terça-feira, 5 de maio de 2015

Guiné 63/74 - P14572: A minha guerra a petróleo (ex-Cap Art Pereira da Costa) (13): Uma da nossa Intendência

 

1. Em mensagem do dia 28 de Abril de 2015, o nosso camarada António José Pereira da Costa (Coronel de Art.ª Ref, ex-Alferes de Art.ª na CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69; ex-Capitão de Art.ª e CMDT das CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, e CART 3567, Mansabá, 1972/74), enviou-nos mais um texto para publicarmos na sua série "A minha guerra a petróleo:



A MINHA GUERRA A PETRÓLEO

13 - Uma da Nossa Intendência

Vou contar esta história tal como me foi contada no longínquo ano de 1968. Não tive possibilidade de verificar se foi assim que tudo se passou, embora tivesse sido contemporâneo, em Cacine, da CART 1659. Por isso corro o risco de exagerar um ou outro pormenor ou, talvez pelo contrário, de deixar para trás algo que foi importante.

A CArt ocupava Gadamael e era comandada pelo Cap. Mil.º Art.ª Mansilha, advogado de profissão, mas que, pelas vicissitudes a tantos outros sucedidas, ali fora parar. Nesse tempo a Intendência fornecia vinho às unidades em dois tipos de embalagens: barris de 50 litros ou garrafões de vidro – transparentes, para o branco, e verdes-escuros, para o tinto – com 10 litros de capacidade, rolhados com uma tampa de plástico, e protegidos por uma espécie de grandes aparas de madeira muito fina e ligadas por arames. Depois de vazios, estes invólucros não eram devolvidos e, por isso, eram frequentemente usados em funções decorativas. Os barris, desmontados e devidamente serradas as suas aduelas, serviam para a construção de pequenas mesas, cadeiras (por vezes de braços), bancos e outros “móveis” que embelezavam e tornavam mais cómodas as “salas de convívio”, “quartos”, “refeitórios”, etc.. Aos garrafões estava consignado um papel mais decorativo, especialmente aos transparentes que, depois de pintados por dentro, serviam de jarrões com pinturas “modernistas”. Quer uns, quer outros, podiam depois receber na estreita boca, folhas de palmeira ou outros arranjos de flores secas e constituir motivos de decoração. A técnica de pintura era, como é de calcular improvisadamente engenhosa. As tintas eram cuidadosamente introduzidas na boca do garrafão e ficavam a escorrer lentamente na parede interior deste e, consoante a posição em que o garrafão fosse posto, surgia uma decoração a várias cores e com formatos que o “pintor” não controlava, mas que lhe permitia obter um efeito muito original.

Ao que parece o vinho de garrafão era debitado a um preço mais elevado que o do barril, mas tenho para mim que a qualidade de ambos os produtos se equivalia e não era possível detectar pelo paladar a embalagem de origem do néctar em apreço.
Por razões que não consegui determinar a CArt 1659 não consumia vinho de barril.

Era frequente surgirem pequenas falcatruas com o vinho durante o transporte, muitas vezes só detectáveis já no momento da distribuição. Quem observasse o interior de um pipo podia, às vezes encontrar pequenos pauzitos, espécie de palitos, cravados em locais “estratégicos” entre as aduelas dos barris que tinham permitido a saída de algum líquido para uma ou outra garganta mais sequiosa.

A violação dos garrafões era mais difícil. Só pela cápsula de plástico que cobria a rolha e uma boa parte do gargalo. Era, porém possível abri-lo, consumi-lo na totalidade e voltar a rolhá-lo com engenho e entregá-lo como genuíno chá de parreira. Era uma técnica mais difícil de aplicar e daí talvez a opção de fornecimento da unidade de Gadamael/Ganturé.

Porém, um dia aconteceu o impensável. Alguns garrafões apareceram rigorosamente atestados… de água. Que fazer neste caso? Havia a possibilidade de se realizar um auto que já não seria de recepção e que, portanto, a Intendência dificilmente aprovaria. No fundo, era a palavra da Unidade contra a do Órgão Logístico distribuidor, cuja palavra, à partida, faria fé.

Mas a CArt não terá seguido apenas esse caminho.
O capitão Mansilha ordenou o envio dos garrafões com a água para a delegação do Laboratório Militar, em Bissau, pedindo uma análise ao respectivo conteúdo. O laboratório, não sabendo a origem do produto remetido, deverá ter pensado que se tratava de água proveniente de alguma fonte ou poço situado na zona de acção da companhia e, pouco tempo depois, respondeu que se tratava de água imprópria para consumo e com matérias orgânicas pútridas em suspensão.

O capitão Mansilha escrevia bem, ou não fosse advogado, e redigiu uma nota a reclamar junto da Intendência contra o fornecimento que esta fizera, nomeadamente informando que o estômago do seu pessoal não era propriamente um tubo de ensaio.
Claro que a “insolência” teve resposta através da ameaça de que, se se voltasse a repetir uma situação idêntica, seria dado conhecimento superior, para o correspondente procedimento disciplinar.

De novo a clarividência e a argúcia do advogado brilhou com uma resposta que, em linhas gerais, podemos sintetizar assim:
- Não há necessidade de incómodo para apresentação do assunto a instâncias superiores pois, da próxima vez – se tal se verificar – será a própria companhia que o fará.

Volto a dizer que não tenho qualquer elemento que me prove que as coisas se passaram exactamente assim. Todavia, algo de parecido terá sucedido, uma vez que o “Jornal da Caserna” publicação satírica que se publica em todas as guerras e mais ainda nas “guerras a petróleo”, registou o evento, o que dá um certo fundamento à notícia que nunca terá chegado a ser uma informação de boa classificação.

Mem-Martins 28 de Abril de 2015
JAPC
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Nota do editor

Último poste da série de 13 de agosto de 2014 > Guiné 63/74 - P13493: A minha guerra a petróleo (ex-Cap Art Pereira da Costa) (12): Como vejo o 10 de Agosto de 1972

7 comentários:

Luís Graça disse...

Há aqui uma referência ao cap mil art Manuel Francisco Fernandes de Mansilha, cmdt da CART 1659...

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2013/12/guine-6374-p12412-tabanca-grande-413.html

Recordo que o nosso camarada Mário Gaspar pertenceu a essa companhia, os "Zorba". E provavelmente ele lembra-se desta história...

Independentemente dos detalhes, Tó Zé, a tua história é deliciosa e dá pano para mangas... Estou interessado em desenvolver o tema no nosso blogue...

Afinal, o vinho que nos chegava à mesa, no mato, era ou não uma variante do "vinho pró preto" ?... Até onde podia a fraude, a falsificação, as negociatas ?...

O mercado ultramarino teve um papel importante no escoamento da nossa produção vinícola... Recorde-se que havia, ao tempo da guerra colonial, um problema de excesso de produção e falta de qualidade...

Dizia-se que Salazar dizia que beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses...

O que em parte era verdade: antes do êxodo rural nos anos 60, a viticultura dava trabalho a um exército de mão de obra barata nas aldeias...

O trabalho na vinha ocupava muitos trabalhadores ao longo do ano... Recordo-me quando era puto de assistir à vinda de enormes ranchos de trabalhadores sazonais, para a minha zona (Lourinhã, Estremadura), na altura das vindimas... Eram os "ratinhos", vinham da Beira!... Tempos de miséria!...

Em resumo, seria interessante saber mais sobre o vinho que a Intendência nos dava... A tropa era um segmento de mercado precioso...

O que é que a malta sabe mais sobre isto ?

Anónimo disse...

Amigo e camrada Pereira da Costa:

Essa tua estória da água que nem Jesus Cristo quis transformar em vinho, não será do tempo dum celébre major, que não o major Alveja, grande democrata, que pela simpatia que tinha por todos os homens procurava distribuir água e vinho pelas duas duas partes em conflito.
Esses grandes humanistas, esses visionários que nunca viram inimigos, mas antes homens com quem se podia e devia falar cordialmente, até negociar, sem olhar à cor, ao credo e às convicções de cada um, são credores do nosso respeito e homenagem.
Devia haver estátuas deles em muitas praças das nossas cidades para perpetuar o seu exemplo, para que as gerações futuras possam crescer salutarmente, com modelos tão edificantes.
A Pátria ficarará sempre agradecida esses heróis!

Um grande abraço

Francisco Baptista

António J. P. Costa disse...

http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/EB018.pdf
Olá Camaradas
O Beja Santos pôs no ar o link acima sobre o tema do vinho para a África. Ficamos assim a saber o que é o "vinho para o preto". Não me parece que esse vinho seria o distribuído pela Intendência, pois a "malta" não ia muito com vinho "baptizado".
Sobre este tema que falem os vaguemestres e os fiéis de depósito de géneros, além dos que prestaram serviço nos depósitos da Intendência, aos diferentes níveis.
Um Ab.
António J. P. Costa

Mário Vitorino Gaspar disse...

Caros Camaradas

Fala-se no meu nome, e do Comandante da CART 1659 Capitão Miliciano de Infantaria (não de Artilharia como vem mencionado - no Arquivo Histórico-Militar, come-se o mesmo erro), sucede que respondi. Não entrei pela "porta do cavalo", mas existem 2 textos. Um deles antes da saída deste. Aguardo... Não avanço mais. Cometo só um pequeno pecado.
SITUAÇÕES DESTAS NÃO DEVERIAM EXISTIR.

Começou mal ao sair este texto.
Mário Vitorino Gaspar

Mário Vitorino Gaspar disse...

Eu, Mário Vitorino Gaspar, terminado o Curso de Minas e Armadilhas regressei ao Regimento de Artilharia de Costa (RAC), em Oeiras e foi-me entregue uma guia de marcha para me apresentar e frequentar uma “Escola Preparatória de Quadros no G.A.C.A. 2”, em Torres Novas. Em lugar disso fui para casa, passei o fim-de-semana e parti para o Entroncamento, desenfiado já com uns dois dias de atraso. Como estava farto de dormir em estações da CP, solicitei transporte. Um jeep apareceu, entrou um senhor gordo que se sentou no banco da frente, eu coloquei a minha mala e sentei-me. Quando cheguei ao quartel ouvi chamarem pelo meu nome. Como era já uma velha raposa na tropa conhecia muitos Cabos Milicianos, e ali estava um velho conhecido que me cumprimentou e disse que podia dormir na sua cama, porque estava de serviço. Deitei-me, e como era hábito não me levantava ao toque de alvorada, virava-me e dormia. O Cabo Miliciano amigo acordou-me referindo existirem graves problemas e que tinha de me apresentar no Comando. À minha frente estava aquele gordo, que se identificou como comandante do G.A.C.A. 2. Perguntou logo quem era eu na tropa para requisitar uma viatura ao Exército, respondi ter direitos, o que não convencia ninguém, nem eu me convencia que resultasse a resposta. O Senhor Comandante ameaçou-me, eu borrifei-me, respondeu que iria ser bem punido. Na parada encontrei um Senhor Tenente que perguntou se era o Mário Vitorino Gaspar e respondendo que sim cumprimentou-me e referiu ter estado com o Comandante do Regimento e ele se encontrar bastante arreliado comigo e identificou-se como Tenente Miliciano Mansilha. Informou-me ser o meu Comandante de Companhia e que após ter completado o Curso de Capitães, e só aguardava pela publicação da promoção a Capitão. Referiu ter sido em más circunstâncias que nos tínhamos conhecido, e que aguardava ser chamado ao Comandante para esclarecer a minha situação. Tive então conhecimento tratar-se o Senhor Manuel Francisco Fernandes de Mansilha, o meu futuro Comandante de Companhia, Capitão Miliciano de Infantaria N.º 39010556. Cumprira o Serviço Militar, passara à disponibilidade e estando a terminar o Curso de Direito, contra a sua vontade, chamado a frequentar o tal Curso de Capitães. Fui informado entretanto que ficaria com as dispensas cortadas por tempo indeterminado. No próprio dia saí pela porta do cavalo (tive de ir a um WC, onde paguei 6 tostões). Fui a primeira pessoa a conhecer o futuro Comandante da CART 1659, e tive logo a certeza ser alguém interessado. Esta dita “Escola de Quadros”, era uma “escola” que existia no papel, e logo seguimos os tais Quadros: o Capitão; Eu, mais dois Cabos Milicianos (Vítor José Correia Pestana N.º 04472863 e António Manuel Magalhães Maia N.º 07637265), julgo que só o Aspirante Miliciano N.º 01107864 José Paulo Oliveira de Sousa Teles. Curiosamente todos regressados de Tancos com o Curso de Minas e Armadilhas. Morreu o meu Amigo Pestana numa armadilha, e o Soldado Costa; o meu Amigo Maia ficou repleto de estilhaços também numa armadilha e foi evacuado e o Teles ficou proibido de manusear explosivos. A “Escola de Quadros”, inventaram-na, fomos de malas e bagagens para a Instrução Operacional no RAL 5, em Penafiel. Em 01OUT66 foram recebidas as Praças para a Instrução Especial que terminou em 18NOV66. Foi assim que conheci o Capitão Mansilha.
Mário Vitorino Gaspar

Mário Vitorino Gaspar disse...

O Camarada António José Pereira da Costa da CART 1692, Cacine, comete o erro de falar em algo que não tem a certeza, que ouviu contar. Eu ouvi tanto… Mas a CART 1659 que se abastecia em Cacine (fui atacado em Cacine e em Cameconde), após a construção do cais nunca mais fizemos operações para essas paragens. O Camarada explica com exactidão tudo, e até com rigor, mas a CART 1659 recebia mais barris, garrafões, muito poucos, e curioso que recordo mais os normais garrafões de Vinho Verde de 5 litros e lacrados na rolha. Estive na Guerra do Petróleo. Ficámos com muitas cadeiras em Gadamael Porto e Ganturé feitas de barris, muitas de baloiço. Os garrafões? Existiam, mas poucos. Se os barris tinham muitos possibilidades de aproveitamento, os garrafões até deram para fazermos uma hipotética Televisão. O vidro deste deu para se fazer quase um aparelho de TV autêntico. As tais falcatruas existiam no transporte, sacavam como podiam aquilo que denominavam de vinho, sempre… com o intuito de se beber um copo de vinho. O mesmo com a cerveja. Se fosse somente baptismo, mas não… devia-se falar mais do que era colocado misturado com o vinho. Sucede que o Camarada, não tendo a certeza diz “Porém, um dia aconteceu o impensável. Alguns garrafões apareceram rigorosamente atestados… de água”. Depois colocas possibilidades. E mesmo que viesse a acontecer ter o Capitão Mansilha dito que: - “Não há necessidade de incómodo para apresentação do assunto a instâncias superiores pois, da próxima vez – se tal se verificar – será a própria Companhia que o fará”. Não vejo algum erro, pelo contrário é abonatório e próprio do Capitão Miliciano de Infantaria Manuel Francisco Fernandes de Mansilha. Nem sempre estive de acordo com ele. Sei que tinha simpatias por mim, até na responsabilidade que atribuía no comando. Muitas vezes comandei Forças Militares que excediam, e muito as minhas funções, mas a questão não era ter de assumir esses comandos, mas o prejuízo que era para os camaradas sobre o meu comando, serem sacrificados por estarem debaixo das minhas ordens. Tive muitas missões, cumpri-as. Ou por outra: cumpri todas. Tanto que lutei contra mim por o ter feito. Salvei todo o Comando de caírem debaixo de rajadas de MG. Mentiroso? Mentia quando dizia aos meus familiares – principalmente os meus pais – que estava bem… obrigado. Menti nas fotos, só as enviava à civil ou com a farda melhor, evitava mostrar o camuflado. Até estava a comandar Sangonhá, não foram comandantes de Pelotão, no único ataque que foram vítimas em que foi atingido o aquartelamento. O Capitão Mansilha merece da minha parte consideração. Na História da Unidade está patente, não foge sequer de falar do célebre, e falado acontecimento do rebentamento de uma granada durante o batuque, a 4 de Julho de 1967. Notei idêntica Postura no então Capitão de Infantaria Luís Carlos Loureiro Cadete. Sobre o escoamento da grande produção vinícola na Guerra Colonial, como apreciador de vinhos, descendendo de um avô que estava também no mercado, e os meus pais possuírem terrenos vinícolas, digo que vinho corrente era, nem sequer “a martelo”, mas com misturas de produtos sinistros. Não bebia vinho, só cerveja… e essa! Acho que seria por aí. E essa “vinho - droga” já era de cá. Para tirar a potência, para não se “usar a mão da canhota”. Se fosse só isso… Falava-se em cânfora. E as vitaminas?
Mário Vitorino Gaspar

Mário Vitorino Gaspar disse...

Continuo a ver no Blogue esta:
TERÇA-FEIRA, 5 DE MAIO DE 2015 - Guiné 63/74 – P14572: A minha guerra a petróleo (ex-Cap Art Pereira da Costa) (13): Uma da nossa Intendência.
Respondi a este texto mas não foi publicado – foi-me dito que deveria responder de outo modo, mas considero que a questão colocada não merece outro tipo de resposta (que não é pública).
Caros Camaradas
Evito ir ao Blogue por verificar que existe um convite ainda hoje, para uma tourada. O que hei-de fazer? Não concordo com este tipo de situações. Tenho absoluta certeza que este tipo de conversa, além de não ter interesse pode criar conflitos. Dos bois das lezírias e das esperas de toiros também conheço um pouco. Estudei em Vila Franca de Xira e pela zona vegetei. Não tem interesse nenhum transformar este espaço em arena. Falei com o Vaguemestre da CART 1659 o Furriel Miliciano N.º 06321164 Augusto Varandas Casimiro, afirmou que inicialmente foram barris para Gadamael Porto, mas posteriormente, devido aos roubos constantes começou a CART a receber, parte em garrafões – disse ser mais difícil roubar – eu sinceramente nem me recordo de tal.

Mário Vitorino Gaspar