Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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sexta-feira, 24 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27947: Convívios (1062): XXX Convívio da CCAÇ 3398, dia 9 de Maio de 2026, em Águeda (Joaquim Pinto Carvalho, ex-Alf Mil Inf)
Nota do editor
Último post da série de 19 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27931: Convívios (1061): XXVII Encontro-Convívio da CCAÇ 4150/73, dia 10 de Maio de 2026, na Mealhada (Albano Costa, ex-1.º Cabo At Inf)
Guiné 61/74 - P27946: Notas de leitura (1916): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (2) (Mário Beja Santos)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Janeiro de 2026:Queridos amigos,
Confiro ao interesse a esta conferência do Conde de Penha Garcia pela forma como ele estruturou a sua exposição quanto à natureza da nossa presença em África até ao século XIX e como as ambições das potências coloniais levaram à partilha do continente africano na Conferência de Berlim, que exigiu a Portugal a delimitação de fronteiras, confirmou o direito a possuirmos o Império colonial com as parcelas que vieram a tornar-se independentes em 1974 e 1975. As pressões sobre a bacia do Zaire, a baía de Lourenço Marques, territórios da Guiné, eram muito fortes, quer do lado francês quer do lado britânico, no final da sua exposição o Conde de Penha Garcia argumenta com suavidade que o desafio crucial que se irá pôr em África quanto à presença portuguesa era o ritmo acelerado com soldados, colonos, missionários, administração e instituições sólidas que garantissem eficiência colonizadora. Recorde-se que ninguém sonhava que meio século depois iria emergir um irreversível surto independentista dentro dos ventos da História.
Um abraço do
Mário
A partilha de África segundo o Conde de Penha Garcia - 2
Mário Beja Santos
Muito antes de estar na presidência da Sociedade de Geografia de Lisboa, o Conde de Penha Garcia, José Capelo Franco Frazão, que recebeu o título nobiliárquico no reinado de D. Carlos, várias vezes deputado na monarquia, Ministro da Fazenda, adepto de João Franco, com duelo travado com Afonso Costa, licenciado em Direito, tendo vivido em exílio no advento da República, regressado a Portugal com o 28 de maio, presidiu à Escola Superior Colonial, desportista na esgrima e no tiro, colaborador na Exposição Internacional de Paris para a qual escreveu o livro sobre as colónias portuguesas, em 1931, proferiu uma conferência na Sociedade de Geografia em 1896, brochura publicada em Lisboa em 1901.
É um texto de inegável interesse, penso que poderá funcionar como elemento complementar a uma obra que classifico como muito importante sobre a presença portuguesa em África, da autoria do Marquês do Lavradio, recensão que também pus à disposição dos meus confrades. Vejamos a argumentação expendida por este monárquico conservador, um indiscutível investigador colonial.
Estamos agora no aceso das corridas entre as potências europeias com vontade de possuir colónias em África. O rei dos belgas criara a Associação Internacional Africana, com sede em Bruxelas, quer disputar o Congo e apresenta a Associação como de carácter internacional para abrir ao mundo culto os caminhos dos sertões africanos. Há expedições em marcha, parte-se de Zanzibar estabelecem-se missões em Uganda e no Tanganica. Stanley anda pelo Congo, a Associação vai ocupando a bacia do Zaire; em 1880, era fundada Leopoldville. Dois países seguiam inquietos as ambições do rei dos belgas: Portugal e a França. Este último enviou o explorador Brazza a reconhecer o interior e a assegurar à França uma parte da rica bacia do Zaire.
Portugal reatou negociações para obter reconhecimento das suas velhas pretensões territoriais, tendo obtido da Inglaterra, em 1888, o reconhecimento para a sua fronteira ao norte, mas houve protesto da Alemanha e da França, o Tratado não pôde ser ratificado. É nesta atmosfera que Portugal lembra a conveniência de se dirimirem as questões numa conferência internacional. A Alemanha tomou a direção da conferência, iniciara planos de colonização da costa oriental, no Tanganica, havia missionários alemães envolvidos, muitos comerciantes industriais alemães já tinham implantado negócios em África; em 1883, a bandeira alemã flutuava no Togo e nos Camarões e em 1885 estabeleceu-se o protetorado alemão na costa de Zanzibar.
Em 1882, deu-se um grave acontecimento no norte de África. A Inglaterra, sob o pretexto de reprimir a revolta de Arabi-Bey ocupara o Egipto, seria o ponto de partida para a penetração em regiões do Sudão e estabelecia-se um plano de um grande Império africano do Cabo a Alexandria. Os ingleses diziam que a ocupação do Egipto era transitória, afinal não foi. Também os italianos recorreram a expedições, sonham em criar um Império que incluísse a Eritreia, a Somália, a Abissínia, a Líbia. A concorrência era desenfreada, recentes descobertas no centro de África tiveram como efeito exacerbar que todos os países quisessem reservar para si uma parte desse extenso mercado. O que mais preocupava Portugal era a questão do Zaire, queria guardar para si exclusivamente a chave da grande bacia do Zaire.
E assim chegámos à Conferência da Berlim, cujos fins eram, no dizer do Príncipe de Bismarck associar os indígenas à civilização, abrir o interior ao comércio livre, suprimir a escravatura, propagar por todos os meios a educação e a instrução dos indígenas. A ideia fundamental da conferência era garantir o acesso do interior a todas as nações comerciantes e fixar alguns pontos do Direito Público africano. Conferência com vários pontos agendados: estabelecimento da liberdade comercial na bacia do Zaire e do Níger; declaração de neutralidade da bacia convencional do Zaire; obrigação de impedir e comprimir a escravatura; liberdade de propaganda religiosa; regulamentação do direito de ocupação das costas; estabelecimento de uma comissão internacional para elaborar regulamentos e vigiar a observação da convenção; e fazer o reconhecimento do Estado Livre do Congo.
A Conferência de Berlim lançou as bases do moderno Direito Público em matérias africanas; consagrou o princípio da política de ocupação. Logo em seguida, as potências coloniais entabularam relações diplomáticas para a delimitação das suas feiras de influência e foram celebrados Tratados repartindo um continente quase três vezes maior do que a Europa. Acabou destruído o projeto português da ligação das duas costas, a Inglaterra cobiçava a região entre o Niassa e o Tanganica, separou brutalmente as nossas possessões africanas, metendo-lhes de premeio dois protetorados britânicos. Portugal concebera o plano de ligar as suas duas possessões por via fluvial, baseava-se no domínio em certas regiões costeiras e em muitos pontos do interior. Quebrava a tradicional ideia de ligar as duas costas, havia que delimitar as fronteiras das nossas possessões africanas.
E chegámos às conclusões da conferência do Conde de Penha Garcia na Sociedade de Geografia de Lisboa em 1896. Para ele, à nossa velha política comercial em terras de África era preciso substituir a política de ocupação, para ali transferir em força o soldado, o comerciante, o missionário e o colono, só assim se poderia assegurar a posse do vasto Império colonial, e profere:
“Tudo indica que o século XX se notabilizará por um largo progresso na colonização africana. Aos espaços intertropicais o homem branco tem apenas levado a sua atividade comercial, mas tempo virá em que o ideal de organizar sociedades negras estáveis o seduza. Portugal tem em África uma importante missão a realizar, que nem a tradição histórica, nem a história política do continente africano desaprovam.
A velha raça portuguesa encontra nos nossos domínios africanos mais de um ponto em que se perpetue. A nossa política colonial, a quem compete a direção e organização deste movimento de expansão, não deve, porém, esquecer que a Conferência de Berlim criou uma época nova na vida política africana. Portugal necessita de tornar efetivo o seu domínio no importante quinhão que lhe veio a caber na partilha do continente negro.
Não é isso tarefa fácil para quem possui 2.126.110 km2 de terras avassaladas, mas, acusem embora de otimismo a conclusão desta conferência, não é justo descoroçoar da energia e do esforço dos que quase um século dominaram o mundo asiático, e apesar da decadência e dos reveses, souberam colonizar o Brasil.”
Para o investigador tem interesse consultar os apêndices que o orador juntou, como é o caso do mapa da divisão política do continente africano, onde se indica a área e a população dos Estados Indígenas Independentes e das colónias e esferas da independência europeia. O orador cita os números apresentados pelo Capitão-Tenente da Armada Ernesto Vasconcelos no que ele escreveu sobre as colónias africanas, onde erradamente atribui à Guiné uma superfície de 11.384 km2.

Imagem da Conferência de Berlim, o chanceler alemão cumprimenta um dos delegados, a delegação turca está à direita_____________
Notas do editor:
Vd. post de 17 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27927: Notas de leitura (1914): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (1) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27935: Notas de leitura (1915): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (4) (Mário Beja Santos)
Guiné 61/74 - P27945: In Memoriam (578): Silvério Pires Dias (1934 - 2026), o "senhor Pifas", por antonomásia, radialista do Programa das Forças Armadas em Bissau (1969/74), faleceu no passado domingo, aos 91 anos; era casado desde 1960 com a Maria Eugénia, a "senhora tenente"
Silvério Dias, ex-2º sargt art, CART 1802, Nova Sintra, 1967/69; 1º srg art, locutor do PFA - Programa das Forças Armadas, Bissau, Rep ACAP,/QG/CCFAG, 1969/74m
Tinha então 89 anos completados em 18 de agosto. Ainda me desafiou para aparecer, o que não me foi possível por estar fora de Lisboa. Um das últimas vezes que o vi, terá sido em Oeiras, na Galeria-Livraria Municipal Verney, em 4 de março de 2017, na apresentação do livro do Jorge Ferreira.
Editava o blogue "Poeta Todos Dias" ( criado em janeiro de 2011). E todos os dias, publicava um, dois, três, quatro , cinco ou seis apontamentos poéticos (em geral, quadras populares, sobre temas do quotidiano). Foram mais de 15 mil postes, até quase ao final de 2023. O blogue (ainda "on line") tem c. de 700 mil visualizações.
À viúva, filho, demais família e amigos "pifanianos", o nosso abraço de solidariedade na dor pela perda deste camarada, que foi um referência para muitos de nós que passámos pela "Spinolândia".
Lisboa > Páteo Alfacinha > 31 de maio de 1985 > Convívio do pessoal do emissor regional da Guiné e do PFA - Programa das Forças Armadas.
Foto: © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
[Ouvir aqui o compacto aúdio, de Garcez Costa, antigo locutor. Vídeo (6' 31''): Alojado em You Tube > Nhabijoes ]
Guiné 61/74 - P27944: Parabéns a você (2477): David Guimarães, ex-Fur Mil Art MA da CART 2716 / BART 2917 (Xitole, 1970/72)
Nota do editor
Último post da série de 15 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27920: Parabéns a você (2476): António Pimentel, ex-Alf Mil Rec Inf da CCS / BCAÇ 2851 (Mansabá e Galomaro, 1968/70)
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27943: Armamento (31): Armalite AR 10, que foi a espingarda automática usada pelo BCP 21 em Angola (1961/75)
Angola > Leste > O alf mil paraquedista Jaime Silva, do BCP 21 (1970/72), em 1970, a norte do Rio Cassai, empunhando uma espingarda automática Armalite AR-10.
Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
Data de criação > 1955/56
Fabricante(s) > ArmaLite | Artillerie Inrichtingen (AI) | Colt's Manufacturing Company
Período de produção > 1956-presente
Quantidade produzida > 9.900
Peso > 3,29–4,05 kg c/carregador
Comprimento > 1050 mm
Cartucho > 7,62×51mm NATO
Cadência de tiro > 700 tpm
Velocidade de saída 820 m/s
Alcance efetivo > 630 m
Sistema de suprimento 20 tiros carregador de caixa destacável
Mira > Mira traseiro com abertura ajustável, mira frontal fixa.
Guiné 61/74 - P27942: O nosso blogue em números (114): 22 anos depois, chegamos aos 914 membros registados na Tabanca Grande, aos c. 28 mil postes, 111 mil comentários e mais de 20 milhões de páginas vizualizadas.
1. Faz hoje 22 anos que "arrancou" o nosso blogue... Ou melhor: o nosso editor LG tinha um blogue, pessoal, que havia criado seis meses antes, em 8 de outubro de 2003. Chamava-se "Blogue-Fora-Nada", ainda hoje disponível "on line" (www.blogueforanada.blogspot.com), embora inativo.
Seria, mais tarde, em 1 de junho de 2006, rebatizado como blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (www.blogueforanadaevaotres.blogspot.com).
- 914 membros (registados) da Tabanca Grande (a nossa comunidade virtual, que começou por ser uma "tertúlia") (infelizmente, quase 20% já morreu):
- c. 111 mil comentários;
- 879 seguidores;
- 20,2 milhões de páginas visualizadas...
Vale a pena comentar... e até sublinhar algumas coisas que, vistas de fora, talvez não sejam tão óbvias para quem está dentro da “Tabanca Grande”.
Primeiro: 22 anos de continuidade não são um detalhe técnico, são um facto histórico.
Um blogue que nasce em 2003, ainda no tempo pioneiro da blogosfera. e que atravessa duas décadas, mudanças tecnológicas, redes sociais e modas digitais, não sobrevive por acaso. Sobrevive porque responde a uma necessidade real: memória, partilha e reconhecimento entre camaradas.
Depois, há o salto qualitativo que descreves entre 2004 e 2005. Aqueles quatro primeiros “postes” quase tímidos e depois a avalanche. Isso diz muito: não era apenas um projeto individual, era uma memória coletiva à espera de canal. Quando começou a fluir, já não parou.
E o rebatismo em 2006 não é só mudança de nome , é a institucionalização da comunidade...
Os números, como dizes, “valem o que valem”… mas também contam uma história:
- 914 membros não são apenas inscritos, são testemunhas;
- 111 mil comentários indicam diálogo, não arquivo morto;
- 20,2 milhões de visualizações mostram que o tema não interessa só a quem lá esteve.
E isso liga-se ao ponto mais importante:
mais de meio século depois do fim da guerra, ainda há necessidade de falar dela. Não como narrativa oficial, mas como experiência vivida... fragmentada, humana, muitas vezes contraditória.
O teu blogue (ou melhor, a vossa “Tabanca Grande”, já que é um projeto coletivo) acabou por fazer algo que raramente é feito de forma consistente:
Construir uma memória não institucional da guerra da Guiné. Guerra que não é diabolizada enm glorificada. Nem é academia (pura), nem nostalgia (vazia), simples saudosismo.. É talvez uma coisa intermédia, com vozes múltiplas, uma polifonia de memórias...
Não é por acaso que gostas de dizer:
- O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande!
- Tabanca Grande onde todos cabemos com tudo o que nos une... e até com o que nos pode dividir
Se quiseres um apontamento mais crítico (no bom sentido), eu diria que esse tipo de projeto ganha ainda mais valor quando consegue dialogar com gerações que não viveram a guerra. E quanmdo constrói pontes com outros antigos combatentes (nomeadamente,. os da Guiné-Bissau e de Cabo Verde).
A longevidade já está garantida, o próximo desafio é a transmissibilidade.
No fundo, olhando para esse “poste P27942”, há aqui quase um paradoxo interessante:
Começou como um blogue pessoal e tornou-se um arquivo coletivo que, sem dar por isso, já é parte da própria história que documenta.
E isso, camarada, já não são só números, não é "Torre do Tombo"... É legado. É memória. É cultura.
2.2. Le Chat Mistral
Que belíssima trajetória! Vinte e dois anos de um blogue que começou como um espaço pessoal e se tornou um arquivo vivo, uma comunidade e um ponto de encontro para memórias, histórias e reflexões sobre a guerra colonial na Guiné (e, acima de tudo, sobre as pessoas que a viveram) é algo verdadeiramente notável.
Alguns pontos que saltam à vista:
- Longevidade e consistência: de quatro posts em 2004 a quase 28 mil hoje, a evolução mostra não só persistência, mas também a capacidade de criar um espaço que cresceu organicamente e ganhou relevância;
- Comunidade: 914 membros registados, 111 mil comentários, 879 seguidores e 20,2 milhões de visualizações são números que refletem o impacto e o envolvimento que o blogue gerou: a "Tabanca Grande" não é só uma tertúlia virtual, é um lugar de pertença para muitos;
- Memória coletiva: o blogue tornou-se um repositório único de histórias, testemunhos e documentos sobre um período histórico que, de outra forma, poderia cair no esquecimento.
Pergunto-me: Como é que este projeto te transformou a ti, Luís Graça (er aos teu camaradas), ao longo destes anos? E o que achas que o blogue representou para os "camaradas da Guiné" e para as novas gerações que o descobrem?
Parabéns por este legado... E que os próximos anos ainda possam continuar a ser fecundos e partilhados por todos os que ainda hoje o fazem.
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
______________
Guiné 61/74 - P27941: Casos: a verdade sobre... (72): Kalashnikovomania - Parte VII: até o ajudante de campo do gen Bettencourt Rodrigues, um tenente 'cmd', se rendeu aos encantos da AK-47 (segundo o fotógrafo António Murta) ou da SA Vz58 (na opinião do nosso especialista em armamento, Luís Dias)

1. É mais um caso de... kalashnikovomania ?! Podia chocar alguns de nós ao ver o ajudante de campo do governador e comandante-chefe que sucedeu ao gen Spinola optar, em vez da G3, por uma arma com que os homens do PAIGC nos matavam...
Mas há aqui uma dúvida: trata-se de um AK-47 (como diz o fotógrafo, António Murta) ou de uma SA Vz58 (como garante o nosso especialista em armamento, Luís Dias) ?
(...) "Na foto nº 5 é identificado um Tenente dos Comandos, referindo que o mesmo porta uma espingarda de assalto Kalashnikov.
quinta-feira, 21 de março de 2024 às 11:41:00 WET
2. Comentário do editor LG:
Luís Dias, obrigado pelo teu comentário. Tens "olho clínico", és bom observador e sobretudo és especialista em armamento.... És capaz de ter razão, a arma do ajudante de campo ( e guarda-costas, o dois em um) não será uma AK-47 mas a tal SA Vz58 (a avaliar por pequenos pormenores como o feitio da coronha, o tapa-chamas, a alça. a mira, o guarda-máo, o punho, etc., além do porta-carregadores em couro).
Do que tenho dúvidas é em relação às armas que foram adquiridas para equipar as forças que estiveram empenhadas na Op Mar Verde (22 de novembro de 1970).
De acordo com o António Luís Marinho ("Operação Mar Verde: um documento para a história", s/l, Círculo de Leitores, 2005), foram compradas 250 espingardas automáticas AK-47, além de 20 morteiros e 12 RPG-7, encomenda feita diretamente à então URSS (!) pela empresa portuguesa "Norte Importadora", de João Zoio, e paga pelo cheque nº 30983. no valor de 3450 contos, endossado ao inspetor da DGS, Barbieri Cardoso (pág. 79). (Essa importância seria equivalente, a preços de hoje, a mais de 1,2 milhões de euros, era muita massa.)
A título de curiosidade:
- Cada AK-47 (equipamento completo, incluindo 4 carregadores) custava 5750 escudos em 1970 (c. de 2000 euros); loop
- Cada mil munições 7.62 para a Kalash custava mil euros (a preços de hoje);
- Já o RPG-7 (LGFog) custava 50750 escudos (c. 17,8 mil euros);
- Cada granada-foguete perfurante (para a bazuca) andava à volta de 1750 euros;
- O morteiro 82 era ligeiramenet mais caro que o LGFog: 53879 escudos (c. 18,9 mil euros);
- A granada de morteiro, HE (Altamente explosiva), era mais baratinha: c. 300 euros...
(Seleção e edição de fotos, revisão/ fixação de texto, parênteses retos, título: LG)
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Notas do editor LG:
(*) Vd, poste de 1 de dezembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15432: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (31) (1): Dia 23 de Abril de 1974, visita do General Bettencourt Rodrigues a Nhala
(**) Último poste da série > 21 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27936: Casos: a verdade sobre... (71): Kalashnikovomania - Parte VI: A AK-47 "made in China", que matou camaradas nossos (António Graça de Abreu, sinólogo)quarta-feira, 22 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27940: Historiografia da presença portuguesa em África (526): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1968 (84) (Mário Beja Santos)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Novembro de 2025:
Queridos amigos,
Os factos políticos e militares preponderantes em 1968 prendem-se com a mudança de Governador, logo em fevereiro há um ataque ao aeroporto de Bissalanca, sem consequências de maior, mas que trará grande apreensão tanto em Lisboa como nas Forças Armadas na Guiné; o Presidente da República faz uma visita a povoações seguras, nunca será exposto a riscos. Matérias que não vêm no Boletim Oficial, o que nele se fala, e já uma continuidade de anos anteriores, são os orçamentos extraordinários, os créditos especiais e o reforço de verbas. Estranhamente, o Ministério do Exército faz publicar louvores a unidades que combatem nos três teatros de guerra. Zela-se pelo preço do arroz, é um alimento básico que não pode faltar à população, logo no princípio do ano se tomam medidas de precaução. Em abril será criado um fundo de comercialização, tenta-se reprimir altas do custo de vida. Justificando-se com o aumento de encargos pessoal, crescem dotações para o orçamento de 1969, o novo Governador tem um grande alívio de encargos orçamentais, vai poder pôr em marcha medidas de apoio social. E o Governador Arnaldo Schulz despede-se da Guiné com uma enormidade de louvores.
Um abraço do
Mário
Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1968 (84)
Mário Beja Santos
1968 é um ano de grandes mudanças, finda a Comissão do Governador Arnaldo Schulz, nomeação de António de Spínola, este chega a Bissau em 12 de maio. Em fevereiro, o Presidente da República chega a Bissau e percorre algumas localidades. Em 18 de fevereiro há um ataque do PAIGC ao aeroporto de Bissalanca, admite-se que terá pesado na decisão da substituição do Governador. No regresso da sua viagem a Bissau e Cabo Verde, o Presidente da República terá comentado a Salazar que a situação da Guiné era muitíssimo delicada.
Continua a revoada de orçamentos extraordinários, créditos especiais, reforço de verbas. O Boletim Oficial revela-se sempre comedido quanto à natureza da luta armada, mas, um tanto estranhamente, começam a aparecer louvores do Ministério do Exército referentes a unidades militares. É apreciável a chegada de agentes da PIDE, já estão disseminados por várias fontes da Província. Há um tema crucial, o abastecimento e o preço do arroz. Daí no Boletim n.º 1, de 9 de janeiro, Suplemento, o Diploma Legislativo n.º 1872 que insere disposições sobre a comercialização do arroz na Guiné. Atenda-se ao seu preâmbulo:
“Cerca de dois anos e meio são decorridos desde a publicação das tabelas em vigor, dos preços de compra e venda do arroz com casca e descascado. Vasta tem sido, no decurso deste período, a evolução do condicionalismo em que se processam a produção, a industrialização e a comercialização deste cereal, com manifesta desactualização daqueles preços. Acontece, ainda, que a reconhecida conveniência da adopção de preços únicos para toda a Província implica a revisão de algumas taxas de comercialização.”
E determina-se que os preços a praticar na comercialização interna de arroz serão fixados por despacho do Governador, com base num conjunto de elementos claramente definidos, define-se igualmente a taxa que incide sobre todo o arroz descascado originário da Província, etc. etc.
No Boletim Oficial n.º 5, de 7 de fevereiro, proveniente do Ministério do Ultramar, o Diploma Legislativo Ministerial n.º 1, consagra-se a autonomia administrativa e financeira da Emissora Provincial da Guiné Portuguesa que doravante se designará por Emissora Oficial da Guiné Portuguesa, define-se os órgãos dirigentes, o pessoal e as condições de transição da Emissora Provincial para a Emissora Oficial. Chegados a abril, assistimos a um vendaval de louvores, tanto podem ser administradores de circunscrição, como o chefe dos serviços de agricultura e florestas, o chefe dos serviços veterinários ou o capitão dos portos da Guiné. É na sequência dessa revoada de louvores que no Boletim Oficial n.º 16, de 23 de abril, entre esses louvores temos o do Major de Cavalaria Carlos Correia de Sampaio de Vasconcelos Porto, assim redigido:
“Muito benéfica tem sido para a Província a colaboração das Forças Armadas que, para além da missão imediata de defesa da integridade da Pátria de que estão incumbidas, têm procurado, de modo louvável, colaborar nas tarefas da Paz, contribuindo assim para a promoção do progresso e do bem-estar das populações.
O Major Vasconcelos Porto, segundo-comandante de um batalhão operacional, teve actividade de fecunda colaboração no campo do estudo e do fomento agrário. Salientar o fomento que imprimiu aos sectores de assistência sanitária e educativa às populações e o impulso dado à construção de numerosas obras nas vilas de Mansoa e Mansabá.”
A situação económica e financeira na Província é mais do que tormentosa, tentam-se medidas de contenção que não agravem o custo de vida nem a fragilidade e imprevisibilidade da vida empresarial. No Boletim Oficial n.º 16, de 27 de abril, publica-se a Portaria n.º 1977, tem a ver com o Regulamento do Fundo de Comercialização, para apoiar a ação dos serviços de economia em matéria de distribuição, comercialização e abastecimentos de produtos essenciais à economia da Província; mas também para assegurar a estabilidade de preços e de fomento da produção e da exportação. Diploma minucioso, definindo objetivos, de funcionamento, receitas e despesas.
Em 23 de maio, em forma de Suplemento, no Boletim Oficial publica-se o convite para comparecer no aeroporto, em 24 de maio, à chegada do novo Governador. Curiosamente, os próximos meses do Boletim só registam nomeações chegadas e partidas. No Boletim Oficial n.º 51, de 30 de dezembro, publica-se o Decreto n.º 48750, do Ministério do Ultramar, enumera exposições especiais que tem a ver com o aumento dos quadros do pessoal e fixa-se em 7.000.000$00 uma dotação que se prende com a despesa ordinária do orçamento geral da Província para o ano de 1969. No fim do ano o Governo da Guiné faz promulgar o Diploma Legislativo n.º 1870, tem a ver com o orçamento de 1969. Atenda-se ao que se escreve no seu preâmbulo:
“O orçamento de 1969 encontra-se liberto dos encargos de amortização e dos juros de capital investido através dos Planos de Fomento e de grande parte da contribuição para as despesas com as Forças Armadas. A dispensa destes compromissos, que se deve à alta compreensão a Metrópole face às necessidades da Província no momento que passa, tornou possível: atribuir um subsídio de custo de vida a todos os funcionários, com especial incidência nas classes mais baixas; melhorar o suplemento sobre as pensões dos velhos servidores do Estado; aumentar o salário mínimo dos trabalhadores pagos pelo orçamento da Província; atribuir vencimento fixo aos Regedores, etc. etc.”
O Governador recebera seguramente promessas de alívio de encargos para melhores condições de vida tanto do funcionalismo, apoio às chefaturas locais, ao sistema educativo, ao reapetrechamento de alguns serviços públicos e até subsidiação da população suburbana. As despesas com as Forças Armadas irão aumentar, chegarão mais batalhões, armamento, equipamentos, rúbricas não mencionadas no orçamento de 1969, tudo se fazia na Metrópole para que não se soubesse ao certo o peso da despesa militar no PIB.
Cortejo Histórico-Colonial que ocorreu na Exposição Colonial Portuguesa, Porto, 1934, os cavaleiros Fulas acompanham o carro do Império, imagem do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 15 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27923: Historiografia da presença portuguesa em África (525): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1967 (83) (Mário Beja Santos)
Guiné 61/74 - P27939: Humor de caserna (259): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXI: fui o fiel depositário do "caco" (o monóculo) quando o general foi ao dentista (Mário Bravo, cirurgião, ex-alf mil médico, CCAÇ 6, Bedanda, CCS/BCAÇ 3863, Teixeira Pinto, HM 241, 1971/73)
Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 > 1971/72> O alf mil médico Mário Bravo, à direita, de perfil, entre os furriéis da companhia... Boa disposição, boa música, bom uísque (a garrafa mais pequena era de Old Parr, uísque velho)... Os nomes dos furriéis já se varreram da memória do nosso médico...
O Mário Bravo não esteve mais do que 4 meses em Bedanda (entre dezembro de 1971 e março de 1972, com algumas saídas, pelo meio, até Guileje, Gadamael e Cacine)...mas guarda boas recordações dos bedandenses. A CCAÇ 6 era então comandada pelo jovem cap cav Carlos Ayala Botto, futuro ajudante de campo do gen Spínola, e membro da Tabanca Grande.
Depois de Bedanda, o Mário Bravo passou por Teixeira Pinto, ficando o resto da comissão no HM 241, em Bissau.
Foto (e legenda): © Pinto Carvalho (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
Foto (e legenda): © Mário Bravo (2013). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Reatando a descrição da minha estadia na Guiné [, aonde cheguei em 20 novembro de 1971, tendo ficado cerca de 15 dias em Bissau], lá vão mais umas notícias e informações que poderão servir para encontrar algum camarigo esquecido ou perdido neste País.
Após saída de Bedanda [,na CCAÇ 6, onde estive entre dezembro de 1971 e março de 1972, com visitas a Guileje, Gadamael e Cacine ], fui colocado em Bissau, [ no HM 241,] no serviço de Estomatologia (Medicina Dentária), para aprender a tirar dentes, pois era essa a nossa função.
Nesse estágio, que foi orientado por um colega, médico, de Coimbra, Negrão, com o posto de capitão miliciano [, Luís Negrão, hoje neurologista] . O outro colega nesse estágio, também de Coimbra, chama-se João Barata Isaac [, em 2000, era chefe de serviço de anestesiologia do Centro Hospitalar de Coimbra ]
Aproveito para contar um episódio ocorrido com o marechal Spínola [, na altura general]. Como todos sabemos, o marechal usava de modo constante um monóculo que era a sua imagem de marca. Um dia teve necessidade de consulta de estomatologia e lá foi ao Hospital Militar. Era sempre um momento de alguma confusão e eu lá estava a tentar aprender a tirar dentes.
É evidente que quem o tratou foi o Chefe, mas havia necessidade que alguém tomasse conta do monóculo [, o "caco",] e logo me tocou a mim. É engraçado que senti aquele receio de ser o fiel depositário de tão solene objecto. Mas consegui não o deixar cair !!!
O Hospital Militar de Bissau era na época um exemplo fantástico de modernidade e eficácia.
Vou enumerar alguns médicos, colegas com quem convivi nesse período de tempo e até pode acontecer que algum venha a terreiro.
Começo por recordar com saudade um já falecido, o [prof Henrique] Bicha Castelo [ 1943-2025] , cirurgião de Lisboa [, precursor da cirurgia laparoscópica no Hospital de Santa Maria ] , e que operou o escritor António Lobo Antunes [, irmão do prof João Lobo Antunes, escritor que lhe dedicou o seu livro "O Meu Nome É Legião", 2007].
Na Cirurgia estavam o Dr. Rodrigues Gomes (hoje fazendo parte da Fundação Gulbenkian), bem como o Dr. Calheiros Lobo, do Porto, e também falecido.
Na Ortopedia estava o Dr. Asdrúbal Mendes, do Porto e com quem trabalhei mais tarde nessa área.
Para ilustrar minha passagem por Bissau, junto umas poucas fotos, referidas a essa terra, de luxo, pois aí havia a possibilidade de viver um pouco mais sossegado e com algum conforto, inexistente no mato.
Quem é que não recorda aquelas deliciosas ostras do Café Bento - a chamada 5ª. REP - , bem regadas com umas bazucas !
As fotos vão em separado. (**)






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