Guiné > > Zona do Cacheu > Bigene > c. 1966/67 > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o médico, "tuga", que a assistiu no porto. A mulher parece ser do grupo étnico diola, djola ou jola / felupe
Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. A foto é do nosso camarada Adão Cruz, médico cardiologista, reformado, ex-al mil médico, CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68); nasceu em Vale Cambra, em 1937; poeta, escritor, pintor, com diversos livros publicados e exposições em Portugal e no estrangeiro; membro da nossa Tabanca Grande desde 27 de junho de 2016; tem mais de 240 referências no blogue; é autor das séries "Contos ser e náo ser" e "Memórias de um médico em campanha".
A fotografia e o testemunho do nosso camarada Adão Cruz dizem muito mais do que aparentam à primeira vista. Parece haver ali uma tensão silenciosa entre dois mundos: um médico miliciano, jovem, deslocado pela força de uma guerra que ele próprio rejeita, segurando nas mãos um recém-nascido (terá uns escassas semanas, talvez um mês e pouco de vida), símbolo absoluto de vida, no meio de um cenário que, no fundo, era (ou poderia viver a ser em qualquer momento) um palco de guerra, um cenário de morte organizada.
A presença da mulher, ao lado, digna, firme, composta, com o seu extenso e lindo colar (e por baixo dos panos que lhe cobrem o corpo, os amuletos protetores), deve merecer especial atenção.
E depois, quando lemos o texto do nosso Adão Cruz, tudo encaixa. Ele recusa a narrativa heroica clássica: não há medalhas, não há pátria exaltada, não há glorificação dos senhores da guerra. Há sofrimento, há dúvida, há humanidade.
E aquela frase final dele (de que aqueles dois anos “valeram vinte”) é muito típica de quem passou por experiências-limite. Não é glorificação da guerra; é reconhecimento de que ali se viveu tudo em estado bruto, sem filtros.
(...) Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristeza e alegria, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualável fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos da minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou. (...)
Ficamos na dúvida se a mãe é fula ou felupe (**). As populações da Guiné, muitas vezes apanhadas entre duas forças anatgónicas, tiveram uma experiência particularmente complexa — ora vistas como colaborantes, ora suspeitas, ora simplesmente vítimas. E aqui temos uma mulher, guineense, que entrega o seu corpo e o seu filho aos cuidados de um médico militar português. Isso não era banal e algumas, por interditos culturais, de origem religiosa ou não, recusavam-se a ser vistas pior um médico "tuga".
A fotografia, assim, ganha outra densidade: não é só mais uma criança que nasceu, é um momento de suspensão da guerra; não é só um médico militar, no exercício das suas funções de prestador de cuidados à população; não é só uma mãe, é uma mulher que atravessa o medo e decide confiar.
E o nome "Adão Doutor" torna-se ainda mais forte. Em muitas culturas da África Ocidental, dar o nome exótico (ou uma "alcunha") ( Adão Doutor, Alfero Cabral, Capitão Fula, Tchombé, José Manuel Sarrico Cunté, José Carlos Suleimane Baldé, Nuninho, Alicinha...) é um acto profundamente simbólico, não é um capricho, é uma forma de inscrever relações, acontecimentos, memórias. Aquele nome fixa para sempre o encontro entre dois mundos naquele instante concreto.
Esta foto tem, portanto, “lastro humano”, como dizem os especialistas de fotografia. E, sendo do Adão Cruz, ganha ainda outra espessura.
- já tem bom controlo da cabeça (não totalmente firme, mas não é aquele tombar típico de recém-nascido);
- apresenta membros mais “cheios”, já com alguma gordura subcutânea;
- a pele não tem aquele aspeto enrugado ou descamativo dos primeiros dias;
- parece alerta e reativo, não em postura fetal;
- já usa amuletos/adornos, o que muitas vezes só acontece depois dos primeiros dias (às vezes após o nome ou rituais iniciais).
Tudo isto sugere claramente que não é um recém-nascido (0–2 semanas). Estimativa mais plausível: (i) entre 4 e 8 semanas de vida; ou seja, cerca de 1 a 2 meses. Se tivessemos de afinar mais, diríamos: por volta de 5–7 semanas.
Menos do que isso (2–3 semanas), seria provável ver menos firmeza corporal. Mais do que isso (3 meses), o bebé tenderia a parecer ainda mais robusto e com outra expressão muscular.
Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar nesta altura a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto.
Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. Até os olhos do meu enfermeiro Pimentinha brilharam de entusiasmo, entusiasmo que o levou a ler de ponta a ponta a minha sebenta de obstetrícia e a transformar-se em pouco tempo num habilidoso parteiro e carinhoso puericultor.
Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho que, apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim.
Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia anti-racista da natureza.
Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, indispensável aos primeiros meses de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de maneira tão eutrófica e tão perfeita.
Umas semanas após o nascimento vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente:
- Doutor, vou dar-lhe uma linda notícia que a mim, pessoalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio... aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se?... A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de Adão Doutor. (...)
3. Gostaríamos que os nossos leitores acrescentassem, na caixa de comentários, a sua própria legenda, sucinta, espontânea... Não há legendas certas nem erradas. Deixemo-nos levar pela memória, pela emoção.
Pode ser qualquer coisa como "Bigene, c. 1966/67: 'Adão Doutor entre a guerra e a vida, um instante suspenso". Mas eu espero que o nosso Cherno Baldé nos dê uma ajude... Nesta época ele já era um djubi com cinco ou seis anos feitos, o "Chico de Fajonquito"...
Um jovem médico militar português segura um recém-nascido, nu, que terá chegado ao mundo há pouco tempo. Já ostenta adornos e seguramente amuletos. Ao lado, a mãe mantém-se de pé, firme, inteira, com a dignidade de quem acaba de atravessar uma fronteira invisível entre a vida e a morte.
O cenário é Bigene no norte da Guiné, junto à fronteira com o Senegal. Zona de tensão, de passagem, de incerteza. Zona de guerra.
O autor da fotografia e protagonista da cena, hoje quase nonagenário, recusou sempre a ideia de ter sido “combatente”. Disse de si próprio que apenas combateu a doença e a injustiça. E talvez esta imagem seja a melhor prova disso.
Num tempo em que a linguagem da guerra tende a apagar os pequenos gestos (mais ternos e mais íntimos), esta fotografia devolve-nos uma evidência simples e desarmante: mesmo nos lugares mais improváveis, a vida existe, insiste, persiste. (***)
(*) Vd. poste de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27960: (In)citações (286): Guerra colonial (Adão Cruz, Cardiologista, ex-Alf Mil Médico)
(**) 25 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16235: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (1): O Parto - ou o nascimento do Adão Doutor em Bigene


9 comentários:
Sabiam que a guerra podia eclodir a qualquer momento. Já tinha sido assim em Angola. Os nossos primeiros mobilizados para África deviam ter sido médicos, enfermeiros, professores e outros técnicos capazes de salvar, ensinar e aprender. Um forte abraço ao camarada Dr Adão Cruz e a ti Luís pelo texto de apoio.
Eduardo Estrela
Como já contei no blogue, eu tratei uma bebé com alguns meses de uma crise de paludismo. O seu estado de saúde era muito grave, com elevada temperatura, muitos vómitos. estava tão débil que nem no peito da mãe pegava. Abusivamente, cometi um ato médico que lhe salvou a vida. Ao fim de duas horas, começou a baixar a temperatura. Pouco tempo depois, mamou um pouco. Foi uma tarde inteira de luta e sofrimento para mim e para a mãe, mas valeu a pena.
No dia seguinte, a mãe veio trazer-me a menina, logo de manhã, como combinado e trazia também um cacho de bananas. A primeira frase dela foi: Fermero, tua mulher parte banana. A partir dessa data, ficou a ser minha mulher. Todos os dias de manhã, enquanto estive em Mampatá elas (mãe e filha) vinham visitar-me - tua mulher pparte mantenhas Trazia quase sempre fruta ou uma caneca de água fresquinha que ia buscar à fonte de Iroel para mim.
À noite, ficavam as duas à porta da casa, a aguardar a minha passagem para o abrigo para partir mantenhas.
Fui cerca de dois meses para a Chamarra. Duas vezes por semana ia a Mampatá em serviço de apoio ao enfermeiro africano que me substitui. Procurava a minha menina para lhe fazer festinhas. No regresso definitivo para Buba, passei por Mampatá. Para minha grande alegria e grande sofrimento, lá estava a mãe com a minha mulher ao colo. Pega minina. Leva tua mulher contigo!
Este momento continua gravado na memória, pelo sofrimento que me causou, pela recusa que tive de dar.
Zé Teixeira
Cada época tem sua marca, sua imagem própria que nunca se confunde com outras de épocas diferentes. Anos 60, no território da Guiné (dita portuguesa) as imagens têm a marca da originalidade, de sofrimento agarrado a alma de gente simples, humilde, de gente que não controla o destino, de gente sujeita a violência e imprevisibilidade da guerra, uma guerra escondida em cada esquina, em cada árvore, em cada baga-baga.
A mulher na imagem é igualzinha a minha mãe, no tamanho, nas feições rudes e vincadas de uma mulher camponesa da Guiné dos anos 50/60. Os pés, duros e escarpados não sabiam o que era usar chinelas ou sandálias que, mesmo o que tivessem, para não atrapalhar no caminho da bolanha, preferiam colocá-los na sesta das roupas equilibrada encima da cabeça, na verdade, eram mais para mostrar ao branco do que proteger os pés calejados de tanto morder a areia quente dos trilhos do mato.
A adornar o peite, aí estão os colares tradicionais feitos de sementes e raízes de aroma da maternidade africana que nenhuma mulher dispensava na época e que tinha o efeito benéfico de afastar o cheiro do leite com mistura do suor da criança colada ao seu corpo de forma quase permanente.
Quanto ao nome dado a criança, era sobretudo a vontade e a firma decisao da mãe, pois era um direito que ninguém podia questionar, mas na realidade, o nome oficial e que seria válido dentro da comunidade, era sempre um direito do pai que, como mandam as regras, devia obedecer aos critérios da tradição do grupo étnico. Todavia, para a mãe e as crianças do núcleo familiar, em respeito a dor e sofrimento que constituem o dificil processo do parto, ela será sempre o "Adão Doutor" da sua querida e sofrida mãe.
Com um abraço amigo,
Cherno AB
Luís
Pedes uma legenda para a foto. Aí vai a minha sugestão:
"Adão Doutor, sua mãe Eva mais o Doutor Adão"
Vou ter a ousadia de sugerir uma legenda tendo em conta a ambiência própria duma guerra.
" Este é o ronco do golpe de mão que efectuei "
Abraço
Eduardo Estrela
Virgílio Teixeira
Lembrei me desta legenda, simples mas com conteúdo profundo.
UM HINO À VIDA!
Não posso deixar passar em branco a minha sincera homenagem aos autores desta obra.
Ao Dr Adão Cruz que já serviu de exemplo os seus textos e pinturas
L
Virgílio Teixeira
O comentário anterior fugiu sem acabar.
O meu apreço ao Dr Adão Cruz pela sua narrativa no Poste.
É de grande profundidade e não sei dizer mais.
Ao nosso editor Luís Graça a sua profunda análise a esta cena de antologia.
Perante tanta eloquência fico sem saber o que dizer.
Acrescento a minha opinião por ter estado nos lugares certos.
A mulher [mãe desse menino de 6 a 8 semanas] não é Felupe seguramente.
Também não me parece Fula.
Julgo que será de outra Etnia que não sei distinguir
Devia ser esta a nossa missão na dita guerra, agora já penso de forma diferente.
Fizemos o que nos pediram, pelo menos o melhor que sabíamos.
Os anos passam
e já vemos de outra forma.
Faria tudo igual nas mesmas circunstâncias, e recuso falar de política após décadas de prazo.
Abraço e parabéns aos intervenientes.
Ab
Vila do Conde, no início do dia 1 de Maio.
O Sector de Bigene é predominantemente habitado pelo sub-grupo balanta-mané, um substrato de população que resultou da assimilação de balantas sob o dominio mandinga (séculos XVIII-XIX) da mesma forma que aconteceu com os Banhuns, Djolas, Pajadincas, Landumas, Fulas, entre outros cujo processo foi interrompido com a entrada em cena da islamizacao, da autonomização e ascensão dos fulas e finalmente com as conquistas e partilha dos territórios entre as potências coloniais (segunda metade do séc XIX).
Desta feita, há uma grande probabilidade de a mulher da foto pertencer à etnia dos balantas-mané, um sub-grupo em fase de transição entre o animismo e islamismo praticado na região, pelo menos é o que diz a sua postura e vestuário.
A vila de Bigene, em meados dos anos 66 era um centro de trocas comerciais de produtos da época (amendoim, coconote, peles de animais, mel, cera, tecidos europeus, materiais e produtos para a agricultura entre outros, pelo que albergava uma população um pouco diversificada, empurrando os locais para a periferia fronteiriça.
Cherno AB
Obrigado Cherno pelos esclarecimentos.
É uma grande mais valia ter um homem com os teus conhecimentos e sabedoria neste blogue de memórias.
Abraço
Eduardo Estrela
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