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sábado, 16 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28026: As nossas geografias emocionais (66): Uma árvore na capital de São Tomé e Príncipe que guarda memórias coloniais (António Bastos, ex-1.º Cabo)



1. Mensagem do nosso camarada António Paulo Bastos (ex-1.º Cabo do Pel Caç Ind 953, Teixeira Pinto e Farim, 1964/66), com data de 4 de Março de 2022, onde nos fala da "Ambulância" que fazia a carreira Bissau-Cacheu-Bissau:

Boa tarde Companheiros da Tabanca
Sou o Bastos do Pelotão Caçadores 953.
Companheiros, vim de uma viagem a Luanda, São Tomé e ao Príncipe e como me despertou a atenção o que veem na foto, esta árvore muito conhecida de todos nós, está toda escrita com o nome de Soldados e os números: Sol Silva 30/70, Pereira 220/70, Valter 120/70 e mais alguns que não consegui decifrar, é já difícil ver-se.

Ora isto despertou-me a atenção e dirigi-me a uma tasca ali perto onde falei com um pescador, então ele disse-me que no Tempo Colonial a tropa Portuguesa vinha de carro e passava as tardes na praia.
A Praia é perto de São Tomé, não recordo o nome.
Como me despertou a atenção, lembrei-me de divulgar, pode ser que alguns soldados que estiveram em São Tomé vejam a notícia na nossa Tabanca.

Um abraço a todos e muita saúde.
Muito Obrigado.

António Paulo S. Bastos
Ex-1.º Cabo 371/64 do Pel Caç Ind 953



(clicar nas fotos para ampliar)
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Nota do editor

Último post da série de 24 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27948: As nossas geografias emocionais (65): O Jorge Ferreira, no CIM de Bolama, em junho/julho de 1961

Guiné 61/74 - P28025: Os nossos seres, saberes e lazeres (735): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (256): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A língua albanesa é indo européia mas desconhece-se a sua origem, pensa-se que houve povos nativos que foram influenciados pelos Ilírios; foi um ponto de encruzilhada na península balcânica, por aqui andaram gregos, romanos, temos mostras evidentes do período helenistico e da arte bizantina, muita gente aqui bateu à porta, até a República de Veneza, não contando com os mais de quatro séculos da presença de turcos otomanos. Daí a riqueza patrimonial, natural e edificada, ainda com muitos sinais de uma ditadura que começou em 1944 e se estendeu até 1992, um ditador bem singular, fechou hermeticamente o país, decidiu em 1967 que o país seria ateu, tornou-se marxista-leninista-estalinista, cortou relações com a URSS, odiava mortalmente o Marechal Tito, recebeu calorosamente a China e despediu-a quando esta ingressou no seu modelo de comunismo com a economia de mercado. São todas as particularidades que geram um fascínio entre o lugar e a História.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (256):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 1


Mário Beja Santos

Há muito que sonhava visitar a Albânia, tinha apreciado o passeio que dera na Sérvia, Montenegro, Croácia, e daqui o Trieste e Veneza; comecei por arquitetar uma digressão que incluísse a Macedónia do Norte, o Kosovo, a Bósnia e depois a Albânia, cedo reconsiderei o tremendo disparate, andar a saltitar com passagens praticamente epidérmicas de lugares que merecem o devido desfrute. Centrei-me então na Albânia, escolhi a região da capital do sul, um plano de doze dias; nada de excursões organizadas, para mim têm mais contras que prós. Não há voos diretos, depois de várias tentativas na linha do low cost, conseguiu-se um voo de Lisboa até Bérgamo, daqui um comboio até Milão e por fim um voo para Tirana. Muitas surpresas nas buscas digitais de apartamentos, preços módicos para dormir, então marcaram-se dois dias em Tirana e depois viagens em pequenos furgões até Pogradec, só para ver o lago Ohrid, nova viagem até Korçë, local maravilhoso, novo furgão até Përmet, depois Gjirokastër e depois Saranda/Butrint. No antepenúltimo dia um estirão de cinco horas de Saranda até Tirana, havia ainda muita coisa para ver na capital, tinha curiosidade em tomar um autocarro até Porcelane e visitar um dos projetos mais megalómanos de Enver Hoxa, o abrigo antinuclear, estamos a falar de um país onde o então regime ditatorial espalhou pelo território cerca de 175 mil bunkers.

Guardo as mais belas recordações desta viagem, o país tem belezas inacreditáveis, quase cerca de 70% do seu território é montanhoso, quando se viaja no furgão contemplam-se montanhas algumas delas com neves eternas, sempre panoramas diversificados; Tirana lembra a aventura arquitetónica de Berlim (claro, ressalvadas as grandes distâncias) a cidade lembra um estaleiro de arquitetura arrojada, certamente discutível, não entendi como foi possível construir edifícios altíssimos na Praça Skanderbeg, possuía uma harmonia própria, tinha a ver com os anos eufóricos da independência, logo nos inícios do século XIX; ali perto desta Praça estão os quarteirões ministeriais, todos embandeiram o país e a União Europeia, a Albânia faz parte dos pretendentes balcânicos.

Devo dar ao leitor uma explicação sobre este conjunto de imagens. No regresso de Tirana, no aeroporto de Barajas, tive a fatalidade de deixar o meu telemóvel no segundo check-in, vinha de um país fora da União Europeia, tive que sair e entrar novamente, estava exausto dos quilómetros percorridos a pé dentro daquela estrutura medonha, felizmente que a segurança entregou o telemóvel no serviço de objetos extraviados, conto voltar a ter telemóvel em breve, nele estão muitas imagens que captei ao longo da viagem.

Mas tive a dita de enviar algumas dessas imagens para dentro do meu computador, são essas as que agora mostro e espero ter oportunidade de detalhar os dez dias úteis do passeio. O que aqui mostro é um pormenor da belíssima parte alta da cidade de Bérgamo, tirei imagens da Piazza Vechia, da Basílica de Santa Maria Maior e da Catedral. Entrei numa igreja onde está sepultado Bartolomeu Colleoni, uma das figuras mais importantes de Bérgamo, mas não me deixaram tirar qualquer imagem. Daqui segui para Tirana, mostro a Praça Skanderbeg, onde está a estátua do herói nacionalista, visitei a Grande Mesquita, opulenta e recentíssima, como mais tarde mostrarei a catedral ortodoxa albanesa denominada de Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Enfim, há duas imagens do bunker antinuclear e há algumas outras que fui tirando ao longo do percurso. O que aqui se mostra é um mero aperitivo de um país que é hoje apresentado como a nova pérola do mediterrâneo, não só graças aos seus panoramas naturais como também a turística Riviera que tem o seu polo no mar Jónico entre Saranda e Ksamil. Espero que desfrutem.


Bérgamo, um pormenor da Piazza Vechia
Bérgamo, fachada da Capela Colleoni, aqui está sepultado o condottiero veneziano Bartolomeu Colleoni
Pormenor da Praça Skanderbeg, Tirana
Pormenor da Grande Mesquita de Tirana
Entrada do bunker antinuclear, obra do regime de Enver Hoxa, Tirana
Pormenor do quarto destinado ao ditador no bunker antinuclear, Tirana
Pogradec, pormenor do lago Ohrid, ao fundo uma montanha da Macedónia do Norte, uma das fronteiras da Albânia
Dois pormenores da belíssima igreja ortodoxa denominada de Sexta-Feira Santa, em Përmet
Skënduli House em Gjirokastër, Património da Humanidade, uma esplendorosa casa Otomana
Zekate House em Gjirokastër, Património da Humanidade, pormenor do quarto dos hóspedes
Pormenor da Grande Basílica ou residências episcopais do século V, Butrint, Património da Humanidade
Pormenor da fachada do Santuário de Esculápio, o Deus da Medicina, século IV a.C., estilo helenístico, Butrint, Património da Humanidade
Pavimento bizantino, Museu Arqueológico de Saranda, sul da Albânia, século VI d.C.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 9 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28004: Os nossos seres, saberes e lazeres (734): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (255): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 2 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28024: (De) Caras (250): o jovem capitão mil cav Vasco da Gama que nos guiou desde Estremoz até ao Cumbijã (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8531/72, 1972/74)



Guiné > Região de Tombali > CCAV 8351/72 > O cap mil cav Vasco da Gama, no meio dos "djubis" do Cumbijã

Foto (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


João Melo
(2009)
1. Mensagem publicado pelo Jorge Melo, na página do Facebook da Tabanca Grande, com data de 11 de maio de 2026, 11:44:


O nosso comandante, capitão Vasco da Gama, em um momento de pausa e cercado de três dezenas de jovens. Momento que, por mais curto que fosse, era mais que merecido!

Depois de aglutinar uma centena de meia de jovens que mais tarde vieram a formar a grande família dos “Tigres de Cumbijã” com que ficou conhecida a nossa CCav 8351/72 e 
desse conjunto ter conseguido entre Estremoz e Portalegre 
construir uma equipa que, até hoje, está unida!


Vaco da Gama
(2008)
Respeitada como foi (e ainda é) por todos aqueles que de perto lidaram e/ou tiveram conhecimento dos seus feitos em teatro operacional, desde a sua chegada a solo guineense em 27out72, a Aldeia Formosa (atual Quebo) em 19nov72, Cumbijã de 01abr73 a 26jun74 e com regresso a Portugal às 00:10 h do dia 27ago74, todo ele foi um percurso que honrou todos aqueles que dela fizeram parte.

Regressámos felizes por voltar, não obstante àquela única angústia, pelos camaradas que foram e não regressaram connosco. Essa, é uma marca que nos afetou para toda a vida!...

E se não houvessem outros motivos, estes bastariam para dizer hoje e sempre: obrigado, capitão, por nos ter 
sabido guiar num dos piores períodos das nossas vidas!!!

(Seleção, revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27999: (De) Caras (249): Duas referências na história da capelania militar no CTIG: Bártolo Pereira (QG/CTIG, Bissau, 1965/67) e Arsénio Puim (CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/71)

Guiné 61/74 - P28023: Parabéns a você (2485): Vasco da Gama, ex-Cap Mil Cav, CMDT da CCAV 8351/72 (Aldeia Formosa e Cumbijã, 1972/74)

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Nota do editor

Último post da série de10 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28006: Parabéns a você (2484): Henrique Matos, ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52 (Enxalé, 1966/68)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

III - O que eu sei da guerra que estou a travar

Estou consciente que não disponho de tempo para manter este nível de pormenor, quando comecei a estruturar esta intervenção achei por bem pôr ênfase neste tempo de adaptação, dou-lhe um valor incalculável, foi nascendo o meu amor por aquelas gentes que tanto confiavam em mim, faltava-lhes tudo, exigiram-me que lhes desse o devido cuidado, tudo somado nasceu entre nós o respeito, a consideração, a lealdade. Eu estava ali para fazer a guerra, ou para travar os ímpetos do chamado inimigo, cedo descobri que tudo passava por mostrar às populações a moeda da lealdade do cuidado pelo Outro.

À cautela, supondo que irei viver num universo radicalmente diferente do que vivi em Lisboa, apetrechei-me de dois malões feitos em pinho, levei neles umas largas centenas de livros e discos de vinil e o gira-discos a pilhas. Nada sei da Guiné, quando ali desembarquei, nem do seu mosaico étnico, em que locais estão implantadas as tropas portuguesas e onde há guerrilha, li durante a viagem de barco um volume sobre a Guiné Portuguesa da autoria do então Comandante Teixeira da Mota, esclarecedor quanto a aspetos históricos, geográficos, antropológicos e etnográficos, mas era um livro de 1954, fiquei com uma ideia quanto à severidade do clima, e havia tornados e uma espantosa diversidade quanto a fauna e flora, mangais, vários tipos de floresta, palmares, lalas de água salgada, Savanas, não faltam macacos, cobras, ratos-voadores e uma espécie de abutres, alimentam-se de tudo.

Desembarcado em Bissau, ainda esperei ser convocado para uma reunião onde ficasse a saber que guerra de guerrilhas ali se vivia, nada aconteceu, fiquei entregue a mim próprio, ia diariamente a uma repartição do Quartel-General saber se tinha guia de marcha. Passeei-me por Bissau, o museu da Guiné surpreendeu-me, comprei um livro sobre os Mandingas, o jeito que me deu. Resta dizer que me mandaram apresentar no cais do Pidjiquiti na manhã de 2 de agosto, embarquei num barco com vários africanos, deram-me um garrafão de água e uma ração de combate. Fiz o estuário do Geba, havia um jovem que me ia explicando os locais, ali ao fundo é Jabadá, vamos parar em Porto Gole, anoiteceu, alguém me dirá em voz baixa que vamos passar perto de Ponta Varela, é ali que os barcos são atracados, o barco navega com toda a gente em silêncio, depois entrou num estreito leito do rio, sinuoso, mais adiante há luzes, primeiro o Xime mais adiante Bambadinca.

Algo me está a maravilhar, assim como descobri na recruta e na especialidade a energia física e o prazer da marcha, começo a entender agora que tenho capacidade de liderança, nestes primeiros três meses vamos fazendo patrulhas de reconhecimento, vou tirando notas do terreno percorrido, deslumbrei-me com os palmares de Gambiel e de Chicri, estou ciente de que aquelas obras são mais do que indispensáveis, não tenho ilusões quanto à insegurança em que vivemos. Vivo numa morança onde se pôs saibro no chão, foi pintada uma cama de ferro e feito um colchão de folhelho, mais tarde descobrirei que aquela cama pertenceu a um dos nossos maiores cartógrafos, Armando Cortesão. Converso regularmente com o régulo, com o chefe de tabanca, com o responsável religioso. Apareceu um jovem a oferecer-se para guarda-costas, o seu nome é Ieró, parece ser uso e costume haver tal intendência, Ieró explica-me o que é que pretende fazer: entregar a roupa suja à lavadeira e verificar o estado em que regressa; limpar o armamento e a limpeza da casa de nosso alfero, vai por aí fora falando das botas para engraxar, levar e trazer recados, e, súbito, diz algo que arrepia nosso alfero: se necessário pôr, protege com o seu corpo o seu comandante, deve estar preparado para dar a sua vida por ele.

Vive-se com o que a vida nos ensina: os graves problemas de saúde, sobretudo dos civis, as carências nutricionais das crianças, o imperativo das colunas de abastecimento; apanhou-se um grande susto, um dia em Mato de Cão, ouve-se um ronco medonho, depois as águas parecem estar a ferver em remoinho, deitam espuma para os lodos das margens, segue-se uma onda, então desatei a fugir colina acima, soldados a rirem-se, e eu a pensar que era um marmoto e os soldados a dizerem que não, é macaréu.

Multiplicam-se as tarefas, na secretaria do Batalhão entregam-me um processo de averiguações, uma criança, anos atrás, em Finete, acionou uma granada incendiária que tinha ficado num reboque militar, o seu corpo foi severamente atingido, como eu irei ver mais tarde, passei horas e horas a mandar deprecadas para muitos lugares de Portugal, o processo acabou em nada. Percorro aquelas matas, vejo estacas calcinadas, houve para ali vida, apercebo-me agora que vivo num território dividido, onde se deu um turbilhão demográfico, fugiu gente para muitos sítios, os que ficaram estão em Missirá e Finete, em Madina e Belel. É assim que se vive num território em guerra de guerrilhas.



IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida

Aproveito as idas a Mato de Cão para fazer patrulhamentos, quero descobrir os caminhos que as gentes de Madina e de Belel percorrem atravessando o Geba em diferentes sentidos. Iremos descobrir pirogas camufladas dentro do mato denso do tarrafe, para quem vai aos Nhabijões; junto do Geba estreito, frente à bolanha de Mero, na margem esquerda, encontramos indícios da sua passagem, desde carregadores de espingardas a bosta de vaca. Seguem-se emboscadas, o chamado inimigo terá os seus mortos e feridos, sofremos também com gente nossa acidentada, o Natal mais luminoso da minha vida será o de 1968, alegria irrepetível, gente de cá enviou vitualhas, houve festa para toda a população civil e para os contingentes de Missirá e Finete.

Em fevereiro de 1969 fui ao hospital militar de Bissau para ser operado, sofria de uma cartilagem atrás do joelho direito que me dava dores insuportáveis. Antes de ir, participei numa operação desastrosa onde se acidentou gravemente mais um amigo meu. Feita a operação, descubro que Missirá fora flagelada, o incêndio consumira cerca de dezasseis moranças, consegui apoios no Batalhão de Engenharia, não me irá faltar cimento, nem dinheiro para as madeiras, virão chapas onduladas, o essencial para que quando chegou a época das chuvas toda a gente tinha o mínimo de conforto e aproveitou-se a ocasião para renovar um bom número de abrigos.

Entretanto, não faltarão flagelações, a resposta será sempre pronta e enérgica. Tenho de abreviar, a contragosto. Participaremos também nas operações dos outros, deixei de ter medo da noite. Uma vez escrevi o seguinte: “Descobri que a floresta à noite tem outras expressões de vida, os estalos da madeira sobressaltam, o piar das árvores pode parecer de muito mau agoiro, um porco-do-mato pode assustar uma patrulha em marcha, há sons que se confundem, o pior são os gemidos das hienas, lembram o choro dos bebés; em emboscadas noturnas, sente-se o bafo do vizinho do lado, parece que estamos perdidos num oceano de sombras, já me habituei ao restolhar dos animais, quem está à noite na floresta em circunstância alguma pode perder de vista o camarada que segue à frente, já ouvimos falar no terror, no desespero que é estar perdido em território perfeitamente desconhecido.”

Os meses passam, os homens do meu pelotão dão-me claramente a saber que estão fartos de viver naquele ponto do mato, há mais de três anos que combatem em Missirá, fui forçado a pedir ao comando do batalhão transferência, não deixando de advertir os meus homens que não iríamos para melhor em Bambadinca. Tal como aconteceu.
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Notas do editor:

Vd. post de 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28014: Notas de leitura (1922): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1.º cabo aux enf, 2.ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte X: À falta de vaca, avançou o hipopótamo para o rancho

Guiné 61/74 - P28021: Manuscrito(s) (Luís Graça) (289): Talvez o mundo fosse mais... amigável: poema para dizer hoje, ao vivo, no festival literário "Livros a Oeste 2026", Lourinhã


Lourinhã > Praia da Areia Branca > 5 de Agosto de 2007 > Baixa-mar, entre a Praia da Areia Branca e a Praia de Vale de Frades, com o forte de Paimogo ao fundo,  mais o cabo Carvoeiro, as Berlengas e o "mare nostrum"... A Alice e uma amiga do Porto, a Laura.

Foto: © Luís Graça (2007). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Cartaz do programa do festival do leitor, 14ª edição,  "Livros a Oeste 2026, Lourinhã, 12-16 de maio de 2026. Fonte: CM Lourinhã


1.  Poema para dizer hoje á tarde nos "Cantos das Palavras",  na Praça José Máximo, Lourinhã, ou logo á  noite na "Poesia É Que Nos Salva", no Restaurante Impostor, antigo Café Nicola, Rua João Luís de Moura, no âmbito da 14ª. edição do festival literário "Livros a Oeste 2026", que este ano é subordinado ao tema "Narrativas de Esperança" (Curador: João Morales).


Um mundo sem fronteiras

por Luís Graça

Se todos os pescadores do mundo,
ao longo de todas as costas,
linhas do horizonte, praias,mares,
bancos de pesca,
 icebergs,
fossas submarinas, 
plataformas continentais,
ilhas e penínsulas, pontes e dunas,
falésias, recifes de corais,
cabos e promontórios,
lagos e albufeiras,
rios, rias, portos e cais…

Se todos os pescadores do mundo
se dessem as mãos,
canas de pesca, 
fios e anzóis,
redes, covos e xalavares,
arpões, barcos e dóris 
mas também remos e velas,
canoas, traineiras e arrastões,
bússola, radar, sextante e sonar,
mais todas as artes antigas e modernas,
do cerco, da xávega e da sombreira,
do arrasto e da ganchorra,
das redes de emalhar e de tresmalho,
da linha, dos alcatruzes e das gaiolas...

Se todos nós, no fundo,
partilhássemos o nosso pão de cada dia,
à mesma mesa, 
mais o peixe pescado,
o peixe por haver,
fresco, cru, seco,
frito, cozido, guisado,
assado, grelhado, fumado,
salgado ou congelado,
sem esquecer as batatas e as cebolas... 
talvez finalmente 
pudéssemos tratarmo-nos tu cá tu lá,
como companheiros.

Se todos nós fizéssemos uma corrente humana 
ao longo  dos oceanos e demais fronteiras
que nos separam, 
talvez pudéssemos  reencontrar
elos perdidos da cadeia da vida...

E talvez o mar fosse mais mulher, 
como dizem os pescadores da tua terra,
talvez o mundo fosse  
mais aconchegado, 
caloroso, maneirinho e habitável…
Não tinha que ser, oh não!,
nenhum mundo novo  e muito menos admirável...
Apenas  humano, apenas mais chão.

Luís Graça
Lourinhã, Praia de Porto Dinheiro | 11/8/2007.
Revisto, 14/5/2026
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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28020: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte V: semana de 3 a 9 de março“: "Castelo de cinco quinas / Só há um em Portugal, / Que fica à beira do Coa, / Na cidade de Sabugal"


Sabugal > s/df > "Castelo de 5 quinas" > Foto da galeria da CM Sabugal
(com a devida vénia...)



Rui Chamusco, antigo professor
de música, reformado, é cofundador e líder
 da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários
com Timor Leste
1.  Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor Leste.


Já publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). 

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). 

Este ano de 2026, não  irá por razões de saúde, embora ainda acalente a esperança de lá ir passar o Natal...

Está hospitalizado, depois de uma bem sucedida intervenção cirúrgica no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, tendo surgido entretanto algumas complicações pós-operatórias. 

Fazemos votos para que regresse, depressa e bem, à sua casa na Lourinhã, a sua segunda terra natal. (Nasceu em Sabugal.)


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de 2 a  a 1 de março

por Rui Chamusco
 
04.03.2019, segunda feira - A guerra do espaço

O que outrora parecia ser somente um filme, hoje já é realidade.

Vem isto a propósito da viajem do Dr. Manuel Meirinho, que chegou a Dili um dia depois da data prevista. Estranho a tal ocorrência, tentei saber por que é que isto acontece (aconteceu). 

O grande amigo J. Ascenso deu-me a explicação que precisava: 

"Quando há países em guerra o seu espaço aéreo não pode ser violado. Ora a Índia e o Paquistão estão em guerra declarada, e portanto, sem poderem sobrevoar os seus espaços aéreos, todos os voos têm de contornar a sua viajem pelos espaços aéreos permitidos.”

E pensamos nós que lá por cima é que se anda bem! Qualquer dia o céu será como a terra: latifúndios e minifúndios, onde um palmo de espaço será o suficiente para declarar guerra ao vizinho do lado. Com a mentalidade individualista, qualquer um terá atitudes e comportamentos de tudo querer, de ser mais que o outro. “O que é teu é meu; o que é nosso é nosso”. E assim vamos fazendo as nossas guerras espaciais, assim na terra como nos céus.

Fiquemo-nos ao menos por aqui, com estas guerras de manjerico e manjerona, onde, se for necessário, resolvemos os problemas à chapada e ao murro, ao sacho ou à cacetada. E viva a “justiça de Fafe!” porque com Fafe ninguém fanfe...

Nota: Vim depois a saber, pelo Dr.Manuel Meirinho, que o desvio da rota aérea se deveu a poeiras que povoaram a atmosfera e que impediram uma aterrizagem segura.

06.03.2019, quarta feira - A pontualidade portuguesa


Na Europa, e sobretudo em Portugal, falamos da pontualidade suíça, talvez até mais por alusão aos relógios suíços que são de qualidade excelente. Esse complexo de pontualidade, inerente ao nosso modo de ser, tem pouca aplicação aqui em Timor, em terras de oriente. E já por diversas me dei conta disso mesmo.

Ontem, a pedido da família Aurora, fui mais uma vez à escola CAFE em Taibessi, a fim de falar com a coordenadora Professora Mabilde sobre a transferência de um aluno, Jetónio Ribeiro, que abandonou a escola Farol. Tinhamos combinado com o pai estar às 8.30 horas em Ailok Laran para depois nos dirigirmos à escola CAFE.

Muito tranquilamente os minutos iam passando e o Venâcio, pai do rapaz, nunca mais aparecia. Foi preciso que a Aurora, irmã do Venâncio, se irritasse ao telefone, dizendo que o Ti Rui está à espera, chateado, para que finalmente respondesse “ já vou”. Já dentro do carro perguntou-me: “que horas são”. E respondi-lhe “quase nove”. 

E pronto. Lá foi andando nas calmas, que aqui não se pode andar depressa pois as estradas (caminhos) são horríveis. Felizmente chegamos a tempo, e ainda tivemos de esperar.

Portanto mais que pontualidade portuguesa eu direi impaciência portuguesa. Não sei se é bom ou se é mau. Mas o Eustáquio diz que as doenças somos nós que as criamos, que as metemos na cabeça e que, por isso, também as podemos tirar de lá. 

Temos de estar sempre contentes. “Se chovi, contenti; se não chovi, contenti; se comi, contenti; se não comi, contenti. Sempri contenti!...” 

Ajuda a deitar fora, a aliviar, a curar. Já antes do Eustáquio mahatma Ganhdi (1869 - 1948) dizia:

 “Aquilo que não dizemos acumula-se no corpo, transformando-se em noites sem dormir, em nós na garganta, nostalgia, dúvidas, insatisfação e tristeza. O que não dizemos não morre...MATA-NOS.”

Aqui está, como diria São Francisco de Assis, a verdadeira alegria.

06.03.2019 - Dia de anos

A Aurora faz hoje 51 anos. Esta mulher, que apesar do AVC de que foi vítima há sete anos e que lhe limita os movimentos do lado esquerdo, nunca está quieta, orientando a vida da casa. É uma guerreira que bem merece uma festa de anos. Por isso, sem que ela se apercebesse, o Eustáquio, o Gaspar e eu fomos às compras, para que á noite os pudéssemos festejar condignamente. Houve flores do quintal, houve bolo de anos, e até vinho do Porto.

A Aurora é uma pessoa muito emotiva. Por isso fez um grande esforço por controlar as suas lágrimas. Estou certo que não irá esquecer estes momentos e que, com toda a sua vontade de viver, irá celebrar muitas mais festas de aniversário. Que assim seja!...

08.03.2019, sexta feira  - Encontros, protococolos e outras coisas mais...


Ao longo deste curto caminhar da ASTIL (há mais ou menos um ano e meio) têm surgido apoios importantes de pessoas e instituições que muito nos têm ajudado neste caminho. Eu direi até que sem estas preciossas colaborações não teríamos chegado onde já nos encontramos.

Embora na retaguarda, são a nossa proteção e amparo, e vão nos dando ânimo e meios para prosseguirmos a nossa luta na linha da frente. Somos os “novos guerrilheiros”, desarmados. A nossa grande arma é a solidariedade que, a pouco e pouco vai criando um mundo melhor para estas crianças e jovens que nos rodeiam, respeitam, agradecem com os seus sorrisos e amam de coração.

Uma das instituições que nos tem dado o seu apoio constante é o município de Sabugal, através do seu executivo camarário, facilitando-nos locais para encontros e ações do projeto em causa, cedendo-nos um espaço para a sede da Astil, apoios
económicos pontuais, etc...

Desde maio de 2018, aquando da nossa segunda estadia, que andamos a preparar a geminação entre os municípios de Liquiça e Sabugal, pretendendo assim que se possa estabelecer uma cooperação mútua entre estes dois municípios.

Hoje foi um dia muito importante, dando-se um passo significativo neste processo.

Aproveitando a estadia de uma semana em Dili do Dr. Manuel Meirinho, presidente da assembleia municipal de Sabugal, por motivos profissionais, reservamos a manhã de sexta feira para, no município de Liquiçá, se lavrar e assinar a carta de intenções.

Numa cerimónia carregada de protocolos, com a presença de representantes de todos os serviços deste distrito, cumpriu-se a assinatura desta carta de intenções em português e tetum, as duas línguas oficiais de Timor Leste, e que ficou devidamente documentada através das fotos da praxe.

Feita a despedida nos moldes habituais de apertos de mão e vénias, tivemos ainda uma visita à escola CAFE de Liquiçá, onde a maioria dos professores são portugueses. 

Mais um momento único e intenso, onde até ouvimos a quadra: 

Castelo de cinco quinas
Só há um em Portugal,
Que fica à beira do Coa,
Na cidade de Sabugal. 

Imaginem-se as emoções que tivemos de controlar.

E assim vamos afirmando por aqui a nossa portugalidade...

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)
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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P28019: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (4): E se o general António Spínola tivesse sido morto ou capturado em 20 de abril de 1970, em Jolmete, Pelundo ?


Spínola em Dulombi, sector L5 (Galomaro) 
 em abril de 1972.
Foto: Luís Dias (2011)
1. Cristina Allen, que vivia em Lisboa, onde era professora, viajou para Bissau em 15/4/1970 para se casar. A elebração, católica, foi no dia seguinte, na catedral de Bissau, numa cerimónia simples, mas os seus amigos e familiares em Lisboa estariam longe de imaginar que  sua "lua de mel" seria passada a visitar o noivo, Mário Beja Santos,  no hospital... aonde Spínola ia  também todos os dias de manhã inteirar-se do estado de saúde dos militares internados (*)...

Quatro dias depois, a 20/4/1970, dá-se em no susetor de Jolmete,sector 07 (Pelundo=, no coração do chão manjaco,  o chamado "massacre dos três majores". 

Spínola perde 3 dos seus melhores oficiais superiores (referência aos "três majores" do CAOP1, com sede em Teixeira Pinto) que estavam a negociar a rendição de forças do PAIGC na região, diretamente com o cmdt do PAIGC, André Gomes... Dizem que Spínola chorou, pela segunda vez, no CTIG: a primeira terá sido em 6/2/1969, em Cheche, na tragédia do Corubal.

Desarmada, toda a delegação portuguesa foi chacinada sem dó nem piedade, quando a direção do PAIGC em Conacri tomou conhecimento das negociações interpretadas como tentativa de deserção ou rendição... Um crime, de resto,  inqualificável, cobarde. vil, gratuito, cuja autoria moral continua a manchar a memória de Amílcar Cabral, passado mais de meio século.

"Amílcar Cbaral: (...) Este acto foi um acto de grande consciência política e um acto de independência. Foi um acto de grande acção e de capacidade dos nossos camaradas do Norte. É a primeira vez que numa luta de libertação 
nacional se mata assim três majores, três oficiais 
superiores que, nas condições da nossa luta, 
equivale à morte de generais. (...).

Citação: (1970-1970), "Acta informal das reuniões do Conselho de Guerra em Conakry", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_34125 (2026-5-14)

Spínola, cuja presença chegou a estar prevista (a par do 'cmdt' da guerrilha na região de Canchungo, o André Pedro Gomes), foi, à última hora, desaconselhado a comparecer, pelo ten-cor CEM Pedro Alexandre Gomes Cardoso, Secretário-Geral da Província, diz o seu biógrafo.

O que teria acontecido se ele fosse preso ou pura e simplesmente chacinado, como aconteceu a toda a delegação do CAOP1 (os 3 majores, Passos Ramos, Magalhães Osório e Pereira da Silva
 ,  o alferes Joaquim João Mosca,  e mais  2 (pou 3) guineenses, Mamadu Lamine Djuaré,  Aliu Sissé e Patrão da Costa).

É uma trágica efeméride: já lá vão 56 anos...



Cristina Allen ( 
2. Escreveu Cristina Allen:


(...) Quando, escassos anos volvidos, leria atentamente "Portugal e o Futuro", fecharia o livro, e, olhos cerrados, para mim mesma o interpelava: “Então, meu Caco, só agora?!”

Para todas as coisas há o seu tempo. Nos anos de brasa que decorreriam, e, mais ainda, nos outros que vieram, ele seria, talvez, uma das mais contraditórias e inquietantes personagens.

Recordo, hoje, os três majores ( e seus acompanhantes) que, num gravíssimo erro de cálculo – ou num quase infantil erro de cálculo – ele enviou para o martírio e penso em tantos jovens anónimos que perderam suas desgraçadas vidas. Nos estropiados, nos cegos, nos perturbados, nas nossas lágrimas.

E, todavia, ele, feito marechal António de Spínola, será sempre, para mim, a mais trágica figura do braseiro que outros atearam, sem ele, com ele, ou em seu nome.

Que Deus e a História sejam clementes para com este homem. (...)


3. Recorde-se o que disse Luís Cabral, no seu triste exílio de Lisboa, a José Manuel Barroso (em entrevista publicada no "Diário de Notícias" de 11 de setembro de 2000), sobre a leitura política destes trágicos acontecimentos feita pela cúpula do PAIGC:

"[ ... ] Essa ação dos majores visava a rendição das nossas tropas ... Nós controlámo-la desde o princípio, desde os primeiros contactos. O objetivo era prender Spínola. Se o prendermos, a guerra acaba na Guiné, dizíamos. Mas ele não apareceu no dia em que devia assistir à rendição das nossas tropas. Foi uma operação montada com o conhecimento da direção máxima do partido e com o controlo dos responsáveis da área.

[... ] O problema era prender os majores naquela área de movimentação extremamente difícil e retirá-los de uma zona minada [... ]. Uma decisão política [... ] Eu lamentei-o sempre, porque no quadro da nossa conceção das coisas, e particularmente da do Amílcar, se tivessemos tido meios para prender os homens, tinha tido um efeito muito grande. Mas o sucesso seria de facto ter o General. Sem ele o risco era muito grande." (...)



4.  A pergunta "O que teria acontecido se..." entra no domínio da história contrafactual,  interessante, mas sempre especulativa. Ainda assim, dá para explorar cenários plausíveis com base no contexto de 1970.

Primeiro, o contexto: em abril de 1970, António de Spínola era simultaneamente governador e comandante-chefe na Guiné, uma figura central na tentativa de combinar ação militar com abertura política. que abrisse o caminho para o fim da guetrra. 

O episódio de Jolmete, Pelundo (o chamado “massacre dos três majores"), teve um impacto forte porque atingiu precisamente essa estratégia de contactos e negociações locais para aliciar combatentes do PAIGC a "desertar" e a  integrar-se nas Forças Armadas Portuguesas.

Se o gen Spínola tivesse ido a esse encontro fatídico e sido morto ou capturado pelo PAIGC, há cinco  níveis de consequências a considerar:

(i) No plano imediato (Guiné, 1970)

A perda de Spínola teria sido um choque enorme para o dispositivo português, tanto entre as tropas metropolitanas como entre as do recrutamento local. Haveria uma tremenda perda de liderança militar. O moral das tropas, já de si fragilizado, seria ainda mais enfraquecido.

Spínola era o "homem forte" e carismático da Guiné, o rosto de uma linha de ação que tentava sair do impasse militar clássico, uma figura central na estratégia portuguesa. Era o "homem grande de Bissau". A sua morte ou captura teria sido um golpe moral e estratégico devastador para as forças portuguesas, precipitando outros acontecimentos,  tão ou mais dramáticos, e de consequências imprevisíveis.  como um possível golpe de Estado, da extrema direita do regime, derrubando o Marcelo Caetano. 
 
(ii) Reação do regime

O Estado Novo, já sob pressão interna e sobretudo internacional,  teria de lidar com a perda do seu general mais mediático. A prisão ou a morte de Spínola poderia ter levado a uma escalada de violência ou, pelo contrário, a uma revisão mais rápida  (e talvez atabalhoada e precipitada) da política colonial.

A guerra não iria acabar, contrariamente ao desejo da cúpula política do PAIGC. O mais provável seria um endurecimento rápido do conflito: menos abertura a contactos, mais operações de retaliação, e um regresso a uma lógica puramente militar, o que  agravaria o ainda mais a violência no terreno. 

Mas seria pouco provável que tivesse sido planeada e executada a Op Mar Verde (invasão anfíbia de Conacri, em 22 de novembro de 1970). E o Amílcar Cabral não teria sido assassinado...

(iii) No plano político em Portugal

Aqui é que o efeito poderia ter sido decisivo. Spínola viria a ganhar projeção nacional sobretudo após publicar o livro "Portugal e o Futuro" (em fevereiro de 1974), onde questiona a viabilidade da guerra. Mas ele já tinha visibilidade internacional (podendo até dizer-se que tinha alguma "boa imprensa").

Sem ele, esse “choque intelectual” dentro do regime teria sido mais fraco ou mais tardio. Outros militares pensavam de forma semelhante, mas poucos tinham o mesmo peso simbólico e  político-militar, com exceção talvez de Kaulza de Arriaga.

Spínola estava a implementar, com sucesso (e com apreensão de Amílcar Cabral), a política de "Por uma Guiné melhor", focada em operações especiais e na conquista de "corações e mentes". Um em cada três combatentes já era guineense, havendo três vezes mais combatentes do recerutamento local a lutar, dentro das fronteiras, sob a bandeira portuguesa do que guerrilheiros do PAIGC.

A sua morte teria provavelmente levado a um comando mais ortodoxo e ineficaz, facilitando o avanço do PAIGC, como aconteceu com Bettencourt Rodrigues (set 1973/ abr 1974),  que veio para a Guiné apenas com a missão de "aguentar a situação", coincidindo com a proclamação unilateral da indepência em 24 de setembro de 1973, a maior cartada de génio diplomático arquitetada ainda  em vida pelo Amílcar Cabral.

Com o desaparecimento de Spínola, o PAIGC (leia-se: Amílcar Cabaral) deixaria de ter um um rival à altura, acelerando o reconhecimento internacional da independência da Guiné-Bissau, que poderia vir a acontecer talvez um ano ou uns meses mais cedo. E Amílcar Cabral teria assistido pessoalmente a esse momento histórico que o consagria como o "pai-fundador" da Pátria, e um dos grandes líderes africanos. 

 Quanto ao futuro da unidade Guiné e Cabo Verde, seria difícil avançar com cenários. O "ajuste de contas" far-se-ia mais tarde...

(iv) No caminho para o 25 de Abril

Spínola era uma figura controversa, mas também um símbolo de resistência e um actor-chave de uma possível (e desejável) mudança dentro do regime. A sua morte poderia ter radicalizado posições, tanto entre os militares como na sociedade civil.

 Se Spínola tivesse morrido em 1970, o Movimento das Forças Armadas (MFA) teria que saber procurar e encontrar outro general com o oseu estatuto, tarefa que não era fácil dadpo seu protagionismo na Guiné, e o seu  prestígio, essencial para aceitar a rendição (incondicional) do regime de Marcello Caetano.

Com o Spínola preso ou morto, o próprio desfecho do Revolução dos Cravos poderia ter sido diferente: não necessariamente inexistente, mas com outra configuração. Ele acabou por ser uma figura de compromisso no momento inicial (rosto da Junta de Salvação Nacional, Presidente da República após o golpe).

 Não sendo sequer do MFA (Movimento das Forças Armadas),  tendo apenas emprestado ao movimento dos capitães o seu pretsígio, o seu rosto, a sua voz, os seus galões, ninguém pode negar que Spínola teve um papel importante no próprio dia 25 de Abril de 1974.

Sem ele, o processo de descolonização e a própria revolução poderiam ter tomado rumos muito diferentes, possivelmente mais violentos, mais moderados ou mais lentos. Sem essa figura, o processo poderia ter sido mais fechado e exclusivamente conduzido por jovens capitães, comandantes operacionais, ou, pelo contrário, mais turbulento, por falta de uma “ponte” com outros setores político-militares do regime.

Este é o ponto mais crítico. Spínola não era apenas um general com prestígio ganho no campo de batalha; tornou-se ele próprio um intérpretes  de uma das  "soluções políticas" para a guerra.

(v) Impacto na descolonização e efeito dominó

A presença ou ausência de Spínola poderia ter alterado o curso das negociações com o PAIGC. Se tivesse sido preso ou morto, o PAIGC poderia ter ganho mais força, sobretudo moral e até militar, acelerando a independência (unilateral) do território  e o seu reconhecimento nas instâncias internacionais (ONU, OUA, países não-alinhados, países comunistas e até nalguns países ocidentais, com os Norte da Europa).

Se Spínola tivesse morrido ou sido preso em 20 abril de 1970, a descolonização de Angola e Moçambique poderia ter sido ainda mais caótica e sangrenta. 

Spínola defendia uma transição lenta e faseada para a independência, o que o colocou em conflito com o MFA após o 25 de Abril. Sem ele, é possível que a descolonização tivesse sido entregue a forças políticas mais radicais ainda mais cedo, possivelmente resultando num processo diferente. 

De qualquer modo, a recusa em prosseguir a guerra estava cada vez arreigada entre os jovens.  A "guerra do ultramar" era impopular. O slogan "Nem mais um soldado para as colónias" teve um efeito preverso do próprio processo de descolonização e de transição pacífica dos vários territórios ultramarios para a independência.

Conclusão: a ironia da História (o "Efeito Borboleta")

De qualquer modo, não podemos empolar o papel do indivíduo na História: a guerra colonial (nomeadamente na Guiné) estava num impasse estrutural, com grande desgaste militar, económico, humano e moral. Mesmo sem Spínola, dificilmente o regime escaparia a uma crise profunda. A História não dependia só dele.

Se tivesse sido morto no Pelundo em 20/4/1970, provavelmente teríamos:
  • um PAIGC  ainda mais duro, triunfalista, arrogante, mais intransigente e menos permeável a negociações;
  • um regime em Lisboa sem uma voz interna, heterodoxa, tão visível a defender a necessidade de mudança; 
  • um 25 de Abril possivelmente diferente noo conteúdo e na forma, mas inevitável em qualquer dos casos.

O facto de Spínola não ter estado presente no Pelundo na sangrenta segunda feira,  é um daqueles "acidentes" históricos que mudam tudo. É a chamada "ironia da História". 

A sua sobrevivência permitiu que, anos mais tarde, tivesse um papel também de relevo (mesmo que controverso) na transição democrática portuguesa e na descolonização. Se tivesse morrido, a história de Portugal, da Guiné-Bissau e de toda a África lusófona poderia ter sido radicalmente diferente.

A História é feita de pequenos momentos e decisões que, em retrospectiva, parecem quase inevitáveis. Mas, na altura, são apenas escolhas, acasos, encontros e desencontros. Impossível saber se a história teria encontrado outro caminho. O "não ir" ao Pelundo, à última da hora (por pressão do secretário geral da Porvíncia)  foi, sem dúvida, um dos acasos mais decisivos do século XX português.

Sem ele, o 25 de abril de 1974 poderia ter ocorrido na mesma, nessa data ou noutra, mas a Junta de Salvação Nacional (ou o seu equivalente) teria tido um rosto e uma orientação político-ideológica possivelmente  diferentes.

A sobrevivência de Spínola permitiu que ele se tornasse o general (e chegasse depois a marechal), juntamente  com Costa Gomes, que esteve no 25 de Abril, mesmo discordando de partes do Programa do MFA.

Ironicamente, o massacre de Jolmete, Pelundo, ao matar outros oficiais intelectualmente brilhantes, e poupá-lo, a ele, reforçou a sua convicçáo de que a guerra era inviável, e isso deve tê-lo levado (a ele e aos seus "indefectíveis") a aprofundar a procura  de uma solução política que acabaria por culminar no 16 de março e depois no 25 de abril de 1974, ou seja,  no derrube do regime que ele servia.

E há um último ponto, mais próximo do texto da Cristina Allen: a dimensão trágica que ela lhe atribui talvez ficasse ainda mais “fechada”. Spínola morreria como "mártir da Pátria", quiçá como "herói",  impoluto,  nunca como "vilão", enfim, nunca como figura contraditória entre a guerra e a tentativa de saída política. 

Foi essa ambiguidade que o tornou tão  “inquietante” (quanto "fascinante") na memória de quem o observou de perto, como a Cristina e aqueles de nós que serviram sob o seu comando.

(Continua)

(Pesquisa: LG + CECA + Bibliografia + IA (ChatGPT / OPenAI | Le Chat Mistral AI)
(Condensação, revisão/fixação de texto, negritos, título: LG)
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Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 21 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27938: Humor de caserna (258): O andedotário da Spinolândia - Parte XXX: Dançando o tango com o Caco Baldé (Cristina Allen, 1943-2021)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28018: Convívios (1066): Estão abertas as inscrições para o 112.º Encontro da Tabanca do Centro, a levar a efeito no próximo dia 29 de maio de 2026, no Restaurante Atrium Buffet, Quinta do Paul, Ortigosa

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Nota do editor

Último post da série de 11 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28011: Convívios (1065): Rescaldo do 41.º Encontro Nacional dos ex-Oficiais, Sargentos e Praças do BENG 447 - Brá- Guiné, levado a efeito no dia 9 de Maio de 2026, nas Caldas da Rainha (João Rodrigues Lobo, ex-Alf Mil)

Guiné 61/74 - P28017: Historiografia da presença portuguesa em África (529): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1971 (87) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Este Boletim Oficial é tudo menos insignificante, e não é mera documentação adicional. Dizia o então Governador Sarmento Rodrigues que queria pôr termo aos orçamentos da Província fantasiosos, camufladores da realidade económica, escondendo tanto as receitas como a despesa. O que o investigador tem à sua disposição é a evolução dos encargos, do crescimento da despesa, dos sucessivos orçamentos extraordinários, múltiplos créditos, dá para verificar como na governação Spínola o Governo de Lisboa abriu os cordões à bolsa, e também será interessante comparar com os orçamentos anteriores, mormente com os quatro anos de Arnaldo Schulz. Ainda não se tem um quadro nítido do que fez na Guiné até à independência a Esso Exploration Guiné, fica-nos a notícia da pesquisa no leito do mar e nas coordenadas que aqui vêm referidas. Que o leitor não se admire com o louvor atribuído a um Chefe de Brigada da DGS do Posto de Catió publicado no Boletim Oficial da Guiné por um ato de verdadeiro destemor, durante uma flagelação. A DGS não estava subordinada à instituição castrense, daí a publicação regular de nomeações, autorizações para férias, transferências e, por conseguinte, louvores.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1971 (87)

Mário Beja Santos

Como fizemos alusão na síntese de 1970, cresce exponencialmente o número de créditos, fundos de investimento, orçamentos suplementares e extraordinários. Fez-se logo alusão ao Boletim n.º 1, de 5 de janeiro de 1971, a Portaria n.º 630/70, do Ministério do Ultramar, que abriu um crédito destinado a reforçar verbas da tabela de despesa extraordinária do orçamento da Província da Guiné para o corrente ano económico. O Boletim Oficial n.º 6, de 9 de fevereiro, pela Portaria n.º 2310, aprova os novos Estatutos da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné. Esta aprovação tem a cláusula expressa de que será retirada a autoridade agora concedida caso a Associação, por qualquer forma, proceda contrariamente ao interesse público e se desvie dos fins para que foi instituída. Os seus fins são de promover e dinamizar o desenvolvimento das atividades do comércio, indústria e agricultura, procedendo ao incremento do comércio externo, ao intercâmbio comercial entre a Guiné e a Metrópole e as outras províncias ultramarinas, ao sistema de transportes e comunicações, à organização bancária etc. etc.

O Suplemento do Boletim Oficial n.º 6, de 13 de fevereiro, pela Portaria 2310, põe em execução, para o ano económico de 1971, as tabelas adicionais que constituem os recursos para financiamento do Programa do III Plano de Fomento. O documento refere o vultoso empréstimo da administração central, as medidas do programa de execução em diferentes áreas como a agricultura, silvicultura e pecuária e pescas, indústrias extrativas e transformadoras, transportes, comunicações e meteorologia, turismo, habitação, saúde, etc. Para este programa de financiamento as verbas maiores vêm da administração central, do rendimento das concessões petrolíferas e até do Secretariado da Defesa Nacional. Mantém-se o mistério sobre o funcionamento da Esso Exploration Guiné Inc, a que título este rendimento das concessões petrolíferas, o que e aonde se explora em território guineense? Facto é que no Boletim Oficial n.º 9, de 6 de março, fala-se numa Assembleia Geral Extraordinária da Esso a ter lugar em 29 de março de 1971 na Rua Filipe Folque n.º 2, 3.º, em Lisboa, isto para aprovação e relatório de balanços e contas, eleição dos órgãos, etc.

No mesmo sentido o Boletim Oficial n.º 20, de 18 de maio, publica uma informação da Esso Exploration Guiné onde se diz:
“No decurso do ano de 1970 a Companhia continuou a proceder a trabalhos e pesquisas na área de concessão que lhe foi outorgada, trabalhos esses, que consistiram especialmente em trabalhos de prospecção sísmica e na interpretação dos dados geológicos e geofísicos obtidos até à data.
Os trabalhos sísmicos foram realizados apenas no mar, tendo os estudos geológicos e geofísicos sido coordenados pela Esso Exploration Inc, com a colaboração da Esso Production Research Company de Houston, Texas, EUA, e o East Atlantic Study Group de Walton-on-Thames, Inglaterra, todas empresas afiliadas da Standard Oil Company. É de assinalar que a Companhia, no exercício findo, contribuiu também para a perfuração de um poço em área contígua à concessão que lhe foi outorgada, contributo este considerado do maior interesse para a obtenção de dados e elementos que lhe permitem estabelecer melhor as estruturas da área de concessão.”

Segue-se o parecer do Conselho Fiscal e o detalhe das despesas de exploração ao longo de 1970.


Mas há ainda mais notícias da Esso. No Boletim Oficial n.º 29, de 20 de julho, a Repartição Provincial dos Serviços de Geologia e Minas publica o seguinte edital:
“Francisco de Almeida Flores, Engenheiro-Chefe dos Serviços de Geologia e Minas desta Província:
Faz saber que deu entrada nesta Repartição um requerimento dirigido a sua Excelência o Ministro do Ultramar em que afirma Esso Exploration Guiné Inc, sociedade por acções com sede nesta cidade de Bissau, pede que lhe seja outorgada concessão exclusiva para pesquisa e exploração de jazigos de hidrocarbonetos e substâncias afins numa área desta Província representada pelo leito do mar e compreendida dentro dos seguintes limites:
Ponto de partida, o ponto de intersecção das coordenadas 11º 56’ 30’’ da latitude norte e 17º 30’ 00’’ de longitude oeste; deste ponto, para sudoeste, ao longo de uma linha reta, até ao ponto de intersecção das coordenadas 11º 40’ 30’’ de latitude norte e 18º 00’ 00’’ de longitude oeste; daqui, em direcção ao sul, ao longo de uma linha reta, até ao ponto de intersecção das coordenadas 10º 35’ 00’’ de latitude norte e 18º 00’ 00’’ de longitude oeste; daqui, em direcção a este, em linha recta, até ao ponto de encontro com o limite da concessão de que a requerente é titular, no ponto de intersecção das coordenadas 10º 35’ 00’’ de latitude norte e 17º 11’ 30’’ de longitude oeste; deste ponto, para norte, até ao ponto de partida, ao longo, mas sem solução de continuidade, do limite da referida concessão de que a requerente é titular.”

São, sem dúvida, elementos abonatórios para a compreensão do que a Esso Exploration Guiné estava a fazer ao nível de 1970, continuamos sem encontrar outros elementos da história desta exploração.


Agora, uma mera curiosidade. Encontrou-se no Boletim Oficial n.º 33, de 17 de agosto, do Ministério do Ultramar a concessão ao Major de Infantaria Eugénio dos Santos Ferreira Fernandes, do Quartel-General da Região Militar de Moçambique a medalha de cobre de assiduidade de serviço no Ultramar, por ter prestado 12 anos de serviço, com comportamento exemplar, nas províncias de Moçambique, Angola, Guiné, Macau, Timor e S. Tomé e Príncipe, sendo mais de três consecutivas em Moçambique. É de perguntar que périplo ainda devia fazer o Major Fernandes para obter as medalhas de prata e ouro.

O leitor tem vindo a ser sucessivamente informado de que estes Boletins Oficiais ganharam enorme volume graças à publicação de tudo o que tem a ver com a política ultramarina, e aqui temos uma outra mera curiosidade. No Boletim Oficial n.º 44, de 2 de novembro, o Governo Central, através da Direção-Geral de Administração Civil publica a seguinte concessão:
“Considerando o extraordinário sangue-frio, coragem e perícia revelados pelo piloto aviador civil José Eduardo dos Santos Peralta, quando, em 11 de agosto findo, ao sobrevoar a região de Cabinda, fez gorar a tentativa de um grupo de indivíduos que se haviam apoderado de avultada quantia do Estado e, sob a ameaça de uma arma de fogo, pretenderam obrigá-lo a desviar a sua rota para território de um país vizinho.”
Pelo seu destemor foi-lhe concedida a medalha de prata de Serviços Distintos ou relevantes no Ultramar.


O Boletim Oficial n.º 50, de 14 de dezembro, publica uma Portaria assinada pelo Governador da Guiné:
“O Chefe de Brigada de DGS do Porto de Catió, José da Silva Duarte, durante uma flagelação que o inimigo efetuou sobre aquela vila, em 14 de abril de 1971, teve actuação que é justo destacar e distinguir.
Verificando que, no local onde se encontrava, o rebentamento de um projétil havia provocado vários feridos, colocou um deles sobre os ombros e correu em direcção à enfermaria militar, indiferente ao perigo a que se expunha.
Ainda no trajecto, novo rebentamento atingiu um militar que seguia à sua rectaguarda. O Chefe de Brigada Duarte voltou atrás para socorrer aquele militar, colocando-o ao abrigo de futuros rebentamentos, após o que prosseguiu até à enfermaria com um ferido que inicialmente transportava.”

Foi assim louvado o Chefe de Brigada Duarte pelos seus actos em que demonstrou com a sua atitude acendrada abnegação e excepcional coragem.


Para finalizar, temos no Boletim Oficial n.º 52, de 28 de dezembro, a criação de postos escolares, uns no Gabu (Cam Fará, Sinchã Cantambá, Nematabá, Paunca, Sori Lumbato, Sumacunda, Tomana de Cima e Coiada) e nos Bijagós, nas ilhas de Uro, Uracane, Orango Grande.
Notícia da visita do Subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino
Notícia do regresso do Governador
Felupes em Batuque
Dançarinas Mandingas
Inauguração de um fontenário em Sare Bacar
Rapariga Fula
Velho Mandinga
Dança Nalú

Este conjunto de imagens foram publicados no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, em diferentes números de 1971

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 6 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27993: Historiografia da presença portuguesa em África (528): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1970 (86) (Mário Beja Santos)