aos Servicos de Meteorologia junto ao célebre "Chez Toi”) perdeu-se a vista do Geba e do edificio do Quartel da Marinha.

De uma das ruas paralelas ainda me lembro do nome: era pois a Rua Lamine Indjai, inaugurada se não me falha a memória, nos anos 70. A outra (hoje Severino Pina) escapa-me o nome de “baptismo” na época colonial.

Espero que a memória não me tenha traído.

Mantenhas

Nelson Herbert
Washington DC, USA


2. Comentário do editor LG:

Bingo, Nelson (Herbert) e Paulo (Raposo), foram vocês os únicos que acertaram...Eu próprio estava, inicialmente inclinado para o antigo Hospital Central de Bissau, e a IA, imaginem (!), dizia.me que era o quartel do Serviço de Transmissões de Santa Luzia (por causa das antenas)... Mas, quem sabe, sabe. E quem sabe, é quem viveu em Bissau, nesses anos de 40/50/60/70...

Claro, a fotografia do Eduardo Figueiredo não é "famosa", tem fraca resolução e profundidade de campo...Mas, comparando-a com as fotos que reproduzimos acima (**), e com as memórias do Nelson Herbert, não há margem para dúvidas: o edifício (ou o conjunto de instalações da antiga Marinha Portuguesa) ainda lá (ou estava, c. 2010)...

_______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 17 de novembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20356: Roteiro de Bissau: fotos de c. 2010, de um amigo do Virgílio Teixeira, empresário do ramo da hotelaria - Parte II


(...) fotos, na posse do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, chefe do conselho administrativo, Comando do BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69).

Foram-lhe enviadas, sem legendas, por um português, das suas relações, empresário do setor hoteleira, que ele de momento não está autorizado a identificar. São fotos, muitas delas aéreas, com interesse documental para aqueles, como nós, que conheceram Bissau, que continuam a lá ir ou querem ainda lá ir. As fotos devem ter sido tiradas no início da década de 2010, e algumas serão mais antigas. Mas são de alguém que ama muito a cidade de Bissau...onde vive. E onde a gente vive é a nossa terra!... (...)


Hoje podemos acrescntar que esse empresário é o dono do nosso conhecido Coimbra Hotel & Spa,  de Bissau,

Guiné 61/74 - P27797: Parabéns a você (2465): Gil Moutinho, ex-Fur Mil Piloto DO e T-6 da FAP (Bissalanca, 1972/73)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 1 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27782: Parabéns a você (2464): Vilma Crisóstomo, Amiga Grã-Tabanqueira, esposa do nosso amigo e camarada João Crisóstomo

Guiné 61/74 - P27796: In Memoriam (573): Rui Manuel da Silva Felício (Coimbra, 09/10/1944-Ericeira, Mafra, 26/02/2026): Cerimónia fúnebre, hoje, às 14 horas, na igreja de Santa Marta de Casal de Cambra e cremação, amanhã, às 14 horas, no Complexo Funerário de Casal de Cambra


Rui Manuel da Silva Felício (09.10.1944-26.02.2026) (*)


1. Foto e informação da página do Facebook de Alina Lagoas, da filha do nosso já saudoso Rui Felício /1944-2026):

As últimas homenagens serão realizadas na Igreja de Santa Marta de Casal de Cambra, concelho de Sintra, a partir das 14 horas, quinta-feira dia 5 de março.

A cerimónia de despedida será na sexta-feira dia 6, pelas 14 horas,  na mesma igreja, seguida de cremação no Complexo Funerário de Casal de Cambra.

Agradecemos a todos que puderem comparecer a prestar a última homenagem.

Rosantina Felicio 
e Alina Lagoas
__________________

Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 26 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27773: In Memoriam (571): Rui Manuel da Silva Felício (1944-2026), ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Dulombi e Galomaro, 1968/70): natural de Coimbra, vivia na Ericeira, Mafra; era um dos sobreviventes do desastre do Cheche (ia na trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão, em 6/2/1969)

Guiné 61/74 - P27795: Fauna e flora (27): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - II (e última) Parte


Guiné > Região de Tombali > Catió > Ganjola > c. 1967/69 > Um crocodilo apanhado por militares no rio de Ganjola. O zebro devia ser dos fuzileiros. Poucos camaradas viram, ao  vivo os furtivos crocodilos do Nilo, mas havia-os por todo o lado, do rio Cacheu ao rio Cumbijá... Alguns eram pequenos e  eram confundidos com jacarés (repteis que não existiam na Guiné nem no resto da África).


Foto (e legenda): © Alcides Silva (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Em 6 de fevereiro de 1969, aquando do "desastre" do Cheche, no rio Corubal, na região do Boé, no sudeste da hoje Guiné-Bissau, havia crocodilos naquele troço ? É uma dúvida que subsiste.

 Os corpos dos 47 náufragos não foram encontrados, a não ser apenas 11, duas semanas depois, em estado de decomposição e totalmente irreconhecíveis.

Da consulta que fizemos a várias ferramentas de IA, pudemos apurar o seguinte:

Sim, historicamente houve (e ainda há) crocodilos no sistema do rio Corubal, na Guiné-Bissau. A sua presença atual pode variar conforme a espécie e a zona do rio. Eis o que, no essencial, se sabe com base em estudos e observações científicas e naturais:

(i)   Contexto histórico e ambiental

Na década de 60, a fauna na região do Boé era extremamente rica e selvagem. A região era pouco povoada. A menor densidade populacional humana em comparação com o litoral favorecia a permanência de grandes mamíferos (do leão ao elefante, do hipopótamo ao chimpanzé).

A Guiné-Bissau ainda possui populações de crocodilos de água doce ou de pequenas espécies de crocodilianos em muitos dos seus grandes cursos de água, lagoas e zonas húmidas, incluindo cursos como o rio Geba, Cacheu e zonas do parque de Lagoas de Cufada, que está ligado ao Corubal.

 O rio Corubal é um dos principais rios da Guiné-Bissau e, como muitos rios da região, faz parte de um ecossistema que tradicionalmente abrigou crocodilos, especialmente o crocodilo-africano (Crocodylus niloticus).
 
Os crocodilos são nativos da África Ocidental e eram comuns em rios, lagos e zonas húmidas da Guiné-Bissau, incluindo o rio Corubal. No entanto, a sua população tem vindo a diminuir devido à caça, perda de habitat, alterações climáticas e conflitos com humanos.

A presença de crocodilos no rio Corubal, particularmente na zona do Cheche (região do Boé), era um facto bem conhecido e documentado nos anos 60/70.

Muitos relatos de militares portugueses que operaram no setor de Madina do Boé e no atravessamento do Cheche mencionam o perigo  dos crocodilos, tanto durante patrulhas e "cambanças". Falta, no entanto, documentação fotográfica.
 
O Cheche ficou tragicamente marcado na historiografia da Guerra do Ultramar. Durante a operação de retirada de Madina do Boé, no dia 6 de fevereiro de 1969, a jangada que transportava as tropas adornou no rio Corubal,  em Cheche.

Embora a maioria das mortes (47 homens, 46 militares e 1 civil ) tenha ocorrido por afogamento devido ao peso do equipamento e à forte corrente do rio, o medo dos crocodilos
terá sido também um fator psicológico adicional para os sobreviventes que tentavam alcançar as margens ou voltar  à jangada.

A presença destes animais continua a ser uma característica da região até aos dias de hoje, sendo o Boé uma das zonas de maior importância para a conservação da vida selvagem na Guiné-Bissau.


(ii) Observações em zonas próximas ao Corubal:

O Corubal, depois do Geba, é o maior rio de água doce da Guiné-Bissau.Nasce nas redondezas da cidade de Lélouma, no maciço de Futa Djalon, na Guiné-Conacri, e desagua no rio Geba, na margm esquerda, a cerca de 50 quilómetros a montante de Bissau. Tem um comprimento de 560 km, É considerado o rio mais selvagem da Ãfrica Ocidental.

O turismo e os guias locais mencionam a presença de crocodilos no Parque Natural das Lagoas de Cufada, que inclui partes das margens e afluentes do rio Corubal e dos seus sistemas.

O Corubal, devido às suas características geográficas (margens íngremes em certas zonas, correntes fortes e áreas de águas mais paradas e profundas), constituía um habitat ideal para estes répteis.

A região do Boé, perto da fronteira com a Guiné-Conacri, é conhecida pela sua biodiversidade e pela presença de zonas húmidas que, historicamente, seriam habitats adequados para crocodilos, hipopótamos e outros animais, répteis, mamíferos, aves.

Há relatos de avistamentos de crocodilos no rio Corubal, embora a sua presença atual possa ser menos frequente do que no passado, devido aos fatores mencionados acima.


(iii) Estudos científicos modernos

Um estudo recente de distribuição de crocodilos em Guiné-Bissau registrou presenças de crocodilos em vários rios importantes e lagoas, incluindo evidências (observações, pistas ou informações locais) em áreas como o rio Corubal e seus afluentes.

Um estudo que usou eDNA (técnica de detecção de DNA no ambiente) ao longo do rio Corubal não detectou crocodilos diretamente nos locais da amostragem, apesar de se saber que eles existem na região. Isso pode dever-se à limitação dessa técnica ou ao facto de os crocodilos estarem presentes principalmente em zonas marginais, lagoas ou áreas sazonais menos amostradas.

(iv) Espécies

As espécies mais comuns eram (e são) o Crocodilo-do-Nilo (Crocodylus niloticus), que pode atingir grandes dimensões (no rio Cacheu), e o crocodilo-anão africano (Osteolaemus tetraspis) (sobretudo em zonas húmidas e lagoas ligadas ao rio Corubal).

Também é referido o Crocodilo-de-focinho-delgado (Mecistops cataphractus)

(v) Outros rios: Cacheu

É uma das zonas com mais crocodilos do país O rio Cacheu atravessa uma vasta área de mangais e estuários, hoje protegida como Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu, que contém um dos maiores blocos contínuos de mangal da África Ocidental. 

Esse habitat é muito favorável aos crocodilos. Os mangais, águas calmas e abundância de peixe. criam condições ideais para populações relativamente densas desses répteis.

É também onde há mais relatos de ataques. Vrios estudos e registos indicam que os ataques documentados na Guiné-Bissau aparecem frequentemente na região do Cacheu. Um estudo recente menciona inclusive um ataque a um pescador no rio Cacheu em janeiro de 2025.

A mesma investigação sugere que os ataques atribuídos historicamente a crocodilos na região podem envolver o crocodilo-do-Nilo, espécie maior e potencialmente mais perigosa. Há vários fatores: (i) grande população de crocodilos nos mangais: (ii) muita interação humana com o rio (pesca, transporte em canoas, lavagem, banho); (iii) águas turvas e margens baixas, ideais para emboscadas; (iv) tabancas ribeirinhas dentro da área protegida.

Ou seja, o problema não é só o número de crocodilos, mas o contacto diário com eles. Mas o rio Cacheu não é o único rio perigoso;  há também o Geba, o Cacine, o Grande de Buba... Só que o Cacheu é frequentemente citado porque combina densidade de crocodilos com população humana ribeirinha (o que não acontece no Corubal, que atravessa, ou atrevassa, no passado, zonas maia despovoadas, nbomeadamente no Boé).


Conclusão

Sim, há evidências de que crocodilos vivem ou já foram observados nas margens e zonas alagadas do rio Corubal e áreas adjacentes na Guiné-Bissau.

Em 1969, existiam, pois, crocodilos no rio Corubal, incluindo na zona de Cheche, e eram reconhecidos como um perigo potencial para quem frequentava o rio, especialmente em zonas de travessia e margens. 

Durante a guerra colonial, vários ex-combatentes portugueses mencionaram a presença de crocodilos nos rios da Guiné-Bissau, incluindo o Corubal, embora não haja registros científicos detalhados sobre a zona do Boé.

Não há relatos específicos de ataques a humanos em Cheche nesse ano de 1969, mas a sua presença e reputação como "comedores de homens" eram bem conhecidas entre os militares, guias e populações locais.

A sua presença pode não ser uniforme por todo o rio e pode ser mais frequente em zonas lentas, lagoas laterais e ambientes húmidos associados ao sistema fluvial. A detecção direta moderna em alguns trechos pode ser difícil devido a fatores ambientais e métodos de amostragem.

(Pesquisa: LG + IA  (Gemini | Le Chat Mistral | ChatGPT)

 (Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

__________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 4 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27767: Fauna e flora (26): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - Parte I

quarta-feira, 4 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27794: Convívios (1049): Grupo de amigos, onde estavam alguns dos apaixonados da terra vermelha e dos seus cheiros e gentes, juntou-se num almoço que ocorre todos os meses na primeira terça feira (Eduardo Estrela, ex-Fur Mil Inf)


1. Mensagem do nosso camarada Eduardo Estrela, ex-Fur Mil At Inf da CCAÇ 2592/CCAÇ 14, (Cuntima e Farim, 1969/71) com data de 3 de Março de 2026:

Boa tarde companheiro, amigo e camarada!
O mar da minha terra é a praia dos meus sonhos. A sua cor, luminosidade e textura visual transporta-nos para outras margens. As que nos receberam nos seus braços há 57 anos e que nos ensinaram a ver os seus filhos como fraternos irmãos. Essas são fotografias da baía de Monte Gordo feitas cerca das 13,30.
Um grupo de amigos, onde estavam alguns dos apaixonados da terra vermelha e dos seus cheiros e gentes, juntou-se num almoço que ocorre todos os meses na primeira terça feira. Num mundo cada vez mais alucinado é bom reunir pessoas equilibradas e amigas.

Abraço fraterno
Eduardo


_____________

Nota do editor

Último post da série de 12 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27727: Convívios (1048): Almoço/Convívio do pessoal do BCAV 3846 (Ingoré, S. Domingos e Susana, 1971/73), a levar a efeito no próximo dia 15 de Março de 2026, em Aljubarrota (Delfim Rodrigues, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro)

Guiné 61/74 - P27793: Humor de caserna (242): "Está a ver, meu alferes ? Era melhor ter limpado o sebo ao gajo" (Alberto Branquinho, "Cambança Final, 2013, pp. 77-79)



(i)  ex-alf mil art,  CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69; 

(ii) advogado, escritor, duriense de Foz Coa, a viver em Lisboa, outrora capital de um império macrocéfalo;

(iii) depois de ter passado por Coimbra como estudante;

(iv) é um dos grandes contistas da guerra da Guiné, a da nossa guerra (que não foi pior nem melhor do que as guerras dos outras, foi a "nossa guerra", e bastou, esperemos);

(v) é autor, entre outros,  dos livros de contos "Cambança"; "Cambança Final" e "Deixem a Guerra em Paz",  

(v) tem mais de 160 referências no nosso blogue.

(vi) faz parte da Tabanca Grande desde 26/8/2008, altura em que venceu a relutância de se associar ao nosso blogue,  ao ler o nosso apelo, "Não deixemos que sejam os outros a contar a nossa história por nós".
 

1. O escritor (que continua a ser nosso camarada) Alberto Branquinho tem aceite, com pundonor & pudor, ser "pirateado" e metido, avulso, nesta série, "humor de caserna". 

Há dias comentou: "Obrigado por apreciares o que venho escrevendo. Estou a acabar mais um livro (que, talvez, seja o último)". (...) quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026 às 16:43:00 WET). 

Eu interpretei o cumprimento e a (in)confidência como sendo "luz amarela" para, de vez em quando, eu poder lá ir, aos seus livros, roubar-lhev mais um "contito" (não, não é uma nota de mil escudos,  uma fortuna no nosso tempo de meninos e moços), um história do nosso quotidiano de guerra, para a malta  ler com tempo e vagar... 

É, afinal,  como os ovos da avó, a quem a gente assaltava o "galinheiro" (que era o seu "mealheiro"), e ela fingia que não via nada nem sabia de nada...

Hoje escolhi este microconto: há tempos tinha-lhe dado 4 estrelas (apontamento, a lápis, ao alto na página 77)...Hoje acrescento-lhe mais meia estrela, ao relê-lo. 

Lembrei-me, assim de repente,  do "bico-de-obra" que era, para uma companhia de intervenção (como a minha CCAÇ 12, composta por praças do recrutamento local, e meia dúzia de graduados "tugas) ir para o "mato" e "fazer prisioneiros"... Não era nenhum "ronco", era uma "manga de chatice"...

Sabíamos, no regresso ao quartel, que um prisioneira era sempre o "cabo dos trabalhos"... Passados dois ou três dias, o prisioneiro passava à condição de prisioneiro-guia... E lá continuava o nosso calvário...

A partir daí, ele deixava de nos pertencer. E sabíamos que, depois de "cumprida a missão", tínhamos que o entregar, "vivo e inteiro", aos "donos da Spinolândia"... 

Os nossos soldados, fulas, estavam sempre desejantes que ele, mesmo preso por uma corda, tentasse a fuga, para ter um bom pretexto  para lhe "dar cabo do canastro" ( já não me lembro como se diz em fula)...

Eles acreditavam piamente que "um balanta a menos era um turra a menos"... E não eram capazes de se  imaginar  em situação semelhante, "presos dos turras",  em que aí, o Zé Turra, balanta, também rosnaria, entre dentes,  que "um fula a menos era um cão dos colonialistas a menos"!...

O autor faz, como convém, para evitar qualquer suscetibidade, a sua declaração de interesse (e eu corroboro): "“Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”.


Capa do livro de Alberto Branquinho  - Cambança final: Guiné, guerra colonial:  contos.  Lisboa,Vírgula,  2013, 224 pp. 







Fonte: Excerto de Alberto Branquinho  - Cambança final: Guiné, guerra colonial:  contos.  Lisboa, Vírgula,  2013, pp. 77-79  

___________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 21 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27756: Humor de caserna (241): O mistério do peixe mole, capturado num afluente do rio Mansoa, perto da Ponta Augusto Barros (Vargas Cardoso, 1935-2023, ex-cap inf, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)