


"Cambança", para ele, é mais do que "passagem para o outro lado" do rio. É uma metáfora: "por vezes uma fuga ou uma mudança. Pode ser uma partida ou um regresso. Quase sempre com a vida em maré baixa" (pág. 6).
Qualquer semelhança com a realidade da Guiné é pura coincidência, avisa o autor. Mas quem não conheceu o cabo Tomé ? E que nunca apanhou uma "cardina" ?
− Eh, pá! Deu a “maluca” ao Tomé. Ele vem aí.
O cabo Tomé aproximava-se daquele espaço chamado “bar”, feito de tábuas e de chapas de zinco. Vinha em tronco nu, debaixo de uma chuva contínua e miudinha, que há um mês caía sem parar. Trazia um guarda-chuva aberto, quase sem pano, na mão esquerda e uma garrafa de cerveja na mão direita. Tinha as divisas de cabo penduradas das orelhas. E berrava:
− Cá o filho da Marianinha é o maior. Não há pai p'ra ele.
Repetia e repetia o discurso. E cantava:
O cabo festejava, assim, os vinte e três anos.
Não entrou no bar e atravessava a parada, em chinelos, calções e tronco nu, pisando água e lama. Sentia-se grande, agigantado pelo álcool, com a água a correr por ele abaixo. Sentia a cabeça do tamanho do rebentamento de uma granada de obus, a ferver, a ferver e a pôr-lhe à frente dos olhos pataniscas de bichas-de-rabear.
Era um entardecer cor de chumbo, com pequenas pinceladas de amarelo-rosa no horizonte, por cima da cobertura de zinco da caserna.
− "Ó rosa, ó linda rosa, ó rosa"… Anda uma mãe a criar um filho… p’ra… p’ra…
Tropeçou e caiu de joelhos na lama, apoiado no cotovelo direito. Tentou levantar-se, mas o pé direito fugiu-lhe muito lá para trás. Até pareceu que o pé lhe ia fugir do corpo. Agarrou o pé com a mão direita e fugiu a garrafa. Puxou o pé, puxou, puxou, perdeu o equilíbrio, caiu sobre o lado direito e, depois, ficou deitado de costas. Ouviram-se gargalhadas do pessoal que, em volta e debaixo dos telheiros, observava a cena.
O Tomé atirou o guarda-chuva. Tentou abrir a braguilha, não conseguiu e rebolou sobre si mesmo, rindo, rindo. Cheio de lama, voltou a tentar abrir a braguilha, mas não conseguia.
− Quero mijar. Eh, pá, abram-me aqui isto, qu’eu quero mijar.
Dois ou três tentaram levantá-lo.
− Eh, pá, eu só quero mijar.
Com a ajuda conseguiu levantar-se. Os que o ajudaram, correram para debaixo dos telheiros. Conseguiu abrir a braguilha e, com a mão direita, procurava, procurava dentro dos calções, em dificuldades de equilíbrio.
− Perdi a picha. Perdi a picha.
Ajoelhou-se e desatou a chorar:
− Perdi a picha. Perdi a picha. Ai, minha mãezinha…
Levantou-se, escorregou na lama e caiu de novo.
− Sou um desgraçado! O filho da Marianinha… Mãe, mãe, cortaram-me a gaita!
Chorava, chorava. As lágrimas corriam pela cara, misturadas com chuva e ranho. Tossia, tossia, engasgou-se e desatou a vomitar. Acudiram-lhe de novo.
Vomitava aos arrancos e estremecia-lhe todo o corpo. Levaram-no, amparado pelos sovacos.
Colocaram-no debaixo da água do “chuveiro” que corria dos bidões, ao lado da caserna. Deitaram-no na cama, ainda molhado. Chorava, abraçado aos mais próximos, entre risos de uns e críticas de outros.
− Este gajo é sempre a mesma merda.
O Zé abanou a cabeça, concordando. O Tomé agarrou-o pelo pescoço, puxou e deu-lhe um beijo na cara.
− Vá pá, tem calma. Vou-te buscar uma Pérrier.
− Água?! Arranja-me uma cerveja.
− Não. Tu já bebeste muito.
Teve um vómito e sujou a almofada.
− Deixa lá. Está na hora do jantar. Queres que te traga alguma coisa?
− Nã. Não.
Ficava mais calmo. Adormecia. O outro foi jantar.
No telheiro grande, coberto de zinco, que servia de refeitório, amontoavam-se para o jantar, apupando o cozinheiro.
− Ide-vos foder! 'Ó tempo que não há frescos…
No meio do barulho das conversas ouviram-se, lá longe, para norte o som das “saídas” de granadas de morteiro pesado e de canhão.
Num instante era uma barafunda. Corriam aos magotes em várias direções, para as armas pesadas, para os abrigos, em busca das G-3 e cartucheiras. As primeiras granadas começaram a assobiar por cima das cabeças, seguidas dos rebentamentos e dos ruídos que parecem loiça a partir-se.
Gritos, ordens, cheiro intenso, excitante a explosivos, pó, fumo, mais rebentamentos, gritos e mais gritos. Duas ou três granadas caíram dentro do quartel, voaram coberturas de zinco em placas retorcidas, pedaços de tijolo e cimento, vidros partidos. Um barracão começou a arder.
Dois grupos saíram a correr, pelas portas norte e leste, para cortarem caminhos de acesso. Parecia que o pandemónio nunca mais parava.
Começou a diminuir o fogo. Só pequenas rajadas de arma ligeira e vozes que interpelavam ou berravam ordens. Vultos apagavam o fogo com baldes de água. A serenidade voltou aos poucos. Havia movimentações para o posto de socorros. Alguns comeram como puderam o que, frio, ficara a aguardar nos pratos. Outros não saíram tão depressa dos postos ou dos abrigos.
Quando os primeiros voltaram à caserna, viram o cabo Tomé mesmo à entrada, nu, deitado de costas, de olhos espantados, como que olhando o teto de zinco, retorcido, enquanto um fio de sangue lhe escorria do lado esquerdo da boca, passava pelo pescoço e fazia uma poça de sangue debaixo da cabeça.
(...) Porra! Se eu não tivesse o azar de ter passado pela Guiné, diria este tipo está a "mangar" comigo.
Depois de começar a ler, revi-me no cabo Tomé, até ao ponto da reviravolta, quando eles, os nossos "amigos" entraram na festa e fiquei arrepiado.
Veio-me à memória o Conceição Caixeiro: era de Lisboa, não bebia em demasia, era pacato e pachorrento, mas passava o tempo a cantar e a cantar morreu... Sabes aonde ? Na cagadeira, simplesmente porque estava a cagar, cantando como sempre e não ouviu a saída da granada que o vinha matar, nem o grito de vários colegas - Aí estão eles!
Ficou-se, com a nuca desfeita de encontro à parede da rectaguarda e só meia hora depois, quando à porta da enfermaria eu gritava de contente "Filhos da puta ! Cabrões ! Não há feridos", aparece o Pedro, que faleceu há dias, e me disse: "Teixeira, vem comigo" e eu fui, para ficarmos os dois agarrados um ao outro a chorar, de desespero.
Ainda bem que escreveste. quanto me ajudaste ! (...)
Maldita mata de Cabolol! Estavam à nossa espera!
Mário Fitas
(...) São estes momentos, Alberto, Zé, Mário, que nenhuma televisão do mundo (muito menos a nossa RTP) conseguiu filmar... É um quadro portentoso sobre as nossas misérias e grandezas.
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Nota do editor LG:


9 comentários:
É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que, ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro”.
(Padre António Vieira,“Sermão Histórico e Panegírico nos Anos da Rainha D. Maria Francisca de Sabóia, em 1655”, )
Luís Graça (by email)
3 fev 2026 16:50
Alberto: sou um pouco iconoclasta, mas o teu conto do aniversário do cabo Tomé, merecia um título menos prosaico (reeditado agora no blogue)...
Tenho "inveja" de não o ter escrito. Isto, meu caro, vai figurar um dia numa antologia da literatura da guerra colonial. Temos de saber promover o que é nosso. Mas diz-me se a troca de título não é um "abuso"...
Ab, Luís
Alberto Branquinho (by email)
3 fev 2026 19:09
Olá Luís
Só agora vi o teu mail.
Este conto foi, depois, incluído no livro seguinte (revisto e aumentado substancialmente), a que chamei "Cambança Final" (2013). Este outro completa o primeiro.
Não sei se te ofereci um exemplar dele. Caso não, diz-me que enviarei pelo correio, porque tenho, ainda, dois ou três exemplares. Está no blogue um texto do Mário sobre ele.
Se tivesse encimado esse conto com esse título, essa frase perderia o impacto no meio do texto. Mas não entendo isso como um abuso; pode é ter sido "isco" pra uns e "repulsa inicial" para outros.
Abraço
Alberto Branquinho
Obrigado, Alberto, tenho os dois, o de 2009 e o de 2013. Com amáveis dedicatórias da tua parte. Vejo que não alteraste em nada o conto "O aniversário do cabo Tomé" (pp. 133-136, "Cambança Final"). Na altura, quando o li, marquei-o, a lápis, com 4 estrelinhas... Hoje dou-lhe 5...
Alberto, corrijo: na edição de 2013 há pequenas alterações, estive a agora a comparar.
Pois, Luís, achei estranho porque, cada vez que mexemos no "passado", só não tentamos melhorá-lo quando não podemos... (Às vezes não melhoramos nada).
Alberto, retiraste uma fala com uma expressão que eu adoro: Ó tempo que (não há frescos)...
Ao tempo que..., faz tempo que...
Pois é, Luís, mexe-se e remexe-se nos textos consoante o estado de espírito do momento. É isso: "`ó tempo que" = "ao tempo que".
O cozinheiro era madeirense, o mesmo que o Zé Ferreira (da Silva) retrata num dos livros.
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