- Amendoim > 31,4 mil toneladas | 107,8 mil contos | 3,4 contos por tonelada
- Coconote > 11,9 mil toneladas | 31,2 mil contos | 2,6 contos por tonelada
- Óleo de palma > 87,7 toneladas (1960/63) | 381 contos | 4,3 contos por tonelada
Segundo séries estatísticas da FAO, a produção de castanha de caju na Guiné-Bissau rondava apenas as 2 mil toneladas em 1961.
Um estudo histórico refere que as primeiras exportações documentadas ocorreram em 1966, e que nesse período o caju ocupava apenas o quarto lugar entre os produtos exportados, muito atrás do amendoim e do coconote. Em 1970 as exportações eram ainda da ordem das 1,2 mil toneladas.
Portanto, para 1964, a ordem de grandeza plausível será:
- poucos milhares de hectares (talvez 2 mil a 5 mil ha, mas esta estimativa deve ser tomada com muita prudência);
- produção anual na casa das 2 a 3 mil toneladas de castanha;
- praticamente nenhuma indústria local;
- peso económico insignificante quando comparado com o amendoim.
Hoje estamos noutra galáxia. A produção recente oscila entre 120 mil e 200 mil toneladas anuais, conforme os anos e as campanhas. Em 2024, por exemplo, foram reportadas cerca de 178 mil toneladas, das quais 163 mil toneladas exportadas.
A área plantada é frequentemente estimada entre 200 mil e 250 mil hectares, embora os números variem conforme as fontes e os critérios utilizados. O país tornou-se um dos maiores produtores africanos e o caju representa cerca de 90% das exportações
- era o principal produto de exportação da Guiné;
- representava 76% do total (em 1965, um pouco menos: 61%);
- área cultivada: 100 mil hectares (=25% do total);
- produção: c. 65 mil toneladas;
- rendimento médio: 0,65 toneladas por hectare;
- regiões de maior produção: Farim, Bafatá e Gabu.
3. Quem tomou a decisão política?
A questão é interessante porque não houve propriamente uma decisão única nem há um "pai do caju".
A expansão começou ainda no final do período colonial, quando a quebra da produção moçambicana abriu espaço no mercado internacional.
Mas a verdadeira transformação ocorreu após a independência.
Os governos do PAIGC, desde a década de 1970, favoreceram a plantação do cajueiro porque:
- era uma cultura resistente;
- exigia pouco investimento;
- dava rendimento monetário rápido às famílias rurais;
- permitia obter divisas num país com escassas exportações.
Durante os anos 1980 e sobretudo 1990, com os programas de ajustamento estrutural apoiados pelo FMI e Banco Mundial, o modelo consolidou-se: a Guiné-Bissau passou a exportar castanha em bruto, principalmente para a Índia e mais tarde para o Vietname.
Ou seja, a responsabilidade política é repartida entre:
- os últimos anos da administração colonial, que reintroduziram o produto nos circuitos comerciais;
- os governos do PAIGC pós-independência;
- as instituições financeiras internacionais (Banco Mundial, FMI) que incentivaram culturas de exportação.
4. Pergunta o leitor: foi um erro?
Não há um resposta simples. O caju trouxe benefícios reais:
- rendimento monetário para centenas de milhares de famílias;
- entrada de divisas;
- integração de regiões rurais na economia de mercado.
Mas os custos também são evidentes (ambientais, sociais, económicos, alimentares, etc.). Diversos estudos alertam para o avanço dos cajueiros sobre antigas áreas agrícolas e florestais e para a dependência excessiva de uma única cultura de exportação.
O problema maior não seria tanto o cajueiro em si, mas o facto de ele ter passado a dominar o sistema agrícola.
Quando o agricultor troca arroz, milho, sorgo, mandioca ou hortas por cajueiros, fica dependente de vender castanha para depois comprar alimentos.
Se o preço internacional cai ou se a campanha corre mal, a segurança alimentar deteriora-se rapidamente.
A Guiné-Bissau vive hoje uma espécie de paradoxo:
- exporta quase duas centenas de milhares de toneladas de castanha;
- mas continua a importar arroz em grandes quantidades.
Há algo de estruturalmente frágil nisto: o país passou de uma dependência colonial do amendoim ("mancarra") para uma dependência pós-colonial do caju. Mudou o produto, mas não desapareceu a lógica de especialização excessiva.
O desafio seria transformar o caju numa componente importante da economia, sem deixar que ele substitua as culturas alimentares tradicionais nem destrua os sistemas agroflorestais que durante séculos garantiram a subsistência das tabancas.
Essa é hoje uma das grandes questões económicas e ecológicas da Guiné-Bissau.
(*) Últiomo poste da série > 6 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26890: A Guiné-Bissau, hoje: factos e números (6): Exportar caju e importar arroz: uma fatalidade?



5 comentários:
Jogando com as palavras: o amendoím está para o colonialismo como o caju para o neocolonialismo. Infelizmente, nem um nem outro enchem a barriga do guineense. Enchem, sim, ou encheram, os bolsos de alguns...
Caros amigos,
O autor e editor do texto (LG) fala da producao do caju pos-colonial como se tratasse de uma visao e orientacao economica bem construida e aplicada no terreno, nao ha nada mais errado.
A ideia apareceu na epoca colonial, provavelmente nos anos 40/50 a decada da visao abrangente de longo prazo e de todas as obras de infraestruturas no territorio iniciadas com o consulado do Sarmento Rodriges. A politica da promocao do caju continuou ainda nos anos 60/70, sem conseguir, todavia, uma aceitacao geral no seio da populacao, sobretudo no Leste do territorio, mas ja dominava em largos espacos no litoral Oeste (Biombo), Norte (Bissora) e algumas partes do Sul (Tite e Fulacunda).
O que aconteceu no pos-25A74 eh uma completa desordem na economia. O Partido nao tinha uma politica economica definida, o regime do Luis Cabral, um grande sonhador e voluntarista, quis transformar um pais recem-independente, agrario, desprovido de quadros tecnicos e de especialistas e sem infraestrtuturas num pais industrializado, com fabricas e numa aventura de substituicao de importacoes.
Os camponeses que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados, o sistema produtivo, de fomento e captacao vs distribuicao atraves da rede de lojas e armazens no mato em que se apoiavam foi desmantelado na tentativa forcada de criacao de uma nova rede controlada pelo estado (Armazens do Povo), o que desincentivou a producao do amendoim em larga escala. As familias camponesas, desorientadas e sem apoio moral nem material pegaram naquilo que podiam e/ou tinham em mao e, foi assim que, rapidamente, sem qualquer decisao superior, aconteceu a corrida ao caju como meio de salvacao e substituto dos anteriores produtos de renda combinando-se com um periodo de forte procura desse produto no mercado internacional.
Como uma desgraca nunca vem soh, entao a facilidade da sua producao, aliada ao volume das receitas acabou por conquistar a totalidade do territorio e familias e com isso levar ao abandono das outras culturas, inclusive alimenticias como os campos de arroz e milho.
Com um abraco amigo,
Cherno Balde
Em Portugal, no final dos anos 60 comia-se o caju de Moçambique...E era apreciado pelo seu sabor e qualidade...Mas era um aperitivo mais caro que o amendoim. Sempre foi. E ainda é.
Na Guiné, no meu tempo (1969/71), não se comia caju (castanha, torrada), mas sim mancarra (amendoim, torrado). Nem me lembro de ver grandes plantaçõers de cajueiros. Terá sido no tempo do gorvernador Sarmento Rodrigues, no pós-guerra, que se começou a usar o cajueiro (oriundo do Nordeste Brasileiro, e conhecido dos navegadores porttugueses, que o levaram para a Ásia e a África, no séc. XVI) como arbusto para ornamentar as bordas das estradas.
Por outro lado, não interessava à Casa Gouveia (subsidiária da CUF - Companhia União Fabril, que era "dona daquilo tudo"), haver um produto "concorrente"... A fileira das oleaginosas era mais lucrativa, a mão-de-obra era "dócil e barata", o "óleo Fula" tornou-se um caso de sucesso no mercado português de óleos vegetais. Tem mais de 6 décadas.
Os camponeses que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados, diz o Cherno.
Claro que para o PAIGC de Luis Cabral, bem como para todos os "portugueses" do Ultramar que formaram os movimentos nas diversas colónias foram anos e anos a sonhar nas riquezas que "tínhamos debaixo dos pés".
A lavoura salazarista do azeitinho, da corticinha da sardinhinha...termos que atiravam à cara dos transmontanos, beirões, minhotos, algarvios e madeirenses não era para eles.
Isso do óleo de palma, amendoim, cajú...isso não era para eles.
O Luis Cabral e seus irmãos das outras colonias sonhavam mais alto.
Luis Cabral queria industrializar, mesmo depois dele ainda ficou aquela de que a Guiné ia ser a "Suiça africana"
Só mesmo os barcos da Sogeral (CUF) com tripulação caboverdeana, gastava gasoil para se desviar da rota de Luanda e subir o Geba até Bissau para levar uns tantos barris de vinho e aproveitava e carregava uns tantos tambores de chabéu para as suas fábricas de sabão do Barreiro.
Sem CUF e sem Caboverdeanos não havia ânimo para uma segunda Guiné.
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