terça-feira, 29 de maio de 2018

Guiné 61/74 - P18692: O Cancioneiro da Nossa Guerra (8): A Balada de Béli (recolha de José Loureiro, ex-alf mil at inf, CCAÇ 1790 / BCAÇ 1933, Madina do Boé e Béli, 1967/69)


Guiné > Região do Boé > Béli > Pelotão da CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, "Os Tufas" (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68).> Uma "cena do quotidiano de Béli (1). Foto do ex-1º  cabo Machado (2011), cedida ao Manuel Coelho, por ocasião do convívio de 2011.


Guiné > Região do Boé > Béli > Pelotão da CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, "Os Tufas" (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68).> Uma "cena do quotidiano de Béli (2). Foto do ex-1º  cabo Machado (2011), cedida ao Manuel Coelho, por ocasião do convívio de 2011.


Guiné > Região do Boé > Béli > Pelotão da CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, "Os Tufas" (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68).> Uma "cena do quotidiano de Béli (3). Foto do ex-1º  cabo Machado (2011), cedida ao Manuel Coelho, por ocasião do convívio de 2011.


Guiné > Região do Boé > Béli > Pelotão da CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, "Os Tufas" (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68).> Uma "cena do quotidiano de Béli (4). Foto do ex-1º  cabo Machado (2011), cedida ao Manuel Coelho, por ocasião do convívio de 2011.


Guiné > Região do Boé > Béli > Pelotão da CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, "Os Tufas" (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68).> Uma "cena do quotidiano de Béli (5). Foto do ex-1º  cabo Machado (2011), cedida ao Manuel Coelho, por ocasião do convívio de 2011.

Fotos (e legendas): © Manuel Coelho (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné-Bissau > Região do Boé > 2009 > Restos do quartel de Béli (*), retirado pelas NT em meados de 1968, por ordem expressa de Spínola.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2009). Todos os direitos reservados.. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guião da CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, "Os Tufas" (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 11966-68). uma das muitas subunidades  que esteve aquartelada em Madina do Boé, com destacamento em Beli (**). Foto: Manuel Coelho. 


1. Camaradas e amigos, é um prazer poder-vos anunciar que conseguimos "resgatar" da "vala comum do esquecimento" a letra da famosa "Balada de Béli"... Graças às boas diligências de dois camaradas, do BCAÇ 1933,  o Virgílio Teixeira (ex-alf mil, SAM, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) e o José Loureiro (ex-alf mil inf, CCAÇ 1790 / BCAÇ 1933, Madina do Boé e Béli, 1967/69).

Mensagem do José Loureiro, com data de anteontem:


Caro Teixeira, Béli, a sua história e a Balada. O meu pelotão da CCAÇ 1790 chegou a Béli em 10 de fevereiro de 1968. Como te disse, conheci a Balada ainda em Nova Lamego em 30 de janeiro de 1968.

Transcrevo do meu diário:

 "Quando me dirigia para o bar de Oficiais, um Furriel mostrou-me uma balada muito especial. Entitulava-se 'Balada de Béli'. É obra de antigos soldados de Béli. Passo a transcrevê-la [, vd, letra, a seguir].


"É esta a minha futura morada e que perspectivas,  Senhor. Mas enfim, com calma e a Vossa Ajuda, tudo se vencerá." 

Assim termino,  caro amigo Teixeira. Béli foi abandonado em 17 de junho de 1968.
Um forte abraço.


José Loureiro


Balada de Béli

[autor desconhecido]

Voam forte, fortemente,.
Provocando alvoroço,
Metralha de outra gente
Que pretende certamente
Estragar-nos o almoço.

Fui ver... As morteiradas caíam
Do azul cinzento do céu,
Grandes, negras, explodiam,
Como elas se moviam,
Mas que barulho, meu Deus!...

Fico olhando esses sinais,
Deixados pela tormenta,
E isto por entre os mais
Buracos descomunais
Dos impactes do oitenta.

Com potente vozear,
Essas armas falam forte,
O canhão a metralhar
Propõe-se a enviar
Sua mensagem de morte.

É uma infinita tristeza,
No coração é inverno,
Cai chumbo na natureza
Tornando Béli um inferno.

Será talvez um tornado,
Mas ainda há pouco tempo
Nem as chapas do telhado,
Mesmo o desconjuntado,
Se moviam com o vento.

Olho atrás da seteira,
Está tudo acinzentado,
Elas caiem e que poeira
Levantam à nossa beira,
Felizmente mais ao lado.

Inesperado, cortante,
Eis que ribomba o canhão,
Apesar de estar distante,
Com a sua voz troante
Vem espalhar a confusão.

Que quem é já terrorista,
Sofra tormentos... enfim!,
Mas estas tropas, Senhor,
Porque lhes dás tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...



[Recolha de José Loureiro / Revisão e fixação de texto: VT / JL / LG]


2. Comentário do editor LG:

Meu caro José Loureiro, camarada da heróica CCAÇ 1790 / BCAÇ 1933:

Fico-te muito grato (, os camaradas da Guiné tratam-se por tu, se não te importas, o tu encurta as distâncias e favorece a empatia)...

Fantástica a "tua" balada de Beli, que vai enriquecer o nosso "Cancioneiro da Guiné" e é uma homenagem aos bravos de Béli, Madina do Boé e Cheche...

Estou-te muito grato pela recuperação dessa letra, que é uma "genial paródia" da Balada de Neve, do poeta Augusto Gil ("Luar de Janeiro" 1909)...Sabia-a de cor, na minha já longínqua 3ª terceira classe do ensino primário, em 1956/57... Aliás, todos a sabíamos de cor na minha escola do Conde Ferreira, na Lourinhã.

Acabámos de a publicar, citando todas as referências que mandas, a começar pelo teu nome e pelo teu diário. Estou grato também ao camarada Virgílio Teixeira, teu amigo e camarada de batalhão, que te contactou... Foi ele o primeiro a falar-me da "Balada de Béli", cuja existência eu desconhecia de todo. Proximamente,  publicaremos um poste sobre esta "(re)descoberta" e a vossa troca de mensagens.

Por fim, deixa-me convidar-te a integrar a nossa Tabanca Grande. onde figuram já 773 camaradas (e amigos) da Guiné, entre vivos e mortos... E faço questão que seja o Virgílio a "apadrinhar" a tua entrada, se for essa a tua vontade.

Só precisas de aceitar dar a "cara", isto é, mandar duas fotos tuas, digitalizadas, uma de hoje, e outra do antigamente... Se quiseres mandar mais, ótimo... O Virgílio, por exemplo, tem um álbum fotográfico da Guiné, fabuloso, que estamos a publicar regularmente...

Temos 19 referências no nosso blogue à tua CCAÇ 1790, mas não há ninguém, até agora (e ao fim destes 14 anos de existência!) que a represente como deve ser... Já em tempos fiz um convite ao vosso antigo comandante, José Aparício, hoje coronel reformado.  Mas, em geral, os oficiais do quadro têm alguma relutância em dar a cara nas "redes sociais", o que é compreensível... Mesmo assim, oficiais dos 3 ramos das Forças Armadas, incluindo oficiais superiores e generais que foram nossos camaradas na Guiné, honram com a sua presença ativa a nossa Tabanca Grande.

José Loureiro, espero que aceites o nosso convite, em nome do sagrado dever de memória... Somos uma geração que está a desaparecer e recusamo-nos a ir para a "vala comum do esquecimento"... Vou pedir então ao Virgílio Teixeira para "apadrinhar" a entrada do novo grã-tabanqueiro... Se quiseres partilhar connosco o teu diário, no todo ou em parte, ficaríamos encantados... Entretanto, haveremos de nos conhecer "ao vivo", um dia destes...

Um alfabravo,
Luís Graça
___________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 4 de outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5050: Efemérides (27): Declaração da Independência em 24 de Setembro decorreu não em Madina do Boé mas Lugajole (Patrício Ribeiro)

(**) Vd. postes de


19 de julho de 2011 > Guiné 63/74 - P8571: Álbum fotográfico de Manuel Coelho (6): Beli, Madina do Boé e Convívio 2011

(***)  Último poste ds série > 19 de abril de 2018 > Guiné 61/74 - P18537: O Cancioneiro da Nossa Guerra (7): "Marcha de Regresso" (Recolha de Mário Gaspar, ex-fur mil at art, MA, CART 1659, "Zorba", Gadamael e Ganturé, 1967/ 68)

16 de abril de 2018 > Guiné 61/74 - P18528: O Cancioneiro da Nossa Guerra (6): "Os Homens não Morrem" (Recolha de Mário Gaspar, ex-fur mil at art, MA, CART 1659, "Zorba", Gadamael e Ganturé, 1967/ 68)

28 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18261: O Cancioneiro da Nossa Guerra (5): O hino dos "Unidos de Mampatá", a CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74)

27 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18261: O cancioneiro da nossa guerra (4): "o tango dos periquitos" ou o hino da revolta da CCAÇ 557 (Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65) (Silvino Oliveira / José Colaço)

27 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18259: O cancioneiro da nossa guerra (3): mais quatro letras, ao gosto popular alentejano, do Edmundo Santos, ex-fur mil, CART 2519, Os Morcegos de Mampatá (Buba, Aldeia Formosa e Mampatá, 1969/71)

8 de novembro de 2017> Guiné 61/74 - P17944: O cancioneiro da nossa guerra (2): três letras do Edmundo Santos, ex-fur mil, CART 2519, Os Morcegos de Mampatá (Buba, Aldeia Formosa e Mampatá, 1969/71): (i) Os Morcegos; (ii) Estou farto deles, tirem-me daqui; (iii) Fado da Metralha

30 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17811: O cancioneiro da nossa guerra (1): "Asssim fui tendo fé, pedindo a Deus que me ajude"... 4 dezenas de quadras populares, do açoriano Eduardo Manuel Simas, ex-sold at inf, CCAÇ 4740, Cufar

1 comentário:

Tabanca Grande disse...

BALADA DA NEVE

Augusto Gil


Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.


Luar de Janeiro


http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/agil.htm