PS2 - (...) Em 62 João Bacar Jaló foi nomeado Chefe dos Caçadores Nativos no Sector Catió/Cacine. E Foi em Catió que o meu tio conheceu os pais do Zikky (Sayeg) de quem era padrinho. Mantenhas e obrigado.
Agnelo António Monteiro de Macedo (1925-1972):: quando joveme na idade adulta
3. Resposta do editor LG:
O teu tio, que tem o mesmo nome do teu mano, Agnelo Macedo (n. 1952, capitão-de-mar-e-guerra, na situação de reforma) é este teu patrício, nascido em 1925. Descobri em: https://www.barrosbrito.com/8286.html .
Agnelo António Monteiro de Macedo (1925-1972):
- data e local de nascimento: 4 mar 1925, N. Senhora da Conceição, São Filipe, Fogo, Cabo Verde;
- data e local do óbito: 23 mai 1972, Lisboa, com 47 anos de idade;
- era filho de Joaquim Botelho da Costa Monteiro de Macedo (1894-1943) e de Palmira Monteiro (1903-1983);
- o pai era engenheiro electrótecnico, nascido a 16/12/1895, em S. Filipe, casado (1º casamento) com Palmira Monteiro, natural do Fogo; formado pela Universidade de Toulouse, França; foi nomeado em 17 jan 1922 administrador do concelho da Ilha de S. Vicente mas foi exonerado a seu pedido, dois meses depois (tendo sido nomeado para substituí-lo o seu primo Simão José Barbosa); foi nomeado presidente da câmara municipal do Fogo em 3 jul 1928;
- o Agnelo Monteiro era, em 1944, estudante, solteiro, residente na Cidade da Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde;
- em 26 fev 1946 entrou para os Correios e Telégrafos de Cabo Verde;
- desportista, foi um dos sócios-fundadores do Boavista Futebol Clube, da cidade da Praia (3 de março de 1948);
- em data que não podemos precisar, seguiu como funcionário administrativo para a Guiné (então portuguesa); dali foi transferido para o nordeste de Moçambique (Nacala, distrito de Nampula).
3. Contexto
Com base nos dados fornecidos e no cruzamento com o contexto histórico-administrativo e militar da época (transição de 1961 para 1963), aqui estão os caminhos e os factos que ajudam a reconstituir e a validar o pedido do Zeca Macedo. São os anos da contestação nacionalista na Guiné, e também os "anos de chumbo", de forte repressão das autoridades locais (PIDE, polícia administrativa, exército).
(i) Catió e a prisão (1961/63):
O relato do Zeca Macedo é historicamente muito verosímil e enquadra-se no xadrez político da Guiné naqueles anos cruciais.
A região de Catió (no sul da Guiné, junto à fronteira com a Guiné-Conacri) foi a zona escolhida pelo PAIGC para a infiltração inicial e mobilização política, culminando no início oficial da luta armada na "Frente Sul" em 23 de janeiro de 1963 (com o ataque ao quartel de Tite, na região de Quínara).
A partir de 1961/62, a rede clandestina do PAIGC operava intensamente nos regulados de Quínara e de Tombali e à volta dos postos administrativos daquela zona.
(i) O papel do Chefe de Posto:
Se o Agnelo esteve de facto em Catió, pode-se levantar a questão de se saber se era Chefe de Posto ou Administrador... Catió, em 1971, já era Concelho...
Como Chefe de Posto Administrativo em Catió (ou no concelho de Catió), Agnelo Macedo controlava o território, a cobrança do imposto de palhota e o contacto direto com as populações locais (maoritariamente nalus e fulas na região, mas também balantas, grandes orizicultores).
O Chefe de Posto Administrativo era responsável pela menor unidade administrativa (o Posto), em contacto direto com as populações locais, as autoridades tradicionais (régulos) e os assuntos quotidianos. O Administrador de Circunscrição (ou de Concelho), de 3.ª, 2.ª e 1.ª classe, era o magistrado administrativo que governava uma área geográfica mais vasta (a Circunscrição ou Concelho), coordenando vários postos e detendo amplos poderes civis, policiais e de fomento de instrução.
O facto de o Agnelo ser natural de Cabo Verde (São Filipe, Fogo) colocava-o frequentemente sob a mira de especial desconfiança por parte da PIDE, que receava a simpatia ou a colaboração das elites intelectuais e administrativas cabo-verdianas com o movimento liderado por Amílcar Cabral. Em muitos casos, havia laços familiares entre os cabo-verdianos, emigrados na Guiné e os militantes do PAIGC (que rapidamente se transformou em partido armado).
(ii) A Colónia Penal da Ilha das Galinhas:
Situada no arquipélago dos Bijagós, funcionava precisamente como o destino principal para os presos políticos na Guiné (tanto guineenses como cabo-verdianos), acusados de subversão ou cumplicidade com o PAIGC, antes e durante os primeiros anos da guerra (e até ao fim da guerra).
A detenção por "alegadas reuniões com dirigentes do PAIGC" era o modus operandi clássico da delegação da PIDE em Bissau para neutralizar funcionários suspeitos de passar informações ou facilitar a logística nacionalista.
Mas tudo indica que o "suspeito" esteve detido (quanto tempo ?) na Ilha das Galinhas sem culpa formada e sem nunca ter sido julgado. Não se tendo provado que era "militante" ou "simpatizante" do PAIGC, terá sido deixado em paz mas transferido para longe, compulsivamente, para Moçambique. Caso contrário, poderia ter ido parar, no mínino, ao Tarrafal.
(iii) As unidades militares em Catió
Para responder à dúvida do Zeca sobre quem se poderá lembrar desse episódio, seria fundamental identificar as subunidades militares que estavam estacionadas ou operavam em Catió no biénio de 1962/1963. Tarefa que é muito difícil ou praticamente impossível: em meados de 1962, haveria apenas uma secção a guarnecer Catió, segundo as nossas contas.
Em todo o Sul (que abrangia as regiões de Qínara e Tombali), havia apenas, já em 1963, um batalhão, o BCAÇ 237 (sem unidades orgânicas) (jul 61/out 63), com o comando sediado em Tite, e tendo sob o seu dispositivo e manobra a CCAÇ 152 (em Buba) e CCAÇ 153 (em Aldeia Formosa) (mai 61/jul 63).
Esta última, comandada pelo cap inf José dos Santos Carreto Curto, manteve "forças destacadas em Cufar, Catió e Bolama, por períodos variáveis" (forças essas que podiam ser de 1 secção, 1 secção reforçada, menos de 1 pelotão, 1 pelotão ou 1 pelotão reforçado, nunca uma companhia). E havia em Bedanda a 4ª CCAÇ Indígena (a partir de abril de 1967, CCAÇ 6).
Dispositivo das NT em 8 de agosto de 1962, assinalando-se com uma seta a vermelho Catió (que devia ter uma secção)
Fonte: Excerto de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pág. 61.
Em 7/2/1963, a CCAÇ 153 foi rendida pela CCaç 274 (jan 62/ jan 64) e colocada em Bissau. Esta fez operações no sector de Catió.
Sabemos por informações recolhidas pelo PAIGC, que Catió tinha uma delegação da PIDE e ainda "poucos soldados", por esta altura (c. 1962/63).
É hoje praticamente impossível encontrar algum militar, ainda vivo, que tenha passado em 1962/63 por Catió e que se lembre de "ter ouvido falar desta história"... o desaparecimento ou a detenção abrupta do Chefe de Posto Agnelo Macedo pela PIDE.
(iv) A Transferência para Moçambique e o fim prematuro de vida
A transferência de funcionários públicos "sob suspeita" ou após cumprirem períodos de detenção e inquirição administrativa era uma prática comum do Ministério do Ultramar para afastar, dos palcos de conflito, os elementos ativos sem necessariamente os demitir de imediato (o que criaria mais contestação local).
O Agnelo Macedo morreu em maio de 1972, então o alegado episódio da prisão pela PIDE em Catió, em 1962 ou 1963, ocorreu cerca de dez anos antes da sua morte. Isso significa que ainda teria tido uma década de vida após esse acontecimento.Ora, em muitos casos semelhantes da administração colonial, funcionários suspeitos de "simpatias nacionalistas" eram:
- presos preventivamente pela PIDE;
- sujeitos a inquérito;
- transferidos compulsivamente para outro território ultramarino;
- afastados de determinadas funções;
- ou então demitidos da função pública.
A PIDE, apesar de tudo, não terá conseguido "provar" que o Agnelo Macedo era "turra"... O envio para Moçambique (um território imenso e, até 1964, ainda sem frente de guerra ativa) servia como uma espécie de "exílio administrativo". Agnelo Macedo terá continuado a sua carreira na Administração Civil de Moçambique, como chefe de posto em Nacala, no nordeste de Moçambique, durante a década de 1960.
O facto de ser cabo-verdiano é relevante. Nos anos que antecederam a guerra, vários funcionários cabo-verdianos da administração colonial mantinham relações pessoais e familiares com quadros nacionalistas da Guiné e de Cabo Verde. Isso não significa que fossem militantes do PAIGC, mas explica por que motivo alguns ficaram sob vigilância da PIDE.
Aliás, Catió era uma zona particularmente sensível. Mais tarde tornar-se-ia um dos principais teatros de operações do sul da Guiné. A partir do início da década de 1960, a polícia política observava atentamente funcionários administrativos, comerciantes e professores suspeitos de contactos com o movimento nacionalista.
O seu óbito, registado em Lisboa a 23 de maio de 1972, com apenas 47 anos, sugere uma evacuação médica de Moçambique para a metrópole, possivelmente devido a doença prolongada, uma realidade que afetava muitos dos funcionários que serviam em postos de isolamento e clima insalubre no Ultramar (com a agravante, neste caso, de ter sido preso e muito provavelmente torturado pela PIDE e internado na Colónia Penal da Ilha das Galinhas).
(v) Pistas para investigação adicional
Para robustecer esta pesquisa e trazer respostas mais concretas ao Zeca Macedo, os caminhos documentais mais eficazes em Portugal são:
- Arquivo Histórico Ultramarino (AHU): onde repousa o processo individual de Agnelo António Monteiro de Macedo enquanto funcionário do Quadro Administrativo Comum do Ultramar (Guiné e Moçambique); ali constam as nomeações, louvores, licenças e as notas de transferência; seria importante saber, aqui, quem foram os administradores e chefes de posto de Catió entre 1958 e 1964, por exemplo;
- Arquivo da PIDE/DGS (no Arquivo Nacional da Torre do Tombo): a consulta pelo nome completo no índice da PIDE/DGS poderá revelar a existência da ficha de cadastro político, o auto de detenção em Bissau e a ordem de internamento na Ilha das Galinhas entre 1962 e 1963;
- Através do Digitarq 2026 (Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), descobri que o processo deste antigo funcionário público ultramarino está na Torre do Tombo (ANTT): código de referência: PT/TT/DGAP-DIA/001/014275; pasta em papel, não está tratado arquivisticamente; produção: 1963 (?) - 1974 (?).
- Condições de acesso: Não é comunicável. O acesso da documentação é regido pelo disposto no Decreto-Lei n.º 16/93, de 21 de Janeiro, tendo sido considerado que em matéria de comunicabilidade nos termos do ponto n.º 2 do artigo 17.º "não são comunicáveis os documentos que contenham dados pessoais de caráter judicial, policial ou clínico, bem como os que contenham dados pessoais que não sejam públicos, ou de qualquer índole que possa afetar a segurança das pessoas, a sua honra ou a intimidade da sua vida privada e familiar e a sua própria imagem, salvo se os dados pessoais puderem ser expurgados do documento que os contém, sem perigo de fácil identificação, se houver consentimento unânime dos titulares dos interesses legítimos a salvaguardar ou desde que decorridos 50 anos sobre a data da morte da pessoa a que respeitam os documentos ou, não sendo esta data conhecida, decorridos 75 anos sobre a data dos documentos"; e nos termos do ponto n.º 3 do artigo 17.º estabelece que "os dados sensíveis respeitante a pessoas colectivas, como tal definidos por lei, gozam de proteção prevista no número anterior, sendo comunicáveis decorridos 50 anos sobre a data da extinção da pessoa coletiva, caso a lei não determine prazo mais curto".
- Veremos, em poste a seguir, que tendo o Agnelo morrido em 1972, portanto há mais de 50 anos, os familiares podem pedir o acesso ao processo.
(Pesquisa: LG + Página de Barros Brito + Digitarq « IA (Gemini IA / Google)
(Condensação, revisão/fixação de texto, itálicos, negritos, título: LG)
___________________
Nota do editor LG:
Último poste da série > 6 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28077: Casos: a verdade sobre ...(74): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa: evocandio duas das suas vítimas, oc ap art Carlos Borges de Figueiredo e o sold Pedro José Aleixo de Almeida (Cherno Baldé, o "Chico de Fajonquito)
6 comentários:
Jose Macedo (by email)
8 jun 2026 18:30
Fiz algum "research" no Gemini (IA) e encontrei alguma informação que nos (me) poderá ajudar a encontrar algum camarada que esteve em Catió na altura da prisão do meu tio:
(i) CCaç 356 de Jan 1962 a Jan 1964;
(ii) Ccaç 414 de Março 1963 a 1964. no início da luta; comandada pelo Capitão Manuel Dias Freixo;
(iii) Caç 273 de 62 a 64, mobilizado pelo Batalhão de Infantaria Independente 17;
(iv) Pelotão de Caçadores Nativos de 62 a 63, dos grupos de combate africanos;
(v) Em 62 João Bacar Jaló foi nomeado Chefe dos Caçadores Nativos no Sector Catió/Cacine.
Espero que essas informações te possam ajudar a encontrar algum "Camarada velho" que esteve em Catió aquando da prisão do meu tio, Agnelo Macedo. Foi em Catió que conheceu os pais do Zikky (Sayeg) de quem era padrinho.
Mantenhas e obrigado. Zeca
Zeca, muito cuidado com as informações da IA relativas ao dispositivo nas NT no CTIG...
A CCAÇ 356 não existe. Existiu, sim, o BCAÇ 356, mobilizado pelo BII 18 (Ponta Delgada) (sem unidades de quadrícula) (jan 62/jan 64).
A CCAÇ 414 sim, mas andou por muito lado, incluindo Catió (e depois, em julho de 1964, seguiu para Cabo Verde). Tem 17 referências no nosso blogue, e um camarada vivo, Manuel Castro, de Fafe, que te poderá ajudar. Vou mandar-te o contacto dele.
Os Pel Caç Nat 62 e 63... descarta da tua lista!... Náio existian em 1962/63. Segundo o nosso querido camarada e colaborador permanente José Martins, são de 1968:
(...) Em 1968 foram criados 11 novos Pel Caç Nat, a quem foram atribuídos os números de 59 a 69, e em 1969 foram criadas as CCaç 11, 12, 13 e 14, a partir das CArt 2479 e CCaç 2590, 2591 e 2592, que já tinham uma constituição igual às anteriores companhias existentes do recrutamento local ou foram adaptadas. (...)
O João Bacar Jaló, infelizmente, já morreu como, de resto, a maior parte dos nossos camaradas guineenses.
Tens de pedir cópia do processo no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Vou-te dizer como...em poste de amanhã.
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