Arsénio Puim (n. 8 de maio de 1936): ilhéu, açoriano, mariense, ex-sacerdote católico (de 1960 a 1976), ex-capelão militar (1969/71): foi autarca, professor, enfermeiro; é jornalista, escritor, cidadão do mundo, pai, avô, amigo... Natural de Santa Maria, vive hoje em São Miguel, em Vila Franca do Campo, desde 1982: "nunca pensei chegar aos 90 anos".
Foto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
1. O nosso amigo e camarada Arsénio Chaves Puim nasceu às 23 horas do dia 8 de maio de 1936, na Calheta, freguesia de Santo Espírito (ilha de Santa Maria, Açores), terra de baleeiros. Teve irmãos ligados à baleação. Ele próprio era um apaixonado pela pesca da baleia. A mãe nunca o deixou ir, não fosse perdê-lo. Seguiu outro rumo: entrou para o seminário e foi ordenado padre (em 1960).
Mais tarde seria mobilizado para a guerra colonial como capelão militar. Integrou o Batalhão de Artilharia 2917, colocado em Bambadinca entre meados de 1970 e meados de 1972. Zona leste, sector L1.
Nunca usou arma, nem temeu minas mem armadilhas, nem emboscadas ou ataques dos "turras", e nomeadamene quando se deslocava em colunas, ou ficava uns dias nos quartéis e destacamentos do BART 2917 (Xime, Missirá, Mansambo, Xitole...).
Tinha dificuldade em estar inteiramente bem com Deus e com César. Quando recusou a G3, distribuída em Bissau, após o desembarque do BART 2917, o 2º comandante perguntou-lhe cínica ou provocatoriamente se ele era "testemunha de Jeová" (=objetor de consciência), a ele, que era o capelão (católico) do batalhão!
Na igreja, em Bambadinca, pregava a paz em tempo de guerra. E lembrava aos militares de Bambadinca que o lema do seu batalhão era: "Pelas Gentes da Guiné".
Já em outubro de 1970, seis meses depois de chegar, protestara veementemente contra a exibição pública da cabeça de um “inimigo”, cortada por um furriel felupe dos Comandos Africanos, episódio ocorrido poucas semanas antes da Operação Mar Verde, a invasão de Conacri em 22 de novembro de 1970, uma das ações militares mais controversas da guerra na Guiné.
As suas "homilias da paz" eram vigiadas pela PIDE (que tinha informadores em Bambadinca, e agentes em Bafata). Mas ele nunca será preso ou interrogado pela polícia política, em Bambadinca, em Bissau, em Lisboa ou nos Açores, onde retoma o seu modesto lugar de pároco, depois de ter sido expulso da Guiné.
Mas o que verdadeiramente precipitou a sua queda em desgraça foi a denúncia pública, feita na igreja de Bambadinca, da forma como estavam a ser tratados, os prisioneiros provenientes do “mato”, isto é, das zonas controladas pelo PAIGC.
Foi por volta de abril de 1971. Tratava-se sobretudo de mulheres, crianças e velhos, mantidos em condições miseráveis, praticamente “num galinheiro”, sem alimentação condigna.
Veio então ordem de Bissau, do Quartel-General/Comando Territorial Independente da Guiné (QG/CTIG), possivelmente na sequência de informações da PIDE/DGS, para a sua expulsão do Exército e da Província..
O 2.º comandante do batalhão, major de artilharia Anjos de Carvalho, juntamente com o major de operações e informações Barros Basto, vasculharam-lhe o quarto, devassaram-lhe a o seu bloco de notas e confiscaram-na. Rasgaram-lhe, inclusive, uma folha, "comprometedora". Devolvem-lhe, mais tarde, no pós.25 de Abril, o bloco de notas, mas não a "prova do crime".
Segue para Bissau. Numa DO-27, só com o piloto, sem escolta, sem despedidas, sem testemunhas, sem amigos, sem camaradas, sem lágrimas. Oito dias depois embarca para Lisboa e volta a ser " o pastor do seu humilde rebanho", na sua ilha...
Foi o segundo capelão militar a ser expulso do CTIG, em maio de 1917, depois do padre Mário de Oliveira (ou Mário da Lixa), em março de 1969...
Ironicamente, muitas das denúncias de Arsénio Puim coincidiam com os princípios oficialmente proclamados por António de Spínola em “Por Uma Guiné Melhor”: a preocupação com o tratamento humano das populações civis e dos prisioneiros.
Acrescente-se mais este pormenor biográfico, que também marca a diferença em relação a outros capelães da guerra colonial: ainda foi padre durante vários anos. Ao todo 16.
Quis fazer uam experiência de padre operário. Durante dois anos, em Ponta Delgada, tirou o curso de enfermagem, queria ter uma experiência holística do cuidar, como padre e como enfermeiro. Mas estes dois papéis tornaram-se humanamente incompatíveis, pro serem demasiado absorventes.
Pediu então a saída da sua condição sacerdotal. Fez carreira como enfermeiro em Vila Franca do Campo, no Serviço Regional de Saúde dos Açores, casou, em 1979, com uma jovem enfermeira, a Leonor (Maria Leonor Bicudo). Tem 2 filhos, rapazes, 3 netos (2 meninas), uma meia dúzia de livros, tem o seu quintal, é jornalista e escritor. É a memória viva da sua ilha, Santa Maria. E hoje, dia 9, celebra á fe quem mesa os seus 90 anos, com a Leonor, o Pedro, o Miguel, os netos, os amigos.
2. Falei ontem, uma hora, com o nosso aniversariante. Está ótimo. De voz e ouvido. E não se queixa da saúde. Estava feliz: "Nunca pensei chegar aos 90 anos".
Feliz e e com uma notável memória. Relembrámos factos, lugares, datas, gentes... Quem ainda está vivo, quem já morreu, do tempo de Bambadinca...Falámos do Benjamim Durães (de quem não tenho notícias há muito), do cap Gualberto Magno Santos Marques (cmdt da CCS, agora coronel, a viver no Algarve), do Abílio Machado (o "Machadinho"), do "mirandês" Abel Rodrigues (CCAÇ 12), da Helena e do Carlão, também da CCAÇ 12 (já falecido), do Gonçalves, da CCS/BART 2917 (que "andou no seminário")...Bem como do pobre do Victor Marques, cmdt do Xime, da CCAÇ 2715 (já falecido), do David Guimarães, da CCAÇ 2716 ("que cantava o fado e tocava viola", no Xitole), do saudoso "alfero Cabral" (já falecido)... e de outros camaradas, cujos nomes vieram à baila. Sem esquecer o primeiro Brito, do major Anjos de Carvalho, do major Barros Basto, do ten-cor Polidoro Monteiro (todos do BART 2917), do capitão Brito, da CCAÇ 12 ...(já todos falecidos, se não erro).
Inevitavelmente falámos do triste episódio da sua expulsão, em maio de 1971. Aproveitei para clarificar um ou outro facto, ainda para esclarecer, confirmar e corrigir.
Já tinha recebido e folheado o livro, com a dedicatória, que lhe mandámos (o autor, Padre Bártolo Paiva Pereira, o Virgílio Teixeira e eu). Ficou sensibilizado e vai agradecer.
Falei-lhe do padre Bártolo, que foi capelão-chefe, no QG/CTIG, de 1965/67, tendo-lhe sucedido, no cargo, o padre Manuel Joaquim da Silva Capitão (1968/7'0) e depois o padre Gamboa (fev 1970/ mar 1972).
Este é que foi o chefe do Puim, que de resto só vai estar no CTIG, um ano (mai 70/mai71).
É no tempo do capelão-chefe Gamboa, major graduado, em meados de 1970, que se realiza em Bissau (com 2 dias em Bolama) um encontro de capelães, onde houve alguma discussão acesa sobre o papel dos capelães naquela guerra. Os capelães foram recebidos pelo gen Spínola que aproveitou para mostrar o seu descontentamento em relação a alguns capelães que "não estavam a cumprir o seu dever" (devia querer fazer referância ao caso, ainda recente e inédito, do Padre Mário de Oliveira, que apenas esteve 4 meses, em Mansoa, até ser expulso do CTIG, em março de 1969, ainda no tempo do gen Arnaldo Schulz).
O Puim estava longe de imaginar que, dali a meses, em maio de 1971, seria a sua vez de ser expulso do CTIG, desta vez por Spínola, e regressar a casa, ou seja, à sua paróquia...
Mais uma vez obtive a confirmação do Puim em relação ao que se passou na "homilia da paz", de 1/1/1971: nunca foi preso ou interrogado pela PIDE/DGS, nem no início do ano de 71, nem em maio, em Bambadinca, nem em Bissau, enquanto aguardou embarque, nem em Lisboa, nem nos Açores.
Naturalmente, já tinha ficha na polícia política. (A PIDE/DGS em 25 de Abril de 1974 tinha um arquivo de 5 milhões de fichas, o que diz muito da eficiência do seu trabalho, em Portugal de aquém e de além-mar).
Apesar de tudo, e como bom cristão que continua a ser, há muito que o Puim perdou a quem lhe fez mal. Mas não esquece.
3. Ontem mandeu-lhe os parabéns:
"Puim, ao km 90 da picada da vida...Parabéns, parabéns, parabéns, como se diz na tua terra!...E boa continuação da jornada!...
Ainda imaginei há um ano atrás poder estar aí hoje contigo e com os que te amam, na tua casa em Vila Franca do Campo, mas calculei mal as distâncias. Ainda são 1500 km no 'drone da amizade'..., se quiser ir mais confortável com o meu esqueleto no avião da TAP, ainda são quase 3 horas de viagem. De forma que utilizo este meio, mais maneirinho (e que sempre é mais rápido que o 'bate-estradas' do nosso tempo), para te desejar um bom dia, um grande dia... Que Deus e os nossos bons irãs te protejam a ti, aos teus (a tua Leonor,o teu Pedro, o teu Miguel, os teus netos, e demais família). E a todos nós. Luís (e Alice)".
O Arsénio Chaves Puim nasceu sob o signo de Touro, às 23 horas do dia 8 de maio de 1936, sexta feira, numa ilha baleeira perdida no Atlântico, Santa Maria, Açores. Mas o seu verdadeiro signo talvez nunca tenha sido o do zodíaco: foi o da inquietação moral e do testemunho cristã.
A título de apreço e homenagem, aqui vai um pequeno ensaio de horóscopo poético, dedicado a ele que podia ser o Santo Arsénio, mas não, não é santo de altar, apenas um homem, de corpo inteiro, um bom amigo e camarada da Guiné. A ele que não desertou, foi apenas expulso da tropa.
Admiro-o porque é um daqueles raros seres que nunca aceitaram viver pela metade: quis conhecer a dor e o sofrimento dos outros não apenas pelo exercício do múnus espiritual, mas também pelas mãos, pelo corpo, pela doença, pela dor, pelo quotidiano dos outros.
Horóscopo poético: Ao Arsénio Puim, que nunca quis ser santo, mas apenas homem, um bom cristão, e um melhor amigo e camarada
Nasceu numa ilha pequena
onde os homens aprendiam cedo
que o mar tanto dá como leva,
e que a vida tanto põe como tira.
Entre o mar dos Açores e o rio Geba, na Guiné,
nasceria um homem de passo manso
e consciência difícil.
Touro de maio,
feito da matéria antiga das ilhas atlânticas:
basalto, vento, sal, silêncio e... teimosia.
Os astros deram-lhe voz (frágil) de padre,
mas coração (forte) de insubmisso.
Nunca aprendeu a ajoelhar-se diante da força,
mesmo quando, por imposição do bispo,
fora obrigado a vestir a farda camuflada verde-rubra.
Havia nele qualquer coisa de ave marinha insular:
voava baixo sobre o sofrimento dos homens
e reconhecia de longe o cheiro da injustiça.
Recusou a G3,não por ser "testemunha de Jeová",
mas padre, católico, capelão,
médico de almas e corpos.
Recusou a G3
como quem recusa um segundo pecado original.
Pregou a paz
em terra onde a paz ainda era heresia.
Os planetas dizem
que os homens nascidos naquela hora tardia,
a sempre temível, para as parturientes, 23ª hora,
trazem dentro de si uma luta interminável
entre a obediência e a verdade,
entre o pânico e a teimosia,
entre o medo e a coragem.
Por isso o expulsaram.
Porque certos homens perturbam mais pelo exemplo
do que pela rebeldia.
Foi padre durante dezasseis anos.
Disseram-lhe que bastava salvar almas.
Ele desconfiou da missão, que se ficava pela metade.
Quis aprender também
a tratar feridas, febres, fezes,
pus, vómitos, sangue,
doença, solidão, loucura.
Fez-se enfermeiro
como quem prolonga o Evangelho
pelas mãos e a arte de cuidar, que é mais do que curar.
Durante algum tempo
tentou juntar os dois mundos:
o altar e a enfermaria,
a oração e o termómetro,
a absolvição e a mezinha.
Mas os papéis começaram a rasgar-se por dentro.
Havia demasiada vida concreta, telúrica,
para caber apenas na batina de padre
(ou na pena de jornalista).
Então desceu à terra comum dos homens.
Casou.
Teve filhos.
Vieram netos, livros, árvores de fruto,
jornalismo, memórias,
a brisa do quintal ao fim da tarde,
ao pôr do sol sobre o mar de Vila Franca do Campo.
E contudo,
mesmo sem batina,
continuou a ser padre à sua maneira:
escutando, cuidando,
amparando fragilidades,
resgatando memórias,
investigando, escrevendo.
E essa é também uma forma de coragem
para quem não desiste da vida
(e, para muitos, do seu absurdo).
Hoje, aos 90 anos,
o nosso ex-"padre capilom",
como diziam com graça e ternura
as gentis lavadeiras de Bambadinca,
continua de sentinela entre Deus e César,
não pertencendo inteiramemte ao céu ou à terra,
mas ao mundo inteiro.
Os astros sorriem-lhe, discretamente:
não prometem nem honra nem glória,
a ele que não glorificou a guerra;
não lhe prometem
nem a tribuna de poder,
nem o nicho de altar,
nem o pedestal de estátua.
Há homens que passam pela vida
como passageiros,
viajando com mais ou menos luxo/lixo.
Outros tornam-se arquivo vivo
de uma terra e de um povo.
O Puim de Santa Maria
é hoje uma dessas raras bibliotecas humanas
que ainda sabem o nome dos ventos, dos moinhos,
das famílias, dos mortos, das almas penadas,
dos topónimos, dos extintos vulcões,
dos cachalotes que escaparam ao arpão do baleeiro,
das histórias que não vêm nos livros.
Os astros dizem
que aos noventa anos
um homem começa lentamente
a transformar-se em paisagem fossilizada.
Talvez por isso
a ilha o guarde agora
como se guarda um farol antigo:
com gratidão,
com respeito,
e com medo de um dia o perder.
Alfragide, 8/9 de maio de 2026
O astrólogo-poeta, Luís Graça
(a que se juntam, Arsénio, os teus/nossos antigos camaradas da Guiné,
mesmo aqueles que nunca mais te viram ou verão,
que ainda te recordam com amizade, saudade, espanto e respeito,
e isso, aqui e agora, vale mais do que a eternidade).
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Nota do editor LG: