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quarta-feira, 26 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17620: Fotos à procura de... uma legenda (87): o luxo de um "petromax" da Casa Hipólito nas noites escuras como breu...



Guiné > Região leste > Bambadinca > Setor L1 > Destacamento da Ponte do Rio Udunduma > Setembro de 1973 > CART 3494 (Xime e Mansambo, 1971/74) > "A mesa polivalente, onde se comia, escrevia, li, jogava e conversava. Em suma: o espaço de socialização e de partilha. Da esquerda para a direita: Gregório Santos, José Sebastião, Ricardo Teixeira e eu [, Jorge Araújo,] participando no 'matabicho' das tardes, preparando-nos para mais uma noite de muitas estrelas."

[Assinalado a amarelo está um candeeiro a petróleo de camisa ou "petromax", cuja marca se desconhece. Seria da Casa Hipólito, de Torres Vedras, do modelo 350? "Petromax" era uma marca registada, de origem alemã, que  entrou no nosso vocabulário... O vocábulo foi grafado e é usado em diversos postes publicados no nosso blogue.]

Foto (e legenda): © Jorge Araújo  (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentário do nosso editor LG ao poste P17616  (*):

"Candeeiro antigo a petróleo Hipólito 350'"
(Com a devida vénua, OLX)
ID do anúncio: 514081809

Jorge:

Em relação ao 'resort' da ponte do Rio Udunduma, onde também passei algumas belas noites de céu estrelado, com miríades de insetos, deixa-me dar-te conta da minha inveja e admiração: quatro anos depois, já havia, em meados de 1973,  "minibar" e, de vez em quando, "arroz de pato da bolanha"... além de jipe às ordens e petromax!...

Melhor que nada, a verdade se vocês tivessem que pagar IMI, já tinham, na avaliação do "prédio urbano" mais uns pontozinhos a melhorar o coeficiente de qualidade e conforto...

Parabéns pela vossa imaginação e vontade de dar a volta às contrariedades: não me lembro de, na minha companhia, haver um raio de um petromax, da Casa Hipólito (que se exportava para Cuba!)... Ou então alguém se abotoava com os petromaxes que, em África, eram um tesouro!...


Petromax (marca registada) era um candeeiro a petróleo de camisa. Era usado na iluminação pública, doméstica e na pesca ao candeio.

Segundo a descrição da Wikipédia, "consta de um depósito, onde está introduzida uma bomba de pressão, do qual sai um tubo tendo na extremidade um vaporizador e fixa a este uma camisa em seda em forma de lâmpada, protegida por um cilindro em vidro. No cimo tem uma chaminé por onde saem os gases."

[Imagem à esquerda: 

"Autocolante s/ data. As lanternas de incandescência começaram a ser fabricadas pela Casa Hipólito em 1949. Em 1950 iniciou-se a sua comercialização." Foto de perfil da página do Facebook Memórias da Casa Hipólito de Torres Vedras. Com a devida vénia ao autor da página Joaquim Moedas Duarte, criada no âmbito do Mestrado em Estudos do Património, da Universidade Aberta de Lisboa.]


2. Tudo indica que nos primeiros anos da guerra na Guiné o uso do "petromax" (ou lanterna de incandescência...)  fosse mais generalizado, servindo inclusive para iluminar o perímetro de defesa dos aquartelamentos, como no caso de Bedanda, por exemplo, ao tempo do nosso camarada Rui Santos, em 1963.

Em Binta, em 1964, no tempo do JERO, jogava-se o "King" à luz do "petromax"... Em muitos abrigos, deveria haver "petromaxes"... Em Beli, o Armindo Alves, 1.º cabo enf da CCAÇ 1589 (1966/68), prestava primeiros socorros, à noite, à luz do "petromax"... Depois vieram os geradores e passou a haver luz elétrica, pelo menos à noite... Mas, nos destacamentos, como o Biombo, em 1970, ou Banjara, em 1967, continuava a recorrer-se ao "petromax"...

Em sítios isolados (destacamentos, tabancas em autodefesa, etc.), o uso do "petromax" levantava questões de segurança... De qualquer modo, as companhias deviam ter, em "stock", este precioso utensílio... mas era preciso garantir a disponibilidade de petróleo e de "camisas"...

Não me lembro no meu tempo (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71),  de alguma vez ter levado  um "petromax" para o destacamento da ponte do Rio Udunduma ou para tabancas fulas (onde íamos, por vezes, reforçar o sistema de autodefesa).

Será que alguém ainda se lembra do velho "petromax" a iluminar as noites escuras como breu da Guiné? (**)


Guiné > Zona leste > Geba > Banjara > CART 1690 (1967/69) > Excerto de uma requisição de material, com data de 9/6/67, feita pelo alf mil Afredo Reis, da CART 1690 (Geba, 1967/69), na altura a comandar o destacamento de Banjara.

Alguns dos artigos requisitados: fósforos, palha de aço, camisas para petromax de 150 velas, torcida e vidro (?) para o frigorífico,  pregos (...), aerogramas,  selos, 12 esferográficas (uma vermelha e as outras azuis),  bloco de cartas, Omo e sabão, uma garrafa de whisky, Sumol ou outros sumos [...]

Foto: © Alfredo Reis (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. O Jorge Araújo, em férias, já respondeu nestes termos (*):

(...) No 'resort' da Ponte do Rio Udunduma não havia "jipe às ordens". Ele era utilizado, sempre que possível, apenas para o transporte dos alimentos confeccionados na CCS, entre Bambadinca e o Destacamento.

(...) O reforço de "pato da bolanha" não tinha arroz. Ele era cozido durante mais ou menos 3 horas, pois a carne era muito dura devido às suas características morfológicas, utilizando-se a chama de uma palmeira seca que se regava previamente com petróleo numa extremidade.

O tacho tinha de recuar à medida que a dita cuja (palmeira) se ia transformando em cinza. Depois de cozido e cortado em pedaços, o pato era frito adicionando-se depois um pouco de malagueta, como único condimento. (...)

(...) Quanto à pergunta sobre o "petromax", não faço a mínima ideia da sua marca ou origem. O importante para nós era, naturalmente, a sua função... a de nos dar alguma claridade em especial nas noites de lua nova. Obrigado... foi quanto nos custou o objecto, depois de termos feito um "choradinho" no comando do BART 3873, no sentido de nos cederem um exemplar. (...)
____________


terça-feira, 4 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27384: A nossa guerra... a petromax (1): Quem é que ainda se lembra dos candeiros a petróleo ? Em 1964, em Guileje, Gadamael, Ganturé, Sangonhá, Cacoca, Cameconde... Em 1967/68, em Ponate, Banjara, Cantacunda, Sare Banda, Ponta do Inglês...



Candeeiro antigo a petróleo Hipólito de 350 velas
(Com a devida vénia, OLX: anúncio já não disponivel)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) >  Destacamento da Ponte do Rio Udunduma > Setembro de 1973 > CART 3494 (Xime e Mansambo, 1971/74) > Uma foto rara : assinalado a amarelo está um candeeiro a petróleo de camisa, um petromax, possivelmente de 350 velas, que era fabricado em Portugal pela Casa Hipólito, de Torres Vedras. 

"A mesa polivalente, onde se comia, escrevia, lia,  jogava e conversava. Em suma: o espaço de socialização e de partilha. Da esquerda para a direita: Gregório Santos, José Sebastião, Ricardo Teixeira e eu [Jorge Araújo] participando no 'mata-bicho' das tardes, preparando-nos para mais uma noite de muitas estrelas."

Foto (e legenda): © Jorge Araújo  (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 




Capa do livro "Casa Hipólito : história, memórias e património de uma fábrica torriense / Joaquim Moedas Duarte ; pref. José Amado Mendes ; rev. cient. Jorge Custódio. - 1ª ed. - Torres Vedras : Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras : Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, 2017. - 376 p. : il. ; 23 cm



1 Quem se lembra do velho "petromax" que iluminou muitas das nossas noites de breu na Guiné ? E nomeadamenmet nos primeiros anos da guerra, em destacamentos perdidos no mato ...

Eu nunca tive o "privilégio" de ter um pretomax no destacamento da ponte do rio Udunduma, na missão do sono em Bambadincanzinho, nas tabancas fulas em autodefesa que fui reforçar ou no destacamento do reordenamento (de população balanta e mandinga) de Nhabijões !... 


Fonte: Anúncio do OLX
Mas há quem se lembre... O petromax, das fotos acima, era da  Casa Hipólito, de Torres Vedras. Era um candeeiro a petróleo, de camisa.. Havia vários modelos, todos a petróleo/querosene, só mais tarde evoluiu para o gás...  

Havia candeiros de 150 velas, 250 velas, 350 velas, 500 velas... Pelo que vejo nos anúncios do OLX, estes candeeiros antigos podem ainda hoje valer entre os 50 e os 150 euros...Os modelos novos podem custar 300, 400, 500 euros...

O de 500 velas (ou CP="candle power") era o de topo de gama. 

O de 150 velas dava para 10 horas (1 litro de querosene / petróloe). Aplicaçáo: Uso doméstico, iluminação de tenda pequena ou posto de sentinela;

O de 250 velas tinha um autonomia de 7 horas, dava para iluminar um secção do perímetro de
arame farpado, uma cozinha de campanha, um ficina.

O de 350 velas (5 horas de autonomia) iluminava um de pátio, um pequeno acampamento, uma enfermaria.

O de 500 velas (4 horas de autonomia) iluminava superfícies maiores: quartéis, destacamentos, missões religiosas, médios / grandes acampamentos. Um candeeiro Petromax de 500 CP (ou velas) é comparável, em brilho, a quatro lâmpadas incandescentes de 100 W, mas concentrando a luz num feixe mais intenso.

Náo sabemos qual(quais) o(s) modelo(s) disponibilizado(s) pela Intendência. Mas pelo menos o de 150 velas já existia em 1967, 

"Petromax" era/é  uma marca registada, de origem alemã, fabricada em Portugal sob licença,a partir de 1949. Mas a Hipólito também tinha modelos próprios.


2. Ter um petromax em casa, no meu tempo de miúdo, era uma novidade, uma  coqueluche. Usava-se na pesca aretsanal e na pesca ao candeio (o pescador mais "abonado"; ainda me lembro da lanterna, luminária  ou lampião a carbureto)... Nas oficinas, para trabalhar à noite. E os mais remediados passaram a substituir o velho candeeiro a petróleo pelo petromax, enquantio não chegava a eletricidade de Castelo de Bode (a barragem foi inaugurada em 21/1/1951).

A palavra "petromax" entrou no nosso vocabulário nos anos 50. E o termo já está hoje grafado nos  nossos dicionários.

Temos diversas referências ao uso do "petromax" na iluminação das nossas instalações militares no CTIG (a par das garrafas de cerveja que, depois de vazias,  eram cheias de petróleo, levavam uma tampa  furada por onde passava uma mecha, torcida ou pavio funcionando à noite como luminária ou candeeiro improvisado).

Segundo a descrição da Wikipédia, "consta de um depósito, onde está introduzida uma bomba de pressão, do qual sai um tubo tendo na extremidade um vaporizador e fixa a este uma camisa em seda em forma de lâmpada, protegida por um cilindro em vidro. No cimo tem uma chaminé por onde saem os gases." (Vd, imagem acima).
 
Para quem quiser saber mais, aconselha-se uma visita à página do Facebook Memórias da Casa Hipólito de Torres Vedras, da autoria de Joaquim Moedas Duarte, criada no âmbito do Mestrado em Estudos do Património, da Universidade Aberta de Lisboa. 

Sabemos que esta grande empresa metalúrgica (o maior empregador da região) forneceu diversos equipamentos de iluminação para as Forças Armadas. Começou por ser uma pequena oficina de latoaria no início do séc. XX. Algumas décadas depois era já uma grande metalúrgica, com 1400 colaboradores.


3. Vejamos algumas referências ao petromax no CTIG:

Já temos uma série "A minha guerra a petróleo" (*), da autoria do ex-cap art (hoje coronel na reforma) António J. Pereira da Costa, membro da nossa Tabanca Grande.

Iremos citá-lo em próximo poste. Inspirados naquele título, é que nos lembrámos de repescar postes com referência a este descritor, "petromax". 

Em todo o caso, convém lembrar que a "A minha guerra a petróleo" (título que o autor voltou a usar no livro de memórias que publicou, sob a  chancela da Chiado Books, em 2019) tem um sentido metafórico e irónico. Mais diria que é também  uma amostra da literatura "pícara" que se tem publicado sobre a nossa guerra.

 Temos que revisitar esta série. Mas para já registe-se que o tom  que o nosso Tó Zé (para os amigos da Amadora)  usa, é  muitas vezes reflexivo e sarcástico, evocando as dificuldades logísticas e humanas da guerra (por exemplo, o combustível escasso, o calor, o esforço físico e moral, a burocracia). Neste contexto, a expressão “a petróleo” serve também para sublinhar   o carácter absurdo, tecnicodependente e mecanizado da guerra moderna,  que não funcionaria sem máquinas, motores, material, combustível, e sobretudo sem  uma máquina pesada que se impõe sobre o indivíduo. Aliás, nenhuma guerra.

Física e metaforicamente falando, foi de facto uma "guerra a petróleo", a nossa... Nalguns caso, um pouco mais evoluída, do ponto de vista da tecnologia com a introdução do "petromax " e a seguir do "gerador elétrico"...

Tudo indica, entretanto, que nos primeiros anos da guerra, na Guiné, o uso do "petromax" (ou lanterna de incandescência...)  fosse mais generalizado, servindo inclusive para iluminar o perímetro de defesa dos aquartelamentos, como no caso de Bedanda, por exemplo, ao tempo do nosso camarada Rui Santos, em 1963, bem como outros aquartelamentos  e destacamentos.

Cite-se, na região de Tombali, e ao longo da fronteira  com a Guiné-Conacri,  no 1º semestre de 1964, destacamentos como  Guileje, Gadamael, Ganturé, Sangonhá, Cacocca, Cameconde, etc.

Mas também na zona Leste, na região de Bafatá: Ponta do Inglês,no subsector do Xime (setor L1), Banjara, Cantacunda, Sare Banda, etc., no subsector de Geba (sector L2)... Ou na região do Cacheu, Ponate, por exemplo...

Em sítios isolados (destacamentos, tabancas em autodefesa, etc.), o uso do "petromax" levantava questões de segurança. Era um alvo fácil . E talvez por isso fosse distribuído com parcimónia. Não sabemos, por exemplo, quantos camaradas nossos morreram, de tiros isolados, à noite, disparados por "snipers". Ou de ataques junto ao arame farpado, como Sare Banda, 1968.

Depois vieram os geradores e passou a haver luz elétrica, pelo menos à noite... Mas, nos destacamentos, em Ponate, em 1966,  em Banjara, em 1967, na Ponta do Inglês, em 1968, no Biombo, em 1970, no rio Udunduma, em 1973, etc. continuava a recorrer-se ao "petromax".


Sangomhá, 1964 (**)

(...) "Depois de, em Ganturé, existirem as condições mínimas de sobrevivência para a instalação das tropas que aí permaneciam, o Pel Rec Fox 42 juntamente com tropas recém chegadas à Guiné [CART 640 ] e com um Pelotão de Milícias rumou até Sangonhá a 21 de maio de 1964.

Como de costume segue-se a capinagem, a vedação de arame farpado em volta da tabanca, que seria agora um quartel, a colocação de cavaletes para instalação dos candeeiros a petróleo (petromaxes), a que alguns “valentes” iam dar pressão de ar durante a noite, sempre que necessário." (*)

.
Sare Banda ,8 de setembro de 1968 (***)

(...)  Sare Banda (...) estava perto de Sinchã Jobel (importante base do PAIGC, e muito bem equipada, como é claro pelo material que deixaram), e é natural que fosse atacada.

O alferes morto foi o Carlos Alberto Trindade Peixoto. O outro morto foi o Furriel Raul Canadas Ferreira. Mas as circunstâncias da morte deles não estão devidamente relatadas.

Foi assim: este, como todos os destacamentos da CART 1690, não tinha luz eléctrica, nem mesmo um miserável gerador. Eles estavam os dois numa tenda a jogar às cartas, com um petromax aceso (depreende-se, aliás, do relatório as péssimas condições de instalação). Para os guerrilheiros foi muito simples, foi só apontar o RPG2. (...)


Banjara, 1967 (****)

De qualquer modo, as companhias deviam ter, em "stock", este precioso utensílio... mas era preciso garantir a disponibilidade de querosene/petróleo iluminante e de "camisas"...
 .




Guiné > Zona leste > Geba > Banjara > CART 1690 (1967/69) > Excerto de uma requisição de material, com data de 9/6/67, feita pelo alf mil Alfredo Reis,  na altura a comandar o destacamento de Banjara.

Alguns dos artigos requisitados (excerto):
  • fósforos, 
  • palha de aço,
  • camisas para petromax de 150 velas.
  • torcida e vidro (?) para o frigorífico (...),
  • pregos para pregar as chapas,
  • aerogramas,
  • selos, 
  • 12 esferográficas (uma vermelha e as outras azuis),  
  • bloco de cartas,
  • Omo e sabão, 
  • uma garrafa de whisky, 
  • Sumol ou outros sumos [...]

Foto: © Alfredo Reis (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

(Continua)

(Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)
____________

Notas do editor LG:


(*) Vd, poste de 6 de maio de 2019 > Guiné 61/74 - P19752: Notas de leitura (1175): A Minha Guerra a Petróleo, por António José Pereira da Costa, Chiado Books, 2019 (Mário Beja Santos)
(***) Vd. poste de 28 de maio de 2005 > Guiné 63/74 - P28: Um ataque a Sare Banda (1968) (A. Marques Lopes)

(****) Vd. poste de 20 de novembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15388: Álbum fotográfico de Alfredo Reis (ex-alf mil, CART 1690, Geba, 1967/69) (3): O que é um homem precisava no mato, num miserável destacamento como o de Banjara, em 1967 ?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27504: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (59): Duas peças de museu compradas numa casa comercial de um português falecido em Bafatá: um petromax e um fogareiro a petróleo, da marca Hipólito


«












Guiné-Bissau > Bissau > Casa do Patrício Ribeiro > Um petromax e um fogareiro a petróleo marca Hipólitouma fábrica metalúrgica portuguesa, com sede em Torres Vedras, que infelizmente já desapareceu:  Casa Hipólito (1902-1999 especializou-se nomeadamente no fabrico de fogareiros, fluxómetros e candeeiros tipo petromax) 



Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do Patrício Ribeiro

Dara - sábado, 15/11/2025, 18:38

Assunto - Bom dia desde Bissai

Luís.

Seguem fotos de exemplares destas peças de museu. Fotos tiradas hoje no por do sol em Bissau.

Há algum tempo compradas uma casa comercial de um português falecido em Bafatá, que muitos deviam conhecer. Um petromax... virgem. E um fogareiro a petróleo .Casa Hipólito,

Abraço

Patrício Ribeiro (*)

2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Patrício. São mesmo duas relíquias. Tanto o petromax com o fogareiro a petróleo deviam fazer parte do "kit de sobrevivência" de um bom africanista...O fogareiro, não tanto, mas o petromax fazia parte dos nossos apetrechos de "campismo militar". Embora tuvesse que ser usado com muita prudência. Por causa dos "snipers". (**).

______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 30 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27477: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (58): Bolanhas e lalas de São Domingos, Susana e Ingoré; pôr-do-sol em Varela; e... manga de calor

sábado, 15 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27425: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (37): o Petromax de 500 CP/Velas





Ilustração: Chat Portuguès / GPTonline.ai



1. Nunca tive um Petromax. Nem em casa nem na Guiné. Por muitas voltas que dê ao meu "arquivo", não encontro nem memórias nem referências (escritas) ao Petromax. No nosso blogue há 22 referências.

Ainda sou do tempo do candeeiro a petróleo. Fiz a quarta classe com ele. A eletricidade chegou tarde. Na Guiné, muitos dos nossos resorts turísticos, ecológicos, eram alumiados a Petromax. Sobretudo nos primeiros anos da guerra... 

Ainda não havia geradores em muitos sítios. A luz elétrica, mesmo só à noite, ainda não era para todos. Aliás, nada é para todos neste mundo.  Se fosse tudo para todos, ninguém queria ir para o céu.  A luz elétrica ainda não chegou, por exemplo,  à maior parte das tabancas da Guiné -Bissau.  Cinquenta anos depois da independência.  Nem Deus, nem Alá, nem os bons irãs têm ajudado. Se calhar, os guinenses não rezam o suficiente.  Mas não sejamos cruéis, com a pobreza não se brinca. Nem com a nossa nem com a dos outros.

Por azar o meu, o nosso quarteleiro nunca me dispensou nenhum. Se é que a minha CCAÇ 12, em Bambadinca,  tinha Petromaxes à carga (era assim que se dizia ?).

Os Petromaxes começaram a aparecer nos anos 50, no "Continente" (leia-se: em Portugal Continental, ainda não havia o "Continente", marca registada). 

 Eram fabricados, na Casa Hipólito, em Torres Vedras, concelho vizinho do meu. Mas não eram para as todas bolsas, os Petromaxes. Lembro-me de ficar fascinado com a luz que irradiavam bem como com os segredos do seu funcionamento.  um Petromax era um luxo.  Nunca aprendi a acender nenhum. O terror era poder estragar a camisinha de seda...  

O meu candeeiro a petróleo era mais simples. Comprava-se o "petróleo" ao "pitrolino" que tinha uma carroça puxada por uma mula ( ou era um macho ?) e que vendia tudo, do sabão ao azeite, do petróleo (iluminante) a outros produtos de drogaria, desde a lixívia á "aguardente bagaceira" que até era era usada para assar chouriços! ... Porta a porta, rua a rua,  m tocando uma corneta, "olhó pitrolino!"..

 Bons velhos tempos em que os "supermercados" tinham rodas e iam a casa abastecer-nos.  E nós brincávamos na rua!

Frugalmente. Só se comprava o que era estritamente necessário para a nossa sobrevivência. Não havia sacos de plástico nem "bitcoins". Nem plástico nem digital. Só moedas pretas, bem pretas do "suor" e do "sebo" dos desgraçados que trabalhavam de sol a sol, no campo ou nas oficinas. Fabricas ainda não havia. Nasci no séc. XIX, por sorte irei morrer no séc. XXI. Século prodigioso, dizem os otimistas.  Ou os que são pagos para serem otimistas. Tão prodigioso, afinal, como aquele em que nascemos e vivemos e fizemos a guerra da Guiné.


2. Pedi à minha assistente de IA, a "Sabe-Tudo", para me dar umas "luzes", uma explicação simples e prática, sobre o esquema da lanterna Petromax (modelo ~500 CP / Velas) (o topo de gama, no meu tempo de menino & moço). Aqui vão umas dicas.


2.1. Resumo dos nomes das peças (o que está apontado no desenho, acima)

  • Teto: a tampinha superior que protege e ajuda a espalhar o calor.
  • Camisa: a estrutura/carcaça que envolve o corpo da lâmpada (e o vidro); protege o difusor e ajuda a circulação do ar.
  • Vaporizador/gerador: é onde onde o combustível líquido é aquecido e transformado em gás antes de chegar ao manto.
  • Manto (a peça pontilhada dentro): a "rede" cerâmica/tecida que brilha com luz intensa quando o gás queimado incandesce.
  • Bomba: o pistão manual que pressuriza o depósito (tanque); ao bombear, cria pressão para forçar o combustível através do vaporizador.
  • Válvula de controlo: regula a quantidade de combustível(ou gás, nas versões mais modernas) que vai para o vaporizador/manto: controla a intensidade da luz.
  • Depósito: o tanque que contém o combustível (querosene/parafina, conforme o modelo). 

 2.2. Como funciona (passos simples):


(i) abasteces o depósito com combustível apropriado;

(ii) pressionas (bombeias) o depósito com a bomba manual: isso cria pressão no tanque;

(iii) ao abrir a válvula de controlo, o combustível pressurizado é forçado para o vaporizador;

(iv) o vaporizador está quente (ou é pré-aquecido) e transforma o combustível líquido em vapor/gás;

(v) esse gás sobe para o manto, onde queima e faz o manto incandescente: é isso que produz a luz forte característica;

(vi) a camisa e o teto ajudam a controlar o fluxo de ar e a proteger o conjunto.

23. Dica sobre o termo “500 CP / Velas”

O “500 CP / Velas"  normalmente refere-se à intensidade luminosa aproximada (CP = candlepower / velas). 500 velas, quer dizer que é uma lanterna muito brilhante.

3. Cuidados importantes (segurança):

  • usa apenas o combustível recomendado pelo fabricante;
  • não enchas demais o depósito;
  • faz o pré-aquecimento do vaporizador conforme as instruções (muitos modelos exigem pré-aquecimento para vaporizar corretamente);
  • não toques no manto enquanto estiver quente, é frágil e queima;
  • manuseia a lanterna em local ventilado e mantém-na estável.

4. Conselhos de um veterano (se um dia tiveres ainda que voltar à guerra, noutra incarnação, e levar um Petromax, que pesa menos que um gerador):

  • não o acendas à noite, dentro da tenda ou da tua morança (se estiveres alojado num tabanca);
  • a luz atrai os mosquitos e os "snipers";
  • se tiveres insónias, pesadelos e outras coisas assim, é melhor beber uma golada de aguardente Doc Lourinhã para adormeceres ou então jogar às cartas às escuras;
  • aconselho a aguardente Doc Lourinhã, porque é nossa: o uísque é escocês; mas eu não sou chauvinista, nem racista, nem xenófobo, muito menos supremacista; 
  • sempre é melhor do que o Valum 10 ou o Xanax;
  • sempre é melhor do que levar com um balázio de um RPG "made in China";
  • mas bem melhor ainda é contratares uma bajuda para te catar,  enquanto adormeces;
  • sabes o que é "catar" ?;
  • um gajo no mato apanha muitos "parasitas;
  • "catar" é um ato altamente social, só próprio dos primatas; 
  • mas, por favor, nunca uses o Petromax;
  • mando-o para longe, para iluminar o perímetro do arame farpado;
  • se tiveres quatro, melhor, pões um cada canto do teu "quadrado"; 
  • em alternativa pede á empresa do Patricio Ribeiro para te instalar uns painéis solares.

Foi assim que os nossos "mandjores" ganharam as guerras das "campanhas de pacificação"...Com a estratégia do "quadrado". O capitão Tomé Pinto ficou célebre pela aplicação desta figura geométrica na guerra da Guine. Ainda hoje é  conhecido pelo capitão do quadrado. 

Raios me partam, às vezes assim sonho com os bigodes farfalhudos do Capitão-Diabo que conquistou o Óio em 1915 e não tinha Petromax. Muito menos painéis solares. 
____________

Nota do editor LG:

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27507: Tabanca dos Emiratos (17): Prova de vida renovada (Jorge Araújo)








Seixal  > Corroios  > Alto do Moinho > Pavilhão Gimnodesportivo Municipal do Alto do Moinho > 18 de outubro de 2025 > Sessão de lançamento do livro de Jorge Alves Araújo sobre a história dos  50 Anos do Centro Cultural e Recreativo do Alto do Moinho (1975 - 2025), 2º volume

Fotos (e legendas): © Jorge Araújo (2025). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].





Jorge Araújo, ex-fur mil op esp / ranger, CART 3494 / BART 3873 (Xime e Mansambo, 1972/1974); a viver há uns anos entre Almada e Abu Dhabi, Emiratos Árabes Unidos; e é um dos nossos coeditores; como autor, tem 345 referências no nosso blogue; anima várias séries: "Tabanca dos Emiratos", "Memórias cruzadas...", "(D)o outro lado combate"...


I. Mensagem do Jorge Araújo:

Data - domingo, 16/11/2025, 16:52
Assunto - Prova de vida renovada


Caro Luís, boa tarde, desde as Arábias (aqui são mais 4 horas).

Antes de mais, esperamos que estejas bem, ao mesmo tempo que agradeço, em particular, a tua mensagem de parabéns.

1 - Como deixei expresso no espaço reservado a "comentários", nesse fim-de-semana viajamos até Doha, no Qatar, que durou 50 minutos, com o objectivo de romper com as rotinas negativas e/ou cansativas, para usufruir, o melhor possível, de outras ofertas culturais de um país que nos está próximo.

Aqui procurámos gerir a estadia de 3 dias, andando percursos a pé, de metro e de táxi, conforme os locais e os objectivos das visitas.

Mas o ponto alto da viagem era, e foi, a de comemorar uma efeméride, ou seja, a comemoração das minhas setenta e cinco "primaveras" (no Outono)... ainda faltam mais vinte e cinco para o centenário.

2 - Uma vez que possuo algumas dezenas de imagens, como seria natural, peço-te que me digas quantas devo incluir em cada uma das partes? Ou apenas uma só reportagem?

3 - Quanto à minha fraca participação no fórum, ela tem sido influenciada pelas sucessivas mudanças de actividades, algumas delas bastante problemáticas, onde se incluem as ocupações profissionais dos mais jovens, ao facto da minha filha ter ficado viúva, e de outros factos de pequenos/grandes detalhes que o destino faz questão de nos presentear. 

Não estou a desculpar-me, mas a situação de andar aos "saltos" de um lado para outro (Almada-Abu Dhabi-Almada) não ajuda.

4 - Acresce referir que, em função de me ter voluntariado para escrever, e editar, a história dos «50 Anos do Centro Cultural e Recreativo do Alto do Moinho» (P-24254, de 26.04.2023), que será constituído por cinco volumes, um por cada década, só no passado mês de Abril me foi comunicada a aprovação do patrocínio do 2º. Volume (década 1985-1995). 

Este atraso obrigou-me a ficar retido em Portugal, para acompanhar a respectiva composição de 320 páginas até ao seu lançamento, que ocorreu em 18 de Outubro último, com voo agendado para o dia 21.


Qatar> Doha : Museu Nacional > Um candeeiro tipo petromax


5. Pelo exposto, sugiro a seguinte metodologia de publicação:

(i) Reportagem sobre a publicação do 2º livro;

(ii) Tema - Petromax, na sequência dos P-27384 e P-27425, pois encontrei vários exemplares no Museu Nacional do Qatar, em Doha, mas estes eléctricos (com lâmpada);

(iii) Retrospectiva temática da viagem.

Aguardo um feedback sobre a proposta acima.

Agora vou anexar algumas fotos do ponto (i) para selecionar, e do petromax, a enquadrar na visita ao Museu Nacional.

Boa semana e até breve.
Um abraço.
Jorge Araújo e Maria João.


II. Resposta do editor LG:

Data - domingo, 16/11/2025, 22:22

Jorge (e Maria João): Folgo em ter notícias vossas. Ao fim de bastante tempo, e com mares (e guerras) a  separar-nos nem tudo o que me contas são coisas boas. A morte do teu genro (ainda novo, presumo) abalou a família, e sobretudo a tua filha (que deve ter filhos, teus netos).

Já todos passámos por diversos "lutos". A minha mulher, por exemplo, ainda não ultrapassou a perda da sua irmã mais querida, e já lá vão dois anos e meio. A vida nunca mais é como dantes,
quando a morte bate à nossa porta.

Mas temos de tratar dos vivos e fingir que somos... "imortais". Por isso, tu é que vais definir
as tuas prioridades (em relação ao blogue). E, se quiseres mandar-nos colaboração (que será sempre desejada e bem vinda), segue a tua "bússola" e o teu "mapa de navegação".

Mandas as fotos que entenderes (com boa resolução, como estas que anexas), de preferência com 0,5 MB ou superior. Não edites nada em pdf, dá-te uma trabalheira a ti e a mim. Prefiro que mandes o texto em word. As imagens, numeradas (com as legendas) no texto, devem vir em anexo, como estas que mandaste por mail. Desde que tenham  legendas (incluindo local e data), eu oriento-me. E depois edito, texto e fotos...

Carpe diem. E parabéns pelos 75 anos "resilientes".  Chicorações para os dois. Luís
_________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 4 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26552: Tabanca dos Emiratos (16): Visita nas férias de Natal ao antigo Ceilão, a Taprobana de "Os Lusíadas", hoje Sri Lanka (Jorge Araújo) - Parte IV

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Guiné 63/74 – P5166: Histórias do Jero (José Eduardo Oliveira) (19): Um dia calha a todos: - O parvo de serviço foi o enfermeiro!


1. O nosso Camarada José Eduardo Reis de Oliveira (JERO), foi Fur Mil da CCAÇ 675 (Binta, 1964/65), enviou-nos a sua 19ª história, com data de 25 de Outubro de 2009:

UM DIA CALHA A TODOS: - O PARVO DE SERVIÇO FOI O ENFERMEIRO!

BINTA, 13 de Setembro de 1964

«No dia 13, domingo, içar da bandeira e uma manhã calma para escrever à família. À tarde, um desafio de futebol para “desenferrujar”os músculos – a semana tinha sido de trabalho duro, mas para dar uns pontapés na bola arranjam-se sempre 22 “artistas” –.

Depois da bola mais umas horas para uma sesta merecida. À noite, quase todo o pessoal se foi deitar cedo pois havia “trabalho” para as primeiras horas da manhã.

Mas houve “alguém” que quis proporcionar um final mais “animado” a esse domingo especial – fazia 4 meses que tínhamos chegado a terras da Guiné – e organizou uma “soirée”, embora um pouco tardia, que nos fez levantar a todos da cama.

Seriam umas 23:00 horas, quando, de várias direcções, o Estacionamento começou a ser flagelado com rajadas de pistola-metralhadora e espingarda.

A reacção das sentinelas foi rápida, principalmente do terceiro e quarto postos, e momentos depois todo o dispositivo de defesa estava organizado, embora houvesse, como é natural, à mistura com a surpresa, alguns momentos de precipitação principalmente dos elementos que se encontravam ainda a pé, escrevendo ou conversando.

Minutos depois”todo o mundo” desfrutava com muito mais à vontade a “sessão extraordinária” que o inimigo nos tinha vindo “dedicar”, possivelmente como represália à nossa acção em Santancoto e ninguém se dignava responder ao fogo inimigo que, passado o rompante inicial, nos ia flagelando com tiros de pistola isolados.

O ”espectáculo” durou até cerca da 1h30, terminando com o incêndio de algumas moranças abandonadas a cerca de 1 km de Binta, que o inimigo houve por bem destruir para assinalar a sua retirada.

Algumas morteiradas bem dirigidas apressaram-lhes o passo e tiraram-lhes a vontade de fazer mais «fogueiras».Reforçam-se os postos de sentinela.

Depois de alguns minutos de conversa e de umas piadas àqueles que, no início do ataque, tinham vistos rajadas “levantar”o pó do chão e inimigos, em cima de árvores, já dentro do estacionamento, toda a gente se foi deitar e recomeçar o sono interrompido.

“Alguém” iria pagar estas horas de sono que tínhamos perdido...

Hoje, dia 14, dois grupos de combate bateram as imediações do quartel encontrando diferentes tipos de invólucros, e localizando as duas principais posições de fogo do inimigo, que se situavam de 300 a 500 metros do estacionamento .

Pelos rastos encontrados avaliou-se o grupo atacante entre 40 a 50 indivíduos, convergindo todos os vestígios de retirada em direcção da estrada de Bigene, que confirma a ideia inicial de que a flagelação de Binta foi como represália à nossa acção na região de Santancoto.

Não se esperava que os “Santancotenses»fossem tão susceptíveis nos seus brios e chega-se à conclusão que eles afinal não sabem bem com quem estão metidos...

É possível que em breve o saibam!!!
Durante o dia souberam-se mais umas histórias pitorescas que se registaram, a quando do início do ataque, salientando-se uma cena movimentada na Sala dos Sargentos.

Naquela sala, onde ainda havia luz e se conversava amenamente, houve uma certa atrapalhação a quando dos primeiros tiros de que resultaram um “petromax” partido, uma passagem apressada por baixo de uma mesa e uma porta arrombada a caminho de uma saída mais segura pela sala dos telegrafistas.

Houve ainda alguém que disse que “eles estão a atacar em massa e já estão cá dentro”, mas parece que tudo isto não chegou a passar de boato...».

Enfim... o velho problema de quem tem um buraco ao fundo das costas...!

Quarenta e tal anos depois!

À distância no tempo confesso ter tido um grande cagaço... na longínqua noite de 13 de Setembro de 1964.

Mastigando as recordações dessa noite diferente da minha vida tento encontrar explicações para a dimensão do dito (o cagaço) pois já não éramos propriamente «maçaricos» na Guiné... quando aconteceu o ataque a Binta.

A surpresa de um ataque «a nossa casa» é no entanto um pouco diferente de uma emboscada no mato onde se sabe que, de um momento para o outro, podem (podiam) acontecer tiros e confusões.

O ataque ao quartel surpreendeu-nos...

A hora era tardia e ninguém estava a pensar em «guerras».

Jogava-se o «King» na Sala dos Sargentos e eu até tinha uma «boa mão»...
De repente rajadas de pistola-metralhadora e tiros de espingarda.

Tá, tá, tá, tá, tá,boum, boum...
Pum,pum, pum...
Tá, tá, tá, tá...

É (foi) uma sensação do caraças!

Mas que porra é esta!!!

Os tiros pareciam que nos estavam a passar a centímetros da cabeça.

Lembro-me que nos levantámos que nem um tiro – passe a expressão – e ala lá pra fora mas... pela porta dos telegrafistas.

Para perceber melhor o que aconteceu há que explicar que, de facto, o medo dá asas mas não nos transforma em passarinhos...

Estávamos numa sala que tinha duas saídas.Uma para o lado donde vinham os tiros e outro pró outro lado.

O lado bom.

Está claro que foi esta saída que escolhemos.

Havia bidões de protecção (bidões cheios de terra) do lado donde vinham os tiros mas ninguém teve a «lembrança» – ia dizer a «coragem» - de sair por esse lado.

O efeito chicotada –o tiro a passar na vertical da cabeça de um indivíduo – é de facto uma sensação... do caraças.
Isto... para não usar o português «vernáculo» que nessa altura usámos e abusámos amiudadas vezes...

Parece (parecia) que dizer asneiras espantava –um pouco – o medo!

A «boa mão» do «King» não deu para apagar o petromax...

Atrasei-me um pouco na saída para «o lado bom» e só consegui apagar a luz quando parti o petromax contra o chão.

Não foi um acto heróico mas... foi o que se pôde arranjar na altura.

Os meus camaradas do «King» já tinham entretanto arrombado a porta para saída do lado bom – a sala dos telegrafistas – que, além dos tiros, gramaram com uma cavalgada pelas suas instalações de uns quatro(ou cinco) furriéis que lhes devem ter parecido – salvo as devidas proporções - uma manada de búfalos a fugir de leões.

3Leva mais tempo a contar do que o tempo que levou a saída... para o lado bom.
Depois agarra-se uma arma, dá-se uns tiros do nosso lado para o lado dos «maus» e logo tudo muda de figura...

O nó no estômago atenua-se.Lembro-me ainda de no dia seguinte – eu e os meus companheiros do «King»» – termos descoberto telhas partidas por cima da sala de «Sargentos».

Foram estragos causados pelos tais tiros que nos tinham parecido ter passado a rasar as nossas cabeças...

Afinal tinham passado dois metros acima!

Mas o tal efeito da «chicotada» é de facto... do caraças.

Tá, tá, tá, tá, tá, boum, boum...
Pum, pum, pum...
Tá, tá, tá, tá...

Ainda hoje me lembro. Dos sons e... da minha «boa mão» do «King» que... tremia comó caraças.

Oh Oliveira apaga o «petromax»!

Tá bem, pá. É já a seguir.

Toma... contra o chão.

E... apagou-se a luz!!!

Da-se!!!

Um abraço,
JERO
Fur Mil Enf da CCAÇ 675

Fotos: José Eduardo Oliveira (2009). Direitos reservados.
___________
Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Guiné 63/74 - P16495: Notas de leitura (880): "Os Cus de Judas", por António Lobo Antunes (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Setembro de 2015:

Queridos amigos,
Aqui se põe termo a esta narrativa que foi tão galvanizante, é tão reconhecida a sua importância que até ao ano passado já tinha conhecido 33 edições, em Portugal, narrativa autobiográfica, há para ali dores que não se apagam, embaraços na alma que não encontram ancoradouro como Lobo Antunes em determinada altura escreve: 

"Flutuo entre dois continentes que me repelem" ou "O medo de voltar ao meu país comprime-me o esófago, porque estive longe demais, tempo demais para pertencer aqui".

E por fim: 

"O avião que nos traz a Lisboa transporta consigo uma carga de fantasmas que lentamente se materializam, oficiais e soldados amarelos de paludismo, atarraxados nos assentos, de pupilas ocas, observando pela janela um espaço sem cor, de útero, do céu".

E tudo termina assim: 

"E separámo-nos em cinco minutos, um aperto de mão, uma palmada nas costas, e eis que as pessoas desaparecem, vergadas ao peso da bagagem, pela porta de armas, evaporadas num redemoinho civil da cidade".

Temos aqui obra-prima no top da nossa literatura de guerra.

Um abraço do
Mário


Os Cus de Judas (2), por António Lobo Antunes

Beja Santos

Estamos num bar, as horas escorrem sossegadas, o narrador beberrica e tem por assistência uma mulher que nunca será definida. Em certos momentos, sobrelevando a exaltação pela soma de tantos silêncios, pelo absurdo de tantos corpos cozidos ou metidos em urnas, como que num relâmpago de ternura iluminam-se episódios como o do nascimento da primeira filha, Lobo Antunes nunca nos iludiu com a vertigem autobiográfica:

“Eu tinha-me casado, sabe como é, quatro meses antes de embarcar, em Agosto, numa tarde de sol a que o som do órgão, as flores nos altares e as lágrimas da família emprestavam um não sei quê de filme de Buñuel enternecido e suave, depois de breves encontros de fim de semana em que fazíamos amor numa raiva de urgência, e despedimo-nos sob a chuva, no cais, de olhos secos, presos um ao outro num abraço de órfãos. E agora, a 10 mil quilómetros de mim, a minha filha, massa do meu esperma, a cujo crescimento de toupeira sob a pele do ventre eu não assistira, irrompia de súbito no cubículo das transmissões, entre recortes de revistas e calendários de atrizes nuas”.

Mas o que pesa, o que domina toda a narrativa anda pela agonia da espera, como o autor verbera:

“A lenta, aflita, torturante agonia da espera, a espera dos meses, a espera das minas na picada, a espera do paludismo, a espera do cada vez mais improvável regresso, a espera do jipe da Pide que semanalmente passava a caminho dos informadores da fronteira, trazendo consigo três ou quatro prisioneiros que abriam a própria cova, se encolhiam lá dentro, fechavam os olhos com força, e amoleciam depois da bala como um suflé se abate, de flor vermelha de sangue a crescer as pétalas na testa”.

E há as descrições, por vezes alucinantes, como aquele louco na mata, é um horrível epitáfio do colonialismo. Ainda não chegou a manhã, o narrador e a sua ouvinte mantêm de pé todo este monólogo plangente, e o autor grita:

“Foda-se, vim para aqui porque me expulsaram do meu país a bordo de um navio cheio de tropas desde o porão à ponte e me aprisionaram em três voltas de arame cercadas de minas e de guerra, me reduziram às garrafas de oxigénio das cartas da família e das fotografias da filha, Angola era um retângulo cor-de-rosa no mapa da instrução primária, freiras pretas a sorrirem no calendário das Missões, mulheres de argolas no nariz, Mouzinho de Albuquerque e hipopótamos. Um amigo negro da Faculdade levou-me um dia ao seu quarto no Arco do Cego, e mostrou-me o retrato de uma velha esquelética, em cujo rosto se adivinhavam gerações e gerações de petrificada revolta: 
- É a nossa Guernica. Queria que a visses antes de me vir embora porque me chamaram na tropa e fujo amanhã para a Tanzânia”.

Recordações é o que não falta neste relato vivo mas atribulado, amor por empréstimo, a peste da solidão. As horas passam, a ouvinte seguiu o narrador até à sua casa, despem-se e toda aquela dor sufocante que ele traz desde Angola assoma com carga poética, é uma intocável lembrança:  

“Mangando, Marimbanguengo, Bimbe e Caputo: em Mangando e Marimbanguengo a tropa estacionada tiritava de paludismo e de aflição, soldados seminus cambaleavam no calor insuportável da caserna, que o relento do suor e dos corpos por lavar entontecia como os hálitos nauseabundos dos cadáveres, se nos inclinarmos para eles à espera das tristes palavras apodrecidas que os mortos legam as vivos num borbulhar de sílabas informes. Em Mangando e Marimbanguengo, vi a miséria e a maldade da guerra, a inutilidade da guerra nos olhos de pássaros feridos dos militares, no seu desencorajamento e no seu abandono, o alferes em calções, espojado pela mesa, cães vadios a lamberem restos na parada, a bandeira pendente do seu mastro idêntica a um pénis sem força, vi homens de 20 anos sentados à sombra, em silêncio, como os velhos nos parques, e disse ao furriel enfermeiro, que desinfetava o joelho com tintura, É impossível que um dia destes não tenhamos por aqui uma merdósia qualquer, porque, sabe como é, quando homens de 20 anos se sentam assim à sombra, num tão completo desamparo, algo de inesperado, e estranho, e trágico acontece sempre, até que me vieram informar do rádio: Um tipo deu um tiro em Mangando”.

E esta vibração poética atinge aqui o seu auge:

“Penso que quando eu morrer a África colonial voltará ao meu encontro, e procurarei em vão os negros da sanzala ao longe, a manga da pista de aviação acenando escarninhamente para ninguém. De novo será noite e apear-me-ei do Unimog a caminho do posto de socorros, onde o tipo sem rosto agoniza, aclarado pelo petromax que um cabo segura à altura da cabeça e contra o qual os insetos se desafazem num ruidozinho quitinoso de torresmos. O tipo sem rosto agoniza numa agitação incontornável, amarrado à marquesa de ferro que oscila, e vibra, e parece desfazer-se a cada um dos seus sacões. As ampolas de morfina sucessivamente injetadas no deltóide parecem esporear cada vez mais o corpo amarrado que se rebola e torce, e o petromax múltipla nas paredes em sombras que confluem, se sobrepõem e se afastam, formando uma dança frenética de manchas na geometria suja do estuque. Apetece-me abrir a porta de golpe, abandoná-lo, sair dali, tropeçar ao acaso, sentar-me nos degraus de uma velha casa de colono, de mãos no queixo, vazio de indignação. Os grilos de Mangando enchem a noite de ruídos, um dilatado e suave som contínuo sobe a terra e canta, as árvores, os arbustos, a miraculosa flora de África solta-se do chão e flutua, livre, na atmosfera espessa de vibrações e de cicios, o tipo amarrado à marquesa agoniza a um metro de mim, e queria estar a 13 mil quilómetros dali, a vigiar o sono da minha filha nos panos do seu berço.

Mangando, Marimbanguengo, Bimbe e Caputo: o sujeito imobilizou-se por fim num estremeção derradeiro, o que restava da garanta cessou o seu borbulhar ansioso, o cabo do petromax deixou pender o braço e as sombras estenderam-se no soalho, subitamente imóveis. Ficámos muito tempo a contemplar o cadáver agora em sossego, as mãos molemente cavadas sobre as coxas, as botas que se afiguravam dilatadas de um recheio de palha, quietas na placa de ferro branco, mal pintada, da marquesa. O pequeno grupo apinhado dissolveu-se devagar num murmúrio indistinto, e eu dava o cu para estar longe dali, longe do gajo morto que mudamente me acusava, longe das ampolas de morfina que se amontoavam, vazias, no balde pensos”.

A comissão caminha para o fim e começa a tripa-forra dos disparates, como em todas as guerras que vivemos:

“Trazíamos 25 meses de guerra nas tripas, de violência insensata e imbecil nas tripas, de modo que nos divertíamos mordendo-nos como os animais se mordem nos seus jogos, nos ameaçávamos com as pistolas, nos insultávamos, furibundos, numa raiva invejosa de cães, misturávamos comprimidos para dormir no uísque da Manutenção e circulávamos a cambalear pela parada, entoando em coro obscenidades de colégio”.

É raro um escritor lançar-se primigenamente junto do público com tão palpitante escrita, já se anunciavam aqui as suas obras-primas.
____________

Nota do editor

Último poste da série de 12 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16476: Notas de leitura (879): Os Cus de Judas, por António Lobo Antunes (1) (Mário Beja Santos)

sábado, 8 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27401: A nossa guerra... a Petromax (3): Ponate, mais um sítio desgraçado: ficava a 13 km, a noroeste de Bula (Armando Teixeira da Silva, 1944-2018)


Foto nº1 > Guiné > Zona Oeste > Região de Cacheu > Sector O1 > Bula > Ponate >  CCAÇ 1498 (Ponate e Bula, 1966/67) > Um destacamento a que a malta do 2º Pelotão (+) da CCAÇ 1498 chamou, com graça, "Hotel Bandido de Ponate"


Foto  n º 2 >  Guiné > Zona Oeste > Região de Cacheu > Sector O1 > Bula > Ponate > CCAÇ 1498 (Ponate e Bula, 1966/67)>  Uma magnífica foto > Abrindo um abrigo subterrâneo para ase protegere:  Armando Teixeira da Silva está ao meio com a pá: de óculos, ao meio, em terceiro plano, o alf mil José Jorge Melo, açoriano de São Miguel.


 
Foto  n º 3 >  Guiné > Zona Oeste > Região de Cacheu > Sector O1 > Bula > Ponate > CCAÇ 1498 (Ponate e Bula, 1966/67)>  Panorama geral do destacamento. Ou um acampamento do Faroeste ? Se


Fig n º 4 >  Guiné > Zona Oeste > Região de Cacheu > Sector O1 > Bula > Ponate > CCAÇ 1498 (Ponate e Bula, 1966/67) > O Armando Teixeira da Silva num  monento de lazeer. Mobiliário feito com as aduelas dos barris de vinho.


Fig n º 5 >  Guiné > Zona Oeste > Região de Cacheu > Sector O1 > Bula > Ponate > CCAÇ 1498 (Ponate e Bula, 1966/67)>  Um Armando Teixeira da Silcva, "arranjando uns petiscos. "Tudo que vinha á rede era peixe"...

Fotos (e legendas): © Armando Teixeira da Silva  (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 


Guiné > Zona Oeste > Região de Cacheu > Carta de Bula (1953) (Escala de 1/50 mil) > Posição relativa de Bula e Ponate, na margem esquerda do rio Cacheu

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. Havia imensos sítios desgraçados na Guiné... Ponate, a noroeste de Bula, era um deles... Pouco ou nada se ouve falar deste topónimo... Temos meia dúzia de referências. As NT chegaram a ter lá um destacamento. Até 6/12/1966. Tosco. Improvisado. Miserável. Teve uma vida breve na nossa guerra... Foi retirado e armadilhado 

 Reveja-se aqui o texto, de 2015 (*),  do nosso camarada Armando Teixeira da Silva (1944-2018), que morreria três anos depois:  ex-sold at inf,  CCAÇ 1498/BCAÇ 1876 (Có, Jolmete, Bula, Binar e Ponate, 1965/67); era natural de Oliveira de Azeméis mas vivia na Feira:


 Ponate, mais um sítio desgraçado: ficava a 13 km, a noroeste de Bula 

por Armando Teixeira da Silva (1944-2018)


Armando Teixeira da Silva
(1944-2018)
Quis o destino que um conjunto de 48 atónitos periquitos, um pelotão reforçado, da CCAÇ 1498, acabadinha de desembarcar, comparecesse em Ponate a fim de render tropas do BCAV 790 que estavam em mudança para o quartel de Pelundo. 

A CCAÇ 1498  (-) ficou em Có, com o 2º pelotão (+) em Ponate e o 3º pelotão (+) em Jolmete
e uma secção em Pelundo.

Assim, após um dia inteiro de marcha, em que as surpresas se sucediam a cada instante, surgiu, imperceptível, numa área desmatada, um lastimável aquartelamento nunca antes imaginado.

Passado o cavalo-de-frisa, depararam com a mais humilhante miséria:
  • um casebre construído em adobes de argamassa, coberto a chapa zincada, para alojamento de pessoal, sem distinção de postos ou classes;
  • duas barracas, em colmo, a servirem de cozinha e refeitório;
  • três atalaias, a cinco a seis metros acima do solo, com sentinelas cercadas por bidões de gasolina;
  • quatro paliçadas em cibes carcomidos sitiavam toda a desgraça.

– Aonde é que nos viemos meter?

Se estavam atónitos à chegada, estarrecidos ficaram quando o sol se escondeu!

A iluminação era a petróleo: candeeiros Petromax em redor do arame farpado e mechas de gaze de em gargalos de garrafas, na caserna, cozinha e refeitório. No resto, a escuridão era absoluta.

Equipamentos destinados a cuidados de higiene? Nenhuns!...Nada que pudesse garantir saúde, bem-estar físico e mental, de modo a evitar doenças. Em vez de latrinas abriam-se valas, fora do arame farpado, e em vez de duches existiam selhas feitas de barris de vinho, serrados ao meio.

O estado das coisas motivou um lamento:

 – Tratam-nos como bandoleiros. 

A frase inspirou a criação de uma tabuleta para colocar, logo nesse dia, à entrada do principal cavalo-de-frisa: “HOTEL BANDIDO DE PONATE”.

Mas o pior ainda era a falta de água. A privação deste precioso líquido sujeitava o pessoal a riscos diários, em deslocações a Bula, percorrendo 13 Km, em cada sentido, com uma cisterna de 1000 litros atrelada.

Ocupando uma área com cerca de 3000 m2 e sem população à vista, o quartel situava-se nas proximidades da mata de Jol, não muito distante da assombrosa bolanha de Nhaga.

A missão do seu reduzido efectivo consistia em assegurar liberdade de acção entre Bula e o Cais de São Vicente, na margem Sul do rio Cacheu, mantendo-se ao corrente de todos os acontecimentos e em total ligação com o comando do sector.

A segurança das instalações era inquietante: Refúgios ou abrigos, praticamente nem existiam e as paliçadas dificilmente aguentariam um simples ataque. Daí elaborarem um plano de obras a executar em duas fases:

(i) construção de 3 refúgios subterrâneos, bem como um conjunto de chuveiros e latrina, sem dispensar a reconstrução de todas as paliçadas;

(ii) edificação de uma “casinhota”, em blocos de cimento, para instalação de um gerador eléctrico (nada serviu esta edificação, porquanto, embora prometido, o gerador jamais ali apareceu).

Estas obras realizavam-se sem prejuízo das atividades a desenvolver além do arame farpado, ou seja: 
  • escoltas diárias à cisterna da água, 
  • patrulhamentos diurnos e/ou nocturnos, 
  • inspecções às tabancas e consequentes controlos da população indígena, 
  • reconhecimento de trilhos e caminhos, e de quando em vez, 
  • montagem de emboscadas.

E como se já não bastasse, ainda ajudavam companhias de intervenção, em operações na confinante e arriscada mata do Jol. Isto é: em Ponate, a missão, além de perigosa, era árdua e difícil.

Até dentro do arame farpado a situação era delicada, sobretudo, pela indigência das instalações e das privações de toda a espécie, no mesmo alimentares. Apesar de tudo lá iam sobrevivendo.

Até que, inesperadamente, uma mensagem, recebida no ANGRC 9, melhora-lhes as expetativas. Bula comunicava-lhes o fim da sua presença em Ponate. O primeiro a saltar, de contentamento, foi o radiotelegrafista. Outra coisa, porém, ainda estava para vir.

Continuando a tradução da mensagem concluíra-se que o próprio quartel, simultaneamente, desapareceria do mapa. Jamais uma mensagem fora tão marcante. Acontecimento para comemorarem de modo muito especial - emborcando cerveja até o stock se esgotar.

Assim, abruptamente, extinguiu-se o quartel de Ponate. Decisão que os maiorais tomaram quando perceberam, a meu ver tardiamente, a evidência dos perigos a que as tropas estavam sujeitas e as condições deploráveis (porventura infra-humanas) em que se encontravam. A mensagem surgiu-lhes ao cair da noite, todavia, a vontade de mudarem de ares era tanta que se dispensaram de dormir. Puseram mãos à obra e foi até ser dia.

Entretanto, já o sol raiava, vêem chegar camaradas especialistas em minas e armadilhas, transportando engenhos explosivos para armadilhar os pontos mais susceptíveis, na expectativa de o IN os virem a despoletar.

Por fim, com as viaturas a abarrotar a seu lado, percorreram, a pé, os 13 Km que os distanciava de Bula, em cujo quartel já tinham missão determinada.

A história da guerra considerá-los-á os derradeiros sobreviventes de Ponate. O calendário assinalava, então, 4 de dezembro/1966. Entretanto a guerra duraria mais sete anos e meio.

Ao que sabemos, jamais outro qualquer quartel ali foi edificado. Naquele espaço de tempo – superior a 10 meses – houve:

  • minas que os feriram,
  •  emboscadas que os massacraram, 
  • bolanhas que os inundaram,
  •  picadas que muito os agastaram, 
  • trilhos e caminhos que os emaranharam,
  • tempestades que os atemorizaram. 
Todavia, também houve, em abono da verdade, momentos aprazíveis, de amizade e júbilo, que muito os distraíram e estimularam. (...)

Armando Teixeira da Silva
ex-Soldado Atirador
CCAÇ 1498/BCAÇ 1876
(Ponate e Bula, 1966/67)

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 24 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14518: Memória dos lugares (290): Os derradeiros sobreviventes de Ponate (Armando Teixeira da Silva)