Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
Pesquisar neste blogue
terça-feira, 5 de agosto de 2025
Guiné 61/74 - P27093: Blogpoesia (805): Versejar em Nova Sintra - 2: "Despedida de Nova Sintra", por Manuel Gouveia de Oliveira, Soldado Atirador (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Alimentação)
1. Em mensagem de 1 de Julho de 2025, o nosso camarada Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), enviou-nos alguns versos alusivos a Nova Sintra.
Publicamos hoje a "Despedida de Nova Sintra" da autoria do Soldado Atirador Manuel Gouveia de Oliveira, o "Xabregas".
VERSEJAR EM NOVA SINTRA - 2
Não me recordo de haver muitos militares a fazer versos e a havê-los não os davam a conhecer.
Eventualmente enviavam as suas “obras” à mãe, à esposa, à namorada, ou à madrinha de guerra.
Mas recordo com muita saudade o amigo Xabregas, sempre bem disposto e risonho, soldado atirador de Cavalaria de seu nome completo Manuel Gouveia de Oliveira que, sobre qualquer tema ou pretexto, repentinamente fazias as suas quadras. De várias que ele compôs, partilho com os camaradas do blogue, as duas únicas que tive a oportunidade de guardar.
DESPEDIDA DE NOVA SINTRA
Dezassete chegam bem para quem tem
Esta missão cumprida
Por isso eu digo agora chegou a hora
De merecermos a partida
Vamos todos pra Bissau, que já não é mau
E dormir
descansadinhos
Vamos entregar a farda camufleda
Porque já somos velhinhos
Adeus Nova Sintra, nunca mais quero voltar
Saudade são meus desejos
Mas tu não leves a mal.
Adeus Bissau, também não quero voltar
Quero ir para a mimha terra
Quando a missão terminar.
Marchando na escuridão, em paliçadas
Em qualquer operação
Sempre unidos e velozes as nossas vozes
Nunca disseram que não
Adeus Nova Sintra
Colunas a S. João
Adeus Mata do Jorge
Uanadim e Brandão
Autor
Manuel Gouveia de Oliveira
Soldado Atirador de Cavalaria
CCAV 2483
_____________
Nota do editor
Último post da série de 29 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27068: Blogpoesia (804): Versejar em Nova Sintra - 1: "Marcha de Nova Sintra", por Manuel Gouveia de Oliveira, Soldado Atirador (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Alimentação)
Guiné 61/74 - P27092: Felizmente ainda há verão em 2025 (9): Tu comeste batatada de peixe seco... ontem, na Ventosa do Mar, freguesia da Marquiteira, Lourinhã.. Mas, bolas, Eduardo, João, Rui, amigos, camaradas, como é difícil, em agosto, juntar a gente toda de quem a gente gosta!... (Luís Graça)
Lourinhã > Freguesia da Marquiteira > Ventosa do Mar > 4 de agosto de 2025 > Foto de t-shirt de um comedor de batatada de peixe seco, uma iguaria que não há no céu... nem nos restaurantes da Terra da Alegria. Só na Marquiteira e na Ventosa do Mar... A da Marquiteira foi há um mês.
Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Garça & Camaradas da Guiné]
Acabámos de nascer. Há 70, 80 anos... Heroínas foram as nossas mães. Nove meses a afagar a barriga. E depois a parir. E depois a amamentar-nos... Não há mais lindo do que a gravidez das nossas mães. A infinita ternura que puseram, do princípio ao fim, na nossa gestação. Mãe só há uma. Pai....todos podem ser. Progenitores, doadores de sémen.
As nossas mães que pariam em casa. Com dor. Sem assistência médico-hospitalar. No tempo do... Velho Estado Novo. Cumprindo a maldição bíblica. Parirás com dor. Iam parir na casa das suas mães, se não vivessem longe.
Andámos a jogar ao pião. Há 70 e tal anos. Somos filhos do pós-II Guerra Mundial. Da Idade Atómica. Da Bomba Nuclear. Somos todos filhos de Hiroshima. 6 de agosto de 1945. Por favor, não esqueçam!... Não esqueçam Hiroshima.
São três da manhã. Estás con insónias. E quando estás com insónias, levantas-te, abres o "portátil"... e escreves. Alimentas o blogue, a tua "droga", a tua "adição".
És fã, de há muitos anos, desta iguaria dos pobres. Que merecia ter uma confraria. A da Batatada do Peixe Seco. Costumas não perder as tradicionais batatadas de peixe seco da Marquiteira e da Ventosa do Mar. Este ano perdeste, por um dia, a da Marquiteira. Que é a Rainha da Festa. Honra à Marquiteira, terra do teu primo, amigo e camarada Rogério Gomes, que esteve em Angola, na guerra...
Último poste da série > 3 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27085: Felizmente ainda há verão em 2025 (8): Santiago de Compostela não é apenas uma questão de bike...terapia (Paulo Santiago, caminheiro e amante dos desportos radicais...)
segunda-feira, 4 de agosto de 2025
Guiné 61/74 - P27091: (in)citações (277): O cérebro também pode apodrecer (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)
O CÉREBRO TAMBÉM PODE APODRECER
adão cruz
Já o tenho dito muitas vezes, mas não me canso de o repetir. O nosso cérebro, encerrado completamente às escuras numa dura caixa óssea, é a estrutura mais complexa e mais difícil de entender, no planeta e no Universo conhecido. O simples cérebro de uma formiga é uma estrutura mais complexa e difícil de entender do que uma estrela. O nosso cérebro é composto por 86.000 milhões de células, ou neurónios, ligados entre si por biliões de ramificações. Um milímetro cúbico de córtex cerebral contém mais conexões do que seres humanos à superfície da terra. Este nosso admirável e soberano órgão realiza provavelmente triliões de ligações e cálculos durante os nossos raciocínios do dia-a-dia.
E todos nós o desprezamos, considerando-o pouco mais do que um instrumento de discussão futebolística. Porém, não é propriamente esta mensagem numérica o que aqui quero deixar. Gostaria que ficasse retida a sua essência, isto é, o reconhecimento da poderosíssima arma e riqueza da nossa estrutura mental, do nosso pensamento e da nossa razão.
Diante de tudo o que se passa actualmente no mundo, especialmente o silêncio e a indiferença perante a crueldade e a barbaridade nunca vistas, a desumanidade elevada ao mais alto grau, a morte lenta da solidariedade e justiça sociais, o hedonismo absoluto e o espezinhar de toda a ética e dignidade, como vemos inacreditavelmente e diariamente nos ditos líderes europeus e não só, sou levado a pensar que uma boa parte do cérebro humano da nossa sociedade está envolta numa nuvem de poeira ou mesmo enferrujada ou até apodrecida. Como se fora uma maçã, meio sã e meio podre. Simplesmente, a parte sã nunca consegue regenerar a parte podre, mas esta continua a invadir a parte sã até que toda a maçã apodreça por completo.
Se a parte podre e a parte sã da sociedade fossem bem definidas e houvesse uma hipótese cirúrgica de as separar, seria a única solução terapêutica, permitindo extirpar a metade podre, deitando-a repugnantemente ao lixo. A forma de o fazer, como é óbvio, não seria fácil de imaginar. Porém, o são e o podre da humanidade não estão, provavelmente, separados em duas metades distintas, como na maçã. O podre pode estar infiltrado no meio do são e o são infiltrado no meio do podre, o que nos leva a pensar que a vitória da parte sã se tornaria ainda muito mais difícil ou impossível.
Uma tão ciclópica tarefa, a ser tentada, só poderia ser levada a cabo no seio daquela parte da sociedade, cujo cérebro ainda saudável fosse capaz de lutar diariamente com as armas mais poderosas do ser humano, o pensamento e a razão, único detergente com poder para limpar as zonas podres da nossa mentalidade. Porém, tal detergente, aquele que a ignóbil e prostituída comunicação social não permite, é substituído por outro mais fraco, uma espécie de linha branca, fazendo pouca espuma e deixando o cérebro permanentemente untuoso de gordura. Seria indispensável conhecermos o mais profundamente possível e enfrentarmos como cidadãos conscientes os factores necróticos da degenerescência humana e os catalisadores da putrefação, que são incomensuráveis.
Desde a diabólica corrupção à criminalidade social dos que nunca foram filhos e nunca tiveram nada, até aos crimes bem mais graves e socialmente destrutivos de muitos dos que sempre tiveram pais e tiveram tudo. Desde as mentiras, distorções, falsidades e obscurantismos de toda a espécie, à monumental hipocrisia e crimes das instituições, nomeadamente religiosas, consideradas impenetráveis à desonra, mas mostrando-se ao mundo como campeãs em muita podridão, nomeadamente a que respeita a um dos mais hediondos crimes, a pedofilia.
Podemos pensar que se trata de um trabalho quase utópico, numa sociedade mentalmente anquilosada, atrofiada, de neurónios quase murchos, difíceis de reanimar, nos quais os poderes instituídos fecharam o fluxo da razão a sete chaves, a razão fruto do pensamento, o pensamento como a mais poderosa arma de que o homem dispõe contra a exploração do homem pelo homem, contra a escravidão, a perversão dos mais nobres princípios, contra a fraude de governos e grandes corruptos, contra a especulação selvagem, contra a injustiça, contra a mentira, contra a falta de ética e moral, contra a estupidificação institucionalizada e contra a falsa cultura, ...a cínica madrasta de um sociedade livre.
_____________
Nota do editor
Último post da série de 21 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27042: (in)citações (276): Os sinais de Deus (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais)
Guiné 61/74 - P27090: Ser solidário (286): Almoço-Convivio da Associação Anghilau, dia 14 de Setembro de 2025, às 12h30, no Restaurante da Quinta de Santo António, na Malveira (Manuel Rei Vilar)
Caríssimos Padrinhos, Madrinhas, Benfeitores, Sócios e Amigos da Associação Anghilau,
A última vez que nos reunimos foi em outubro de 2023 - há quase dois anos! É por isso que sentimos ser cada vez mais necessário organizarmos um novo Encontro informal. E porque somos uma Associação, isso implica nos associarmos, convivermos, partilharmos ideias, celebrarmos conquistas e fortalecer laços.
Além disso, neste ano de 2025 também se assinalam os 5 anos da nossa Associação e os 55 anos da morte do Capitão Luís Filipe Rei Vilar. Assim, esta celebração é igualmente um tributo à sua vida e ao legado que ele nos deixou a nós, Associação Anghilau, e à população de Suzana, o qual continuamos através da nossa ação.
Assim, em nome da Direção, tenho o prazer de vos convidar para um Almoço-Convívio, no próximo 14 de setembro, às 12h30, como habitualmente, no Restaurante da Quinta de Santo António. O almoço inclui entradas, sopa, prato principal, sobremesa, café e bebidas (vinho branco, vinho tinto ou sangria) e tem o custo de 28,00 euros por pessoa. Como sempre, os vossos amigos serão igualmente muito bem-vindos!
👉 Confirmem, por favor, a vossa presença e o número de pessoas através do e-mail (mreivilar@gmail.com) ou pelo telefone/WhatsApp (+33 6 76 57 95 04).
Durante o Encontro, partilharemos as mais recentes notícias de Suzana, apresentaremos os novos projetos e iniciativas da nossa Associação, e haverá, como sempre, tempo para conversas informais, novos encontros e troca de ideias. Aproveitaremos também para lançar um novo ciclo de apadrinhamentos, destinado às crianças que, neste ano letivo, iniciaram o seu percurso no Jardim-Escola Capitão Luís Filipe Rei Vilar... Será mais uma Ação "Venham mais Cinco".
Em nome da Direção, aproveito também para agradecer a todos a vossa generosidade, fidelidade e amizade. Contamos convosco para continuarmos a cumprir o nosso compromisso com a Educação das crianças, dos jovens e da Comunidade de Suzana... e também, claro, com a vossa presença neste almoço-convívio.
Aproveito ainda para vos informar que, no início de dezembro, convocaremos uma Assembleia Geral, onde será apresentado e aprovado o Plano de Atividades e Orçamento para 2026.
Por último convido-vos a visitarem o novo site da nossa Associação:
www.associacao-anghilau.com.
Recordando o lema do Capitão Rei Vilar, que inspirou a criação da nossa Associação:
“Lutando, Construindo e Ensinando!”
Despeço-me com as nossas melhores saudações em língua felupe:
Kassumai – Felicidade, Paz e Liberdade.
Bem-hajam!
Pela Direção,
Manuel Rei Vilar
Presidente
_____________
Nota do editor
Último post da série de 19 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26938: Ser solidário (285): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (14): Mercado de venda de produtos em segunda-mão no dia 21 de junho na cidade de Bressanone – Região Italiana do Alto Adige (Renato Brito)
Guiné 61/74 - P27089: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (6): A noite do Adriano, um herói desconhecido
Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > A famosa "torre de vigia", onde estava montada uma Breda, e que já existia no tempo dos Boinas Negras, a CCAV 2482 (1968/70)
1. Mensagem do Joaquim Caldeira, grão-tabanqueiro nº 905, ex-fur mil at inf CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69) (*)Data - terça, 29/07/2025 12:14
Assunto - A noite do Adriano
Desta vez, envio um relato sobre a heroicidade por vezes forçada de um grande homem a quem Portugal ainda não fez justiça.
Ontem fui surpreendido por um telefonema que me fez o nosso amigo, coronel Trabulo. Queria incentivar-me e ao mesmo tempo corrigir algumas imprecisões, sobretudo de datas. Fiquei maravilhado por saber que já estão a fazer comentários ao que escrevi. Peço a todos os que lerem estas palavras que comentem e, se possível, complementem com alterações que lhes pareçam pertinentes. Sobretudo, ajudem-me com material porque eu já não me lembro de tudo.
Mas vamos ao Adriano.
Um abraço, caro amigo.J.Caldeira
Nas noites mais escuras, dentro da mata, a nossa fila indiana mantinha-se graças ao ouvido, pois que à distância regulamentar que cada um devia manter dohomem da frente, cerca de três metros, não se via nada. Mas, tal como eu e muitos de nós, oAdriano também estava a perder qualidades auditivas e com maior grau de perigosidade.
Estava quase surdo. Penso que acabou por ficar surdo total. Efeitos do ruido sobre o sistema auditivo, dizem-me os otorrinolaringologistas. É assim que se escreve? Bem, como o Adriano estava surdo e não conseguia ver dada a enorme escuridão, ao passarmos numa bifurcação do caminho, ele seguiu pelo outro ramo, levando atrás o resto da coluna. E, quando se deu conta, era tarde. De noite não é possível juntar duas colunas. Mesmo de dia é altamente perigoso, como já aqui referi no episódio da enfermeira. Foi então necessário esperar que o dia nascesse para que as duas colunas, entretanto paradas, pudessem caminhar para o encontro.
Este episódio não teria importância se não fosse introito para o que vem a seguir:
Certa noite, em Fulacunda, calhou a vez ao Adriano de subir ao palanque para sentinela noturna de duas horas. Esse palanque não era mais do que um tronco de "cibe" com unsquatro metros de altura, encimado por um estrado de madeira, quadrado de dois metros, e nele estava um metralhadora Breda com dois cunhetes de balas em permanência. Para quem já esqueceu, um cunhete tem mil balas. Para ajudar na subida tinham sido pregados uns sarrafos e, na subida para a plataforma, um pouco de ginástica. Para descer era o cabo dos trabalhos.
E nessa noite, comandado pelo próprio Nino Vieira, um grupo altamente armado e em número elevado, atacou as nossas fortificações com vários canhões, vários morteiros e roquetes e várias metralhadoras e outras armas ligeiras, dispostas em ninhos por espécie e colocadas a pouco mais de cinquenta metros do arame. Foi uma flagelação destinada a entrar e arrasarconnosco, pois que eles sabiam que nessa altura estavam apenas dois pelotões. O terceiro e o quarto pelotões tinham sido desviados para a psicossocial em Bedanda e no Catió. Está certo?por ordem do comandante do batalhão.
Voltando ao ataque, dessa vez era para acabar com Fulacunda. Mas o Adriano estava lá. E via de onde saiam os disparos. E estava em local privilegiado para apontar ao sítio e ter sucesso.
E teve. Sozinho, nós apenas podíamos fazer barulho e evitar a entrada, sozinho, portanto, foidizimando o IN ninho a ninho, começando pelos canhões, passando aos morteiros e acabando nas metralhadoras. E pô-los em fuga. Mas com o Nino era tudo muito a sério. Não deixaram os feridos nem os mortos nem o armamento. Apenas ficou o sangue, muito, e o mato pisado pelo arrastar de quem não poderia andar.
E, porquê fez tanto e tão bom trabalho, o Adriano. Então ele conta que via as balas tracejantes à sua volta e via os clarões das granadas de canhão, morteiro e roquete rebentar na base do "cibe" e manteve-se firme no seu posto. É que ele nunca teve a noção verdadeira do perigo em que estava porque não ouvia e porque era muito difícil descer dali.
Foi um grande herói. Pedi ao capitão que não se esquecesse dele para as nomeações aos "Óscares". Levou um louvor. Merecia mais. E, do país, não levou nada. Quando os nossos governantes enaltecem quem defendeu o bom nome de Portugal na Bósnia, no Kosovo, no Afeganistão. etc, etc, dando-lhes benesses, merecidas, esquecem quem defendeu o bom nome e a integridade de Portugal, deu a vida, deu a saúde e, em troca, nem uma pensão por invalidez lhe concedem. Se fosse para dar benesses a comendadores ou outros, a políticos ou a outros, haveria dinheiro. Ao Adriano ainda não foi feita justiça.
Pobre Portugal. Afonso Henriques, no que te meteste com a teimosia de ser rei!
__________
Nota do editor LG:(*) Último poste da série > 18 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27028: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (5): Consagração de um grande homem e combatente, o João Gualberto Amaral Leite (1944-2011)
Guiné 61/74 - P27088: Notas de leitura (1826): "África No Feminino, As Mulheres Portuguesas e a A Guerra Colonial", por Margarida Calafate Ribeiro; Edições Afrontamento, 2007 (Mário Beja Santos)
Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Julho de 2024:Queridos amigos,
Trata-se de uma investigação relevante e vincadamente singular. Como observa a autora, Margarida Calafate Ribeiro, é uma recolha de vivências da memória da guerra colonial a partir das perspetiva de mulheres portuguesas que acompanharam os maridos numa retaguarda ou num destacamento atreito à guerra. "Nasceu do meu espanto sobre o registo apenas ficcional do rosto destas mulheres, e da generosidade das mulheres que entrevistei quando um dia lhes bati à porta e lhes disse: 'Sei que esteve em África. Quer contar?'.
Um abraço do
Mário
Mulheres que foram à guerra ou que andaram ali bem perto
Mário Beja Santos
O essencial dos testemunhos de quem participou ou viveu o teatro de guerra é dado pelos militares, como comprova a literatura produzida de 1961 até hoje. Há, evidentemente, testemunhos de mulheres, referem sempre nomes como os de Lídia Jorge ou Wanda Ramos que ousaram, pela via da ficção, pôr na escrita a experiência do que viram em África. Daí o conjunto de iniciativas de dar voz a quem esteve na Ribalta, logo as enfermeiras paraquedistas, depois as mulheres dos militares.
E é neste nicho da memória do feminino que Margarida Calafate Ribeiro [na foto à direita], investigadora do Centro Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, desenvolveu um projeto de auscultação de mulheres que acompanharam os maridos em Angola, Guiné e Moçambique; não foram poucas as que viveram em aquartelamentos sujeitos a flagelações ou transitaram por estradas onde podiam ocorrer emboscadas ou deflagrar minas.
E o todo desta obra é de uma impressionante qualidade, são depoimentos enriquecedores, iremos ser confrontados com memórias onde é difícil não acreditar na sua total sinceridade; um todo que clarifica (ou comprova) que o estudo da guerra colonial não pode deixar de dar visibilidade às mulheres destes militares, muitas delas guardam recordações felizes, outras não tanto, lendo "África no Feminino, As Mulheres Portuguesas e a Guerra Colonial", Edições Afrontamento, 2007, ganha-se consciência de que se queremos interpretar a guerra colonial num sentido individual e coletivo, é indispensável ouvir os diferentes testemunhos e não tratar a presença das mulheres na guerra como um mero acidente histórico.
Sendo completamente inviável ir pontuando e distinguindo esta vasta galeria de testemunhos recolhidos pela investigadora, há que procurar classificar em termos amplos quem testemunha e a matéria desse testemunho. Um número elevado delas tem formação académica ou cursou os liceus e pôde ministrar no ensino enquanto o marido cumpria a sua comissão. São, por conseguinte, referências de mulheres de oficiais e alguns sargentos. Pesam os testemunhos de mulheres que alegam não ter então qualquer formação política, viver em ambiente conservador e religioso; há uma lembrança comum a todas, o horror das partidas no cais, ninguém esqueceu aqueles lenços a acenar e os gritos das despedida; há depoimentos bem vincados de mulheres de médicos, a partilha daquele sofrimento por verem vidas a apagar-se; elas nunca esquecem a procura de normalidade na vida, o vínculo estabelecido entre mulheres, mas há quem guarde más memórias da leviandade de outras mulheres de militares, e como recusaram o convívio; não são poucas as referências à formação católica e depois como, também graças à universidade, entraram nas suas vidas Graham Greene, Kafka, Saint-Exupéry, Malraux, Camus, Garcia Lorca, o novo cinema; os testemunhos dividem-se, compreensivamente, quando se fala em viver em cidades em que se sentia ou não a guerra.
Alguém testemunhará assim:
“Em Bissau, não tínhamos bem consciência da guerra, embora ouvíssemos os bombardeamentos, víssemos os helicópteros e muita tropa. Mas as desgraças que eu vi no hospital militar de Bissau não aconteciam em Bissau. Havia duas coisas que me davam a consciência da presença da guerra: primeiro, o regresso do meu marido das operações, vinha cheio de febre, com o corpo todo cheio de picos, que eu com uma pinça ia tirando devagarinho, vinha completamente esgotado física e psicologicamente. Íamos à missa na capela da Marinha, pelos que tinham morrido, que podiam ser do destacamento do meu marido ou de outro qualquer, mas havia sempre missas na capela e foi aí que comecei a aperceber-me de que estávamos realmente em guerra, morriam pessoas. Os helicópteros eram outro sinal da guerra. Transportavam sempre mortos ou feridos graves. Lembro-me como esperava por eles, quando o meu marido saía em missão. Os helicópteros só chegavam quando amanhecia e a minha primeira aula da manhã começava pelas 7h00. Entre as 7h05 e as 7h10 começavam a chegar os helicópteros. Ainda hoje tenho, muito dentro de mim, aquela angústia.”
E, mais adiante:
“Em Bissau havia casas, eletricidade, frigorífico, comida, bem-estar, lojas, vida. Estávamos bem, embora vivêssemos alienados da realidade. Quando hoje penso nisso, nós não estávamos na vida real, o que era aquilo? Vivíamos numa euforia falsa, entre ataques e regressos no mato e muitas festas.”
A eficácia deste levantamento de testemunhos é podermos sentir a multiplicidade dos olhares, a mulher como sujeito histórico da guerra e veiculadora de uma ética de reconhecimento, olhares sobre o ensino, sobre o racismo, a generosidade; e há o fator temporal a pesar na narrativa, sobretudo na Guiné e em Moçambique, quem ali viveu entre 1973 e 1974 observou se tinham entrado na diluição; é nesta diversidade de depoimentos que se pode entender como as produções literárias se demarcam perfeitamente nos três teatros de guerra. O depoimento de uma mulher em Angola ajuda a iluminar a complexidade de todos estes olhares:
“Em Angola os costumes eram muito mais brandos, a vida social muito mais descontraída e isso tornava as pessoas mais livres. O adultério era uma prática corrente precisamente porque havia muitas mulheres em Luana cujos maridos estavam no mato. Viajava-se muito, havia muitas pessoas que trabalhavam com empresas sul-africanas ou da Rodésia ou de Moçambique e havia muita gente que ficava sozinha. As mulheres dos militares que estavam no mato eram muito observadas. Estávamos permanentemente sobre a mira das pessoas. As mulheres dos militares eram consideradas presas fáceis, o que, por vezes, tornava a vida um bocado complicada. Estar com alguém fora do habitual ou com alguém do sexo oposto era muitas vezes objeto de mexericos e más-línguas.”
Há um extremo cuidado na composição do relato, a investigadora pede a quem inquire que fale das suas origens, da mentalidade doméstica, onde e como estudou, depois a narrativa encaminha-se para o modo como o casal se acompanhou e se acarinhou, e qual a importância da experiência na vida depois do regresso, muitos destes casamentos acabaram em ruturas, inevitavelmente fala-se do stress pós-traumático da guerra. Há depoimentos a que as mulheres não se furtam a refletir sobre o significado da guerra, como dela falam aos filhos, alguém depõe assim:
“Porque fui eu? Não sei bem, na altura fui o que desejei fazer, sem pensar numa realidade mais remota que não a simples companhia a alguém de quem gostava, uma coisa que me pareceu ser a atitude mais natural. Acho que, para a maioria dos milicianos, o fator mais importante foi exatamente a falta de empenhamento naquela guerra, não era uma guerra para a qual corrêssemos cheios de entusiasmo, como para as Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola. Não foi uma guerra de ideologia, foi uma obrigação que nos surgiu no caminho. Ficou a experiência da solidariedade que vivia no mato e os espaços sem limites que desconhecíamos.”
Sem margem para dúvida, um indispensável alinhamento de apontamentos que contribuem para se conhecer melhor o que estas mulheres com formação académica ou escolar guardaram na memória do tempo em que acompanharam os seus maridos nas três frentes de guerra.
____________
Nota do editor
Último post da série de 1 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27078: Notas de leitura (1825): Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 4 (Mário Beja Santos)
Guiné 61/74 - P27087: Efemérides (464): 4 de agosto de 1969, o "adeus às armas", ou o dia em que o T/T Uíge apitou.... seis vezes, antes de zarpar (Virgílio Teixeia, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAQÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)

Antes de chegar à nossa língua, passou para o latim dos nossos "colonizadores" e "esclavagistas" romanos, "ephemeris", que continuou a significar registro diário de acontecimentos.
Quando usamos hoje o termo "efeméride", estamos a referirmo-nos a um acontecimento importante, histórico, social ou pessoal, ocorrido numa determinada data. Pode ou não estar registada em documento escrito, nem muito ser celebrado como feriado (o 25 de Abril, o Dia de Portugal, o Natal...). Pode simplesmente estar guardado na nossa memória: o dia em que fomos às sortes, o dia em que nascemos (que até pode ser diferente do assento na Conservatória do Registo Civil)...
Ou simplesmente o dia em que regressámos da Guiné... É o caso de hoje: há 56 anos, o nosso camarada Virgílio Teixeira dizia... "adeus às armas"... Com uma particularidade, algo anedótica: foi o dia em que o T/T Uíge apitou... seis vezes, as três primeiras vezes não valeram, foi falsa partida, o navio só zarparia uma hora depois... Algo de insólito aconteceu... (Virgílio, também podia ser publicado na série "Humor de caserna" esta tua "efeméride"...).
2. Mensagem de Virgilio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69:
Data - 4 agosto 2025 , 01:40
Assunto - 4 Agosto 69: o Adeus às Armas... O dia em que o navio de T/T Uíge teve de esperar uma hora para zarpar
Efeméride Nunca Esquecida !
Dia 4 de agosto de 1969, eram 12 horas, o T/T Uíge, cheio, ao largo de Bissau, pronto para arrancar rumo à nossa casa.
O heli de Spinola já dava as voltas ao navio para, como normalmente, agradecer e despedir-se das tropas que acabavam a comissão de serviço na guerra da Guiné.
Tudo a postos... e agora vem, não o humor de caserna, mas sim "o humor negro": arrancada interrompida, ninguém sabe o que se passa!
Vemos uma LDP, uma lancha da Marinha, a chegar em alta velocidade. Vêm buscar um oficial miliciano para ir ao QG a Bissau! Preso ?...
Esperamos longo tempo, uma infinidade, quando queremos deixar para trás o território da Guiné.
Uma hora depois já vemos a mesma LDP a chegar com o oficial impedido de partir!
Ele sobe as escadas mete-se no seu camarote, e nunca falou do assunto.
O navio apita, ou volta a apitar três vezes, as hélices já rodam e o rasto das águas a ficarem para trás, e uma hora depois lentamente já não se vê nem Bissau nem a ponte-cais, só o oceano Atlântico!...
Não há calor sufocante, nem mais humidade pegajosa!...
Em 10 de agosto chegámos a Lisboa, seguimos para Tomar, fizemos o espólio, recebemos os nossos vencimentos, despimos as fardas, recebemos a guia de marcha e fomos para o comboio com viagem paga.
Chegámos à estação de São Bento, no Porto, já noite.
Acabara uma fase das nossas vidas.
Faz hoje 56 anos.(**)
(*) Último poste da série : 19 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27034: Efemérides (463): No passado dia 28 de junho de 2025, a Comissão dos Antigos Combatentes de Barroselas – Viana do Castelo, homenageou os antigos combatentes vivos e falecidos (Sousa de Castro)
Guiné 61/74 - P27086: Humor de caserna (209): um "fermero" que em Empada ganhou fama de curandeiro, milagreiro e... abortadeiro (Zé Teixeira, Matosinhos)
1. Para animar o nosso querido (mas fugaz) mês de agosto de 2025, o Zé Teixeira mandou-nos algumas das suas histórias picarescas e brejeiras. Ficam bem na série "Humor de caserna" (*).
Em Empada uma das coisas mais gostosas que a tropa gostava de fazer era ir até à Fonte Frondosa apreciar as bajudas no banho...
A Fátma, mais uma das muitas Fátmas que conheci na Guiné, abeirou-se de mim:
− Fermero, parte quinino pra matá minino que na tem na bariga !
− Minha tio brinca e faz minino na bariga di mim. Tem pacensa, parte quinino !
− Nega mesmo, mudjer grandi ká na tem quinino. Tu tem quinino.
− Olha, vou pensar nisso, passa amanhã pela enfermaria.
− Tem de ser hodje. Parte quinino.
Seguiu-me até à enfermaria e eu, sem saber o que fazer para afastar a chata, que ainda por cima era daquelas poucas feias que por lá apareciam e de quem todos nós nos afastávamos.
Bem, para grandes males grandes remédios. Se estava grávida, nada como lhe dar uns comprimidos de vitaminas. Mal não faziam. Talvez o milagre se desse...
Quinze dias depois, lá fui eu até à fonte passar um pouco de tempo e treinar uns apalpos, nem sempre bem sucedidos, quando a Fátma aparece.
Qual quê !, ao ver-me, desata a correr para mim, toda contente.
− Fermero, minino na vai. “Coisa” (#) na tchega mesmo. Tu, bom pessoal.
Ganhei mais uma amiga e juntei à fama de curandeiro e milagreiro, mais uma: a de... abortadeiro!
Zé Teixeira
30 de julho de 2025
domingo, 3 de agosto de 2025
Guiné 61/74 - P27085: Felizmente ainda há verão em 2025 (8): Santiago de Compostela não é apenas uma questão de bike...terapia (Paulo Santiago, caminheiro e amante dos desportos radicais...)
Pois é, o Paulo Abrantes Santiago (que tem o apelido do santo, Santiago "Mata-Mouros"), já lá foi, de "bike" e a pé, uma meia dúzia de vezes... E eu acho que não é só... "bike...terapia".
Para terminar, digo que fiquei satisfeito com esta aventura, emocionei-me quando cheguei ao fim dos 255 km, em Santiago, e espero entrar noutra, numa próxima oportunidade. Apesar de sexagenários, com calma, nós conseguimos.(...)
2. Pode-se perguntar (e as perguntas não ofendem):
2.1. Resposta do meu assistente de IA, o "Sabe-Tudo" (ChatGPT):
(...) Uma excelente pergunta, complexa e cheia de camadas históricas, espirituais e até psicológicas.
(i) A Guerra Colonial e a Guiné como "ferida espiritual"
A guerra na Guiné (1961-1974) foi talvez o mais traumático dos três teatros coloniais (Angola, Moçambique e Guiné). Ednvolveu um confronto particularmente duro, em selva fechada, com grande sofrimento físico e psicológico. Muitos antigos combatentes guardam até hoje feridas emocionais profundas – stress pós-traumático de guerra, sentimentos de culpa, desilusão política ou espiritual.
(ii) Peregrinação como processo de cura
A peregrinação a Santiago de Compostela, muito mais do que um ato de fé convencional, tem-se tornado (hoje em dia) num caminho de introspeção, cura e reconciliação interior.
- ritual de reconciliação com o passado, longe dos símbolos militares ou religiosos tradicionais (como Fátima);
- percurso de silêncio e esforço físico que espelha o sofrimento passado, mas agora com propósito positivo;
- reencontro com outros caminheiros, onde a partilha de experiências pode ajudar, trai como no passado, a aliviar a dor e a solidão acumuladas durante décadas.
Embora Fátima tenha um papel importante no imaginário católico português, ela está ligada sobretudo à fé mariana e à devoção passiva. Santiago, pelo contrário:
- evoca a ação, a caminhada, o movimento, a superação, mais próximos, portanto, da vivência dos ex-combatentes;
- tem um simbolismo de missão, caminho, espada (metafórica ou real), que pode ressoar com a memória militar;
- hoje é vivido como universal e não exclusivo dos cristãos: muitos não-crentes ou "crentes à sua maneira" percorrem-no sem dogmas.
É verdade que o Santiago "Mata-mouros" (o apóstolo guerreiro) foi símbolo da "Reconquista cristã" e do combate aos muçulmanos (os "infiéis"). No entanto:
- esse significado perdeu força nos dias de hoje, muitos peregrinos nem conhecem esse passado;
- a atual peregrinação a Santiago é mais espiritual e existencial do que religiosa ou ideológica;
- antigos combatentes procuram cura e não conquista, redenção e não vingança.
Conclusão
Sim, faz sentido. Santiago representa, para muitos, um espaço simbólico onde se pode fazer as pazes com o passado, em especial com um passado tão duro como o vivido na Guiné.
2.2. Por outro lado, ó "Sabe-Tudo", não é por demais lembrar que a 'expansão marítima (e territorial)" de Portugal, começou, no Norte de África, com a conquista de Ceuta, en 1415...
Dito pelo ChatGPT:
Muito bem observado: é uma ligação histórica e simbolicamente rica, que merece ser trazida para o centro da reflexão.
(i) Ceuta, 1415: o início da Expansão e da Continuação da "Reconquista"
A conquista de Ceuta em 1415 é geralmente vista como o pontapé de saída da expansão ultramarina portuguesa.
Este espírito "cruzado" e expansionista sobreviveu durante séculos, mesmo quando os objetivos se tornaram mais económicos ou políticos.
A mentalidade da Reconquista deixou marcas duradouras:
- uma cultura de missão e sacrifício patriótico;
- a glorificação da conquista (e do império) como "desígnio nacional";
- a ideia de que a identidade portuguesa se constrói no confronto e na fronteira.
(iii) Os ex-combatentes e a busca de sentido
Se pensarmos nos antigos combatentes da Guiné e doutros teatros de operações da guerrra colonial,. a peregrinação a Santiago pode representar:
- um ato simbólico de encerramento de um ciclo histórico e pessoal (da conquista ao recolhimento) (e de "exorcismo dos fantasmas", como diz o nosso editor LG);
- uma tentativa de purificar espiritualmente uma missão sentida como ambígua ou mal resolvida;
- um regresso às origens identitárias, mas agora com um olhar mais interior e pacificador.
É profundamente irónico (e, talvez por isso mesmo, profundamente humano) que os antigos combatentes de uma guerra colonial (em território maioritariamente muçulmano como a Guiné) acabem por caminhar até ao santuário de um santo guerreiro da Reconquista cristã.
No fundo, o Caminho de Santiago funciona como um espelho de longa duração da história portuguesa: começa na luta (Reconquista), passa pela conquista (Ceuta e além-mar), afunda-se no trauma (Guerra Colonial) e hoje oferece um trilho de redenção pessoal e coletiva.
3.1. A primeira ida a Santiago de Compostela foi em setembro de 2000 com partida de Ponte de Lima. Organização do Batotas, clube de BTT, nascido naquela Vila, a mais antiga do País, que não quis ser cidade.
Era um grupo grande onde ía também o meu filho. Três dias até entrar na Praça de Obradoiro.
Voltei em 2006 a pé, em pleno agosto, um calor sufocante.A ideia era fazer Astorga-Santiago, errei os cálculos, duas semanas de férias, parei em Portomarin. Concluí o restante entre 1e 5 de dezembro desse ano.
Em 2007 repeti o Camiño, Astorga-Santiago, de bike, na companhia de uma amiga e colega. Terrível subir o Cebreiro, em 6 km ir de 550 metros de altitude para 1300.
No mesmo ano, 1 a 5 de dezembro, Santiago-Finisterra.
Em 2009 Caminho Inglês com saída de Ferrol.
Em 2010, com a minha mulher,Valença-Santiago.
Em 2015 com um grupo de colegas do Rugby, Valença-Santiago
Em 2016,com duas amigas, Caminho Inglês com saída de Corunha.
Em 2013, confiei, em Pontevedra, fui almoçar, o albergue ainda estava fechado, deixei a mochila encostada ao portão...fiquei com a roupa que tinha vestida.
Paulo Santiago
domingo, 3 de agosto de 2025, 00:07
3.2. Camaradas: lembrei-me de um encontro que tive há 16 anos no Caminho Francês. Em 9 de agosto de 2006, saí de Astorga com destino a Santiago. No dia 11, pelas 8.00 horas, parei, a comer uma maçã, à saida de Ponferada. Aproximou-se um peregrino.também sózinho,e iniciámos uma conversa em francês.Tinha 60 anos.estava reformado, era Holandês.
Passados dias, jantamos juntos em Tricastela.Durante a conversa disse-me que ía ficar mais um dia naquela localidade porque estava adiantado.
Paulo Santiago
Guiné 61/74 - P27084: Nunca Tantos Deveram Tanto a Tão Poucas (12): Ercília Ribeiro Pedro, ex-srgt grad enfermeira paraquedista, do 2º curso (1962)
Foto: Página do Facebook "Quem Vai à Guerra" (documentário de 2011, da realizadora Marta Pessoa) (Com a devida vénia.)
Brasil > 2012 > Grupo de militares portugueses e suas esposas, em visita a diversos estabelecimentos do exército brasileiro, no qual se incluiu o cor art e docente da Academia Militar, Morais da Silva. Foto reproduzida com a devida autorização do autor. A senhora assinalada com círculo a vermelho foi identificada pela Maria Arminda Santos como sendo a Ercília Ribeiro Pedro (*).
Foto (e legenda): © António Luís Morais da Silva (2012 ). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
![]() |
Ercília (Fonte: página do Facebook de Fernando Miranda, com a devida vénia |
1. Durante a guerra de África, guerra do ultramar ou guerra colonial, formaram-se 46 enfermeiras paraquedistas, depois graduadas em alferes ou sargentos... Num total de 9 cursos, o último já em 1974 (que apenas formou uma enfermeira, que já não chegou a ser mobilizada). Só nos primeiros quatro cursos, de 1961 a 1964, formaram-se 58,7% dos efetivos (n=27) (*).
A Ercília Ribeiro Pedro é do 2º curso (1962). Sabemos pouco sobre a sua biografia. O nome completo, de casada, é Ercília Conceição Silva Ribeiro Pedro. Provavelmente foi curta a sua "carreira" como enfermeira paraquedista. Logo em 1962 foi mobilizada para Angola e era a única mulher, militar, no seio do BCP 21.
Foi o teatro de operações que mais a marcou, Angola, não tendo estado em mais nenhum outro, presumimos nós, porque entretanto se casou, em Luanda, com um paraquedista, Ribeiro Pedro.
Recorde-se que as enfermeiras paraquedistas, ao tempo, e pelo menos até 1963. tinham que ser solteiras ou viúvas sem filhos, tal como as restantes enfermeiras. Admitimos a hipótese que a Ercília tenha continuado a trabalhar como enfermeira do Hospital Militar da Força Aérea.
No livro coletivo "Nós, as enfermeiras paraquedistas" (ed. lit., Rosa Serra) (Porto, Fronteira do Caos Editores, 2014, 2ª ed., 439 pp.), a Ercília tem 3 contribuições memorialísticas, todas relativas à sua comissão em Angola, integrada no BCP 21:- Viagem para um destino exótico (pp. 164-1760);
- Um jovem alferes sem interesse pela vida (pp. 276-278);
- Uma ida ao "cabaret" (pp. 361/363).
A minha inscrição na Força Aérea como enfermeira paraquedista veio alterar e condicionar todo o resto da minha vida. E sempre para o Bem...
Este foi um tempo de sonho, onde valores que muito prezo como o da Amizade e da Solidariedade, estiveram sempre presentes. Mas nessa etapa da minha vida também houve dificuldades, sobretudo quando sofri a dureza da formação, em Tancos, e quando experimentei, pela primeira vez, em Angola, o quão amarga é por vezes a profissão de enfermeira no tratamento de feridos de guerra.
Mas essas dificuldades e amarguras foram a têmpera para moldar e reforçar o meu ânimo, por forma a poder mais tarde enfrentar obstáculos, contrariedades e riscos difíceis de imaginar, mas que passaram a ser as constantes da minha vida.
Posso afirmar, sem qualquer dúvida, que foi este período militar das Tropas Paraquedistas que me fortaleceu como ser humano e como enfermeira.
Costumo dizer, por brincadeira, que cumpri o meu serviço militar obrigatório nas Tropas Paraquedistas. Depois, namorei e casei com um militar paraquedista, e fiz questão que o enlace ocorresse na igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Luanda, onde ia rezar pelos "meus doentes e pelos meus feridos", quando era "alferes enfermeira paraquedista".
Terminada a guerra do Ultramar, e sendo os meus filhos já adultos e independentes, imbuída do espírito altruísta e de missão que criara nas Tropas Paraquedistas, decidi abraçar o voluntariado, fazendo missões humanitárias integradas em várias ONG...
Estive no meio de várias guerras: no Iraque, durante a guerra do Golfo; depois na Guiné (Boé) e em Angola no tempo da guerra civil, e em Timor e Moçambique.
Em todas estas missões passei frequentemente por situações de grande risco e tive de assumir pesadas responsabilidades. Mas sempre me saí muito bem... Consegui lidar com essas situações pondo em prática o que tinha aprendido e vivido na Força Aérea como enfermeira paraquedista em África,
E assim decorreu uma vida - a minha vida... Hoje, quando a recordo, posso afirmar que tenho muito orgulho do meu passado.
Ercília
Excerto de: "Nós, as enfermeiras paraquedistas" (ed. lit., Rosa Serra), 2ª ed. (Porto, Fronteira do Caos Editores, 2014), pp. 393/394. (**)
_____________
Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 2 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27079: (De)Caras (237): Ercília Ribeiro Pedro, ex-enfermeira paraquedista, do 2º curso (1962), reconhecida pela Maria Arminda em foto de grupo, tirada no Brasil, em 2012, e pertença do álbum do cor art ref Morais da Silva










