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sexta-feira, 23 de abril de 2004

Guiné 63/74 – P1: Saudosa(s) madrinha(s) de guerra (Luís Graça)

Trinta e cinco anos depois.
No 25 de Abril de 2004 presto a minha homenagem às mulheres portuguesas.
Que se vestiam de luto enquanto os maridos ou noivos andavam no ultramar.
Às que rastejavam no chão de Fátima, implorando à Virgem o regresso dos seus filhos, sãos e salvos.
Às que continuavam, silenciosas e inquietas, ao lado dos homens nos campos, nas fábricas e nos escritórios.
Às que ficavam em casa, rezando o terço à noite.
Às que aguardavam com angústia a hora matinal do correio.
Às que, poucas, subscreviam abaixo-assinados contra o regime e contra a guerra.
Às que, poucas, liam e divulgavam folhetos clandestinos ou sintonizavam altas horas da madrugada as vozes que vinham de longe e que falavam de resistência em tempo de solidão.
Às que, muitas, carinhosamente tiravam do fumeiro (e da barriga) as chouriças e os salpicões que iriam levar até junto dos seus filhos, no outro lado do mundo, um pouco do amor de mãe, das saudades da terra, dos sabores da comida e da alegria da festa.
E sobretudo às, muitas, e em geral adolescentes e jovens solteiras, que se correspondiam com os soldados mobilizados para a guerra colonial, na qualidade de madrinhas de guerra.

A maioria dos soldados correspondia-se, em média, com uma meia dúzia de madrinhas, para além dos seus familiares e amigos. Em treze anos de guerra, cerca de um milhão de soldados terá escrito mais de 500 milhões de cartas e aerogramas. E recebido outros tantos. Como este que aqui se reproduz.
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Guiné, 24 de Dezembro de 1969

Exma menina e saudosa madrinha:

Em primeiro de tudo, a sua saúde que eu por cá de momento fico bem, graças a Deus.

Estava um dia em que meditava e lamentava a triste sorte que Deus me deu até que toquei na necessidade de arranjar uma menina que fosse competente e digna de desempenhar tão honroso e delicado cargo de madrinha de guerra. Peço-lhe desculpa pelo atrevimento que tive em lhe dedicar estas simples letras. Mas valeu a pena e é com muita alegria que recebo o seu aero (1).

Vejo que também está triste por mor (2) da mobilização do seu mano mais novo para o Ultramar. Não sei como consolá-la, mas olhe: não desanime, tenha coragem e fé em Deus. Eu sei que custa muito, mas é o destino e, se é que ele existe, a ele ninguém foge. Nós, homens, temos esta difícil e nobre missão a cumprir.

Nós, militares, que suportamos o flagelo desta estadia aqui no Ultramar, não temos outro auxílio, quer material quer espiritual, que não seja o que nos dão os nossos amigos e entes queridos. E sobretudo as nossas saudosas madrinhas de guerra.

Sendo assim para nós o correio é a coisa mais sagrada que há no mundo. Porque nos traz notícias da nossa querida terra e nos faz esquecer, ainda que por pouco tempo, a situação de guerra em que vivemos e os dias que custam tanto a passar.

As notícias aqui são sempre tristes, nestas terras de Cristo, habitadas por povos conhecidos e desconhecidos. Não lhe posso adiantar pormenores, mas como deve imaginar uma pessoa anda triste e desanimanada sempre que há uma baixa de um camarada.

Lá na metrópole há gente que pensa que isto é bonito. Que a África é bonita. Eu digo-lhe que isto é bonito mas é para os bichos. São matas e bolanhas (3) que metem medo, cobertas de capim alto, e onde se escondem esses turras (4) que nos querem acabar com a vida. E mais triste ainda quando se aproxima o dia e a hora em que era pressuposto estarmos todos em família, juntos à mesa na noite da Consoada. Vai ser a primeira noite de Natal que aqui passo. Com a canhota (5) numa mão e uma garrafa de Vat 69 (6) na outra.

São duas horas da noite e vou botar este aero na caixa do correio. Daqui a um pouco saio em missão mais os meus camaradas. Reze por nós todos. Espero voltar são e salvo para poder ler, com alegria, as próximas notícias suas. Queira receber, Exma. Menina e saudosa madrinha, os meus mais respeitosos cumprimentos. Desejo-lhe um Santo e Feliz Natal.

O soldado-atirador da Companhia de Caçadores (...)

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Notas (L.G.):

(1) Aerograma. Também conhecido por corta-capim (o correio era, muitas vezes distribuído em cima de uma viatura, e o aerograma lançado por cima das cabeças dos soldados, à maneira de um boomerang). Os aerogramas foram uma criação do Movimento Nacional Feminino, dirigida pela célebre Cecília Supico Pinto desde 1961, e o seu transporte era assegurado pela TAP ("uma oferta da TAP aos soldados de Portugal"). Os aerogramas também foram usados na guerra da propaganda do regime, ostentando carimbos de correio com dizeres como "Povo unido, paz e progresso", "Povo português, povo africano", "Os inimigos da Pátria renunciarão" ou "Muitas raças, uma Nação, Portugal" (vd. Graça, L. - Memória da guerra colonial: querida madrinha. O Jornal. 15 de Maio de 1981).

(2) Por mor de =por causa de (expressão usada no norte).

(3) Terras alagadiças da Guiné onde tradicionalmente se cultivava o arroz (... e se pescava). Durante a guerra colonial, foram praticamente abandonadas como terras de cultivo, devido à deslocação de muitas das populações ribeirinhas e à escalada das operações militares. A Guiné, que chegou a exportar arroz, passou a importá-lo.

(4) Corruptela de terroristas. Termo depreciativo que era usado para referir os combatentes do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Os soldados portugueses eram, por sua vez, conhecidos como tugas (diminuitivo de Portugal, português ou portuga).

(5) Espingarda automática G-3, de calibre 7.62, de origem alemã, que passou a equipar as forças armadas portuguesas no Ultramar. Em 1961 o exército português ainda estava equipado com a velha Mauser (!).

(6) Marca de uísque escocês, muito popular na época entre os militares (Havia uma generosa distribuição de bebidas alcoólicas nas frentes de guerra, com destaque para o uísque, "from Scotland for the exclusive use of the Portuguese Armed Forces"). Na época o salário de um soldado-atirador (cerca de 1500 a 1800 escudos, parte dos quais depositado na metrópole) dava para comprar mais de uma garrafa de uísque (novo) no serviço de aprivisionamento militar (cerca de 40 pesos ou escudos por unidade). No entanto, a bebida mais popular entre os soldados era cerveja. Uma garrafa de cerveja de 0,6 litros chamava-se bazuca.

quinta-feira, 1 de janeiro de 1970

Guiné 61/74 - P27839: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (25): "Charlie (Carlos Santos, RTC), sentimo-nos todos (militares que estiveram lá) insultados por essa maralha de políticos e jovens políticos (nascidos entre meados de 1960 e inícios de 1970), não respeitam o passado doloroso dos combatentes de ambos os lados, fazendo um aproveitamento político do passado, desinformando os nossos filhos e netos" (Carlos Filipe Gonçalves, "kalu Nhô Roque", Praia)



1.Mensagem em do Carlos Filipe Gonçalves (nosso "camarigo", jornalista aposentado, conhecido na Praia como "Kalu Nhô Roque",radialista e musicólogo) para o seu amigo "Charlie", Carlos Santos,   é um colega jornalista (da RTC), que se interessa pela investigação dos velhos tempos do antes e depois da Guerra, sobretudo os primeiros anos da Independência de Cabo Verde"):




Data - sexta, 20/02/2026, 11:43
 Assunto - "Maria Turra"

Olá, Charlie, Bom dia

Junto te envio o seguinte link  da página no Facebook do Blog Tabanca Grande (19 de fevereiro de 2026, 13:33), onde publiquei o texto sobre a "Maria Turra", uma personalidade da Guerra da Guiné, conhecida pela sua voz, por milhares de soldados portugueses na Guiné. 

Esse meu texto, já foi publicado antes no blogue da Tabanca Grande, podes aceder por este link: 

  Luís Graça & Camaradas da Guiné: Guiné 61/74 - P27750: Os 50 anos da indepedência de Cabo Verde (23): Morreu a Amélia Sanches Araújo (1934-2026), a antiga locutora da "Rádio Libertação" (1964-1974), a famosa "Maria Turra", como era conhecida entre a malta do CTIG (Carlos Filipe Gonçalves, Praia, jornalista aposentado)

No Blog da Tabanca Grande, para além dos comentários – atenção a malta sobrevivente da guerra está toda com mais 70 anos!!! – chamo a tua atenção para as notas do editor Luis Graça, que trazem referencias ao Arquivo Mario Soares e links que dão acesso a gravações da voz da "Maria Turra"!!! E muitas outras informações que de certeza vão te deliciar.

Uma nota minha, este Blog teve, em 22 anos, 18,1 milhões de visualizações (1,8 até maio 2010 + 16,3 milhões até o dia de hoje!),...

 Iniciado em 2004, este blog é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Objectivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). –

Eu, pessoalmente, posso te dizer: neste Blog os antigos combatentes têm «despejado» o saco de recordações de uma guerra, que nos ficou impregnada até hoje. Não se consegue esquecer!!!!

E desde há muito, juntam-se recordações dos militares portugueses, aos dos combatentes do PAIGC, que se complementam. Estas versões, dos dois lados, sim, trazem as verdades do que aconteceu. 

Sentimo-nos todos (militares que estiveram lá) insultados por essa «maralha» de políticos e jovens políticos (muitos nasceram entre meados de 1960 e  inícios de 1970), não respeitam o passado doloroso dos combatentes de ambos os lados, fazendo um «aproveitamento político» do passado, desinformando os nossos filhos e netos. 

O que mais magoa, são os insultos, distorção dos factos e apagamento do passado, com novas leituras distorcidas e de acordo com as conveniências. 

Desculpas, por este desabafo, espero ter sensibilizado para começares a consultar esta fonte de depoimentos, na primeira pessoa, são milhares…. Se precisares de ajuda, para te situares, no complexo ambiente da Guerra, com siglas e descrições numa linguagem militar da época, estarei sempre disponível para te ajudar ou para uma «discussão».

Forte abraço do amigo e colega

Kalu Gonçalves

Carlos Filipe Gonçalves

Jornalista Aposentado

(Rervisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:;