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terça-feira, 21 de maio de 2024

Guiné 61/74 - P25546: Viagem a Timor-Leste: maio/julho de 2016 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte II - A caminho das montanhas



Timor Leste > Com c. 15 mil km2, e mais de 1,3 milhões de habitantes, ocupa a parte oriental da ilha de Timor, mais o enclave de Oecusse e a ilha de  Ataúro. Antiga colónia portuguesa, tornou-se independente desde 2002, depois de ter sido  invadida e ocupada pela Indonésia durante 24 nos, desde finais de 1975.   Liquiçá (em tétum,  Likisá) é um município, visível neste mapa, com a capital na  cidade do mesmo nome, a 32 km a oeste de Díli, a capital do país. A cidade de Liquiçá tem 19 mil habitantes. Nas montanhas fica Manati / Boebau, onde a ASTIL construiu uma escola para crianças do pré-escolar e 1º ciclo.

Infografia : Wikipédia > Timor-Leste |  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné 





Lourinhã > Praia da Areia Branca > 2 de dezembro de 2017 > Por ocasião de um almoço de um grupo de amigos de Timor-Leste, no restaurante Foz: em primeiro plano, Rui Chamusco e Gaspar Sobral, cofundadores e líderes da ASTIL.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação das crónicas do Rui Chamusco, relativamente à sua primeira viagem e estadia de dois meses em Timor-Leste (partiu  de Lisboa a 5 de maio de 2016 e deixou Dili em 7 de julho, de volta a casa) (*). 

O Rui Chamusco, nosso tabanqueiro nº 886, é professor de música, do ensino secundário, reformado, natural do Sabugal, a viver na Lourinhã. Tem-se dedicado de alma e coração a um projeto de solidariedade no longínquo território de Timor-Leste (a 3 dias de viagem, por avião). É cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste.

 A ASTIL irá construir e inaugurar, em março de 2018,  a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), nas montanhas de Liquiçá (pré-escolar e 1º ciclo). 

A primeira viagem do Rui a Timor Leste, em maio de 2016, é exploratória mas é nessa altura que ficará decidido construir-se uma escola nas montanhas de Liquiçá, em Manati / Boebau. Nesta viagem (e estadia de dois meses) , fez-se acompanhar do luso-timorense Gaspar Sobral, outro histórico da ASTIL, que há 38 anos não visitava a sua terra natal.  Em Dili eles vão ficar na casa do Eustáquio, irmão (mais novo) do Gaspar Sobral.

Dessas crónicas de 2016,  sob a forma de diário, decidimos publicar a maior parte dos apontamentos,  dado o interesse documental que nos parece ter  para os nossos leitores que, como nós,  ainda sabem pouco da história e da cultura dos nossos amigos e irmãos timorenses.



Viagem a Timor: maio/julho de 2016 - Parte II:  a caminho das montanhas

por Rui Chamusco


(Continuação)

 Dia 14 de maio de 2016, sábado  – Dia de muitas emoções

Já estava previamente combinado. O Gaspar, aproveitando a sua estadia em Timor, quis reunir todo a família. É que ele atualmente é o irmão mais velho dos 5 ainda vivos. E como a irmã mais nova, a Benedeta, fez 52 anos há dias,  aproveitaram a ocasião para celebrar os dois acontecimentos. 

Agora imaginem a agitação e o reboliço quando todos estavam presentes: bebés, crianças, jovens, adultos, netos, tios, primos, cunhados, sogros – uma panóplia de parentescos capaz de embaralhar qualquer um. 

E no meio de tudo isto o malae (que sou eu) tentando adaptar-se a esta grande família dos Sobral que, segundo se crê, é a única existente em todo o território timorense. Tarde e noite muito animada pelos cumprimentos efusivos que a toda a hora aconteciam, e também, por que não, pelo som e as canções das crianças acompanhadas por mim no acordeão. 

À noite cantaram-se os parabéns à Bene que nos deliciou com o saboroso bolo de anos. Depois foi a ceia para mais de 50 pessoas. 

Para terminar o Gaspar fez o grande (fala que se farta) discurso da praxe – um momento emocionante que algumas vezes o levaram às lágrimas. Segundo entendi, tratava-se de um apelo à unidade da família, tentado justificar alguns desentendimentos havidos, apelando ao perdão e à união da família Sobral.

“Se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé”

De manhã, mais uma viagem em mota para mandar fazer as fardas para a Adobe. Saltando poças e charcos porque tinha chovido muito no dia anterior, lá fomos rumo a Dili a caminho do alfaiate. Mesmo junto à berma da estrada, numa barraca das habituais, ali estava o artista rodeado de trapalhadas (farrapos, cadernos de apontamentos, fita métrica, máquinas de costura e outras coisas mais). Feito o negócio, vai de tirar as medidas certas à garota para que daqui a oito dias se possam vir levantar.

Mais uma pequena viagem e outra paragem para comprar sapatos e meias e algum material escolar. Loja chinesa. com certeza.

Depois foi a grande surpresa: visita ao David, um timorense que eu apoiei nos seus tempos de estudante em Coimbra e que eu só conhecia de voz por telefone. 

Também ele ficou surpreendido pois nunca pensou ser visitado na sua casa por alguém que ele sempre desejou conhecer. Várias vezes marcamos encontro em Portugal mas nunca se concretizou. Momentos agradáveis com a presença de bastantes familiares que iam chegando. 

Hoje o David trabalha com a primeira dama, mulher do primeiro ministro. E, claro, disponibilizou-se logo para o que for preciso, com vontade de que a gente se encontre em Dili.

Chegando a casa e já arrumadas as compras decidimos telefonar a D. Basílio, bispo de Baucau. Outra grande surpresa, sobretudo para ele, pois nunca teria pensado que o Rui estivesse em Timor. Basílio e eu fomos colegas de trabalho durante dois anos, na equipa de pastoral da comunidade emigrante de Gentilly nos arredores de Paris. Há 34 anos que não nos vemos. Está combinado um encontro nos próximos dias, em Dili. Espero dar- lhe aquele abraço que em tempos nos unia e fortificava. “Bien sûr”!...

Dia 15  de maio de 2016, domingo – A visita do Felisberto Oliveira da Silva

Hoje, domingo, tivemos a visita do vizinho Felisberto. Já falei deste senhor como figura e personalidade invulgar, a fazer lembrar o sábio filósofo que, de livros nos côvados dos braços, passeia a sua interpretação da vida, falando com convicção das suas experiências de vida e das sua ideias e pensamentos sobre os mais diversos temas.

Homem inteligente, com sentido crítico acentuado que Deus lhe concedeu e com acontecimentos ricos de significado. Eu e o Gaspar parecíamos dois alunos ávidos do seu saber. Durante uns bons minutos deu-nos a conhecer pontos essenciais da vida atual, sempre documentado por capítulos e versículos da Bíblia que sabia de cor. 

Fala razoavelmente o português porque fez parte durante três anos da unidade policial portuguesa que serviu em Timor; fez um curso intensivo de formação para ser professor, profissão que também exerceu; foi comandante das tropas da resistência; foi prisioneiro dos indonésios e agora, segundo testemunhas, passa o tempo lendo muito, escrevendo e partilhando as suas ideias. Já tenho o seu aval para quando quiser lhe telefonar ou o visitar. Parece que frequentemente é visitado para ser entrevistado. A sua coerência é muito apreciada. Das suas ideias não abdica seja perante quem for, mesmo em face dos indonésios.

Uma grande lição de vida!...

Dia 16 de maio de 2016, segunda feira – Ida à embaixada e outros sítios

Mais uma vez de táxi, a caminho da embaixada de Portugal porque o Gaspar não descansa enquanto os nossos nomes não forem lá registados. Não vá o diabo tecê-las, vale mais prevenir que remediar. À chegada ao edifício deparamo-nos com um grande grupo de timorenses que procuram obter o cartão de cidadão português, a fim de puderem entrar na Europa, Portugal e Inglaterra sobretudo, para estudar ou trabalhar.

Pois é! Aqui em Timor Portugal ainda tem algum significado. Falar português confere estatuto de gente importante que dá acesso a portas e caminhos por que muitos anseiam.

Um grande desejo é de ir estudar para Portugal. Gente que vem das universidades portuguesas tem quase garantido um bom emprego.

Na embaixada, lugar esquisito pois pouco conforto apresenta, pouca atenção nos deram: simplesmente o número de telefone da embaixada e o e-mail, aconselhando-nos a fazer o registo por correio eletrónico.

Depois fomos ao Páteo, beber um café dos nossos e fazer algumas compras, algumas bem portuguesas como o garrafão de vinho Castelões e latas de sardinhas Ramirez.

Longe da pátria, tudo sabe bem, nem que seja uma côdea de pão para matar saudades.

Telefonema para Austrália

Mais outra surpresa. Quando saí de Malcata,  prometi à família que, aproveitando a vinda a Timor, iria visitar o primo Quim, a residir na Austrália. Hoje foi o dia escolhido para lhe telefonar. Com sucesso, pois fui atendido de imediato. Conversámos de algumas coisas e ficou combinado de que, antes de regressar a Portugal, lhe iria fazer uma visita. Ficou com o meu contato para poder-me telefonar.

Já não vejo o primo Quim há mais de 30 anos, pelo que o nosso encontro vai ser com certeza emocionante, a lembrar os nossos tempos de infância,  os lugares de Malcata, as pessoas que já partiram e as que ainda vivem. Espero ansiosamente pelo encontro…

As influências e as cunhas

Ontem esteve connosco uma jovem de Luiquiçá, parente da família Sobral, que há três anos terminou o ensino secundário com a média de 19 valores. Não conseguiu entrar na universidade porque não tinha lá dentro ninguém da família. Segundo as más línguas, é assim que aqui funciona o acesso ao ensino superior. É muito difícil entrar lá dentro, sem alguém de referência.

É pena que assim seja pois há por aqui muito talento perdido. Normalmente quem vai estudar para Portugal, Indonésia ou outros países são filhos de ministros, de presidentes; muitos sem preparação intelectual para poderem progredir nos seus estudos. 

Daí que muitos voltam para Timor sem nada feito ao fim de alguns anos, para ocupar cargos públicos para os quais não estão bem preparados. Dizem os críticos que isto mais tarde ou mais cedo vai dar buraco pois a incompetência de muitos funcionários públicos é bem evidente

Aqui como noutros lados do mundo desaproveitam-se os dotados, os capazes, os inteligentes para dar lugar à banalidade, às cunhas, às influências. Ai Timor, Timor! Muito caminho te espera… Desejo-te todo o bem do mundo.

Noite 17 de maio de 2016, terça feira – Uma noite no hospital

Outra experiência diferente. Ontem a Adobe quando regressou a casa vinda da escola manifestava alguma tristeza provocada com certeza pelas dores. Estava com febre e pedia aconchego da mãe e do pai. Metade do comprimido para a febre deixou-a arrebitada mas, por volta das 1.30 da manhã, começo a ouvir o seu choro e as vozes do pai e da mãe que tentavam desesperadamente consolá-la. Levantei-me à pressa e quando apareci em cena já estavam com ela ao colo para a levarem ao hospital. Claro que me dispus logo a ir também. Assistida prontamente por quem estava de serviço, com boa observação médica que lhe administrou os respetivos remédios. Esteve em observação e tratamento até às 6.00h da manhã, hora do regresso a casa.

Pois é, nem sempre a vida é cor de rosa. Quantas vezes, para sermos solidários, temos de passar noites em branco. Quantas vezes temos de carregar as dores dos outros… Já alguém fez isso por nós, portanto não há nada de heroico nesta ação. Fica-nos a satisfação de um dever cumprido, de uma obra de misericórdia aplicada. (...)


Dia 18  de maio de 2016, quarta feira - Afinal, os bispos também mentem. Que Deus lhes perdoe!....

Hoje é o dia combinado para o encontro com o D. Basílio, por proposta sua, Ficou de ligar para dizer a hora mais conveniente. Se quem espera desespera, bem desesperado fiquei pois durante o dia todo não houve qualquer contato da sua parte. O encontro foi para as urtigas. Não sei se ainda o vou encontrar, mas se for caso, vai ter que me ouvir.

É assim que se respeitam os amigos? Afinal os bispos também mentem. Que Deus lhes perdoe!...


Dia 19 de maio de 2016, quinta feira  - Mais histórias (acontecimentos reais ) que nos fazem pasmar

Logo de manhã cedo começamos a ouvir relatos que deviam constar no catálogo das obras de misericórdia. À minha frente estava Bartolomeu Pinto, um rapaz entre os trinta e quarenta anos, simpático e que canta e toca guitarra muito bem, mostrou-nos as cicatrizes do antebraço, braço e cabeça. 

Sem que ninguém o esperasse, este jovem foi atacado por um senhor à catanada, só por estar a mexer no presépio. Foi no dia 23 de Dezembro de 2007. Esteve dois dias em coma, depois foi recuperando progressivamente. As forças da ordem, que por acaso era a GNR, quiseram prender o agressor, tendo a vítima declarado que não queria que ele fosse para a prisão. Não tinha nada contra ele e que “se Deus lhe perdoa sempre por que é que ele não lhe devia perdoar.” 

Vejam esta nobreza de sentimentos, próprio do Ano da Misericórdia que este ano a Igreja celebra. Apesar de tudo, o ministério público acusou o réu que, em julgamento,  apanhou dois anos de prisão. Bartolomeu nada pode fazer para que o condenado tivesse de cumprir a pena. Mas quando saiu da prisão foi ter com ele para o abraçar. Grande Bartolomeu! Obrigado pela lição do perdão,,,

Mesmo em atalho de foice, outro exemplo de perdão. Não fixei o nome do herói, mas trata-se de um combatente da resistência a quem um invasor indonésio cortou a mão.

Quando se esperava um sentimento de vingança,  este senhor respondeu a quem o questionava: “se encontrar esse indonésio vou cumprimentá-lo e dar-lhe um aperto de mão. Que importa ter perdido a mão. Importante mesmo é a nossa independência”. 

Sem explicação humana. Este povo é mesmo assim: muito crente, capaz de lutar e de perdoar as ofensas, ( assim como nós perdoamos?...


Dia 20 de maio de 2016, sexta feira –  Dia da Restauração da Independência

Hoje é dia da restauração da independência. Mas não foi por isso com certeza que hoje o pessoal da casa foi à missa às 6.00h da manhã, menos eu e o Gaspar. Perguntei porquê a missa tão cedo e responderam-me que aqui sempre foi assim.

Fomos outra vez a Dili, para levantar as fardas de Escola da Adobe. Azar! Estava fechado, talvez por ser o dia da restauração da independência. Mas o alfaiate mandou-nos lá ir hoje. Não se lembrou ou mentiu. Em poucos dias já levei dois tampos (mentiras).

Aqui, à minha frente, está o Gaspar a discursar, sempre o mesmo discurso, sobre o estado das coisas em Timor. Fala com razão mas a forma de o dizer não é a mais própria. Quer caçar moscas com vinagre. Não sei se terá algum êxito. Não sei se se esquece do que já disse, mas o facto de se repetir vezes sem conta cansa que se farta o pessoal (os ouvintes). 

Os irmãos dizem-lhe que tenha cuidado com o que diz porque as paredes ouvem e a situação pede contenção. Parece que “as secretas” estão em ação e, quando assim é,  todo o cuidado é pouco. Eu cá para mim estou-me nas tintas. Vamos resolver os nossos assuntos, quanto antes melhor, por que me estou marimbando para as quezílias internas.

Amanhã vamos para a montanha, para Boibau. Muita apreensão pois para além da aventura há quem diga que é uma loucura. A distância é curta mas o caminho é terrível, cheio de buracos, subidas e descidas. A ver vamos!... Mas mais ou menos 3 horas de caminho temos de contar. 

Dia 21 de maio de 2016, sábado - A caminho da montanha

 Eram mais ou menos 14 horas quando o jipe do Anô ficou pronto para arrancar: 6 pessoas dentro, mais as trouxas que cada um decidiu levar. A emoldurar o momento estava o rancho de crianças, à volta de 15, que ajudavam a fazer a festa. Foi uma despedida repleta de alegria. 

Depois foi andar, andar, andar  por mares (caminhos) nunca antes navegados numa casca de noz a rebentar por tudo o que era sítio, sob um calor húmido e abafado, resistindo às contrariedades que a cada passo se nos deparavam. Uma verdadeira prova de resistência a qual nem todos aguentaram. 

Enquanto eu cantava de galo, sempre bem disposto e a causar surpresa aos timorenses da comitiva, o amigo Gaspar foi uma desgraça, incapaz de suportar o seu corpo e a sua mente até ao fim. Queixas, vómitos, má disposição – muito reles,  afinal. Para quem duvidava da minha forma física,  foi uma chapada na cara. Toma, Gaspar! Para as outras vezes não ponhas em causa as capacidades dos outros. Valeram-te as viagens de moto. Caso contrário nem sei como chegarias a Boebau.

A receção no casebre Sobral onde vive a família do Don José foi acolhedora, ainda que eu tenha sido mirado de alto abaixo por todos. Não sei se gerei desconfiança ou medo, particularmente às crianças. Embora muito recomendado pelos familiares do Gaspar, há sempre alguma reserva em face de um malae (estrangeiro), mesmo que chegue com boas intenções. 

Todos são informados, em grupo ou individualmente, que a nossa visita se deve a um projeto de solidariedade de construção de uma escola, e que viemos para falarmos sobre o assunto. No domingo, dia seguinte, visitamos os túmulos/jazigos dos avós paternos do Gaspar, que estão em fase final de recuperação. Momentos emotivos com todos os presentes. 

O sr. Sobral era a autoridade máxima da região, uma espécie de comandante de posto, com tudo o que necessitava para tal função (armas, símbolos de chefia…etc…) uma pessoa estimada e respeitada por todos. Eu próprio fui testemunha. Justifica-se portanto o investimento em preservar as suas memórias. Bem o merecem.

Depois, sempre a subir e eu à frente por entre o capim até outro casebre onde nos esperava outra família. Aí  foi servido a cada um um coco que um moço de pé leve foi colher lá nas alturas. O coco que melhor me soube em toda a minha vida. 

Novas conversas sobre o projeto, que nos levaram a marcar uma reunião às 3 da tarde para tomarmos uma decisão: “Uma escola ou uma igreja", como alguém pretende?...

Convidamos o chefe do suco de Leotalá (presidente da Junta) que nos facilitou os cadernos de registo de crianças. À hora marcada começamos a reunião. Com o assunto já bem estudado e perante a pergunta “O que vos faz falta em Boebau Escola ou Igreja?"  

Todos foram unânimes: “queremos a escola, porque há muitas crianças que não vão às escolas circundantes”. 

Segundo os cadernos do suco, vivem em Boebau / Manati mais de 400 crianças das quais só 110 frequentam as escolas. A razão principal da falta à escola é o tempo que se demora no caminho, mais ou menos 5 horas diárias a pé que as crianças têm de fazer. Entenderam o sacrifício desta gente? 

Então ficou decidido, com o apoio de todos e em particular do chefe de suco, que irá ser construída uma escola, mais ou menos o projeto que trouxemos de Portugal, ficando o Anô encarregado de adaptá-lo às condições reais do local de construção. 

Com o orçamento a apresentar (mais ou menos 30.000 euros), a ordem é de avançar de modo a que a escola possa ser inaugurada em Janeiro de 2017, início do ano letivo em Timor. O trabalho mais difícil da nossa visita a Timor, tomada de decisões, está feito. 

Vamos continuar a lutar e a desenvolver o nosso projeto, seja em Timor seja em Portugal. Queremos fazer alguma coisa por esta gente tão necessitada mas tão querida. E Vamos conseguir!...



Alguns episódios na montanha

(i) Francisco da Conceição e a sua mulher parece que estavam já a nossa espera: a Marcelina, o Abeca e eu. 

Os cumprimentos efusivos da praxe, a conversa puxa conversa, o ritual da mama (mascar betel, areca e cal), equiparado ao vício do tabaco e histórias de vida que nos fazem pasmar. 

O sr. Francisco, homem pequeno e franzino vive aqui com a sua segunda mulher, sem filhos. No tempo da invasão indonésia a sua primeira mulher e os seu cinco filhos foram mortos. Mesmo assim, manifesta alegria de vida que nem a sua pobreza (miséria) consegue esconder. Pergunto-me: o que é preciso para ser feliz?... 

Junto às casas aqui próximas colocaram um posto de alta tensão. No entanto ninguém tem luz elétrica nestas paragens. Socorrem-se de “pequenos painéis solares que proporcionam uma débil luminosidade, incapaz de carregar um telemóvel". Por outro lado o senhor Francisco queixa-se que a pequena plantação de betel está a diminuir desde que existem ali implantados os postes. 

Aqui como noutras partes do mundo os pobres são explorados sem qualquer tipo de compensação. O pobre cada vez mais pobre e o rico cada vez mais rico. Para onde vamos?


(ii) O Eustáquio mostrou-nos lá do alto os montes e vales por onde andou escondido e errante com a mãe e alguns irmãos durante três anos. 

Remarcou em particular o monte onde foram apanhados pelos indonésios (uma casa com telhado verde no cimo de um monte) e o local de passagem do rio onde se deu o ”milagre” da casa que os protegeu de noite e que desapareceu ao romper do dia. 

A convicção do relato é tão forte que duvidar do que conta é um risco. O Eustáquio tinha 11 anos de idade percorria todos aqueles montes até Liquiçá para comprar sal que depois ia vendendo pelo caminho. Ainda hoje é frequente o negócio das crianças que passam com frequência pelos arruamentos e veredas dos bairros locais,  apregoando e vendendo produtos diversos.

(iii) Os obstáculos do caminho são uma constante. 

Hoje no regresso da montanha deparamo-nos com uma sinalização que nos indicava perigo. Uma vara e um senhor que ao avistar o gipe pagero azul chamou à atenção do aluimento duma passagem sobre troncos.

 Depois de inspecionado o perigo saímos da viatura e o corajoso e habilidoso Anô arranca sobre a faixa disponível conseguindo chegar são e salvo à outra margem. 

Nada mais houve a registar para além dos buracos constantes destas vias. Mas soubemos depois que o caminho estava intransitável e que corria uma informação falsa a nosso respeito: “foi um pagero azul que provocou a situação.” Sabemos também que não há estrutura nem serviços estatais que resolvam estas situações. Têm de ser os habitantes locais. E viva o povo!...

(Continua)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Conta solidária da Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste (ASTIL)

IBAN: PT50 0035 0702 000297617308 4

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Nota do editor:

(*) Vd. poste anterior da série > 20 de maio de  2024 > Guiné 61/74 - P25544: Viagem a Timor-Leste: maio/julho de 2016 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte I: As primeiras emoções e impressões

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Guiné 61/74 - P25545: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (28): Cá se fazem, cá se pagam ?!

 

Contos com mural ao fundo > Cá se fazem, cá se pagam!?

por Luís Graça

 

De repente viste-o de perfil. Reconheceste-o logo. Estava sentado, na sala de espera da consulta de oftalmologia. De telemóvel na mão, como quem aguarda uma chamada. Estranha coincidência, pensaste tu. Já não o vias há anos.  Muito antes até da pandemia (agora há o antes e o depois da pandemia, dá jeito para balizar as nossas memórias da “peste”, do latim “peius”, a pior doença…).

Aproximaste-te dele. Sorrateiramente. Por detrás. E sopraste-lhe ao ouvido:

O Mundo é Pequeno…

Era a nossa senha. Ele reconheceu-te de imediato, e respondeu-te com a contrassenha:

− … e a Nossa Tabanca é Grande!

Deram os dois um “alfabravo” efusivo. Um abraço,  na gíria da tropa ou calão de caserna. Eram dois antigos combatentes do tempo da Guiné. 

− Também tu,  por aqui ?!  − perguntou-te, agradavelmente surpreendido.

− Fui ontem operado a uma catarata… E tu ?

− Diabetes!... – respondeu-te ele, lacónico,  entre o descontraído e o conformado.

− Só te faltava mais essa!

− Sabes como é, com a idade juntam-se todas as mazelas, as do corpo e as da alma.

− Estamos a pagar a fatura da Guiné!

E, de repente, interrompeu-te:

− Olha, espera aí, está na hora da Doutora Glicemia !

Percebeste que ele desviava o olhar para o ecrã do telemóvel, depois de receber um toque, impercetível para ti:

− Ah!, a glicemia!...

− Está a “vermelho”… Tenho que ir trincar qualquer coisa…

Sugeriste-lhe que fosse avisar as meninas, antes de ir comer uma sandocha ao bar do hospital, logo ali no piso zero. E lá foi ele deixar o recado… para, logo de seguida,  regressar ao seu lugar… Vinha a comer um bolo. Reconfortado, e com ar de quem tinha agora todo o tempo do mundo e podia conversar, enquanto não o chamavam para a consulta.

− Já estou melhor – comentou, sorridente, afável.

E logo ali, tu e ele, recordaram aquele fatídico dia treze de janeiro em que, com um intervalo de duas horas, tinham caído ambos em duas minas anticarro. Às portas de Nhabijões, um gigantesco reordenamento populacional, no Leste da Guiné, perto de Bambadinca.

Duas minas!!!... Ele às onze, tu às treze!... Treze do dia treze, que nem sequer era sexta feira. Mas que foi de azar para vinte e tal homens… Há mais de 50 anos atrás. 1971.

− Um pandemónio! – comentaste tu.

Tinhas vindo no “gosse-gosse”, a toda a mecha, com o teu pelotão que estava de piquete na sede do batalhão, em socorro das primeiras vítimas.

− O vosso soldado condutor, que ia a meu lado, teve morte imediata.

− E tu foste logo helievacuado para o hospital.

Pobre S…, comentaram os dois. Aos vinte e um meses de comissão,  a escassos dois meses de regressar a casa e de, finalmente,  ir conhecer a filha nascida  pouco tempo depois de ele embarcar para a Guiné. 

− E ele a pensar que Nhabijões era um serviço maneirinho, sem grandes sobressaltos...

E ali estava o M…, em carne e osso, que um gajo do PAIGC, ele próprio oficial do mesmo ofício, sapador, quis mandar para os quintos do  inferno. 

O alferes miliciano M…, especialista em minas e armadilhas, destacado em Nhabijões a chefiar a equipa de reordenamentos. Escolhido só porque tinha frequentado  o curso de engenharia do Técnico!... E era mais velho, três anos, do que a generalidade dos outros oficiais milicianos.

Na altura,  Nhabijões era o maior reordenamento em construção na “Spinolândia”. Era, para mais, uma das “meninas bonitas” do “Caco Baldé”: quando lá passava, tinha que ir meter o bedelho, observar o avanço dos trabalhos.  Mandava poisar o helicóptero, dava dois dedos de conversa com a tropa e os civis (que eram “turras”), e lá seguia ao seu destino.

Spínola adorava andar de heli e todos os pilotos se sentiam honrados em levá-lo a bordo,  a seu lado.

− E sem pedir licença a ninguém!... Afinal, ele era o dono daquilo tudo… − observou o M…

E riu-se com o sorriso, bondoso e ingénuo, que sempre lhe conheceste. E já que estavam em maré de confidências, aproveitou para te contar uma história que tu ainda não sabias.

Depois de algumas semanas  (talvez um mês e tal ou dois) no “estaleiro”, e após a alta do hospital, o HM 241, em Bissau,  apresentou-se ao serviço,  em Bambadinca, sede do batalhão a que ele pertencia. Ainda lhe faltava um ano e tal para a acabar a comissão. 

Bateu a pala ao novo “senhor da guerra”, um spinolista (que não era de cavalaria, mas tinha fama de durão), acabado de chegar da região do Oio, para comandar o batalhão. (O anterior comandante tinha “levado com os patins”, por punição do general, o comandante-chefe.)

O novo tenente-coronel  quis “chegar, ver e vencer”, como o Napoleão. Pôs todo o mundo em alvoroço,  a desgrudar o rabo das cadeiras das secretarias, e ele próprio deu o exemplo, indo com a malta operacional da CCAÇ 12 para o mato para reconhecer o seu setor.

À frente do segundo comandante, major de artilharia, perguntou ao M…:

− E você, nosso alferes, o que é que está aqui a fazer ?!

− É sapador, meu comandante, estava no reordenamento de Nhabijões…− apressou-se  o major a esclarecer.

− Estava ? !... E já não está ?!... Vai já na próxima coluna para Sinchã… (Qualquer Coisa, que o M…  não percebeu.)

− Mas..., o meu comandante dá-me licença ?!... É  que eu acabei de regressar do hospital…

− Apanhou uma mina anticarro – acrescentou o 2º comandante.

O tenente-coronel não quis ouvir mais explicações. Visivelmente irritado com tanta gente de baixa na CCS (Companhia de Comando e Serviços), virou-se para o major e intimou-o:

− Tire-me já daqui este inútil!

E assim foi… No dia seguinte, aproveitando a maré, lá seguiu o M…, ainda convalescente, com guia de marcha,  rio Geba abaixo,  com destino a Bissau. Apanhou o “barco turra”, no cais fluvial de Bambadinca, com ordem de se apresentar no  Batalhão de Engenharia, em Brá.

Reclassificado, passaria depois aos “serviços auxiliares”. Deram-lhe 33,3% de incapacidade…

Perguntaste-lhe depois como é que ele tinha vindo à consulta, já que parecia não estar acompanhado por ninguém.

− Desta vez vim de Uber, mas habitualmente é a minha mulher que me traz de carro. 

E lá ficaram os dois à conversa, rememorando a última meia dúzia de anos em que andaram desencontrados, com a pandemia pelo meio…

Em jeito de balanço de uma vida, o M.., que era beirão, acrescentou, entre embevecido e sarcástico:

− Como vês, uma vida! 80 anos, uma guerra, uma mina que me ia quase matando, deficiente das forças armadas,  professor de matemática no ensino secundário,  reformado, três casamentos, três filhos, três netos… E, agora, a flor de cerejeira que me faltava para compor   o ramalhete: uma diabetes!... E, olha, juro-te que nunca fiz mal a Deus!

− Eu também não, confesso,  mas só pode ter sido por termos feito aquela maldita guerra… Deus, se calhar,  não estava do nosso lado, como nos tinham afiançado.

− Achas ?!... Se assim foi, e como se diz na minha terra, Deus castiga  sem pau nem pedra!

− Eu também acho que foi castigo!... Mas porra, logo uma mina!... Eh, pá, eu não sou crente, mas tenho as minhas superstições. Na Guiné aprendi a ter muito respeitinho pelos irãs.  É que havia os bons e os maus. O Amílcar Cabral lixou-se porque não soube distingui-los. Eu usava os amuletos como os meus soldados e os gajos do PAIGC!... Sempre achei que mal não fazia, antes pelo contrário...

− Alguém nos rogou uma praga!

− Mas hoje sei, ao menos, quem nos tramou, quer dizer, quem nos pôs as minas, a tua e  a minha, à saída de Nhabijões.

− Sabes mesmo quem foi ?!...

− Sim, sim… E olha que traziam código postal.

Explicaste depois ao M…, quem tinha sido: o Mário Mendes, comissário político (ou comandante de bigrupo ?), e o seu sapador, aproveitando a calada da noite... E com a cumplicidade dos habitantes de Nhabijões,  que nessa manhã não quiseram apanhar a boleia do Unimog da tropa que ia buscar o almoço a Bambadinca… (Estavam a par da marosca, os sacanas!)

Um ano e tal depois, a  malta da CCAÇ 12, o mesmo pelotão que tinha apanhado com a potente mina que estoirou com a GMC, limpou o sebo ao Mário Mendes.

− Num duelo digno dos melhores filmes do Faroeste!

− Então, estamos quites!... Cá se fazem, cá se pagam! – arrematou o M…, em jeito de conclusão.

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Nota do editor:

Último poste da série > 22 de abril de 2024 > Guiné 61/74 - P25422: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (27): Melhor ainda do que um bom padrinho, é ter um paizinho...

Guiné 61/74 - P25543: Notas de leitura (1693): "Quando os Cravos Vermelhos Cruzaram o Geba", por Tony Tcheka (nome literário de António Soares Lopes Júnior); Editorial Novembro, 2022 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 31 de Outubro de 2022:

Queridos amigos,
Foi com imensa alegria que estive com o Tony Tcheka, ele honrou-me participando na sessão de lançamento de Rua do Eclipse. E deu-me este livro extraordinário "Quando Os Cravos Vermelhos Cruzaram o Geba", quatro contos, todos eles invulgares, habituados como estamos a ver os portugueses a falar da tropa africana que combateu do lado português e foi execrada por quem se comprometera honrá-la, como manda a reconciliação; habituados que estamos a ver os portugueses a abordar o 25 de Abril na Guiné, é completamente inesperado, e merece ser saudado com ambas as mãos esta prosa ousada, desmistificadora, que só me parece possível a quem viveu todas estas situações de um fim de Império e sonhou pôr-se ao serviço do seu país, que tanto o dececionou. Como escreve o editor, Tony Tcheka é o escritor da madrugada, do dia inicial inteiro e limpo, com os pés e o coração divididos entre Lisboa e Bissau.

Um abraço do
Mário



Tony Tcheka, um corajoso denunciador de segredos e mentiras (1)

Mário Beja Santos

A obra intitula-se "Quando os Cravos Vermelhos Cruzaram o Geba", o seu autor é o jornalista e escritor Tony Tcheka (nome literário de António Soares Lopes Júnior), nascido em Bissau em 1951, Editorial Novembro, 2022. É muito mais do que uma surpresa literária, ficamos assombrados com a ousadia deste guineense que rompe com mitos, palavras de ordem e dogmas de fé em que a política bissau-guineense é exuberante. 

Como escreve Pires Laranjeira no prefácio, “Trata-se de um livro corajoso, com seus contos estéticos, contos-ensaios, contos-testemunhos, contos-de-casos sociológicos – e – ontológicos, para ler de um fôlego e entrar numa área da vida guineense que a literatura nunca tocou, a dos guineenses que assumiam identidade portuguesa e dela não queriam abdicar, mesmo mergulhados em grandes infortúnios. Com conhecimento, compreensão e ternura contando a amargura de destinos malparados. Em última instância, todo o livro aborda o Estado-Nação formado por competências antigas e modernas, herdadas das colonizações (dos impérios antigos do oeste africano e do oeste europeu) e da revolução independentista, em que o valor consuetudinário continua a ter muita força e a revigorar na terra branku”.

Não é uma prosa de lamber as feridas, não há aqui qualquer manipulação a tirar esqueletos do armário, são contos de quem experimentou duas realidades, a colonial e a independentista, esventra agora os tiques, sopesa os arquétipos de cada uma das situações, e expõe a dura realidade de como o 25 de Abril de Portugal e a independência da Guiné-Bissau revolveram mentes, expuseram contradições e paradoxos, fomentaram silêncios imperativos, forjaram golpes de Estado indocumentados e interditos de discussão pública, montaram cavalas, os ajustes de contas mais ignóbeis, o que Tony Tcheka nos vem dizer é que os cravos vermelhos chegaram ao Geba e os vencedores mostraram uma total inabilidade em gerar uma reconciliação após tão dolorosa guerra, fratricida e divisora.

É arrepiante a leitura do primeiro conto Pekadur di Sambasabi, esta Sambasabi é uma tabanca onde depois do 25 de Abril regressa o seu filho de nome mais notável, Capiton Basinho Bikas ou Alferes Mon di Ferro. Logo o seu nascimento dá que pensar, ele veio ao mundo mas morreu o seu irmão gémeo. Nos anos em que decorreu aquela guerra, as suas façanhas galvanizavam os serões, até se esquecia o seu verdadeiro nome, João Bicanka Sory Bá. Quis ser enfermeiro, houve mesmo promessa de padre missionário, sonho gorado. Alistou-se no Gabu, os seus feitos heroicos deram condecorações. 

E um dia aconteceu o 25 de Abril, andou por reuniões, tudo lhe parecia estranho, sentia não ter lugar naquele espaço novo em reconfiguração, estava a viver num cenário jamais pensado. Esteve na reza na Mesquita Grande de Pilum, depois foi rezar o Pai-Nosso e o Credo na Sé Catedral de Bissau. Confuso com tudo quanto aqui se passava, voltou à terra natal, à sua tabanca acolhedora, bem no Leste recôndito da Guiné. Em Sambasabi, o Capiton discorre todo o fio daquela memória, o poder dos ancestrais, o despotismo do progenitor, o não ter tido oportunidade de estudar, ter-se tornado num destemido combatente, voltava agora pronto a trabalhar a terra, tem uma plantação frondosa com bananeiras, laranjais, mangueirais. O seu passatempo guarda-o numa sacola, histórias aos quadradinhos.

Tony Tcheka é luminescente a descrever-nos a sua infância no Leste, a sua formatação militar, o seu património religioso. Na tropa, começou por baixo, guia e batedor, fez recruta em Bolama, foi depois selecionado para um curso especial, ainda pertenceu a uma unidade especial de comandos que viria a ser a génese dos comandos africanos. Ele e os seus homens eram um verdadeiro caterpillar de limpeza, ganhou estatuto de figura mítica. Agora, tudo acabou.

Em Sambasabi recebe uma visita inesperada, é alguém que vai em fuga, um fuzileiro guineense de nome Musna Na Faiõe, avisa-o de que é tempo de perigos, chegaram os ajustes de contas, Capiton decide ficar, tem uma explicação: 

“Se não posso fugir de mim mesmo, como e porquê fugir dos outros? Se não me reencontrar aqui onde tenho o meu umbigo enterrado, jamais serei eu. São muitos anos à procura de mim mesmo”. 

E apareceram 30 guerrilheiros, vieram-no buscar, ficará detido no quartel de Mansoa, conversará com um amigo, Djondjon di Nha Maria Benta, falam da literatura aos quadradinhos, desabafa: 

“Sou um homem a quem na adolescência arrancaram a alma. Nunca me encontrei. Pensei ter despertado, mas não. Não pude viver os meus sonhos. Nunca fui eu. Nesta vida, fui o que os outros de mim fizeram”.

Tony Tcheka não necessita de falar dos fuzilamentos nem das patranhas que foram inventadas de uma sublevação absurda de tropa especial e outra, o mais ridículo de tudo é que nenhum daqueles homens não detinha uma só arma, uma só bazuca, uma só granada. E desses fuzilamentos que mais pareciam aplacar o descontentamento interno forjando um inimigo fantasmático que atrasava o progresso do país, passa-se para quase o tempo presente. 

Já estamos em 2017, o septuagenário de Musna Na Faiõe, sentado na sua casa de construção precária, na zona da Amadora, assiste a uma notícia da RTP-África, é o protesto de uma centena de membros da Associação de Antigos Combatentes, filhos e familiares das Forças Armadas Portuguesas, frente à Embaixada de Portugal em Bissau, reivindicando o cumprimento do acordo celebrado depois do 25 de Abril e não cumprido. O antigo fuzileiro pega no telemóvel e liga para um camarada das matas da Guiné, fala-lhe da notícia, mas qual cumprimento de acordo, quem se dignou a respeitar tanto sacrifício consentido e sangue derramado? 

“Nós somos os mortos-vivos navegando num rio sem água. E o que somos nós hoje? Digo-te já: Entrudos! Fomos promovidos a entrudos… Sem esperar por qualquer reação, num gesto brusco Musna Na Faiõe desligou o telefone, enterrando-se no velho cadeirão”.

O leitor que se prepare para mais, como nos adverte o editor, temos pela frente “um entrelaçamento de culturas; aprendemos com os dialetos, as lendas, as tradições e os costumes, desta narrativa histórica romanceada, que nos adverte para o quanto é necessário ‘pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro’”.

Se Tony Tcheka já nos surpreendera por ser o estro mais flamejante e dolorido desta impenitente Guiné-Bissau, revela-se nesta obra um artista de mil prodígios.

Tony Tcheka
Antigos combatentes das Forças Armadas portuguesas na Guiné Bissau, Global Imagens, com a devida vénia
Lançamento do livro “Quando os cravos vermelhos cruzaram o Geba”, de Tony Tcheka, no Centro Cultura Português em Bissau, maio de 2022

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 17 DE MAIO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25536: Notas de leitura (1692): Factos passados na Costa da Guiné em meados do século XIX (e referidos no Boletim Official do Governo Geral de Cabo Verde, anos 1850 e 1851) (3) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P25542: Os 50 anos do 25 de Abril (23): Hoje, na RTP1, às 21:01, o 6º episódio da série documental, "A Conspiração", do realizador António-Pedro Vasconcelos (1939-2024)


1. Passa hoje, na RTP1, às 21h01, o 6º episódio (de 9) da série documental "A Conspiração". Os  episódios anteriores (de 1 a 5)  podem ser vistos ou revistos na RTP Play. O 1º episódio ("A semente revolucionária") foi emitido em 24 de abril de 2024.

Sinopse: 

A última obra de António-Pedro Vasconcelos. Conhecemos os ícones, as músicas e os locais emblemáticos do 25 de Abril 1974. Mas como surgiu a Revolução que mudou o destino de Portugal?

"A Conspiração", série documental realizada por António-Pedro Vasconcelos, é o resultado de uma meticulosa investigação que conta com depoimentos exclusivos de protagonistas que conseguiram concretizar em menos de 24 horas, o que em 48 anos muitos outros não haviam conseguido. Desde as reuniões secretas aos personagens-chave, é-nos revelado o extraordinário processo conspirativo que começou no verão de 1973 e que culminou na madrugada de 25 Abril de 1974, com o derrube do Estado Novo e a conquista da liberdade. O resto, como dizem, é história. (*)

Episódio nº 6 |  Episódio 6 de 9

A chamada "Kaulzada" é abortada e ultrapassa-se, assim, mais um momento de perigo para o Movimento de Capitães. Mas, em Janeiro de 1974, na província de Manica, em Moçambique, os colonos são confrontados, pela primeira vez, com a existência da guerra naquele território. 

Sucedem-se graves confrontos na Cidade da Beira, em que a população agride e culpabiliza os militares. Estes acontecimentos vêm acelerar a consolidação e politização do Movimento, que começa a preparar um programa político de base. (**)

Fonte: RTP > Programa > TV (com a devida vénia...)

Próximas emissões: 20 Mai 2024, 21:01 RTP1 | 20 Mai 2024 21:01 | RTP Internacional | 22 Mai 2024 15:00 | RTP Internacional Ásia | 23 Mai 2024 01:00 RTP Internacional América

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(**) Últimoposte da série > 16  de maio de  2024 > Guiné 61/74 - P25533: Os 50 anos do 25 de Abril (22): Do Precedido Ao Sucedido (António Inácio Correia Nogueira, ex-Alf Mil da CCAÇ 16 - CTIG, 1971 e ex-Cap Mil, CMDT da CCAV 3487 / BCAV 3871 - RMA, 1972/74)

domingo, 19 de maio de 2024

Guiné 61/74 - P25541: O Cancioneiro da Nossa Guerra (21): Os Gandembéis - Canto I, Estrofes de I a XI (CCAÇ 2317, Gandembel, Ponte Balana e Nova Lamego, 1968/69)



Leiria Monte Real > Palace Hotel Monte Real > 26 de Junho de 2010. V Encontro Nacional da Tabanca Grande > A paixão do teatro e da Guiné juntaram o João Barge e o Carlos Nery (n. Funvchal, 1933).... "Os Gandembéis", poema de autoria coletiva (mas com forte contributo do poeta João Barge, 1944-2010), escrito em 1969, retrata a epopeia da CCAÇ 2317 em Gandembel e Ponte Balana.

Infelizmente o João Barge iria morrer uns escassos meses depois, no príncipio de dezembro de 2010.(*)





Monte Real, Palace Hotel, 26 de Junho de 2010 > V Encontro Nacional  da Tabanca Grand3e > O saudoso João Barge (1944-2010), ao meio, com o Idálio Reis (à direita, segurando uma cópia das letras de "Os Gandembéis", o Cancioneiro de Gandembel, uma paródia de "Os Lusíadas", Canto I / 27 Estrofes, Canto II / 16 estrofes, Canto III / 8 estrofes e Canto IV / 11 estrofes) (**).

Do lado direito, o camarada Eduardo Moutinho dos Santos, ex-capitão miliciano (que comandou a CCaç 2381 "Os Maiorais", 1968/70),  hoje advogado e antigo presidente da Mesa da Assembleia Geral da ONG Tabanca Pequena (Matosinhos).

O João, já o conhecia, superficialmente, de um dos primeiros convívios da Tabanca do Centro. Natural de Aveiro, foi professor no Instituto Politécnico de Leiria. Agora, o que não imaginava é que ele era também um dos homens-toupeira de Gandembel e um dos dois famosos letristas de "Os Gandembéis".

  

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2010). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 


Idálio Rodrigues F. Reis,
hoje eng. agr. ref.,
foi alf mil at inf, CCAÇ 2317 / BCAÇ 
2835 (Bissau, Bula, Mansabá,
 Guileje, Gandembel, Ponte Balana,
Aldeia Formosa, Buba,
Nova Lamego e Cansissé,
jan 68/ dez 69)

1. Não há nada parecido, até agora,  com a letra de "Os Gandembéis", dentro de "O Cancioneiro da Nossa Guerra"... É uma magnífica paródia de "Os Lusíadas", a obra-prima da  nossa literatura.

Arte, mestria, drama, tragédia, epopeia, humor de caserna!... Jã há muito que o dissemos: esta ma obra-prima mete o Cancioneiro do Niassa a um canto (sem desprimor para os anónimos autores, dos 3 ramos das forças armadas, da base de Metangula, que escreveram as letras das cerca de 4 dezenas de canções que integram o cancioneiro moçambicano).

Sabemos, pelo "cronista" da CCAÇ2317, o Idálio Reis, que estas estrofes foram  escritas, ou ou melhor, ultimadas, em 1969, já não no calor da batalha de Gandembel / Balana (abr 68 / jan 79), mas na retaguarda, na região de Gabu, para onde a companhia acabou a sua comissão de serviço no CTIG, em finais de nov 69)... 

Em todo o caso, ainda os bravos de Gandembel / Ponte Balana cheiravam a pólvora, a sangue, a suor e 
a  lágrimas:

(...) "Em Gandembel, tanta tormenta e tanto dano,
Tantas as vezes a morte apercebida,
No arame farpado, tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida;
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida ?
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno. (...)

(Os Gandembéis, Canto II, Estrofe I. In: REIS, Idálio; A CCAÇ 2317, na guerra da Guiné: Gandembel / Ponte Balana, ed. autor,. s/l, 2012, pág. 209)

Não temos dúvidas que isto foi escrito por gente com talento (literário), cultura, sensibilidade e... muitos dias de sofrimento e de insónias!!!

Quem foram os seus autores ? O Idálio Reis esclareceu algumas das nossas dúvidas, em mensagem datada de 10 de março de 2012 (**):
 
(...) "Quanto aos Gandembéis, obviamente que sabia da sua existência, mas só consegui obter uma cópia, já em período posterior aos meus apontamentos no Blogue. Como referes, é uma obra-prima. Está lá a história da Companhia, inclusive a do Bigode Reis, que pela Guiné toda faça espanto, de RDMs e recusas singulares, de Gandembel as terras e do Carreiro os ares. E há um fundo de verdade, nestas palavras.

"É uma obra que o apaziguador tempo de Nova Lamego proporcionou. Os seus autores, são anónimos e humildes. De todo o modo, faço-te a revelação: um deles, foi o malogrado e inesquecível João Barge, um filólogo de escol, e que decerto seria a única pessoa capaz de emprestar tanta arte e sensibilidade à sua pena.

"Ainda que tivesse surgido em Gandembel, nos finais de outubro/princípios de novembro [de 1968], e num período em que se vivia já numa situação de mais alívio, teve a ajuda de um dos pioneiros da Companhia, um ex-furriel que ao tempo já era professor primário." (*) (...)

O nosso blogue já tinha dado a conhecer ao mundo, uns anos antes, em 2007,  "o suplício de Sísifo" de Gandembel na série Fotobiografia da CCAÇ 2317 (***)...

Esta republicação, agora na série "O Cancioneiro da Nossa Guerra" (****), é uma homenagem a todos os "homens de nervos de aço", os "homens-toupeira",  que construiram e aguentaram, heroicamente, Gandembel, e muito em particular à memória do João Barge (1944-2010), que foi professor em Leiria, primeiro do ensino secundário (Escola Secundária Rodrigues Lobo, Leiria) e depois do ensino superior politécnico (Instituto Superior Politécnico de Leiria).  (Haveremos entretanto de descobrir quem foi o  coautor da letra, o furriel miliciano que era professor primário; merece também o nosso apreço e homenagem.)



Guiné > Região de Tombali > Gandembel  (vd. carta de Guileje, 1956, escala 1/50 mil)> CCAÇ 2317 (Abril de 1968/Janeiro de 1969) > 1968 > Não confundir "Os Gandembéis" com o "Hino de Gandembel"; e apropósito,  será este o misterioso autor da letra (e da música) do Hino de Gandembel ? 

Podemos imaginar que sim... Aí está o homem-toupeira, o homem de nervos de aço de Gandembel/Ponte Balana, fazendo da pá de trolha a viola de baladeiro, e ensaiando as primeiras notas e o primeiro verso do Hino de GandembelÓ Gandembel das morteiradas, /Dos abrigos de madeira / Onde nós, pobres soldados, /Imitamos a toupeira.(...). 

Um hino que o Idálio Reis e os seus camaradas da CCAÇ 2317 irão transformar mais  em Hino da Alegria  por ocasião dos seus convívios anuais...

Foto (e legenda): © Idálio Reis (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


OS GANDEMBÉIS > Canto I (Estrofes, de I a XI)


I
As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por sítios nunca dantes penetrados
Passaram ainda além do Rio Balana,
E em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
Entre gente remota edificaram
Novo Reino que depois abandonaram;


II
E também as memórias gloriosas
Daqueles heróis que foram dilatando
A Fé, o Império e as terras viciosas
Do Olossato e Mansabá andaram conquistando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando;
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar engenho e arte.


III
Cessem do Corvacho e do Azeredo
As conquistas grandes que fizeram;
Cale-se do Hipólito e do Loredo (1)
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto os que não tiveram medo
A quem Nino e Cabral obedeceram.
Cesse tudo o que a antiga musa canta
Que a dois três dezassete mais alto s’ alevanta.


IV
Por estes vos darei um Maia fero,
Que fez ao Moura e ao Calças tal serviço.
Um Nunes e um Dom Veiga (2), que de Homero
A Cítara para eles só cobiço;
Pois pelos Dois pares dar-vos quero
Os de Gandembel e o seu Magriço;
Dou-vos também o ilustre Goulart,
Que para si em Minas não tem par.


V
E, enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
Bigodes Reis, que não me atrevo a tanto, (3)
Tomai as rédeas vós, do Grupo vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Começai a sentir o peso grosso
(Que pela Guiné toda faça espanto)
De RDMs e recusas singulares
De Gandembel as terras e do Carreiro os ares.(4)


VI
E, o que a tudo, enfim, me obriga
É não poder mentir no que disser,
Porque de feitos tais, por mais que diga,
Mais me há-de ficar ainda por dizer.
Mas, porque nisto a ordem leva e siga,
Segundo o que desejais de saber,
Primeiro tratarei da larga terra
Depois direi da sanguinosa guerra.


VII
Partiu-se de manhã, c’o a Companhia,(5)
De Guileje o Moura despedido,
Com enganosa e grande cortesia,
Com gesto ledo a todos e fingido.
Cortam as viaturas a longa via
Das bandas do Carreiro, no sentido
De ir construir um quartel
Na inóspita e desabitada Gandembel.


VIII
Já na estrada os homens caminhavam,
O intenso capim apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Nas viaturas as minas rebentando;
Da negra missão os soldados se mostravam
Decididos; e os aviões vão apoiando
A coluna com muita acrobacia
Porque no mais não passa de "fantasia".


IX
As roquetadas vêm do turra e juntamente
As granadas mortíferas e tão danosas;
Porém a reacção não consente
Que deem fogo às hostes temerosas;
Porque o generoso ânimo e valente,
Entre gentes tão poucas e medrosas,
Não mostra quanto pode, e com razão:
Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.


X
Da bolanha escondida, o grão rebanho,
Que pela mata foi aparecido,
Olhando o ajuntamento lusitano
Ao soldado foi molesto e aborrecido;
No pensamento cuida um falso engano,
Com que seja de todo destruído.
E, enquanto isto no espírito projectava,
Já com morteiros e canhões atacava.


XI
E uma noite se passou nesta rota
Com estranha emoção e não cuidada
Por acharem da terra tão remota
Nova de tanto tempo desejada.
Qualquer então consigo cuida e nota
No inimigo e na maneira desusada,
E como os que na errada missão creram
Tanto por toda a Guiné se estenderam.


(Continua)

(Revisão / fixação de texto: IR / LG)
___________

Notas de IR/LG:

(1) Cap Eurico Corvalho, comandante da CART 1613 (Guileje, 1967/68), falecido a 22/12/2011. 

 Cap Carlos Azeredo, cmdt da CCAV 1616 (BCAV 1879, que esteve no Olossato. 

Quanto ao Hipólito... Presumimos que fosse o ten cor inf  Carlos Barroso Hipólito, cmdt do BCAÇ 2834 ( Bissau, Buba e Aldeia Formosa, jan 68 / nov 69)

Quanto ao Loredo... Não descobrimos ninguémcom este apelido, podendo ser erro de transcrição. (Seria Moreno ou Loreno ?... Mas Loredo rima com medo...)

(2) Cap Inf Jorge Barroso de Moura, cmdt da CCAÇ 2313 (hoje tenente general reformado); Alf Mil At Inf Mário Moreira Maia; Fur Mil At Viriato Martins Veiga; Sold apont metralhadora Jerónimo Botelheiro Nunes (presume-se), cujo municiador morreu a 28/3/1968, nas imediações de Guileje

(3) Alf Mil At Inf Idálio Rodrigues F. Reis (hoje, eng agron ref, membro da nossa Tabanca Grande, residente em Cantanhede); Fur Mil At Inf Mário Manuel Goulart.

(4) Carreiro= Corredor de Guileje, corredor da morte...


(5) Depois de passar, na IAO,  por Mansabá e Olossato (de 15/2 a 15/3/1968), a CCAÇ 2313 seguiu de LDG para Cacine, e esteve em Guileje por pouco tempo (aí fazendo colunas logísticas para Gadamael e cortando cibes). 

A 8 de Abril de 1968 foi destacada para Gandembel, com a missão de construir um aquartelamento de raíz. Mas a 28 de março, tem os seus dois primeiros mortos, o Domingos Costa (Olival/Vila Nova de Gaia) e Manuel Meireles Ferreira (Pópulo / Alijó). A 8 de abril participa na Op Bola de Fogo

Esclarecimentos adicionais do Idálio Reis, emcomentário ao poste P9695:

Luís, quanto aos Gandembéis, é o seguinte:

(i) "Cessem do Corvacho e do Azeredo..." 

O saudoso Eurico Corvacho da CART 1613, e o Azeredo e Leme, tenente-general, ex-Chefe Militar do Presidente Mário Soares, e que se atravessou nos itinerários da Guiné em 2 sítios: no Olossato, comandando uma Companhia de Cavalaria, e em Aldeia Formosa, aquando do retiro de Gandembel, como comandante de um COP, já com a patente de major.

(ii) "Cale-se do Hipólito e do Loredo..." 

Este Hipólito refere-se ao comandante do BCAÇ 2834, Carlos Barroso Hipólito, mais afamado que o do meu BCAÇ. 2835, e com a particularidade de serem 2 Batalhões formados à mesma altura e na mesma unidade mobilizadora - o RI15. 

Quanto ao Loredo, diz respeito ao 2º comandante do meu Batalhão, de nome Cristiano da Silveira e Lorena. Por evacuação do Comandante inicial, Joaquim Esteves Correia, chegou a comandar o Batalhão durante um prolongado tempo, até à chegada do TC Pimentel Bastos (o nosso Pimbas), que se viu afastado do comando de um Batalhão mais recente que o nosso )o BCAÇ 2852), por imposição de Spínola, e que regressaria connosco a caminho da Metrópole.


(iii) "Por este vos darei um Maia fero..." 

Trata-se de Mário Moreira Maia, alferes da minha Companhia, hoje advogado no Porto. Era o alferes mais antigo, pois que era de uma incorporação anterior à nossa. Substituiu já mesmo no findar da IAO em Santa Margarida, o camarada Moutinho, que passados apenas 3 meses viria a constituir a CCAÇ 2381. De sublinhar que este Moutinho, nada tem a ver com um dos seus comandantes de Companhia - o Moutinho dos Santos.

De referir ainda, que o comandante da CART 1689, do Alberto Branquinho, também era Maia, mesmo Moreira Maia, mas este é tenente-general a residir no Porto.

(iv) "Que fez ao Moura e ao Calças tal serviço..." 

Este Moura, é Jorge Barroso de Moura, que comandou a minha CCAÇ 2317, hoje tenente-general. O Calças, é o já citado major Lorena, pois que era apelidado do Calcinhas, talvez porque o uso sistemático dos calções, era o que mais se coadunava com o seu porte físico.

(v) "Um Nunes e um Dom Veiga..." 

Este Nunes, com desgosto, não sei de quem se trata. O nome que foi aflorado, não é de todo. E não me é lícito fazer quaisquer suposições. Já quanto ao Dom Veiga, trata-se de um dos furriéis da Companhia e do meu grupo, Viriato Martins Veiga (homem que andou por Coimbra, e que há anos lhe perdi completamente o rasto).

3 de abril de 2012 às 19:47 
 

(*) Vd. poste de 7 de deembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7399: In Memoriam (66): A morte dolorosa de um dos últimos homens a chegar a Gandembel, o ex-Alf Mil João Barge (1944-2010)

Mensagem de Idálio Reis (...) O Barge chega a Gandembel, em rendição individual, para substituir o Francisco Trindade, atingido gravemente por uma mina anti-pessoal no fatídico local de Changue-Iaia. Estava-se em meados de Outubro de 1968, quando um estudante de Coimbra quase a finalizar o seu curso, chega àqueles aterradores confins de África.

Tendo sido bem recebido por todos, soube adaptar-se com enorme senso ao seu grupo de combate. Felizmente que a situação geral de Gandembel/Ponte Balana havia melhorado substancialmente, graças à acção notável que os pára-quedistas tinham conseguido levar a efeito.

Nos outros lugares, Buba e Nova Lamego, o João Barge haveria de continuar com a sua CCAÇ. 2317, até esta acabar a sua comissão. E a ele, faltava-lhe contar os últimos meses, agora em Bissau e entregue à parte logística de envio de víveres para as forças de quadrícula disseminadas pela Província.

No Gabú, onde a guerra se nos arredou em definitivo, relembro a sua intensa azáfama em preparar as últimas cadeiras do curso, que após o seu regresso definitivo, haveria de concretizar muito rapidamente.

Só nos viemos a reencontrar há cerca de 3 anos, já ele estava aposentado após um desempenho brilhante como Professor do Instituto Politécnico de Leiria. E a partir daqui, íamo-nos encontrando ainda que esparsamente, e uma das últimas vezes em que o instiguei a estar presente, foi ao último convívio da Tabanca Grande. Aqui, uma malta contemporânea de Buba, com o Carlos Nery a merecer justa honra de capitanear, viríamos a preencher uma mesa em franca confraternização. (...)

 

(****) Último poste da série > 18 de maio de  2024> Guiné 61/74 - P25538: O Cancioneiro da Nossa Guerra (20): Nemíades e bolanhíades, as "ninfas" ao estilo camoniano imaginadas pelos "Cobras" da CCAÇ 2549 (Cuntima, Nema e K3 Farim, 1969/71), do ex-cap inf Vasco Lourenço

Guiné 61/74 - P25540: Contos do ser e não ser: Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (18): "Mas a senhora, quem é?"

Adão Pinho Cruz
Ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547
Autor do livro "Contos do Ser e Não Ser"


Mas a senhora, quem é?

Passei frente à loja onde se deu o crime e lembrei-me… - Mataram o meu filho, Sr. Doutor, e ele está aí. Isto dizia a voz rouca do outro lado da linha.

Pousei o telefone e desci imediatamente à urgência, que ficava no rés do chão. A primeira maca, que vi no corredor, tinha um corpo coberto com um lençol.

Levantei a ponta do lençol e vi logo que era ele, o filho do Sr. José. Tinha um botão de sangue coalhado acima da clavícula na parte esquerda da base do pescoço.

O Sr. José foi porteiro do prédio onde vivi no tempo em que os meus filhos eram crianças. Ainda hoje lá permanece a mesa em que ele sentava, muitas vezes, o mais novo.

Viviam, ele e a D. Amélia, numa casinha rasteira escondida numa das ilhas da rua do Bonjardim.

Muitas vezes os encontrei na rua, tristes, abatidos, mas muito amigos, sempre de braço dado.

A última vez que os vi, o Sr. José não me reconheceu. A doença começara, há muito, a comer-lhe a mente, até ficar vazia. A D. Amélia tomou as minhas mãos entre as suas e disse-me com as lágrimas nos olhos:
- Sofremos muito com a morte do nosso filhinho, Sr. Doutor, sofro muito com a doença do meu marido e com a minha, mas há uma coisa pior que tudo, que me atravessa a alma e quase me arranca o coração do peito. É quando ele, coitadinho, sentadinho na beira da cama, e eu lhe digo, Zezinho queres um chazinho quentinho, com umas bolachinhas, e ele me responde:
- Mas a senhora, quem é?

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Nota do editor

Último post da série de 12 DE MAIO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25512: Contos do ser e não ser: Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (17): "Uma moedinha, por favor"

sábado, 18 de maio de 2024

Guiné 61/74 - P25539: Os nossos seres, saberes e lazeres (629): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (154): Lembranças de Manuel de Brito e da Galeria 111 (4) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Maio de 2024:

Queridos amigos,
É um adeus e até ao meu regresso, a 111 mantém-se imparável, estou certo e seguro que o Centro de Arte Manuel de Brito nos reservará agradáveis surpresas depois de agosto. Aquele espaço é para mim lugar de culto e aqui faço um arrazoado de alguns achados que me transfiguraram a existência. Não cometo nenhum excesso de linguagem quando digo que na 111 vi com os meus olhos exposições esplendentes, que aqui se cimentou um modo de olhar e que me perdoem ter-me desdobrado a falar do meu deslumbramento por esta exposição onde encontrei pontos de ancoragem para o meu gosto, e daí lembrar com muita saudade o Manuel de Brito que lançou esta bela aventura do espírito.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (154):
Lembranças de Manuel de Brito e da Galeria 111 - 4


Mário Beja Santos

Despeço-me com pesar desta romagem de saudade a um espaço que frequentei nos anos 1960 e 1970, com bastante assiduidade. Antes de começar a trabalhar aos 19 anos, fiz-me sócio da Gravura e alguns dos nomes proeminentes que irei ver desfilar neste espaço recebi a informação e anualmente um trabalho artístico, a quotização era baixinha. Enquanto visitava esta exposição que está patente até dia 3 de agosto lembrei-me de duas conversas havidas, uma com Manuel de Brito, outra com António Dacosta. Brito insistia que eu devia comprar aquela serigrafia do autorretrato da Sonia Delaunay, e eu insistia no meu salário magro e numa filha recém-nascida, ele advertiu-me que me iria arrepender, e o mínimo que hoje posso dizer é que teria sido preferível andar um mês a pão e laranjas, e poder hoje ter esta obra admirável para regalo dos meus olhos; Dacosta, que eu não conhecia, entendeu que eu era merecedor de uma visita guiada, falei-lhe de que convivera com um quadro seu, uma obra admirável do período surrealista, estava pendurada numa parede da sala do poeta Ruy Cinatti, fizemos a visita guiada a falar do Cinatti.

A 111 foi uma casa ofuscante da minha formação, deu facilmente para entender que estes movimentos estéticos que as exposições apresentavam traduziam uma abertura de espírito cada vez mais longe da “política de espírito” de António Ferro e que o regime de Salazar, com maior ou menor aceitação, apoiava nos seus certames, tudo sobre a aura do modernismo. A 111 trazia a rotura, a multifacetada modernidade, a Lourdes Castro, o Costa Pinheiro, o Noronha da Costa, António Areal, Eduardo Batarda, Helena Almeida, João Cutileiro, foi neste espaço que conheci a arte de Palolo, de Paula Rego, o outro Pomar, enfim, a redescoberta daquela Sonia Delaunay. É evidente que estavam em marcha iniciativas que iriam transfigurar a arte portuguesa, logo as bolsas de estudo atribuídas pela Gulbenkian, as exposições de artistas estrangeiros, as celebrações de efemérides, os prémios que, de um modo geral, confirmavam os talentos que ajudaram a reforçar o que veio depois a acontecer com o 25 de Abril.

Despeço-me deste arco histórico de seis décadas de alguma das melhores artes plásticas portuguesas que a 111 guarda no seu bojo, enfim, que me perdoem este paraninfo que envolve aquelas décadas em que se me formou o gosto, e até me apetece recordar o que naquele tempo estava a mudar no design gráfico, o Sena da Silva, o Victor Palla, o Sebastião Rodrigues, o Infante do Carmo, eram novos caminhos, eu não desdenhava as belas capas de livros de Bernardo Marques, João da Câmara Leme ou Paulo Guilherme, até mesmo o Cândido Costa Pinto de que guardo religiosamente alguns livros da Coleção Vampiro, onde ele pontificou até perto do nº100, só que foi neste espaço que alguém que caminhava para os 20 anos e até uma década mais tarde veio aqui ver alguma das mais esplendentes exposições que houve em Portugal.

Manuel de Brito e Costa Pinheiro
António Dacosta e Manuel de Brito
Júlio Pomar, José Saramago e Menez
António Dacosta, Ilha
Bartolomeu dos Santos, Parabéns pela menina de Abril, 1975
Nikias Skapinakis, Santa Liberdade
Noronha da Costa, sem título
Lourdes Castro, Sombra Deitada
Costa Pinheiro, Universonaut
Maria Helena Vieira da Silva, Quer-Luz
Eduardo Luiz, sem título
Sónia Delaunay, Autorretrato
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Nota do editor

Último pose da série de 11 DE MAIO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25508: Os nossos seres, saberes e lazeres (628): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (153): Lembranças de Manuel de Brito e da Galeria 111 (3) (Mário Beja Santos)