Pesquisar neste blogue

sábado, 21 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27843: Os nossos seres, saberes e lazeres (727): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Não sei que preguiça me deu para não ter oportunamente dado uma notícia útil sobre este acontecimento cultural de gabarito que foi a exposição dedicada a Rogério Ribeiro e o neorrealismo intitulada Fazer Crescer a Vida, que estava patente no Museu de Vila Franca de junho a outubro do ano passado. Mais absurdo ainda é o meu comportamento por ter voltado mais duas vezes para desfrutar da arte do mestre que tanto venero. O Museu contou com o património em poder dos herdeiros de Rogério Ribeiro onde está este labor de sua juventude e que comprovam que o artista plástico só tinha por cânone as representações de um povo. O seu ativismo social assim se exprimiu, ele é um companheiro de ideias neste período de comunistas e homens sem partido que agitavam a bandeira do realismo social. Vendo estes trabalhos, sente-se já a sua grande abertura a experiências, tudo o que se irá metamorfosear na cerâmica, na litografia e linogravura, nas artes da gravura, no desenho de ilustração, algo culminará num projeto maravilhoso que ele dirigiu no Almada velho, a Casa da Cerca.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248):
Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1


Mário Beja Santos

Tenho uma profunda admiração por todo o legado artístico e poder criador de Rogério Ribeiro (1930-2008). Quando era responsável por uma página inteira do Jornal de Notícias, nos tempos do grande formato, havia uma secção dedicada a eventos artísticos e culturais a quem eu reconhecia confluência para os arquétipos da sociedade de consumo de massas; entrevistei então Rogério Ribeiro que dirigia a Casa da Cerca, hoje um património cultural de onde se tem, a partir do Almada velho, a mais bela vista de Lisboa fora de Lisboa. Mestre Rogério Ribeiro distinguia-se pela construção de um património artístico, onde primava uma importantíssima coleção de desenho contemporâneo, a realização de exposições envolvendo grandes figuras da arquitetura e das artes plásticas, isto num ambiente envolvido pelo chão das artes, isto é, uma natureza viva onde está implantada alguma da matéria-prima com que os artistas plásticos trabalham, enfim, uma originalidade na articulação da natureza com a arte feita pelo homem.

Decorreu no Museu do Neorrealismo uma exposição intitulada Fazer Crescer a Vida, Rogério Ribeiro e o neorrealismo, aconteceu entre finais de maio e outubro do ano passado. A tudo assisti na inauguração, uma apaixonante apresentação feita por David Santos, o diretor científico da casa, lá voltei duas vezes, e sabe-se lá por que negligência ou inércia fui demorando a intenção de pôr por escrito a chamada de atenção para este acontecimento cultural de gabarito, ainda por cima acompanhado de um catálogo de referência. Penitencio-me da minha falta, o que se segue não passa de uma tentativa de redenção.

Naqueles anos de 1950, eram múltiplas e divergentes as vanguardas artísticas, os princípios ideológicos primavam ou eram contestados. Houvera a rotura com o figurativismo graças ao cubismo, ao futurismo, ao construtivismo, ao expressionismo e o abstracionismo; entrar em cena uma estética figurativa assente num outro modo de ver o realismo, aí assentaram artistas do comunismo e do socialismo, ou não comprometidos explicitamente, mas companheiros de ideias. Um realismo social que conheceu debate interno, aconteceu em Portugal no fim da década com a chamada polémica interna do neorrealismo, isto numa altura em que também se impunham novas correntes estéticas, caso do surrealismo e as expressões abstratas. Rogério Ribeiro era então um jovem artista que irá abraçar o real, será tocado do trabalho dos sargaceiros e das sargaceiras.

Como se escreve no catálogo, ele cumpre em 1951 e em 1952 serviço na Administração Militar da Póvoa de Varzim. Nas praias da região observa a recolha do sargaço, trabalho duro que do mar recupera algas e limos para fertilizar as terras agrícolas. Tais atividades irão preencher um dos módulos da exposição intitulado Mar e Sargaço. A imagem da capa do catálogo é exatamente uma sargaceira, olha-nos de frente, como se tivesse interrompido o trabalho árduo, exibe umas mãos quase másculas, excessivas, o que nos remete para a dimensão dos volumes físicos desproporcionados, caso de O Gadanheiro, pintura de Júlio Pomar.

O que podemos apreciar é que o artista não está confinado a um só cânone, o conteúdo, a grande mensagem é o trabalho e em que condições, ele não se limitará ao óleo ou ao desenho, espraia-se pela cerâmica, pelas ilustrações, será um grande animador da gravura, um apaixonado pela linogravura e litografia, um eterno experimentador da ilustração. O conteúdo é sempre o povo, acrescenta-se aos gestos quotidianos do trabalho o lazer, há uma linha poética constante, entre a vitalidade desses trabalhos duros, como ele revela com as debulhadoras, os construtores de naus, a apanha da azeitona. Pois bem vamos entrar num território de mar e sargaço.

Texto sobre o módulo Mar e Sargaço
Temos pescadores, mulheres cosendo redes, sargaço e sargaceiras, naus, e falando de naus veja-se a agilidade das formas, é uma plasticidade que nos remete para um traço que torce e retorce e distorce, mas que não nos deixa olhar hesitante, são mesmo barcos.
Falando sobre o seu pai, e quanto ao período de 1947-1953, a filha, Ana Isabel Ribeiro, revela documentos do pai sobre este período. Retenho só um parágrafo:
“A convicção da possibilidade de a pintura poder, em determinados momentos, como os revolucionários, ser portador de um sentido aglutinador e mobilizador de vontades, foi algo que o meu pai jamais esqueceu. Foram dezenas os murais que pintou com outros artistas, um pouco por todo o país, após a revolução do 25 de abril. Lembro-me bem dos baldes de água que lhes levava para poderem lavar os pincéis, ou de quando perguntava ao meu pai o que podia fazer, e ele me passava uma trincha para as mãos e dizia: ‘Enche isso aí de azul!’.” Retive este parágrafo porque acho que há qualquer coisa de muralista nas debulhadoras acima, como iremos depois ver em pastores e podadores e mondadeiras, é uma verdadeira épica pastoril onde não se esconde a apologética do social.

Texto que abre a secção Terra e Campesinato

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 14 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27821: Os nossos seres, saberes e lazeres (726): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (247): A câmara clara e a câmara escura de manhã ao anoitecer: Acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 20 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27842: Memória dos lugares (454): Roteiro de Bissau: loja Salgado & Tomé (que tinha uma secção de perfumaria)


Guiné > Bissau > s/d > Loja Salgado & Tomé, anos 60



Fonte: anúncios de casas comerciais inseridos na revista Turismo, jan/fev 1956, ano XVIII, 2ª série, nº 2 (nº especial dedicado à província portuguesa da Guiné) 


Mapa de parte da baixa da velha Bissau (colonial), entre a Avenida da República (hoje, Av Amílcar Cabral) e a fortaleza da Amura. A escuro, dois prédios que pertenciam a Nha Bijagó. A vermelho, está loja Salgado & Tomé, a que se refere a foto de cima. Teria frente para a antiga Rua Honório Barreto e traseira para a antiga Rua Dr. Miguel Bombarda?

 Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)
Fonte: adapt. de António Estácio, em "Nha Bijagó: respeitada personalidade da sociedade guineense (1871-1959)" (edição de autor, 2011, 159 pp., il.)


Guiné-Bissau > Bissau > s/l > s/d > Antigo edifício da Galp Energia, que já foi Petromar e, antes, no tempo colonial, era a loja Salgado & Tomé. Imagem, reproduzida com a devida vénia da página do Facebook O Homem Novo, 9 de outubro de 2023.



"Água Selvagem" (em português), o perfume da Dior que o  Hélder Sousa usava na Guiné, no início dos anos 70. Era comprado na loja Salgado & Tomé, Bissau, que tinha uma secção de perfumaria.


1. Na página do Facebook  da Society for the Promotion of Guinea Bissau4 de abril de 2021 (que eu ainda não sei quem é que a administra, etc.) fui encontrar esta foto, com uma sucinta legenda: "Salgado & Tomé, anos 60".

Lembrei-me de uma conversa esta manhã, ao telemóvel, com o Hélder Sousa, aliás o senhor engenheiro, nosso colaborador permanente, provedor da Tabanca Grande. 

Recordam-se que ele publicou ontem um poste sobre o "Eau Sauvage" (*), o perfume francês que ele usava na Guiné, durante a sua comissão como fur mil trms, TSF (Piche e Bissau, 1970/72). Para se sentir gente, lavado, perfumado, civilizado, mais próxima da sua terra e dos seus...

Ora, eu não me lembro de ser um artigo fornecido pela Intendência para ser vendido nas nossas cantinas... Portanto, só em Bissau (e, eventualmente, em Bafatá) seria possível encontrar este produto da perfumaria pariense, lançada em 1966 (!)... 

Mas havia quem também usasse outras marcas, "Old Spice", Brut".... Dizia ele que era para "lavar a alma"... E voltou a usar, de novo, esta "eau-de-toilette"... Uma boa decisão para a sua saúde física e mental, porque  o mundo em que a gente vive,  continua a cheirar tão mal (não o cito "ipsis verbis", mas o sentido é este)...

Por outro lado, e se bem percebi, o produto podia adquirir-se em Bissau, na loja Salgado & Tomé... (O senhor Tomé era tio do hoje cor cav ref Mário Tomé, mais conhecido popularmente por "major Tomé").

2. A foto da página do Facebook da Society for the Promotion of Guinea Bissau4 de abril de 2021, que acima reproduzimos não tem  indicação de fonte, o que já é normal nas redes sociais. Aproveitei os saborosos comentários que os leitores (a  maior parte guineenses, se não todos) foram deixando:

Comentários (de há 4/5 anos atrás):

Elisabete Almeida Nunes

Na loja do sr. Tomé, onde os meus pais me compravam as bonecas... Adorava aquela loja e recordo o sorriso do sr. Tomé.

Tino Cabral

Loja onde o meu pai João Bucansil Cabral trabalhou com senhor Anselmo Vieira (tio de Nino Vieira) e o senhor Manuel Casimiro,  pai de Rui Casimiro.

Justino Filipe da Costa

Loja Salgado & Tomé, e sua rotunda. Sita no Largo da antiga rua Miguel Bombarda. Eu conheço três senhores que aqui foram empregados desta loja:  João Bucancil Cabral (vulgo "Djón de Tomé"), é pai de Épifânio Bucancil; Anselmo Vieira, é pai do Nino, o meu colega; e Manuel Moreira Casimiro, pai do grande craque  de futebol,  Rui Casimiro.

"Bom Tempo de nó Bissau".

Sanba Embalo

Cidade muito limpo.

Ninfa Lopes

I era ba um gosto di djubi Bissau cidade limpo

Antonio Augusto Simoes da Silva

Perto da Amura....

Aladji Adji Mutaro

Atual sede de Petromar

Rosário Queirós Lopes

Hoje Petromar

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
_______________

Notas do editor LG:


(**) Último poste da série : 2 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27175: Memória dos lugares (453): Ganguiró, tabanca abandonada, no subsector de Canjadude, setor L4 (Nova Lamego), de má memória para a CART 1742, a CCAÇ 5 e a CCP 123 / BCP 12: lá morreram, pelo menos, 4 camaradas nossos, em 8/11/1967 e 15/4/1971

Guiné 61/74 - P27841: Humor de caserna (248): O anedotário da Spinolândia (XX): O "general alemão" (Schulz) que garantiu a Salazar, em 1965, que a Guiné seria sempre portuguesa


Guiné > Região do Óio > Porto Gole > Fevereiro de 1967 > A melhor foto de que dispomos, no blogue, sobre o gen Arnaldo Schulz, governador e comandante-chefe (1964/68): aqui sentado, ao lado do piloto do helicóptero; pronto a partir depois de visita a Porto Gole; no banco de trás, duas caixas de cerveja, Sagres e Cristal; à direita, o fur mil José António Viegas, do Pel Caç Nat 54, com camuflado paraquedista trocado com um camarada numa operação no Morés em outubro de 1966.

Esta foto, que nos mandou o Viegas, é "surrealista" ou "hilariante": duas caixas de cerveja, à temperatura ambiente (+ 30 graus!), era para matar a sede a quem ? A que desgraçados ? Ali, perto, mais a sudeste, talvez a malta do destacamento da Ponta do Inglês, na foz do rio Corubal, que sofria com a crónica falta de abastecimentos (feitos pela Marinha, através de LDP ou LDM).

Arnaldo Schulz (1910-1983), contrariamennte a António Spínola, não era um "populista", nem se preocupava muito com a sua imagem... Nem sequer em ser um "bem amado" entre a tropa... O que não quer dizer que não tenha sido um bom governador e até um melhor comandante-chefe. (Não sei, não sou do seu tempo.)

Foi, em todo o caso, escolhido a dedo, por Salazar: era um militar, do núcleo duro do regime, ex-Ministro do Interior, num dos períodos de forte repressão, depois do "tsunami" que foi a campanha eleitoral do gen Humberto Delgado... Schulz, é bom lembrá-lo, foi ministro das "polícias!" (incluindo a PIDE) entre novembro de 1958 e maio de 1961.

(...) Foi promovido a general em 1965. Em Setembro de 1965 esteve em Lisboa, afirmando então que a Guiné jamais deixará de ser portuguesa (...) Permaneceu naqueles cargos até 1968, vindo a ser substituído pelo então brigadeiro António de Spínola. A 18 de Março de 1968 foi feito Comendador da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito." (...) (Fonte: Wikipedia > Armaldo Schulz)

Foto (e legenda) : © José António Viegas (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Camaradas, conhecem alguma anedota do brigadeiro (e depois general, a partir de 1965) Arnaldo Schulz, governador e comandante-chefe na Guiné Portuguesa, substituído em maio de 1968 pelo brigadeiro António Spínola ?

Não, ninguém conhece. O que na tropa e na guerra, não é bom sinal... Um bom comandante militar , um general, um cabo de guerra, deixa saudades, boas memórias e, claro, anedotas, histórias de caserna. Lembremos algumas:

(i) Napoleão Bonaparte, talvez o general ou "cabo de guerra" com mais anedotas:

Quando lhe disseram que os Alpes eram impossíveis de atravessar, respondeu: “Então vamos passar por cima deles".

(ii) Arthur Wellesley, 1º Duque de Wellington, herói da Batalha de Waterloo (1815), mas também da guerra peninsular (1807-1814).

Era conhecido pelo humor tipicamente britânico. Uma das histórias mais citadas conta que, ao passar revista às tropas portuguesas,  pouco disciplinadas, terá dito: "Não sei se farão o inimigo fugir, mas certamente assustam-me a mim.”

(iii) George S. Patton, um dos generais americanos mais temperamentais da Segunda Guerra Mundial:

Era conhecido pela rudeza dos discursos  que dirigia aos soldados: “Nenhum filho da puta venceu uma guerra morrendo pelo seu país. Venceu-a fazendo o outro filho da puta morrer pelo país dele.”


(iv) Bernard Montgomery, um dos famosos generais britânico da II Guerra Mundial, que comandou o 8.º Exército, sendo o principal oponente de Rommel ("AQ Raposa do Desero") e responsável por derrotá-lo em El Alamein:

Era conhecido pela sua autoconfiança que roçava a arrogância, pela sua rudeza espartana. Numa receção com generais aliados terá dito: "Eu não durmo, não bebo, não fumo, não f*do e sou 100% eficiente e eficaz.” Ao que o Churchil, terá replicado: "Eu durmo, bebo,   fumo,  f*do e sou 200% eficiente e eficaz.”


Arnaldo Schulz
2. Contrariamente ao Spínola, as anedotas especificamente sobre (ou de) o general Arnaldo Schulz são poucas, diz a IA, mas entre antigos militares da Guerra da Guiné circulam algumas histórias contadas em tom humorístico. Muitas vezes são mais “histórias de caserna” do que anedotas p.d., transmitidas oralmente.

Antigos combatentes do seu tempo (1964-1968) são os primeiros a reconhecer quase não circulavam, na caserna,  anedotas sobre Schulz,  ao contrário de Spínola, o seu carismático sucessor, que gerou muitas anedotas.  Mesmo assim, há alguns episódios e comentários curiosos que merecem ser recolhidos e divulgados (ajudam a conhecer um pouco melhor o homem e o militar).


(i) A frase famosa (“A Guiné jamais deixará de ser portuguesa”) que passou a "anedota histórica"

Quando era governador e comandante-chefe na Guiné Portuguesa (1964-1968), Schulz veio a Lisboa em 18 setembro de 1965 (vd. vídeo da RTP Arquivos, infelizmente sem som) e declarou (com convicção? ou para bajular o poder político?)

— A Guiné jamais deixará de ser portuguesa!!!

A frase tornou-se conhecida entre militares e políticos da época e, com o desenrolar da guerra e a independência em 1974, passou a ser repetida com alguma ironia histórica, um erro de prognóstico. Schulz confundiu, deliberadamente ou não, o desejo com a realidade.

Entre antigos combatentes, muitas vezes é citada como exemplo de excesso de confiança (e senão mesmo de arrogância) do regime na altura.

Depois da independência da Guiné‑Bissau em 1974, a frase passou a ser repetida entre veteranos como uma anedota involuntária da História. Alguns diziam ironicamente:

— O general tinha razão… só se esqueceu de dizer “até 1974”.


(ii) A “anedota involuntária”: o contraste com Spínola

Uma história repetida em memórias de militares é esta comparação:

Schulz quase não visitava unidades no mato (para poupar gasolina); Spínola visitava-as frequentemente, de helicóptero (gastando uma pipa de massa: 15 contos à hora).
Por isso, dizia-se meio em tom de graça nas companhias:

"Com Schulz sabíamos que estávamos longe do palácio do Governador e do QG, na Amura. Com Spínola sabíamos que ele podia aparecer a qualquer momento do dia"... (E só não aparecia à noite porque os Helis AL III não voavam à noite.)

Não é uma piada clássica, mas uma observação humorística de quartel sobre estilos de comando que, numa guerra como a da Guiné, fazia toda a diferença.


(iii) O dois em um

Quando foi nomeado em maio de 1964, Schulz acumulou duas funções ao mesmo tempo: governador da província e comandante-chefe das forças armadas

Isso era invulgar no império colonial português, criado para evitar conflitos entre autoridades civil e militar na guerra da Guiné (o governador anterior a ele tinha sido o Vasco António Martins Rodrigues, capitão-de-mar-e-guerra, entre 1961 e1965; e o comandante-chefe, o brigadeiro Fernando Louro de Sousa, de 19/3/1963 e 26/5/1964).

Alguns oficiais brincavam dizendo que ele era “governador de dia e general de noite”,porque tinha de decidir ao mesmo tempo assuntos políticos, administrativos e operações militares.

Está por fazer o balanço, imparcial,  do seu mandato...

(iv) Puro e duro

Quando António de Spínola o substituiu em 1968, mudou completamente a estratégia: passou da linha mais militar e defensiva de Schulz para uma política de “conquista das populações” e e de acção psicossocial, a par da intensificação da guerra de contraguerrilha e da otimização do dispositivo militar (por exemplo, mandou retirar,  em janeiro de 1969, Gandembel, começado a construir em abril de 1968).

(v) O general que nunca aparecia (e, portanto, em princípio também não chateava)

Durante o comando de Schulz na então Guiné Portuguesa (1964-1968), dizia-se nas companhias do mato (conversa entre dois capitães):

— Já viste o general Schulz?

— Não.

— Então está tudo bem por lá, no teu aquartelamento.

A piada vinha da ideia de que o comandante-chefe raramente visitava posições isoladas, ao contrário do que viria a fazer o seu sucessor, António de Spínola, que aparecia frequentemente de helicóptero, sem se fazer anunciar. 


(vi) O mapa “demasiado limpinho”

Conta-se que numa reunião de oficiais em Bissau, um oficial jovem mostrou um mapa cheio de marcas de ataques do PAIGC.

Schulz teria comentado:

— Esse mapa está pessimista demais.

E um capitão murmurou para o colega ao lado:

— O mapa do general deve ser melhor… porque não tem inimigos.

Era uma piada amarga sobre a diferença entre a situação real no terreno e a visão otimista do comando ( apatir da "periferia" da guerra, que er Bissau).


(vii) A comparação inevitável

Quando António de Spínola chegou em 1968, começou a visitar quartéis isolados e a falar com soldados.

Rapidamente surgiu a piada nas tropas:

— O Schulz governava a Guiné a partir do palácio de Bissau.

— O Spínola governa-a, no mato,  a partir do helicóptero.


Curiosidade: apesar destas histórias, Schulz era visto por muitos oficiais como um comandante disciplinado e prudente, apenas com um estilo muito mais tradicional e burocrático do que o de Spínola.


(viii) O "general alemão"

Os guineenses diziam que ele não era bem português, por causa do apelido alemão (paterno), impronunciável...

É uma história, algo 
xenófoba e chauvinista, que aparece em várias memórias de militares e relatos orais da guerra. O general Arnaldo Schulz tinha de facto apelido de origem alemã, herdado do pai, e isso acabou por gerar comentários e pequenas anedotas entre as populações locais da então Guiné Portuguesa.

Uma versão da história contada por antigos combatentes diz que alguns guineenses estranhavam o nome e comentavam algo como:

— Esse general não pode ser bem português… tem nome de alemão.

Noutras versões mais humorísticas, dizia-se:

— Portugal nomeou um alemão para mandar na Guiné.

Isto não era propriamente uma crítica política, era mais humor popular, porque nas colónias era comum associar a nacionalidade ao apelido. Um nome como “Schulz” soava claramente germânico, muito diferente dos apelidos portugueses habituais.


(viii) Curiosidade histórica

Apesar do apelido, Schulz era totalmente português. O pai era de origem alemã, mas a família estava integrada em Portugal há gerações. Ele fez toda a carreira no exército português e acabou por chegar a general, governando a província entre 1964 e 1968, antes de ser substituído por António de Spínola.

Esse tipo de comentário sobre nomes estrangeiros também acontecia com outros oficiais no império português — especialmente quando tinham apelidos alemães, ingleses ou franceses, algo relativamente comum em Portugal desde o século XIX.

Curiosamente, em África os apelidos europeus eram muitas vezes reinterpretados ou adaptados foneticamente pelas populações locais, o que também gerava muitas pequenas histórias de caserna:

Espínla ou Spínla (Spínola), Tchultz (Schulz), cap'ton Bitu (capitão Brito), alfero Cabrá (alferes Cabral), Cabrá (Amílcar Cabral), furié 'Vzinu (furriel Levezinho), furrié Ericu (furriel Henriques), cabu Galvon (cabo Galvão), furrié fermero (furriel enfermeiro), alfero doutô (alferes médico), Calvê Magalã (governador Calvet de Magalhães), Masel Caetanu (Marcelo Caetano)...

(Pesquisa: LG + Net + IA) (Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
____________________

Guiné 61/74 - P27840: Notas de leitura (1906): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (7) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Aqui se discorre sobre os antecedentes do Ultimatum, a precariedade dos nossos argumentos para defender o Mapa Cor-de-Rosa, o corolário de tensões e hostilidades, a importância de personalidades como Livingstone ou Cecil Rhodes que tudo fizeram para denegrir o nosso argumentário, as tensões chegaram ao rubro com a expedição de António Maria Cardoso ao Niassa e a expedição de Serpa Pinto que teve de empregar a força para se defender dos Makololos assim se chegou ao dia e a hora da humilhação que o Ultimatum provocou, a reparação diplomática só chegará a 27 de junho de 1891 com o Tratado que irá demarcar as fronteiras anglo-portuguesas; aqui se discorrerá também sobre as relações luso-alemãs e depois o regime dos Prazos e em implantação de companhia de teor majestático na África Oriental Portuguesa. A etapa seguinte será dedicada aos tempos da ocupação e uma vez mais o Marquês do Lavradio mostrará como era pura falácia andarmos a falar que estávamos há 500 anos em África.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 7

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência.

Caminhamos agora para a Conferência de Berlim. Cecil Rhodes trabalhara bem para ter o máximo de apoio de Londres para gerar ambições não só no Zambeze nem na África do Sul, mas para encontrar apoios para negócios que podiam ir desde a cidade do Cabo ao Cairo. Não se pode dizer que Portugal estivesse inteiramente inativo, prosseguiam as viagens científicas, fora assinado o Tratado de limites com o Transvaal, fizera-se a concessão do Caminho de Ferro Lourenço Marques, foram criados os distritos de Manica e Zumbo, pacificava a Zambézia, por exemplo. Lutava-se contra o tempo. A Conferência de Berlim iria estipular quais as condições essenciais para as novas ocupações do continente africano e como elas seriam consideradas efetivas. As tensões com os britânicos eram permanentes.

O Governo britânico, logo que tivera conhecimento do mapa cor-de-rosa anexo aos Tratados português-francês e português-alemão de 1886, reclamara contra este espaço colorido compreendendo toda a região que se estende entre Angola e Moçambique, não reconhecia a soberania portuguesa nestes territórios, as relações diplomáticas agravaram-se dia-a-dia. A expedição de António Maria Cardoso ao Niassa, destinada a firmar influência portuguesa na região, veio dificultar as negociações; a expedição de Serpa Pinto foi olhada com desconfiança, multiplicaram-se os incidentes.

Em março de 1889, o Major Serpa Pinto saiu de Lisboa com destino à África Oriental, levava a missão de firmar o nosso domínio em território dos Makololos, conquista que se deve a João de Azevedo Coutinho. Novos protestos britânicos. O Ministro dos Negócios Estrangeiros Barros Gomes apelou para arbitragem, propondo que a contenda fosse decidida pelas potências signatárias da Conferência de Berlim; o Governo britânico estava escaldado com as arbitragens que tinham sido favoráveis a Portugal tanto na questão de Bolama como na de Lourenço Marques, preferiam entregar à força, e assim surgiu a nota de 11 de janeiro de 1890 que respondia à proposta de Barros Gomes, estava declarado o Ultimatum, era completa insensatez tentar resistir à primeira esquadra do mundo que tinha já concentrado navios em Zanzibar, Gibraltar e nas águas de Cabo Verde, resistir traria como consequência a perda de Cabo Verde, de Lourenço Marques e igualmente de todo o Moçambique. Seguir-se-ão negociações difíceis e demoradas, dar-se-ão numerosos incidentes na Europa e na África, o Tratado que demarca as fronteiras anglo-portuguesas será assinado em 27 de junho de 1891.

Importa vir um pouco atrás para perceber um outro nível de contenda, as ambições imperiais alemãs. Aquando da questão do Zaire, procurou-se definir diplomaticamente com Berlim o limite meridional da possessão portuguesa de Angola. Os alemães propunham em 27 de junho de 1886 um convénio nas seguintes bases: traçar-se uma linha que partindo da foz do Cunene, seguisse pela margem esquerda o curso deste rio até a um ponto fronteiro ao domínio português do Humbe, até chegar ao Zambeze, proposta considerada inaceitável por Portugal que apresentou uma contraproposta que naturalmente não agradou os alemães. A diplomacia portuguesa lembrava que a região do Cubango fora explorada por Serpa Pinto, Capelo e Ivens, houvera recentemente uma expedição militar que consolidara o domínio português Cunene e Cubango até à região dos Ambuelas.

Em 30 de dezembro desse ano assinava-se em Lisboa o Tratado que delimitava as possessões portuguesas-alemães na África Oriental, garantia-se a Portugal a livre expansão comercial nos territórios situados entre as duas províncias de Angola e Moçambique. Como se procurou pormenorizar, o Ultimatum deitou por terra o sonho português.

Uma das consequências da Conferência de Berlim deixava claro que já não era possível continuar a possuir centenas de quilómetros quadrados africanos sem nada fazer, impunha-se um plano colonial, mostrar às outras potências que éramos capazes de dominar o que era nosso, de civilizar o que descobríramos. Era na Costa Oriental que a nossa ação mais necessária se tornava, até porque era aí que as ambições estrangeiras mais se faziam sentir.

Os territórios da antiga Capitania dos Rios de Sena haviam sido divididos no século XVII em grandes porções, denominadas prazos, distribuídos ou concedidos a particulares, com o fim de povoar e enriquecer a Capitania, desenvolver a sua agricultura e aumentando a sua população. Os prazos não deviam ter mais de três léguas quadradas e o concessionário devia residir na Província, os filhos sucediam nos prazos dos pais. A lei não foi cumprida, a fazenda pública ficou seriamente afetada. O autor desvela as trafulhices cometidas. Em vista de tais arbitrariedades, tornava-se indispensável acabar com um sistema tão vicioso, em dezembro de 1854 um decreto abolia o antigo regime dos Prazos da Coroa.

Os Prazos passaram a ser concedidos por arrematação em hasta pública, por um espaço de tempo mais ou menos limitado, e os arrendatários deviam cultivar áreas de terreno proporcionais ao número de indígenas que habitavam os Prazos. O autor não deixa de tecer um elogio a resultados havidos no antigo regime dos Prazos:
“Não deixaremos de notar que ao regime dos Prazos deve a Zambézia o desenvolvimento de uma admirável colónia agrícola, que é a esse regime que se devem os maiores palmares do mundo assim como os maiores campos de cana sacarina e que à sombra desse regime se criou a mais bela obra económica da Província de Moçambique.”

Ao tempo em que o autor escreveu este livro o regime de Prazos já fora abolido. Ao tempo da alteração do regime de Prazos atrás referida havia uma atmosfera favorável à criação de companhias majestáticas. Foram criadas algumas que faliram por falta de capital. Em 1891 concedeu-se à Companhia de Moçambique a administração e exploração dos territórios entre o curso do rio Zambeze e a fronteira do distrito de Tete, faz o autor o reparo sem esta companhia os territórios de Manica e Sofala não teriam tido o desenvolvimento que hoje (década de 1930) têm. Também no ano de 1891 foram concedidos à Companhia do Niassa direitos majestáticos e no ano seguinte concedeu-se à Companhia da Zambézia a administração dos Prazos da Coroa.

Na Costa Ocidental não se seguiu nem o regime dos Prazos nem o das companhias majestáticas, mas sim um sistema de concessões mais ou menos extensas que deram lugar à formação de companhias ou à exploração de terrenos por simples particulares.

O autor irá seguidamente debruçar-se sobre a época da ocupação, vai deixar bem claro que custou sangue, suor e lágrimas, deixando também demonstrado como era pura mistificação o argumento imperial insistentemente teclado durante o Estado Novo de que estávamos em África há 500 anos.

D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
Imagem alusiva aos debates sobre a questão do Congo, marcam preponderância da Bélgica e das ambições francesas, britânicas e alemãs.
Mapa de África em 1886, fazem-se referência às expedições e à questão da Bacia do Congo, veja-se a superfície que então se atribuía a Angola e Moçambique.

(continua)

_____________

Notas do editor:

Vd. post de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27818: Notas de leitura (1904): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (6) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27826: Notas de leitura (1905): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27839: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (51): Recordando o famoso Cozido à Portuguesa, by chef Preciosa, da Tabanca do Centro, que se reuniu pela 1ª vez em 27/01/2010


Alfragide >  17 de fevereiro de 2026 > Um Cozido à Portuguesa, by Chef Alice

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

1. No céu não disto. Não há Cachupa (*), nem rica nem pobre. Não há Cozido à portuguesa. Nem Bacalhau Assado na Brasa. Deve haver outras coisas boas. Ou até bem melhores. A avaliar pela publicidade que lhe fazem, ao céu, há centenas, milhares de anos. (Olimpo para os gregos da antiguidade clássica;  Jardim do Éden, para os judeus;  Céu, para os cristãos;  Jannah, para o Islão;  Svarga, no hinduísmo, etc.)

Mas agora que a primavera se arrependeu e voltou o inverno, hoje, sexta feira e se calhar sábado, "até ia um cozidinho à portuguesa", diz o nosso vagomestre de serviço (que passou dois anos na Guiné sem provar nem cheirar a farinheira nem a moira nem o nabo nem o salpicão nem o focinho de porco, e muito menos a couve portuguesa).

Foi com um prato destes que se inaugurou a Tabanca do Centro, no já longínquo dia 27 de janeiro de 2010, em Monte Real. O anfitrião foi o Joaquim Mexia Alves e a cozinheira a Dona Preciosa (foto à esquerda). E teve um nome de código, Operação Cozido à Portuguesa. E realizou-se no restaurante da Pensão Montanha (**). 

Foi o primeiro de muitos Cozidos à Portuguesa, hoje lembrados com saudade pelos tabanqueiros do Centro. O último terá sido em 28/10/2016, data em que se realizou o 56º Encontro. No fim desse mês, a Dona Preciosa cessaria a sua atividade., para grande mágoa de todos A Tabanca do Centro teve que encontrar outras alternativas. Mais recentemente passou a reunir-se na Ortigosa. O 110º Encontro, em 27 do corrente mês, vai ser lá.

As imagens que se publicam acima não são desse famoso Cozido de 2010 (que era sempre servido às quartas feiras na Pensão Montanha)... Não seria muito diferente o Cozido by Chef Alice.  (***)

Curiosamente não há fotos do petisco, só dos comensais. O mais "ilustre" dos quais o Joseph Belo, um "tuga" do nosso tempo já há muito "assuecado" (vd,. fotos abaixo).

2. Recordo aqui a mensagem  que o régulo da Tabanca do Centro escreveu então ao nosso camarigo José Belo, o nosso grão-tabanqueiro que, na altura era vizinho, do Pai Natal, bem dentro do Círculo Polar Ártico. Esses versos ficaram famosos, merecem ser aqui reproduzidos, são um hino ao Cozido à Portuguesa e à nossa camarigagem.


Tabanca do Centro > quinta feira, 14 de janeiro de 20010 >

Nada de confusões
Nessas cabeças já gastas,
Tão cheias de incerteza,
É que o amor da Suécia
É p’lo Cozido à Portuguesa.

Diz-me o nosso camarigo,
José Belo de seu nome,
Que virá de avião, de skate, ou a pé,
Apenas para comer
O afamado cozido,
Com a malta da Guiné.

É que não sabem vocês
Que por causa de um vento estranho
Que sopra no Litoral e na Beira,
Chegou até á Lapónia
O cheiro da farinheira.

Não contente com isso, 
Este ventinho maldoso
Levou também consigo
Um cheirinho a chouriço.

Coitado do José Belo, 
A tiritar do frio imenso!
Quando olha para as renas, vê vacas,
E todo o verde são couves,
Cozidas mesmo a preceito.

E o vento que nunca cessa
De lhe levar o cheiro intenso!
É uma dor de alma,
Um tormento,
Não devia ser permitido,
Que odor tão salivante
Fosse nas asas do vento.

Prometo solenemente
Que te guardo a melhor parte,
Fica com esta certeza.
Não só eu,
Mas toda a gente,
Te servirão alegremente
O “Cozido à Portuguesa”.

Monte Real, 14 de Janeiro de 2010
A 13 dias do Cozido à Portuguesa!!!

Joaquim Mexia Alves

(Revisão / fixação de texto: LG)


Leiria > Monte Real > Restaurante Montanha > 27 de janeiro de 2010 > 1º Encontro Nacional da Tabanca do Centro > Op Cozido à Portuguesa > Da direita para a esquerda, o Joaquim Mexia Alves, o José Belo e o José Teixeira (régulo da Tabanca de Matosinhos)


Leiria > Monte Real > Restaurante Montanha > 27 de janeiro de 2010 > 1º Encontro Nacional da Tabanca do Centro > Op Cozido à Portuguesa > Juntou 40 "tugas" da Guiné... O mais "exótico" veio da Lapónia sueca, o José Belo, aqui na foto à esquerda, tendo a seu lado o Joaquim Mexia Alves. De pé, ao centro, o Silvério Lobo. 


Leiria > Monte Real > Restaurante Montanha > 27 de janeiro de 2010 > 1º Encontro Nacional da Tabanca do Centro > Op Cozido à Portuguesa > Quatro "tugas" que combateram no sul da Guiné: da esquerda para a direita, Zé Teixeira, Zé Belo, Vasco Ferreira e Manuel Reis.


Leiria > Monte Real > Restaurante Montanha > 26 de fevereiro de 2010 > 2º Encontro Nacional da Tabanca do Centro >  José Belo, Luís Graça, e em segundo plano o saudoso JERO.


Leiria > Monte Real > Restaurante Montanha > 26 de fevereiro de 2010 > 2º Encontro Nacional da Tabanca do Centro >  Em primeiro plano, Joaquim Mexia Alves e Teresa, a esposa do Carlos Marques Santos (1943-2019), infelizmente já falecido; em segundo plano, José Belo, Idálio Reis, Luís Graça e Joáo Barge (1945-2010) (morreria nesse ano em princíos de dezembro, ainda foi ao V Encontro Nacional da Tabanca Grande, em Monte Real, em 26 de junho desse ano). 

No almoço do 2º Encontro, já não foi servido Cozido, mas sim Bacalhau Assado na Brasa com Migas e Batatas a Murro. Presentes 29 tabanqueiros (6 dos quais já falecidos): Alice e Luís Graça | Álvaro Basto e Rolando Basto (pai) (já falecido) | Agostinho Gaspar | Antonieta e Belarmino Sardinha | Artur Soares | Dulce e Luís Rainha | Gil Moutinho | Giselda e Miguel Pessoa | Hélder Sousa | Idálio Reis | Isabel e Alexandre Coutinho e Lima (1935-2022)  | João Barge (1945-2010) |  Joaquim Mexia Alves | José Eduardo Oliveira (JERO ) (1940-2021)  | José Belo | Jorge Narciso | Juvenal Amado | Manuel Reis | Teresa e Carlos Marques  Santos (1943-2019) | Silvério Lobo | Vasco da Gama | Victor Barata (1951-2021)
 
Créditos fotográficos: Tabanca do Centro (2010). Edição e legendagem : LG


3. Que fique,  para a história,  a "lista do 40 magníficos que estiveram presentes no 1º Encontro da Tabanca do Centro", a maior parte  membros da Tabanca Grande, 4 deles, infelizmente, já falecidos (a negrito, os seus nomes)

Álvaro Basto |  Ana Maria e António Pimentel | António Martins Matos | António Graça de Abreu | Agostinho Gaspar | Américo Pratas | Artur Soares | Antonieta e Belarmino Sardinha | Carlos Neves | Daniel Vieira | Dulce e Luís Rainha | Eduardo Campos | Eduardo Magalhães Ribeiro | Gina e Fernando Marques | Giselda e Miguel Pessoa | Gustavo Santos | Joaquim Mexia Alves | Jorge Canhão | Maria Helena e José Eduardo Oliveira (Jereo)  | José Belo | José Brás | José Casimiro Carvalho | José Diniz | José Moreira | José Teixeira | Juvenal Amado | Manuel Reis | Silvério Lobo | Teresa e Carlos Marques Santos | Torcato Mendonça | Vasco da Gama | Vasco Ferreira | Victor Caseiro.

A refeição custou a astronómica quantia de 8,5 euros. Nunca  o Zé Belo, que veio expressamente da Suécia, pagou uma refeição tão cara. Os elogios à iniciativa e ao Cozido da Dona Preciosa foram unânimes, do general ao soldado. O vagomestre ficou babado. A chef Preciosa conquistou um exército de clientes.

(***) Último poste da série > 15 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27823: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (50): Não há sável ? Come-se lúcio...

quinta-feira, 19 de março de 2026

Guiné 61/74 – P27838: (Ex)citações (446): A necessidade de mudar (Hélder Valério de Sousa, ex-Fur Mil TRMS TSF)

Hélder Valério de Sousa, ex-Fur Mil TRMS, TSF (Piche e Bissau, 1970/72)
Provedor da Tabanca Grande


1. Mensagem do nosso camarada Hélder Valério de Sousa, com data de 8 de Março de 2026:

Caros camaradas
Envio este pequeno texto, não como "manobra de diversão" relativamente aos temas "pesados" que temos vindo a viver ultimamente, mas sim para apontar uma possível atitude para contrariar os desânimos.
A foto em anexo da "Eau Sauvage" foi retirada da net.

Abraços e "saudinha da boa".
Hélder Sousa



A necessidade de mudar

Hoje, agora, deu-me para isto!

Claro que todos os dias sabemos do falecimento deste ou daquele, uns mais próximos, outros nem tanto, uns que nos dizem alguma coisa e outros nem por isso.

Mas foram as frases e as ideias republicadas do A. Lobo Antunes que, por um lado, me despertaram estas lembranças e por outro, também talvez a necessidade de voltar a proceder como em tempos idos.

Recentemente ao passar numa perfumaria para comprar um presente, reparei num produto que me fez lembrar de algo. Tratava-se de uma “Eau De Toilette” chamada “Eau Sauvage”.

Perguntei à menina da perfumaria se aquele produto era recente ou antigo. Respondeu que “era antigo, que era bom, mas que agora havia coisas novas, mais recentes, que tinham melhor saída”.

E voltei eu a perguntar “antigo de quanto? Aí uns 10 anos? E ela disse: “não, mais um bocado, talvez 15 ou 20”!

Assim tanto? Perguntei aparentemente admirado. E ela disse, “pois não sei, mas é bem antigo!” Para desfazer enganos disse-lhe então que faziam 55 anos que tinha por hábito usar esse produto adquirido em Bissau, demonstrando assim a sua bem longa antiguidade.

Foi a vez dela ficar a mostrar estranheza, a perguntar porquê e para quê esse perfume e a agradecer os seus novos conhecimentos.

Disse-lhe então que, por aqueles tempos, naquelas paragens, usava-se o “Old Spice”, o “Brut” e outros, mas eu optei por aquele, talvez por causa do nome “sauvage”… e que o objetivo era o de me sentir mais próximo dos familiares e dessa maneira mais afastado dos locais de guerra. Assim, a modos de um “lavar de alma”.

Este pequeno episódio, aliado aos tempos cada vez mais conturbados e incertos que se vivem, despertou em mim a lembrança de que talvez fosse bom voltar a “perfumar-me” para tentar afastar os maus prenúncios.

Na Guiné, resultou. Pode ser que aqui e agora, também.

Abraços
Hélder Sousa
Fur Mil Transmissões TSF

_____________

Nota do editor

Último post da série de 16 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 – P27537: (Ex)citações (445): Literatura da Guerra Colonial? (Alberto Branquinho, ex-Alf Mil Art da CART 1689/BART 1913)

Guiné 61/74 - P27837: Convívios (1051): 41.º Encontro Nacional dos ex-Oficiais, Sargentos e Praças do BENG 447 - Brá- Guiné, a levar a efeito no próximo dia 9 de Maio de 2026, na Tornada, Caldas da Rainha

_____________

Nota do editor

Último post da série de 16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27828: Convívios (1050): Os nossos camaradas da Tabanca do Centro vão finalmente realizar o seu 110.º Encontro. Todos a Ortigosa no próximo dia 27 de Março de 2026. Inscrições abertas até às 12 horas do dia 24, nos moldes habituais

Guiné 61/74 - P27836: Antologia (101): "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", a publicar brevemente (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Março de 2026, trazendo em anexo um texto intitulado "Agradecimentos e Dedicatória", no qual reproduz as razões curriculares que o conduziram ao lançamento do seu próximo livro "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", cuja data de lançamento será anunciada oportunamente.


Agradecimentos e dedicatória

Permita-me o leitor que reproduza no Tomo II as razões curriculares que me conduziram a este empreendimento, tal como as escrevi na obra anterior:

O país que é hoje a Guiné-Bissau foi o local onde combati entre 1968 e 1970, matéria que tratei em dois volumes diarísticos, agradecendo penhoradamente as lições recebidas do povo amável com quem convivi, nomeadamente nos regulados do Cuor e Bambadinca; motivado por conhecer melhor os antecedentes deste território em décadas anteriores, meti mãos a um outro empreendimento, uma digressão um tanto romanesca à volta das memórias de uma nonagenária que casou com um administrador colonial, nos alvores da década de 1950 e conheceu os primeiros sinais da insurreição, assim escrevi A Mulher Grande; participante regular naquele que é, sem margem para dúvida, o blogue mais influente para antigos combatentes na então Guiné Portuguesa, Luís Graça & Camaradas da Guiné, senti impulso de ali regressar para me despedir dos meus soldados guineenses, e assim urdi A Viagem do Tangomau; ao longo desses anos de íntima relação com a realidade guineense, fui também procurando ler tudo quanto era literatura da guerra colonial, fundamentalmente do lado português – assim nasceu Adeus, Até ao Meu Regresso.

Os anos passavam, a Guiné continuava sempre presente, no coração, na memória, no desejo de melhor compreender o seu passado e até os seus tempos atuais. Em parceria, enveredei numa tentativa de fazer o arco cronológico entre dados fundamentais da Guiné Portuguesa até à Guiné-Bissau, assim nasceu o livro Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro. Estava dado o balanço para intensificar as pesquisas, nos anos seguintes apareceram as História(s) da Guiné Portuguesa e História(s) da Guiné-Bissau.

Quis um feliz acaso que batesse à porta do então Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória) em busca de um livro ricamente ilustrado, fui não só compensado por o ter folheado demoradamente como surgiu a oportunidade de ter acesso a documentação inédita, e assim escrevi Os Cronistas Desconhecidos do Canal de Geba: O BNU da Guiné. A saga teve uma nova deriva, encontrei num alfarrabista o livro de um poeta popular, antigo combatente na Guiné, ali fez comissão entre 1963 e 1965, o seu poema galvanizou-me e deu-me a ideia de escrever um livro em que ia respondendo taco a taco às suas itinerâncias desde a recruta à passagem à disponibilidade, de novo aproveitei referências da imensa literatura produzida sobre aquela guerra, desde romance, conto, novela, poesia, memórias, e nesta parceria foi dada à estampa Nunca Digas Adeus às Armas.

Mais recentemente, novo surto para a deriva romanesca, desta feita na cidade de Bruxelas dois cinquentões apaixonam-se, ele vai regularmente a esta sede europeia, ela é intérprete e aceita o repto de passar a escrito as memórias de guerra, cronista amorosa num romance feito fundamentalmente de cartas, Rua do Eclipse, a Guiné atravessa-se nas suas vidas, do princípio ao fim.

Quando tudo levava a crer que estavam esgotados os filões sobre a Guiné, apareceu de rompante um projeto um tanto ambicioso: elaborar, por seriação do século XV ao século XX, um género de antologia com peças umas determinantes outras possuidoras de vigor testemunhal, sobre a presença portuguesa desde o tempo em que os navegadores e cartógrafos denominavam a região por nomes inconclusivos e até bizarros como Etiópia Menor, Rios da Guiné de Cabo Verde, Terra dos Negros ou Senegâmbia, termo que curiosamente foi usado e abusado até ao século XIX, sobretudo para referir uma costa ocidental africana entre o Cabo Verde e a Serra Leoa. Devo advertir o leitor que muitos outros textos aqui poderiam caber, mas creio não ter omitido intencionalmente nenhum que me tenha parecido essencial para a natureza desta obra de divulgação.

Esta antologia decorre de um processo laborioso, escrevi bastantes textos, de forma avulsa e um tanto ao corroer da pena no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, recebi sugestões de mãos amigas, caso dos investigadores António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias, um sem número de sugestões; jamais poderia esquecer as ajudas ou propostas de leitura que recebi da Helena Teotónio Pereira, então à frente da biblioteca do CIDAC, um espaço onde há relevante documentação histórica, e o mesmo podia dizer dos incentivos que tive no Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória); não esqueci a estimulante parceria que tive a felicidade de encontrar para escrever Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro e também naquele outro livro a quatro mãos Nunca Digas Adeus às Armas.

Sendo eu um infoexcluído, tive a dita de receber uma admirável prestação na colaboração de Linda Sioga, vai para mais de três anos que andamos em belíssima colaboração intermediada pelo Skype/Teams. Naturalmente que agradeço e a junto a esta dedicatória.

Este livro, tal como o anterior, é dedicado a todos aqueles que se iniciam num estudo das relações luso-guineenses, seja em que local for; bem gostaria de lhes ser útil, porventura abrindo-lhes portas, dando-lhes dicas, o que aqui aparece ordenado pela cronologia de há muito foi investigado, ou nunca obteve tratamento público, caso dos documentos que consultei nos Reservados da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Dedico, igualmente, o livro a duas figuras da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, Helena Grego e José Carlos Silva; ao longo de todos estes anos em que frequento tais instalações históricas, possuidoras de fascinante documentação, eles tudo têm feito para ter acesso a livros, revistas, relatórios, e, fundamentalmente, a papelada que consta dos Reservados, aqui encontrei textos fervilhantes ou esclarecedores, que o leitor agora vai encontrar deste período histórico em análise dos séculos XIX e XX.

A minha dívida com estes bibliotecários é impagável. Tanto mais que quando disse à Dr.ª Helena Grego que chegara ao fim da linha, nada mais havia para remexer nos arquivos, depois deste tomo II, ela desenganou-me: “Nem pense, agora vai começar a ler o Boletim Oficial do Governo Geral de Cabo Verde e depois o Boletim Oficial da Guiné, Colónia e Província, tem ali trabalho para os próximos anos.”
É o que presentemente está a acontecer, pelas minhas contas será o adeus neste vasculhar que levo à presença portuguesa na Guiné entre meados do século XV e primeiro quartel do século XXI.

"Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo I, A Presença Portuguesa na Senegâmbia", de Mário Beja Santos, lançado em Setembro de 2024(*)
_____________

Nota do editor

(*) Vd. post de 10 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26371: Agenda cultural (876): Apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade", de Mário Beja Santos, dia 13 de Janeiro de 2025, pelas 14h30, na Livraria Municipal Verney, Rua Cândido dos Reis, 90 - Oeiras

Último post da série de 20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27652: Antologia (100): Uma caçada ao elefante em... Canjambari há mais de 100 anos (Conto publicado em "O Mundo Português", em 1936, da autoria de Artur Augusto Silva, 1912-1983)