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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27514: Casos: a verdade sobre... (60): Não se faz a guerra sem álcool (nem tabaco)



Guiné < Região do Cacbeu > Jolmete > CCAÇ 3306/BCAÇ 3833 (Pelundo, Có e Jolmete, 1971/73)> . outubro / novembro de 1972 > O álcool é euforizante e socializante... O tabaco, ansiolítico... Foto do álbum do ex-fur mil Augusto Silva Santos (vive em Almada).


Foto (e legenda): © Augusto Silva Santos (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Quínara > Nova Sintra CCAV 2483 (1969/80) : Num mês, talvez atípico, com o de junho de 1970, a escassos, dois ou três meses de mudarem para Tite (sede do sector S1) onde foram acabar a comissão (setembro/dezembro de 1970), os camaradas desta subunidade gastaram 89,4 contos, na cantina (que era comum a oficiais, sargentos e praças). 46% desse valor foi em cerveja e uísque. 89,4 contos (=30,7 mil euros, a valores de hoje) era bastante dinheiro: a dividir por 160 militares, dava 560 escudos "per capita"  (=192 euros, a valores de hoje). (*)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradasa da Guiné (2025)




I. Temos falado aqui aberta, desinibida e francamente sobre o consumo de cerveja, uísque, vinho  e outras bebidas alcoólicas pelos militares portugueses durante a guerra colonial na Guiné, entre 1961 e 1974...

 Tínhamos acesso a bebidas nacionais (cerveja, vinho, brandy, porto...) e importadas (uísque, gin, vodca, conhaque...). Claro que não havia bar aberto...

É difícil, se não impossível,  definir padrões e níveis de consumo, na ausência de estudos sobre o tema (que não os  há, ou são escassos, ou sofrem de limitações metodológicas). 

Quando muito , podemos socorrer-nos de alguns indicadores indiretos: compras nas cantinas, por exemplo. Ou testemunhos de antigos combatentes. Mas nem todas as compras são consumos imediatos de álcool: a maior parte das garrafas de uísque, sobretudo do uísque velho, bem como de conhaque, era para guardar e levar para a metrópole.E em muitos sítios, as cantinas estavam separadas; os oficiais e sargentos tinham as suas messes e o seus bares. Por outro lado, são  raros os registos dos consumos (ou das compras) nas cantinas (*).

Mas também reconhecemos que, do lado dos combatentes do PAIGC, essa prática está ainda pior  documentada. Ou é de todo ignorada. A maior parte parte dos historiógrafos, de um lado e do outro, não valoriza aspetos da vida quotidiana dos combatentes como os "comes & bebes".
 
Ora, o que sabemos da História é que nunca se fez a guerra sem álcool (ou outras drogas). Matar e morrer é a experiência-limite do ser humano. Não imagino o Inocêncio Cani (que eu não sabia que tinha sido catequista!) a matar o Amílcar Cabral, à porta de casa, a sangue frio. Tinha que estar com a "cabeça grande", sob o efeito do álcool. O mesmo para os matadores do Pelundo, os carrascos dos 3 majores e seus acompanhantes  em abril de 1970.

O consumo de álcool, de um e do outro lado da "barricada", na guerra da Guiné (1961/74) está mal documentado. Pelo menos do outro lado, do lado do PAIGC.

 A documentação é desigual, mas o padrão geral é claro: o álcool (e o tabaco)  fazia parte do quotidiano da guerra, com implicações sociais, psicológicas e logísticas. (**)

1. Militares portugueses na Guiné (1961–1974)

(i) Disponibilidade e tipos de bebidas

Cerveja era comum nas unidades portuguesas, especialmente marcas nacionais enviadas pela Manutenção Militar (Sagres e Cristal).  À Guiné não chegava a cerveja angolana nem moçambicana, nem convinha aos cervejeiros metropolitanos.

Aliás, a mobilização de centenas de milhares de homens ao longo do conflito (1961/75) nos 3 teatros de operações (mais o resto do império, de Cabo Verde a Timor), foi uma oportunidade de ouro para a indústria cervejeira nacional.

Uísque, aguardente, vinho e licores eram consumidos sobretudo por oficiais e sargentos, bem aqueles que tinham melhores possibilidades logísticas ou económicas. Por exemplo, bebi-se melhor em Bissau, Bambadinca e Bafatá. A Marinha, por sua vez, bebia (e comia) muito melhor que o Exército...E  também não ouvimos queixas da Força Aérea.

No que diz respeito à tropa do recrutamento local, grosso modo podemos dividi-la em muçulmanos, animistas e cristãos ou assimilados. 

 Regra geral, os nossos militares muçulmanos (nomeadamente fulas) eram "abstémios" por imperativo religioso. Mas o contacto com os "tugas", levou-os a apreciar a "água de Lisboa"... Não bebiam cerveja nem vinho à frente dos "homens grandes", até por que muitos (CCaç 12, CART 11, por exemplo, a quem demos instrução em Contuboel) ainda eram "meninos de sua mãe"!... A guerra fê-los crescer mais depressa, a eles e a nós. (De resto, o argumento para serem desarranchados era não poderem comer  carne de porco nem beber álcool.)

Os restantes (animistas, cristãos, e sobretudo os mais urbanos, de Bissau...) tanto consumiam as bebidas locais (como a aguardente de cana e o vinho de palma) como não desgostavam da "água de Lisboa". E faziam-no publicamente, confraternizando connosco.

(ii)  Funções do álcool
  • Lazer e coesão: beber em grupo ajudava a criar um sentimento de companheirismo (à mesa) e camaradagem (na caserna, no mato...)  em situações difíceis; bebia-se em grupo, os bebedores solitários seriam a exceção à regra.
  • Socialização, ritual social: celebrações, aniversários, outras efemérides (data da chegada à Guiné, por exemplo),  momentos de descompressão entre operações, e até o ritual do “comes & bebes" nos dias de folga, ou ao fim da tarde; ou nas idas a Bafatá...(a "civilização", o "oásis", para a malta do Leste).
  • Claustrofobia, mecanismo de escape: muitos ex-combatentes relatam que o álcool servia para "esquecer" (a guerra, a solidão, as saudades de casa...):  certamente para aliviar a exaustão física, o stress, o medo, as insónias e até o trauma, o que hoje se reconheceria como sintomas de stress pós-traumático; o ambiente nos aquartelamentos e destacamentos, cercados de arame farpado e com o perímetro exterior armadilhado, e vivendo muitos militares em "bunkers", e por vezes sem população,  era claustrofóbicos; um ambiente propenso à depressão, ao conflito, à violência interpessoal, e ao consumo de álcool; já relatámos aqui alguns  acidentes mortais com "arma de fogo", associados ao ao álcool.
  • Ambiente de caserna: o consumo era normalizado e raramente reprimido, exceto em casos de indisciplina evidente; cada uma das 3 "classes" em presença (nobreza, clero e povo,  com eu chamava aos oficiais, sargentos e praças) tinham os seus locais próprios de "libação": messes, bares, caserna, refeitório, escapes citadinos como Luanda, Bafatá, Safim, Nhacra, etc.

(Iv) Problemas derivados

Há relatos de alcoolismo em certas unidades, embora geralmente omitidos nos relatórios oficiais. Pode haver referências nos autos por acidentes de viação ou acidentes com   arma de fogo (suicídios, homicídios, automutilação, ameaças, e outras formas de violência). Mas todas estas situações são tratadas com pinças...

Alguns comandantes tentavam limitar o consumo antes de operações, mas o controlo era difícil e desigual. Aqui funcionava mais o autocontrolo e o controlo pelos pares ( a nível de secção e pelotão). Obviamente, ninguém podia ir "alcoolizado" para o mato ou para uma coluna. 

A verdade é que não havia ainda testes de alcoolémia na guerra, para nenhuma das 3 armas (Exército, Marinha e Força Aérea). Nem sequer os condutores ou  os pilotos sopravam no balão (uma invenção tardia).

O clima tropical, o desgaste físico, o cansaço agravavam os efeitos do álcool. Ao fim de alguns meses, dizia-que o militar "estava apanhado do clima" ou "cacimbado",

2.A tropa do PAIGC

A documentação sobre o consumo de álcool nas hostes do PAIGC é mais escassa. Não há números. A guerrilha valorizava a disciplina, e o controlo disciplinar e ideológico seria mais rígido. Ainda assim, há elementos que surgem por fontes orais e memórias.

(i) Consumo existia, mas era vigiado

Em várias regiões da Guiné era comum o fabrico e consumo de vinho de palma, aguardente de cana e outras bebidas tradicionais. Os "chefes" chegavam ter  os seus  "tiradores" privativos!

Guerrilheiros jovens, longe das aldeias, das famílias e em longas marchas, emboscadas, operações, etc., podiam recorrer,  ao álcool em momentos de pausa. (Isso também acontecia no nosso lado, era a ocasião em que se apanhavam os "pifos de caixão às cova").

Grande parte dos guerrilheiros do PAIGC eram balantas e de outras etnias animistas, grandes consumidores de álcool (aguardente de cana, vinho de palma...). Tal como não largaram os amuletos, também não romperam com os seus hábitos, a sua cultura, os seus rituais. Podia era haver era menos oferta de álcool, no mato.

(ii) Disciplina política

O PAIGC (ou  o seu  ideólogo, e comandante-chefe, Amílcar Cabral) desencorajava fortemente o consumo excessivo, associando-o à “fraqueza revolucionária”.

Alguns veteranos referem punições internas ou advertências para quem bebesse antes de ações militares. Mas não sabemos como funcionava o autocontrolo e o controlo  por pares. Rui Djassi, Osvaldo Vieira e outros "comandantes" tinham problemas de álcool..

(iii) Funções do álcool (semelhantes às das tropas portuguesas)

Alívio do stress, convivência, e momentos de pausa nos acampamentos. Afinal éramos todos de carne e osso, pesem embora as diferenças culturais.

Em certas áreas, o álcool fazia parte de cerimónias tradicionais que se mantiveram mesmo durante a luta armada ("choro", etc.)

(iv)  Subregisto histórico

A imagem oficial do PAIGC como movimento altamente disciplinado (cultivado por Amílcar Cabral, para efeitos  de "marketing político")  levou a que estes aspetos da vida quotidiana nas "áreas libertadas" ficassem menos documentados ou na obscuridade, 

Os santos não têm pecados. Os gajos eram moralmente superiores aos tugas, Durante algum tempo vendeu-se essa falsa imagem.

Investigadores da história social da guerra admitem que a dimensão humana e informal da guerrilha está ainda pouco estudada, incluindo "comportamentos desviantes" como  consumo de álcool, rituais, amuletos,  sexo, violência (contra crianças, bajudas, mulheres e velhos...), indisciplina, conflitos,  drogas locais,  relações tribais, etc.


3. Inquérito "on line"

Recorde-se aqui os resultados do inquérito "on line" que realizámos em 2016: "Nunca apanhei nenhum pifo de caixão à cova na tropa ou no TO da Guiné"

Votos apurados: 102
Sondagem fechada em 15/3/2016 | 18h04



(i) Nunca > 31 (30,4%)


(ii) Uma vez, por acaso > 25 (24,5%)


(iii) Duas vezes > 10 (9,8%)


(iv) Três vezes > 4 (3,9%)


(v) Mais vezes > 26 (25,5%)


(vi) Não me lembro > 5 (4,9%)


(vii) Não aplicável: não bebia > 1 (1,0%)


Total > 102 > (100,0%)


Em 102 respondentes só um  disse que não bebia.   Mais de 60% (n=65) respondeu que sim, que apanhou um pifo de caixão à cova, uma, duas, três ou mais vezes.  Só 5% respondeu que não se lembrava.

Tal como hoje,  teríamos basicamente três  perfis: (i) abstémios / não-bebedores  (subrepresentados na nossa amostra) (são hoje cerca de 1/4 da população, dos 15 aos 74 anos); (ii) os 3/4 já consumiram álcool na vida; 1/4 bebe diariamente e outros tantos serão bebedores sociais; (iii) bebedores excessivos ou de risco serão uns 3,5%... Claro que os homens bebem mais do que as mulheres...

Enfim,  não dá para comparar com a nossa pequena amostra de conveniência...





Marca de cigarros, de fabrico soviético, que eram distribuídos aos guerrilheiros do PAIGC, durante a guerra colonial / luta de libertação. "Nô pintcha", em crioulo, quer dizer "Avante!"... 


Foto (e legenda): © Eduardo Magalhães Ribeiro (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



4. “Nunca se fez guerra sem álcool (nem tabaco)"

Esta frase, frequentemente citada por veteranos de ambos os lados, é bastante precisa. Não se faz a guerra, sem álcool nem tabaco... nem com o estômago vazio!

De facto, em praticamente todos os conflitos, o álcool ( e o tabaco) é um ansiolítico não oficial, uma espécie de  "lubrificante psicossocial" para a "máquina de guerra",  uma forma acessível de lidar com o medo, a violência, o risco, a morte...



O fornecimento de tabaco está mais bem documentado (no caso do PAIGC, à sua "tropa" era distribuido o maço de cigarros "Nô Pintcha", fornecido pelos "amigos soviéticos"; não sabemos em que quantidades nem com que frequência).

Na Guiné, com isolamento, clima adverso e desgaste físico e psicológico constante, tornava-se ainda mais evidente a importância do álcool e do cigarro, as duas "drogas legais".

 De um lado e do outro. Muitos de nós começaram a beber e a fumar na Guiné. Por outro lado, tínhamos acesso (generoso) a muito tipo de bebibas, que  não eram correntes na metrópole, incluindo a coca-cola. E o tabaco, não sendo de borla, era relativamente acessível. (O Porto era uma das marcas que mais se fumava, custava 3$00 cada maço.)

(Pesquisa: LG  + Net + IA (Gemini, ChaGPT)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 6 de dezembro de 2025 Guiné 61/74 - P27499: A nossa guerra em números (47): mais de 2/3 do consumo, do valor de vendas em junho de 1970 (n=89 contos), na cantina, da CCAV 2483, em Nova Sintra, foi em álcool e tabaco (Aníbal Silva / Luís Graça)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26527: Tabanca Grande (568): Homenagem ao capitão e cavaleiro Leite Rodrigues (Aveiro, 1945 - Matosinhos, 2025), ex-alf mil cav, CCAV 1748 (1967/69), membro da Tabanca de Matosinhos: passa a sentar-se, simbolicamente, no lugar n.º 899, sob o nosso poilão, a título póstumo



Matosinhos > Tabanca de Matosinhos, Natal de 2024.
Leite Rodrigues. Foto: J. Casimiro Carvalho (2024)




Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Bafatá > 4 de abril de 2017 > O Leite Rodrigues dando uma aula de ciências naturais numa escola local...


Foto nº 2A > Guiné-Bissau > Bafatá > 4 de abril de 2017 > O Leite Rodrigues com a professora da escola...




Foto nº 3B, 3A e 3 > Guiné-Bissau > Binta > Abril de 2017 > O João Rebola (1945-2018) esteve aqui, com a sua CCAÇ 2444 (Bula, Có, Cacheu, Bissorã e Binar, 1968/70)... Da esquerda para a direita, na base do poilão, o Leite Rodrigues, o João Rebola, o José Cancela e o José Manuel Samouco.



Foto nº 4 > Guiné-Bissau > Bissa > Abril de 2017 > Junto ao Hotel Coimbra > O Leite Rodrigues, com oosando parea a fotografia com um pano tradicional usado pelas mulheres guineenses, 

Fotos (e legendas): © José Cancela (2025). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Não tenho dúvidas que o nosso saudoso camarada Leite Rodrigues, que vai amanhã, dia 26,  descer à terra da verdade, sem ter completado os 80 anos (*),  merece figurar, a título póstumo, na nossa Tabanca Grande, sentando-se simbolicamente sob o nosso poilão no lugar nº 899, ao lado de outros tabanqueiros quer vivos quer  já falecidos (e sobretud0, neste caso, homens grandes da Tabanca Pequena de Matosinhos,  como o A. Marques Lopes, o João Rebola, o Joaquim Peixoto, o Jorge Teixeira (Portojo), o António Batista da Silva, o Xico Allen, o Francisco Silva, etc., alguns dos nomes que me vêm à cabeça, e que "da lei da morte já se libertaram").

Não tenho dúvidas em aceitar a proposta do nosso régulo e poeta José Teixeira, dando ao Leite Rodrigues honras de Tabanca Grande (*)... É nossa pequena homenagem a um homem, português e camarada de coração grande, generoso e solidário, que nos ajudou também a t0rnar menos agreste e penosa a nossa caminhada pela picada da vida (e nomeadamente aos membros da Tabanca de Matosinhos, cuja tertúlia ele frequentavca desde 2006).

Verifico agora, com mais atenção que ele foi ferido gravemente num operação a caminho de Sinchã Jobel no subsetor de Geba, quando a sua CCAV 1748 estava aquartelada em Conbtuboel... Mais de ano e meio depois eu próprio iria conhecer o CIM de Contuboel, cujo subsector era um "oásis de paz"...

Já agora a operação em que o cmdt do 4º peloitão da CCAV 1748 foi ferido com gravividade: Op Invicta II, de 5 a 8dez67,  que consistiu mum golpe de mão na região de Caresse, sector L2, envolvendo forças da CCaç 1788, CCav 1748 e 2 Sec/Pel Mil 112, e  com apoio aéreo. As NT atingiram o objectivo constituído por 10 casas de mato, capturaram munições diversas e fizeram 12 feridos ao lN, que reagiu pelo fogo. As NT tiveram 2 feridos.

2. Facto que eu desconhecia, ele também foi à Guiné-Bissau em 2017 ... Com o Zé Cancela, o João  Rebola, o António Barbosa, o Angelino Silva, o José Manuel Samouco, o Eduardo Moutinho, o Rodrigo Teixeira e outros camaradas da Tabanca de Matosinhos...

O Zé Teixeira, que dessa vez não foi (tinha ido em 2015),  diz-me que "o grupo foi recebido pelo Presidente da República, o JOMAV. Sei que falaram do seu ferimento e do comandante Gazela. O Eduardo Moutinho também foi, mas agora anda às voltas com uma pneumonia".

Pedi ao Zé  Cancela algumas fotos desta viagem (em que visitaram muitas localidades) para ilustrar a minha apreesentação do nosso novo grão-tabanqueiro, que deixa muitas saudades, não só entre os antigos combatentes mas também no mundo do oçlimpisco e no hipismo .  Fizemos uma primeira seleção.

Recordo-me de, antes da pandemia, o ter convidado a integrar a nosssa Tabanca Grande...  Mas, como diz o Zé Teixeira, ele gostava mais de cavalos (e mulheres bonitas) do que computadores. Gostava mais de falar (de improviso) do que escrever. Mas era uma exímio contador de histórias. 
 
Apurámos que o nosso infortunado camarada foi alf mil cav, CCAV 1748 ( subunidade que passou por Bissau, Bula, Contuboel e Farim, entre jul 67 e jun 69). Tem cruz de guerra de 4.ª classe, atribuída em 1972. Não tínhamos, até agora,  nenhum representante desta subunidade na nossa Tabanca Grande.

Segundo a página do facebook do portal Utw Ultramar Terraweb (nota de óbito, de 23 do corrente, 16:08), o Leite Rodrigues era capitão do quadro permanente da GNR, na situação de reforma. Em 1/12/1970, tinha sido promovido a ten mil, e colocado na GNR. Em 17/5/1984, foi gradudo em capitão e promovido a cap QP, da GNR.

Era uma figura conhecida e respeita no meio equestre, foi atleta olímpico, e é recordado tanto como cavaleiro como mestre na arte da equitação. Era natural de Aveiro. Tem uma filho, que vive em Lisboa. Tinha uma filha que morreu em circunstâncias trágicas, aos 14 anos,  em 2006,  na sequência de um acidente com um dos seus cavslos. A Filipa era uma promissora atleta da equitação portuguesa, seguindo os passos do pai.

Segundo o portal Equitação, o "Alberto Bernardo Azevedo Leite Rodrigues (1945 - 2025), capitão da Guarda Nacional Republicana, representou Portugal ao mais alto nível, tendo sido olímpico nos Jogos de Barcelona em 1992, na disciplina de CCE. Dedicou a vida ao desporto equestre, que viveu com paixão. Durante a carreira como atleta, venceu inúmeras competições no nosso país e no estrangeiro, em provas de Saltos de Obstáculos e CCE. Como Veterano e Embaixador regista títulos e medalhas nos Campeoanatos de Portugal e da Europa". Nomeadamente, em 2000, sagrou-se "Campeão da Europa de Veteranos de Saltos de Obstáculos".


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26157: Casos: A verdade sobre... (49): Os "djubis" da CART 11 e da CCAÇ 12, que foram soldados... (Luís Graça)



Umaru Baldé (c. 1953- c.2004, Bambadinca, meados de 1970
Foto: Benjamim Durães (2010)



Umaru Baldé (c. 1953-c. 2004), recruta do CIM Contuboel,
 c. março de 1969 

Foto: Valdemar Queiroz (2014)


1. Resposta do editor LG ao Valdemar Queiroz (*): 

Valdemar, obrigado pela tua preciosa "lembrança"... Reconheço estes putos ou pelo menos três, os que pertenceram à CCAÇ 12, e que fizeram a guerra comigo (*)...

Quanto ao Umaru Baldé (c. 1953- c. 2004), o "menino de sua mãe", tens aqui  duas fotos dele (uma é do teu álbum, o recruta Baldé, no CIM de Contuboel, com cara e corpo de "djubi"; a outra, um ano mais tarde,  de meados de 1970, tirada em Bambadinca, já com o BART 2917).

Vamos pô-lo a nascer por volta de 1953 para salvar a "honra do convento", isto é, para que a NT não sejam acusadas de recrutar crianças para a guerra, como acontecia com o PAIGC...

Soldado do recrutamento local, nº 82115869, o Umaru tirou a recruta   (com a CART 11) e a especialidade (com a CCAÇ 12), no CIM de Contuboel (um um um "oásis de paz", como eu lhe chamei, em junho de 1969). 

Foi exímio apontador de morteiro 60, soldado arvorado e depois 1º cabo at inf  da CCAÇ 2590 /  CCAÇ 12 (1969-1972), no 4º Gr Comb,  3ª secção [comandada inicialmente pelo fur mil 11941567 António Fernando R. Marques: DFA, vive hoje em Cascais, empresário reformado, membro da nossa Tabanca Grande].

O Umaru Baldé, que era de Dembataco (ou Demba Taco),  cresceu com a guerra: Demba Taco pertencia ao subsetor do Xime, um dos primeiros a conhecer a crueldade da guerra.  Foi recrutado em 12/3/1969,  como ele conta em carta pungente que te escreveu, trinta anos depois, já a viver na Amadora. 

Tirou a recruta no CIM Contuboel e fez o juramento de bandeira em Bissau, em cerimónia a que assistiu o gen Spínola.  Em junho e julho de 1969 fez a especialidade, já com os graduados da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12 como instrutores... Juntos formamos companhia e fizemos a IAO.  Em 18 de julho de 1969 ficámos à ordem do comando do sector L1, e fomos colocados em Bambadinca.  Seis dias depois tivemos o batismo de fogo em Madina Xaquili, que será abandonada, dois meses e tal depois, em outubro.

O Umaru Baldé fez a guerra  entre meados de 1969 e 1972,  foi depois colocado, nesse ano,  em Santa Luzia, Bissau, no quartel do Serviço de Transmissões, onde ficou até ao fim da guerra.  (Julgo que depois de ter sido ferido em combate, ainda na CCAÇ 12, que entretanto passará a unidade de quadrícula, colocada no Xime em março de 1973.)

Conheceu, em mais de metade da sua vida, a amargura e a solidão do exílio. Não sei se chegou a ter mulher e filhos.  Percorreu meia África, em busca de liberdade e seguranças. Veio a morrer, aos 50 anos,  em Portugal, no "terminal da morte", que era então o, hoje  já extinto,  Hospital do Barro, Torres Vedras (onde também, por ironia do destino,  viria a morrer Luís Cabral, uns anos depois, em 2009).

O "puto" Umaru,  como sempre o tratámos, contou apenas com o apoio e a ajuda de alguns dos seus antigos camaradas de armas, "tugas",  da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, mas também da CART 11 (como tu, Valdemar Queiroz,  e outros). 

Não posso confirmar, com rigor, o ano em que nasceu e o ano em que morreu. Nunca mais o vi desde que regressei a casa em 17 de março de 1971. Tenho uma foto com e com o Zé Carlos.

 

Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 (1969/71) > Fevereiro de 1970 >  Região do Xime >   1º  Grupo de Combate, comandado pelo Alf Mil Inf Op Esp Francisco Moreira, no decurso da Op Boga Destemida, uma operação sangrenta...  A CCAÇ 12, que integrava a "nova força africana" (que era a menina dos olhos de Spínola) foi uma subunidade de intervenção, duramente usada e abusada pelo comando dos BCAÇ 2852 (1968/70) e BART 2917 (1970/72) 


Foto: © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados 
[Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



2. Aproveito para retomar aqui, com algumas alterações,  um comentário meu que já tem 18 anos sobre  "a lista dos Baldés" da CCAÇ 2590 / 12, e que publicitei, em 2006 (**), depois de ponderar os prós e os contras: eram 100 os "Baldés", que foram integrados na CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12), em Contuboel... Muito poucos deles estariam ainda vivos nessa altura. E hoje já não estará nenhum.

Na altura, podia parecer fastidiosa, inútil, irrelevante... a minha lista de Baldés...    Mais: até imprudente, podendo pôr em risco a liberdade e a segurança dos nossos antigos camaradas guineenses,  os sobreviventes, os que ainda estariam vivos (como, por exemplo, o José Carlos Ussumane Baldé, o único 1º cabo que existia no meu tempo).

Não pensava o mesmo , em 2006: podia ter (ou vir a ter) algum interesse documental, historiográfico, eu sei lá... Podia facilitar a pesquisa de informação, de testemunhos, de depoimentos...E quanto a ajustes de contas, infelizmente já tinham sido feitos sob o regime de Luís Cabral...

Entendia que era um pequeno, modestíssimo, gesto de elementar justiça para com aqueles guineenses que lutaram ao nosso lado, que fizeram parte da CCAÇ 12 e, portanto, da 'nova força africana'  com que sonhou Spínola e que tanto atemorizou o PAIGC (eles e não apenas a "tropa especial", com destaque para os Comandos Africanos).

Infelizmente, uma grande parte deles (quantos, exactamente?) já não estariam vivos em 2006. Uns tinham sido fuzilados, como o Abibo Jau, logo em 1975, outros andaram fugidos, a maior parte terá morrido de morte natural, que a sua esperança de vida era muito menor que a nossa, em 1969...

Eu estava à vontade para publicar essa lista: sempre critiquei a africanização da guerra da Guiné, embora longe de imaginar que, no dia seguinte à nossa retirada, começasse a caça aos "traidores", aos "contra-revolucionários", aos "mercenários", aos "colaboracionistas", aos "cães dos colonialistas", aos "cachorros dos tugas"...

Eu já não estava lá, em agosto de 1974, quando foi extinta a CCAÇ 12 e as demais subunidades da "nova força africana" (incluindo a CCAÇ 11, herdeira da CART 11). E, confesso que, desde que cheguei, em março de 1971, e até ao final da década de 70, pus uma tranca à porta da "memória da guerra". E só no princípio de 1980, comecei a tentar "exorcizar os fantasmas da guerra colonial" (sic) (uma expressão minha, que paga direitos de autor...).

Em 1969, ainda estava vivo o Amílcar Cabral e eu, na metrópole,  admirava-o, em abstrato,  intelectualmente, pelo pouco tinha lido dele (náo tenho pejo em admito-lo hoje). 

Achava que na Guiné, depois da independência, "abadá a guerra e feita a paz", tudo seria diferente, e não aconteceriam os ajustes de contas que se verificaram noutras revoluções ou guerras civis, na Rússia, na China, na Espanha franquista, na França depois da libertação, na Argélia, em Cuba, etc. Pobre de mim, ingénuo...

Mas, por outro lado, também fui cúmplice da integração destes "putos" no nosso exército: mesmo sendo  da especialidade de armas pesadas, e não fazendo  parte formal, organicamente,  de nenhum dos quatro grupos de combate da CCAÇ 12, acabei como vulgar atirador de infantaria, já que a companhia não tinha instalações a defender e  era de intervenção ("uma companhia de nharros, carne de canhão", rosnávamos nós, entre os dentes, sempre que saíamos para o mato...).

Participei, por isso, em muitas das operações em que estes participaram, fui testemunha da sua coragem e do seu medo, dormi com eles nas mais diversas situações, incluindo nas suas tabancas, transportámos às costas os nossos feridos e os nossos mortos... 

Foram meus camaradas, em suma.

Alguns (ou até bastantes) vieram das milícias, a maior parte já tinha alguma experiência de combate. E quanto à sua origem geográfica, os nossos camaradas guineenses da CCAÇ 12 (originalmente, CCAÇ 2590), eram oriundos do chão fula e em especial dos regulados do Xime, Corubal, Badora e Cossé, com exceção de um mancanhe, escolarizado,  oriundo de Bissau (que se fartou de levar "porradas", por ser "reguila" e "indisciplinado").

“Todos falam português mas poucos sabem ler e escrever", lê-se na história da CCAÇ 12. (O que só era verdade 21 meses depois de os termos conhecido e instruído em Contuboel, em junho e julho de 1969: nunca tiveram tempo sequer de ter aulas regimentais, o português que aprenderam, a falar e a escrever foi connosco.)

Foram incorporados no Exército como "voluntários" (sic), acrescentou o escriba (fui que escrevi a "história da unidade"), para branquear a insustentável (historicamente falando) situação dos jovens fulas, condenados a aliarem-se aos tugas e a pagarem a fatura do "colaboracionismo" no dia a seguir à nossa partida... 

Mas devo acrescentar: mal ou bem, a tropa e a guerra acabaram por ser um "modo de vida" para muitos deles... Teria o Umaru Baldé alguma alternativa ? Seguramente que não. O Salazar, o Tomás, o Caetano queriam-nos,  a todos,  heróis ou... mortos!
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Notas do editor:

(*) Ultimo poste da série : 14 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26153: Casos: A verdade sobre... (48): Os "djubis" da CART 11 e da CCAÇ 12, que foram soldados... (Valdemar Queiroz)

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Guiné 61/74 - P25905: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (32): uma gazela furtiva em Sare Ganá



Motivo central de um pano traeional de Cabo-Verde.  Mulher cozinhando. Imagem reeditada por LG (2024).




Guiné > Carta de Bambadinca (1955) >  Escala de 1/50 mil > Posição relativa de Sinchã Jobel (IN) e de aquartelamentos, destacamentos e tabancas em autodefesa (NT): a sul, Missirá e Fá Mandinga; a leste, Geba, Sare Ganá, Sinchã Sutu... Pelo meio o rio Geba Estreito...Sare Banda ficava mais a norte (vd. carta de Banjara, 1956).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2019)


Contos com mural  ao  fundo >  

Uma gazela furtiva em  Sare Ganá

por Luís Graça (*)



Não, hoje já não saberias lá chegar... a Sare Ganá, passando pela povoação  de Geba. Parece que fora  outrora, Geba,  uma praça forte, entreposto de escravos, feitoria, presídio. Terra de deportados e de grumetes. Mas também de lindas mulheres... 

Em 1969, quando a atravessaste, de Unimog,   estava há muito em total decadência, ofuscada pelo progresso e pela beleza de Bafatá. A "princesa do Geba", do rio Geba, como lhe chamavam os comerciantes locais e a tropa...

Nem te lembravas sequer  já de passar pela ponte nova, uma bela ponte em betão sobre o rio Geba Estreito… Ponte Salazar, que o "homem grande de Lisboa" ainda era vivo … Mas já ninguém queria saber dele nem do seu nome. Mesmo assim, ninguém se atrevia ainda a cometer o sacrilégio de mudar os nomes das terras e obras que ostentavam o seu nome: Vila Salazar, Bacau, Timor; Ponte Salazar, estuário do Tejo, Lisboa; Avenida Salazar, Melgaço, etc....

O novo "homem grande de Lisboa" agora  era o Marcello (com dois ll) Caetano, cujo nome os teus soldados, de 2ª classe, guineenses,  eram simplesmente incapazes de pronunciar e muito menos de soletrar. Não admirava: não falavam português, eram muçulmanos, não comiam carne de porco, não bebiam "água de Lisboa", nem muito menos sabiam onde era a maravilhosa Lisboa e o mítico Terreiro do Paço onde se condecoravam os heróis do 10 de Junho como o João Bacar Jaló.

Falavas em português apenas com o 1º cabo Suleimane, o Zé Carlos,   que era o teu intérprete, guarda-costas, secretário e cozinheiro, quando eram destacados para alguma tabanca em autodefesa da região, como era o caso de Sare Ganá,  do regulado de Joladu.  

Era ele, de resto, quem ia junto dos furtivos  caçadores da tabanca procurar comprar alguma peça de caça para o teu frugal almoço.  Ou, junto das mulheres grandes, em busca de ovos e franganitos, raquíticos (sete pesos e meio cada bico)...Partilhavas as refeições com ele, mesmo sendo desarranchado. Onde comia um, comiam dois. Procuravas respeitar as crenças dos teus homens.

Além do cabo guineense, levavas uma secção, 11 militares contigo, nove praças, todos do recrutamento local, mais um operador de transmissões, metropolitano. Cabo auxiliar de enfermagem não havia, era um luxo.  "E se houver um azar, meu capitão ?"... (Nem bolsa de primeiros socorros tinhas, pedias por rádio uma evacuação Ípsilon, em caso de emergência.)

Em pleno agosto, no tempo das chuvas. Sare Ganá, no subsector de Geba, a noroeste de Bafatá...

Sare Ganá. A última das tabancas do regulado de Joladu,,, Estiveste aqui destacado duas semanas, em reforço ao sistema de autodefesa... O que não era ironia, porque a população era fula, estava ao lado dos "tugas",  seus antigos inimigos e agora aliados. Os "cães dos colonialistas", denunciava a "Maria Turra" aos microfones da rádio "Libertação"...

Saré Gané, a mais de 4000 quilómetros de distância da tua casa… "O que fazes aqui, meu sacana ?"... (Como gostarias de ter ouvido alguém teu conhecido, da tua terra, a interpelar-te, eufórico,  pelo caminho!...).  

Será que Sare Ganá ainda existe ? Será que alguma vez existiu ? Ou não terá sido fruto de um delírio teu, da tua imaginação já febril, já palúdica ? ... Ah!, malditas sezões, maldito paludismo!...

Sim, Saré Ganá existiu... Armadilhada entre as duas fiadas de arame farpado e guarnecida por um pelotão de milícia  e grupos civis de autodefesa, Sare Ganá era  uma espécie de aldeia estratégica, que tu descreveste no teu diário.  Uma tabanca-tampão. Aqui terminava a "nossa" soberania territorial, a norte do Rio Geba e começava a zona de intervenção do Com-Chefe que incluia, entre outras, as regiões de Mansomine, Caresse e Óio. 

"Nossa" ?,,, Tinhas relutância em usar o adjetivo possível no plural. Como se aquela maldita guerra não fosse também a tua, ou tua... Não,  não era a tua guerra, não a tinhas escolhido de livre vontade, mas também era tua, tinha sobrado para ti... Sim, depressa tiveste que aprender a salvar o pêlo, o teu e dos soldados que te foram confiados. Alguns, putos, "djubis", de 15 e 16 anos...

Era aqui que vivia o régulo, uma solitária figura de aristocrata fula, de elevada estatura. A sua cabeça destacava-se acima da cabeça dos demais. É isso que queria dizer a palavra chefe, etimologicamente falando.  Presumias que fosse futa-fula. Não fixaste o seu nome. Todos os seus súbditos, mandingas, balantas e manjacos, que viviam em Joladu, 'foram no mato' (leia-se: aderiram à guerrilha, ou foram obrigados a fugir, acossados de um lado e do outro). O seu regulado estava circunscrito ao perímetro de Sare Ganá e a mais duas ou três tabancas: Sinchã Sutu, Sare Banda. 

O teu camuflado ainda cheirava a goma, trazia os odores das Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento do Exército. Tinhas acabado de chegar do  Centro de Instrução Militar de Contuboel, um "oásis de paz", como tu eufemisticamente dizias, na única carta mensal que tinhas por hábito escrever à família. Carta por correio aéreo, nunca gastaste um aerograma ao Movimento Nacional Feminino. Não confiavas na sua inviolabilidade.

Em Contuboel,  usavas a farda nº 3, dita de "trabalho". A  tua companhia, de guarnição normal,  depois da Instrução de Aperfeiçoamento Operacional, a IAO,  tinha passado a ser uma subunidade de intervenção,   ao serviço do Agrupamento de Bafatá (do temível coronel Hélio Felgas, se bem te lembras)... 

Como tu dizias com sarcasmo, eras agora um graduado  preto de 1ª , a comandar soldados pretos de 2ª.

E quase todos os dias ouvias os Fiat G-91 bombardearem Sinchã Jobel, uma base da guerrilha a 10 km a norte, e que era inacessível no tempo das chuvas devido às bolanhas e lalas que a rodeavam... 

Base ? "Barraca", diziam os milícias, em crioulo... “Até Farim é tudo terra para queimar” (sic). Nenhuma tropa apeada, ao que parece, se atrevia então a penetrar neste santuário do IN. Falava-se aqui da "mata do Óio", como um misto de temor e de terror, domínio do sagrado e da morte. A guerra, em todo o lado e em todos os tempos,  era fértil em criar lendas e narrativas. O mito do Óio começava em Saré Ganá...

Ainda estava na memória da população o ataque de há um ano atrás, em 12 de agosto de 1968, ao tempo da CART 1690: à meia noite em ponto, um grupo IN estimado em cerca de 60 elementos, ou seja um bigrupo reforçado, vindo de Sinchã Jobel, tinha atacado Sare Ganá.

“Um ataque medonho”, segundo o testemunho de alguns milícias com quem falaste, com o Suleimane a servir de intérprete.  Já não apanhaste a "velhice" de Geba, tinha acabado a comissão em março de 1969.

O ataque iniciou-se por tiros de morteiro, lança-granadas-foguete (os temíveis RPG que tinham fama de arrancar cabeças) e metralhadoras, com uso de balas incendiárias. O IN conseguiu alcançar o arame farpado do lado Norte,   penetrando na tabanca. Uma falha de segurança, no perímetro de arame farpado, mesmo armadilhado,  terá permitido a passagem de uns alguns atacantes, empunhando armas ligeiras automáticas. Algumas moranças começaram logo a arder. 

A reação das NT não se fez esperar: os valentes milícias fulas, uns a partir dos abrigos, outros dispersos pela tabanca, reagiram pelo fogo, aguentando o ímpeto inicial do ataque e dificultando o mais que puderam a infiltração dos "turras".  Parte da população, os homens, estava armada e colaborou na defesa da tabanca. Mas depressa se esgotaram as munições, obrigando a milícia a recuar. A disciplina de fogo nunca foi apanágio do guineense, quer empunhasse uma G3 quer manejasse uma Kalash. 

Em Geba, sede da CART 1690, a escassa meia-dúzia de quilómetros, logo que se ouviram os primeiros rebentamentos, saiu um piquete de socorrro, num viatura: meio pelotão, enquadrado por um alferes e um furriel. Nas proximidades de Sare Ganá, cerca de meia hora de depois, o grupo subdividiu-se, aproximando-se, a pé, da tabanca, com a intenção de procurar surpreender as forças atacantes.

Ao mesmo tempo que apoiavam a retirada da população, as forças da CART 1690 iam abrindo caminho, morança a morança, à força de bazucadas e curtas rajadas de G3. Gente brava e sacrificada, essa companhia de Geba!...

Às tantas, o IN, surpreendido pelo contra-ataque, lançou um “very light” e iniciou a sua retirada, arrastando consigo as baixas que sofrera e carregando o respetivo material. Devido à escassez de efetivos e à escuridão da noite, a perseguição encetada pelas NT não terá ido além da orla da mata próxima. Ninguém, de resto, gostava de combater à noite...

Uma hora e tal depois do ataque chegou uma coluna de socorro, em viaturas, oriunda de Bafatá, composta por cerca de dois pelotões reforçados, da CCS/BCAV 1904, do EREC 2350, e do Pel Caç Nat 64. 

Controlada a situação, as forças de Bafatá, com exceção do Pel Caç Nat 64, regressaram com os feridos mais graves da milícia e da população local. Foi montada segurança à tabanca nessa noite e dias seguintes.

Apurou-se então que o IN terá tido 5 mortos e outras baixas prováveis. De entre o material capturado, contaram-se duas armas ligeiras, uma metralhadora Dectyarev, com bipé, e uma pistola metralhadora Sudayev PPS-43, de origem russa, uma das lendárias armas ligeiras da II Guerra Mundial, variante da PPSh-41, mais conhecido por "costureirinha" ( a irritante "costureirinha").

 Do lado dos defensores, soube-se que tinha havido baixas entre a milícia e a população local. Parte da tabanca teve que ser reconstruída.

Um ano depois  aqui estavas tu, "periquito", de 5 a 17 de agosto de 1969, integrado no grupo de combate da tua CCAÇ,  temporariamente em reforço do Sector L2 (Bafatá). Uma secção fora destacada para Sare Ganá e duas para Sare Banda. O alferes deve ter ido para Sare Banda, se é que não se baldou, mas já não te lembras...


Dias antes da tua chegada a Sare Ganá,  o IN fizera um ataque malogrado à tabanca em autodefesa de Sinchã Sutu, mais a Norte. Tocaram as campainhas de alarme em Bafatá, tal como acontecera com Madina Xaquili,  a sul.  

Agora, por causa de um possível ataque da guerrilha (mesmo no auge do tempo das chuvas) era proibido, à noite, fazer lume ou fumar na tabanca de Sare Ganá. Contava-se que num outro destacamento do subsetor de Geba, tempos antes,  dois militares das NT haviam "lerpado" com um roquetada quando acenderam uma lanterna na tenda...   Jogavam às cartas, dizia-se, para matar o tédio... Tiro de um "snipper"... Uma morte horrorosa, como todas as mortes na guerra...

Em Saré Ganá o pessoal comia  cedo e deitava-se cedo. Ficavam os vampiros dos mosquitos a velar-te. Por sorte, não apreciavam lá muito o teu sangue. Devia-lhes saber a uísque. Tinhas levado uma garrafa contigo...

E mais à frente, no teu diário, a 15 de agosto de 1969, perguntavas:

(...) “Destacado ou desterrado ? O que farei eu com uma seção de combate, uma bazuca 8.9, um morteiro 60, 10 G-3 e um rádio se isto der para o torto ? 

"Depois do ataque malogrado à tabanca próxima, Sinchã Sutu, a população fula anda compreensivelmente nervosa,  inquieta... 

Sinto-me como os bombeiros, atrás da ameaça de fogo-posto, mas ainda não fiz sequer o meu batismo de fogo, contrariamente à maior parte da companhia, que teve os seus primeiros feridos graves em Madina Xaquili, no sul do chão fula, há menos de 3 semanas." (...)

Perguntavas a ti próprio qual o sentido e o alcance desta tua missão:

(...) “Limito-me a estar aqui e vigiar os postos de sentinela: adormeço sobre a manhã,mas não posso dormir como um porco; às dez ou onze levanto-me, porque o calor dentro da minha palhota é já absolutamente insuportável. Devoro o almoço que o Suleimane entretanto já me preparou, e que em dias de sorte pode ser um bife de gazela, com algumas legumes das hortas locais...

Depois oiço velhas lendas dos tempos em que os cavaleiros do Futa Jalon (leia-se "Djalon") eram donos e senhores destas terras, derrubado o reino de Gabu em Cassalá há 100 anos atrás.

Ao fim da tarde dou um giro para fingir que me mantenho operacional, converso com a população e recapitulo  o plano de defesa da tabanca” (,..)

Dormir que nem um porco!...  Aqui convinha  lembrar o sábio conselho do provérbio popular: 'Três horas dorme o santo, quatro o que não é santo, cinco o viajante, seis o estudante, sete o porco e oito o morto'... Seria, afinal, aqui  que irias aprender que dormir muito fazia mal à saúde...

E relatavas, no teu diário, uma bravata estúpida, bem típica de um inconsciente "periquito”, feita logo no princípio das tuas andanças por aqui. É uma das tuas duas recordações marcantes da estadia em Sare Ganá:

(...) “Fui sozinho com um milícia local fazer o reconhecimento duma aldeia próxima, abandonada pela população e armadilhada. Talvez Sinchã Famora, a sul, não fixei o nome. 

O tipo ia à frente com uma varinha feita de caule de capim seco (!), tentando detetar os fios de tropeçar que atravessavam os trilhos da aldeia, de resto já pouco visíveis.

" A meio do percurso, apanho um susto, pondo à prova os meus reflexos: um antílope, que pastava perto, atravessou-se-nos no caminho, em plena área supostamente armadilhada". (...)

 Foi mais do que um susto, apanhaste um calafrio: é que na noite anterior, uma hiena, que lá chamavam "lobo", e que vinha no encalce dos galináceos domésticos, tinha feito acionar uma das armadilhas do perímetro de defesa de Sare Ganá. E de pronto começaste a ouvir, de todos os lados, sucessivas rajadas de G-3... O pessoal, assustadiço, andava com os nervos em franja.

Ainda hoje te perguntas como é que tu arriscaste a tua vida e a do milícia local, nesta estúpida e inútil aventura de ir “reconhecer” uma aldeia abandonada e armadilhada ?!… Puro voyeurismo, grosseira infantilidade,  risco gratuito!... Para provar o quê  ? Não fazia parte da tua missão!... 

Em suma, uma pura bravata!... Talvez quisesses provar a ti mesmo que também eras “um gajo com tomaste", tu que nem sequer eras um atirador de infantaria, nem tinhas, ao certo, nem pelotão nem secção...Eras o "pião das nicas", como te chamava o teu capitão, suprias as faltas de graduados, em todos os pelotões... 

Quiseste-te armar em "ranger", ou pior ainda, de sapador, tu que nem sequer tinhas conhecimentos rudimentares de minas e armadilhas... Podias ter acabado logo ali,a  escassos a dois meses e meio de Guiné, crivado de estilhaços.  

Saré Ganá era, francamente, um sítio desolador para se morrer e, pior ainda, para se ficar inumado na vala comum do esquecimento...

A outra recordação marcante foi a da visita à tua morança, de uma  "gazela furtiva", cujo nome nunca soubeste, e que ficou no teu diário como uma simples "Fatumatá":

Ainda não me tinhas habituado ao ‘black-out’ total, imposto por óbvias razões de segurança: não podias ler nem escrever na tua morança de comandante, cedida pela "autoridade local"...

(...) "Faz-me falta uma pequena lanterna de pilhas, o que torna ainda mais insuportáveis estas longas noites de Sare Ganá, em plena época das chuvas" (...).

Logo na segunda ou terceira noite tiveste a companhia silenciosa, misteriosa e furtiva de uma mulher da aldeia (nunca pudeste confirmar a suspeita de que era uma mulheres do comandante da milícia  local)...

Nem deste conta: introduziu-se, lesta como uma gazela, na palhota onde dormias, junto ao espaldão do morteiro 60. Tapou-te a boca com a mão, esboçou um sorriso cúmplice, puxou o pano de chita até à cintura, virou-se delicadamente de costas e ofereceu-te o seu esguio corpo de ébano, ressumando húmidos odores da floresta!...

(.,..) “De pé, ligeiramente curvada para a frente, enigmática como uma máscara, lasciva como a serpente bíblica, submissa como uma fêmea de felino!" (...).

Não te olhou olhos nos olhos, mas tu fizeste questão de a mirar de alto a baixo, de frente:

(...) “Não é bonita, o rosto deve-lhe ter sido marcado pela varíola, quando mais nova... É sensual e ainda jovem, de seios duros mas pequenos... 'Mama firme', como se diz aqui. É provável que seja infértil e nunca tenha parido.” (...)

Assim de chofre, tiveste dificuldade em perceber o seu comportamento e muito menos em adivinhar-lhe a idade:

(...) “Terá vinte e tal anos, menos de trinta.  (...)

E, tal como tinha chegado, partiu depois, discreta, silenciosa, furtiva, pela calada da noite, sem dizer uma única palavra em português ou crioulo...

(...) “Um 'affaire' no mato ? Que palavra tão deslocada, para mais francesa,  aqui no cú do mundo, numa tabanca fula, num país em guerra!” (...)

De qualquer modo, aquele momento de todo inesperado acabou por ser  celebrado com uma singela troca de "roncos": deste-lhe uma toalha de banho turca, colorida (haverias de comprar outra na Casa Gouveia, em Bafatá),  e ficaste-lhe com a sua pulseira de missangas vermelhas e brancas como recordação daquela estranha noite de Sare Ganá. Passaste a usá-la como amuleto.


Nem sequer te ocorreu "partir patacão" com ela: não querias, de modo algum, que o "vil metal" viesse  estragar a singeleza e até a beleza daquele momento, a partilha de corpos entre um homem e uma mulher que pertenciam a dois mundos completamente opostos...mas tinham em comum quiçá a infelicidade e a solidão do "hic et nunc", do aqui e agora...

Ainda hoje tens dificuldade em entender o significado daquela cena!...  O significado s
ocioantropológico, acrescenta lá o chavão: 

(...) "Simples atração sexual de um mulher por um estrangeiro ? Simples favores sexuais sem pedir mais nada em troca ? Cumprimento da obrigação feminina de hospitalidade, por ordens expressas do régulo ou do comandante de milícias que tu mal conheceras ? Ritual de submissão ao representante dos tugas, os 'senhores da guerra'? Solidão, despeito, ciúme, não sendo a mais nova das mulheres do seu marido e senhor, e muito provavelmente sendo infértil, e se calhar até repudiada,  uma das piores maldições que pode recair sobre a honra de uma mulher em África ? (...)

Este caso não era único, na época, e não acontecera por certo pelos teus lindos olhos... Nunca te armaste propriamente em sedutor... Soubeste mais tarde de outras estórias semelhantes de partilha de favores sexuais, de iniciativa aparentemente feminina... em contexto de guerra.


E concluías esse apontamento no teu diário, antes de regressares à sede do batalhão:

(...) “Deveríamos ser, ali, em Sare Ganá, os dois seres mais deslocados, infelizes e solitários do mundo... Nunca mais a vi, nem cheguei a saber a sua verdadeira estória. Nem sequer o seu nome. Nem quem a teria mandado. Nem sei se algum dia voltarei a Sare Ganá. Mas a sua imagem de gazela furtiva, essa, não vou tão cedo apagá-la da minha memória."


Não, nunca mais voltaste a Sare Ganá, é verdade...

Já em Contuboel, nos menos de dois meses de paz de Contuboel, tu havias escrito:

(...) Aqui a consciência humana tem a dimensão da tribo, do grupo étnico ou até da aldeia. Uma precária serenidade envolve a azáfama quotidiana destes povos ribeirinhos do Geba que, no meu eurocentrismo de viajante, recém-chegado e distraído, descreveria como felizes, gentis e hospitaleiros. 

O que eu observo, sob o frondoso e secular poilão da tabanca, é uma típica cena rural: (i) as mulheres que regressam dos trabalhos agrícolas; (ii) as mulheres, sempre elas, que acendem o lume e cozem o arroz; (iii) as crianças, aparentemente saudáveis e divertidas, a chafurdar na água das fontes ou nas poças da chuva; (iv) os homens grandes, sempre eles, a tagarelar uns com os outros sentados no bentém, mascando nozes de cola, desfiando uma espécie de terço. (...)

Em suma, um fim de tarde calmo numa tabanca fula (ou mandinga, ainda não sabias distinguir),   dos arredores de Contuboel que daria, em Lisboa, uma boa aguarela, para uma exposição no Palácio Foz, no Secretariado Nacional de Informação (SNI). 

E, no entanto, o seu destino, o destino destes homens, mulheres e crianças fulas, já há muito que estava traçado: em breve a guerra, e a militarização do seu "chão", e com ela a morte e a desolação, chegariam até estas aldeias de pastores e agricultores, caçadores e pescadores, músicos e artesãos, místicos e guerreiros…

E acrescentavas em tom algo premonitório ou até profético, juntamente peças dispersas do pouco conhecimento que detinhas da situação político-militar do território, em meados de 1969:

(...) "O chão fula vai resistindo, mal, ao cerco da guerrilha. De Piche a Bambadinca ou de Dulombi a Fajonquito, os fulas estão cercados. Mas por enquanto, Bafatá, Contuboel ou Sonaco ainda são sítios por onde os tugas podem andar, à civil, e até desarmados, como se fossem turistas em férias! (...).

Meio intrigado ou embaraçado com a hospitalidade local (deram-te 
uma morança, uma cama, um banquinho ou uma "turpeça", além de uma mulher, ainda jovem mas mais velha do que tu...),   foi lá , em Saré Ganá, que te apercebeste do profundo significado socioantropológico do "dom", do dar e receber, do ter ou não ter.... uma "turpeça", um morança, uma mulher, e uma esteira para dormir, atributos afinal do poder dos pequenos senhores da guerra...  

© Luís Graça (2006). Revisto: 15 de junho de  2025
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Nota do editor:

domingo, 21 de novembro de 2021

Guiné 61/74 - P22738: Memória dos lugares (430): Tabatô, a tabanca da utopia, a 10 km, a nordeste de Bafatá - Parte I

 

Guiné > Região de Bafatá > Carta de Bafatá (1955 ) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Bafatá e de Tabatô que fica a cerca de 10 km, a nordeste, do lado direito da estrada que vai para Contuboel.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2021)


1. Heureca!...  A fim destes anos todos (!), descobri finalmemte a localização precisa da famosa tabanca de Tabatô. E mais: vi escrito o topónimo na carta de Bafatá... 

Nunca lá fui no tempo em que estive em Contuboel (de 2 de junho a 18 de julho de 1969), embora devesse ter andado por lá perto, uma vez que a CCAÇ 2590 (, futura CCAÇ 12) fez a IAO num raio de 15 km à volta de Contuboel, em farda nº 3 (as praças do recrutamento local), e com espingardas G3 apenas com cartuchos de salva... Só os graduados tinham nos bolsos uma dúzia de balas reais, não fosse o diabo tecê-las... 

Mas na altura o subsetor de Contuboel era um verdadeiro "oásis de paz", com as mais belas tabancas da Guiné,que nunca mais voltei a ver ... (*) Na realidade, nunca devo lá ter ido, a Tabatô, se não, lembrar-me-ia do seu nome... Afinal, os exercícios finais da instrução de especialidade da CCAÇ 2590 decorreram entre 6 e 12 de Julho de 1969, a 10 km a norte de Contuboel, e não a sul (*).

De facto, nem sequer o nome me ficou no ouvido. A primeira vez que ouvi falar em Tabatô foi através do João Graça que lá passou uma noite, memorável, de 15 para 16 de dezembro de 2009 (**).

Já aqui escrevi, há mais de 10 anos atrás: 

"Devo dizer, com toda a sinceridade, que nunca ouvi falar da Tabatô, durante a guerra colonial. (...) Foi o meu filho que me contou a sua experiência ímpar. Passou lá uma noite a curtir a música afro-mandinga e a tocar também 'world music' para os seus novos amigos...

"Tabatô, a aldeia de Kimi Djabaté, é agora a tabanca mais famosa da Guiné-Bissau. É já um lugar mítico, nomeadamente para a malta nova, que não vai em 'turismo de saudade', à procura de lugares e restos do passado, vai à descoberta do futuro, desse continente do futuro, que é a África... E quer ajudar a construir também esse futuro... Nem sei se Tabatô existia no tempo da guerra colonial... Já pedi ao meu amigo Pepito para saber da história da aldeia" (***).


O saudoso Pepito, que tinha uma forte ligação ao subsetor de Cntuboel, onde trabalhou como engenheiro agrónomo, e que representou como deputado na Assembleia Nacional do seu país, deu-me as primeiras coordenadas do lugar (****):

(...) " Luís, Tabató é uma tabanca muito antiga e sempre foi conhecida por ser uma povoação de djidius, isto é cantores, mas cantores que andam de tabanca em tabanca contando a história passada, os feitos individuais e colectivos marcantes e, desta forma, asseguram às novas gerações o conhecimento do passado.

Não me recordo o nome deles na Europa, mas andará à volta de jograis ou trovadores.
[Griots, em inglês e em fancês (LG)]

Alguns são contratados para enaltecerem as qualidades reais ou fictícias de certas pessoas.

É natural que não conheças esta tabanca, uma vez que se situa depois do cruzamento para Contuboel (de quem sai de Bafatá para Gabú), e a cerca de 5 Km da tabanca principal.

É uma tabanca de Djacancas, etnia aparentada aos Mandingas. Abraço, Pepito" (...).

2. Pergunto-me o que será a tabanca hoje ? (*****) E como é que lá se
 chega?  

Tabatô  tem beneficiado de bastante "mediatização" nos últimos anos (nomeadamente com o filme "A batalha de Tabatô", do realizador português João Viana)  e tem já alguns filhos ilustres, nomeadamente músicos. 

Descobri, entretanto, que qualquer um de nós pode lá passar uns dias úteis e agradáveis, para não  dizer umas "férias únicas", como "workawayer", hóspede que paga em trabalho (5 horas por dia / 5 dias por semana) a hospedagem, traduzida em "cama, mesa  & roupa lavada"... Ou eja, Tabatô está no roteiro mundial do turismo alternativo...

Também fiquei a saber que a tabanca de Tabatô não é apenas célebre pela sua escola de música, e por ser um grande viveiro da música, dos músicos e dos instrumentos musicais da tradição afro-mandinga. É também uma comunidade viva e aberta, tendencialmente igualitária, e que se tem empennhado na luta por causas nobres e avançadas como os direitos humanos, o desenvolvimento autossustentado,  a igualdade de gênero,  a mutilação genital feminina, a saúde pública, as alterações climáticas, etc.

Só é pena que as viagens para Bissau ainda sejam caras... E, convenhamos, ainda temos o problema da pandemia de Covid-19 por resolver... Mas pode ser um belo projeto para o futuro... Confesso que ainda lá gostava de ir, mesmo não sendo músico... (LG)

(Continua)


Guiné-Bissau > Bissau > Dezembro de 2009 > No conhecido e conceituado Hotel Spa Coimbra, sito na Av Amílcar Cabral, em pleno centro: da esquerda para a direita, o João Graça, o Mamadu Baio (músico da tabanca mandinga de Tabatô de onde é natural o Kimi Djabaté), o Vitor (cooperante espanhol), a Catarina Meireles (médica, portuguesa, minha antiga aluna na Escola Nacional de Saúde Pública)... Os restantes cinco elementos não sei, de momento, identificá-los. 

O João Graça, músico e médico, na altura interno de psiquiatria, esteve na Guiné duas semanas, em Dezembro de 2009, tendo estado mais tempo em Iemberém (onde prestou cuidados de saúde à população local, durante cinco dias), além de Bissau, e visitado ainda a zona leste (Bafatá, Tabatô, Gabu, Contuboel...) e a região do Cacheu (S. Domingos). Em Bissau conheceu a colega Catarina Meireles. É membro da nossa Tabaa Grande tal como o Mamadu Baio e o Kimi Djabaté.

Foto (e legenda): © João Graça (2009). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 25 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6642: A minha CCAÇ 12 (4): Contuboel, Maio/Junho de 1969... ou Capri, c'est fini (Luís Graça)

(**) Vd. poste de 12 de julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6720: Álbum fotográfico de João Graça (4): Uma noite memorável na terra de Kimi Djabaté, a tabanca jacanca de Tabatô

(***) Vd. poste de 8 de Julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6695: Memória dos lugares (82): Bafatá, Tabatô, Tabaski 2009:Não há preto nem branco, somos todos irmãos, disse a Fátima de Portugal numa cadeia de união... (Catarina Meireles)

(****) Vd. poste de 11 de julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6713: Memória dos lugares (91): Tabatô, tabanca antiga de Djacancas, berço de didjius, terra de Kimi Djabaté (Pepito)

(****) Último poste da série > 11 de novembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22709: Memória dos lugares (429): Formosa és tu, Cacela... (Poema e fotos do Eduardo Estrela, ex-fur mil at inf, CCAÇ 14, Cuntima e Farim, 1969/71)