1. O nosso amigo e camarada Arsénio Chaves Puim nasceu às 23 horas do dia 8 de maio de 1936, na Calheta, freguesia de Santo Espírito (ilha de Santa Maria, Açores), terra de baleeiros. Teve irmãos ligados à baleação. Ele próprio era um apaixonado pela pesca da baleia. A mãe nunca o deixou ir, não fosse perdê-lo. Seguiu outro rumo: entrou para o seminário e foi ordenado padre (em 1960).
Mais tarde seria mobilizado para a guerra colonial como capelão militar. Integrou o Batalhão de Artilharia 2917, colocado em Bambadinca entre meados de 1970 e meados de 1972. Zona leste, sector L1.
Nunca usou arma, nem temeu minas mem armadilhas, nem emboscadas ou ataques dos "turras", e nomeadamene quando se deslocava em colunas, ou ficava uns dias nos quartéis e destacamentos do BART 2917 (Xime, Missirá, Mansambo, Xitole...).
Na igreja, em Bambadinca, pregava a paz em tempo de guerra. E lembrava aos militares de Bambadinca que o lema do seu batalhão era: "Pelas Gentes da Guiné".
Já em outubro de 1970, seis meses depois de chegar, protestara veementemente contra a exibição pública da cabeça de um “inimigo”, cortada por um furriel felupe dos Comandos Africanos, episódio ocorrido poucas semanas antes da Operação Mar Verde, a invasão de Conacri em 22 de novembro de 1970, uma das ações militares mais controversas da guerra na Guiné.
As suas "homilias da paz" eram vigiadas pela PIDE (que tinha informadores em Bambadinca, e agentes em Bafata). Mas ele nunca será preso ou interrogado pela polícia política, em Bambadinca, em Bissau, em Lisboa ou nos Açores, onde retoma o seu modesto lugar de pároco, depois de ter sido expulso da Guiné.
Mas o que verdadeiramente precipitou a sua queda em desgraça foi a denúncia pública, feita na igreja de Bambadinca, da forma como estavam a ser tratados, os prisioneiros provenientes do “mato”, isto é, das zonas controladas pelo PAIGC.
Foi por volta de abril de 1971. Tratava-se sobretudo de mulheres, crianças e velhos, mantidos em condições miseráveis, praticamente “num galinheiro”, sem alimentação condigna.
Veio então ordem de Bissau, do Quartel-General/Comando Territorial Independente da Guiné (QG/CTIG), possivelmente na sequência de informações da PIDE/DGS, para a sua expulsão do Exército e da Província..
O 2.º comandante do batalhão, major de artilharia Anjos de Carvalho, juntamente com o major de operações e informações Barros Basto, vasculharam-lhe o quarto, devassaram-lhe a o seu bloco de notas e confiscaram-na. Rasgaram-lhe, inclusive, uma folha, "comprometedora". Devolvem-lhe, mais tarde, no pós.25 de Abril, o bloco de notas, mas não a "prova do crime".
Segue para Bissau. Numa DO-27, só com o piloto, sem escolta, sem despedidas, sem testemunhas, sem amigos, sem camaradas, sem lágrimas. Oito dias depois embarca para Lisboa e volta a ser " o pastor do seu humilde rebanho", na sua ilha...
Foi o segundo capelão militar a ser expulso do CTIG, em maio de 1917, depois do padre Mário de Oliveira (ou Mário da Lixa), em março de 1969...
Ironicamente, muitas das denúncias de Arsénio Puim coincidiam com os princípios oficialmente proclamados por António de Spínola em “Por Uma Guiné Melhor”: a preocupação com o tratamento humano das populações civis e dos prisioneiros.
Acrescente-se mais este pormenor biográfico, que também marca a diferença em relação a outros capelães da guerra colonial: ainda foi padre durante vários anos. Ao todo 16.
Quis fazer uam experiência de padre operário. Durante dois anos, em Ponta Delgada, tirou o curso de enfermagem, queria ter uma experiência holística do cuidar, como padre e como enfermeiro. Mas estes dois papéis tornaram-se humanamente incompatíveis, pro serem demasiado absorventes.
Pediu então a saída da sua condição sacerdotal. Fez carreira como enfermeiro em Vila Franca do Campo, no Serviço Regional de Saúde dos Açores, casou, em 1979, com uma jovem enfermeira, a Leonor (Maria Leonor Bicudo). Tem 2 filhos, rapazes, 3 netos (2 meninas), uma meia dúzia de livros, tem o seu quintal, é jornalista e escritor. É a memória viva da sua ilha, Santa Maria. E hoje, dia 9, celebra á fe quem mesa os seus 90 anos, com a Leonor, o Pedro, o Miguel, os netos, os amigos.
Inevitavelmente falámos do triste episódio da sua expulsão, em maio de 1971. Aproveitei para clarificar um ou outro facto, ainda para esclarecer, confirmar e corrigir.
Já tinha recebido e folheado o livro, com a dedicatória, que lhe mandámos (o autor, Padre Bártolo Paiva Pereira, o Virgílio Teixeira e eu). Ficou sensibilizado e vai agradecer.
Este é que foi o chefe do Puim, que de resto só vai estar no CTIG, um ano (mai 70/mai71).
É no tempo do capelão-chefe Gamboa, major graduado, em meados de 1970, que se realiza em Bissau (com 2 dias em Bolama) um encontro de capelães, onde houve alguma discussão acesa sobre o papel dos capelães naquela guerra. Os capelães foram recebidos pelo gen Spínola que aproveitou para mostrar o seu descontentamento em relação a alguns capelães que "não estavam a cumprir o seu dever" (devia querer fazer referância ao caso, ainda recente e inédito, do Padre Mário de Oliveira, que apenas esteve 4 meses, em Mansoa, até ser expulso do CTIG, em março de 1969, ainda no tempo do gen Arnaldo Schulz).
Mais uma vez obtive a confirmação do Puim em relação ao que se passou na "homilia da paz", de 1/1/1971: nunca foi preso ou interrogado pela PIDE/DGS, nem no início do ano de 71, nem em maio, em Bambadinca, nem em Bissau, enquanto aguardou embarque, nem em Lisboa, nem nos Açores.
Naturalmente, já tinha ficha na polícia política. (A PIDE/DGS em 25 de Abril de 1974 tinha um arquivo de 5 milhões de fichas, o que diz muito da eficiência do seu trabalho, em Portugal de aquém e de além-mar).
Apesar de tudo, e como bom cristão que continua a ser, há muito que o Puim perdou a quem lhe fez mal. Mas não esquece.
Ainda imaginei há um ano atrás poder estar aí hoje contigo e com os que te amam, na tua casa em Vila Franca do Campo, mas calculei mal as distâncias. Ainda são 1500 km no 'drone da amizade'..., se quiser ir mais confortável com o meu esqueleto no avião da TAP, ainda são quase 3 horas de viagem. De forma que utilizo este meio, mais maneirinho (e que sempre é mais rápido que o 'bate-estradas' do nosso tempo), para te desejar um bom dia, um grande dia... Que Deus e os nossos bons irãs te protejam a ti, aos teus (a tua Leonor,o teu Pedro, o teu Miguel, os teus netos, e demais família). E a todos nós. Luís (e Alice)".
A título de apreço e homenagem, aqui vai um pequeno ensaio de horóscopo poético, dedicado a ele que podia ser o Santo Arsénio, mas não, não é santo de altar, apenas um homem, de corpo inteiro, um bom amigo e camarada da Guiné. A ele que não desertou, foi apenas expulso da tropa.
Nasceu numa ilha pequena
onde os homens aprendiam cedo
que o mar tanto dá como leva,
e que a vida tanto põe como tira.
Entre o mar dos Açores e o rio Geba, na Guiné,
nasceria um homem de passo manso
e consciência difícil.
Touro de maio,
feito da matéria antiga das ilhas atlânticas:
basalto, vento, sal, silêncio e... teimosia.
Os astros deram-lhe voz (frágil) de padre,
mas coração (forte) de insubmisso.
Nunca aprendeu a ajoelhar-se diante da força,
mesmo quando, por imposição do bispo,
fora obrigado a vestir a farda camuflada verde-rubra.
Havia nele qualquer coisa de ave marinha insular:
voava baixo sobre o sofrimento dos homens
e reconhecia de longe o cheiro da injustiça.
Recusou a G3,
Recusou a G3
Pregou a paz
em terra onde a paz ainda era heresia.
Os planetas dizem
que os homens nascidos naquela hora tardia,
trazem dentro de si uma luta interminável
entre a obediência e a verdade,
Por isso o expulsaram.
Porque certos homens perturbam mais pelo exemplo
do que pela rebeldia.
Foi padre durante dezasseis anos.
Disseram-lhe que bastava salvar almas.
Ele desconfiou da missão, que se ficava pela metade.
Quis aprender também
a tratar feridas, febres, fezes,
Fez-se enfermeiro
como quem prolonga o Evangelho
Durante algum tempo
tentou juntar os dois mundos:
o altar e a enfermaria,
a oração e o termómetro,
a absolvição e a mezinha.
Mas os papéis começaram a rasgar-se por dentro.
Havia demasiada vida concreta, telúrica,
para caber apenas na batina de padre
Então desceu à terra comum dos homens.
Casou.
Teve filhos.
Vieram netos, livros, árvores de fruto,
jornalismo, memórias,
a brisa do quintal ao fim da tarde,
E contudo,
mesmo sem batina,
continuou a ser padre à sua maneira:
escutando, cuidando,
amparando fragilidades,
E essa é também uma forma de coragem
Hoje, aos 90 anos,
o nosso ex-"padre capilom",
como diziam com graça e ternura
continua de sentinela entre Deus e César,
mas ao mundo inteiro.
Os astros sorriem-lhe, discretamente:
não prometem nem honra nem glória,
nem a tribuna de poder,
nem o nicho de altar,
como passageiros,
Outros tornam-se arquivo vivo
de uma terra e de um povo.
O Puim de Santa Maria
é hoje uma dessas raras bibliotecas humanas
que ainda sabem o nome dos ventos, dos moinhos,
das famílias, dos mortos, das almas penadas,
das histórias que não vêm nos livros.
Os astros dizem
que aos noventa anos
um homem começa lentamente
a transformar-se em paisagem fossilizada.
Talvez por isso
a ilha o guarde agora
como se guarda um farol antigo:
com gratidão,
com respeito,
e com medo de um dia o perder.
(a que se juntam, Arsénio, os teus/nossos antigos camaradas da Guiné,
e isso, aqui e agora, vale mais do que a eternidade).























