1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:Queridos amigos,
O Marquês do Lavradio que revela-se altamente documentado, tem o privilégio de acesso a um arquivo notável, o da sua família, diplomatas com correspondência trocada com governantes de Londres e Lisboa, investigações em trabalhos de Caldas Xavier, António Enes, obras de Mouzinho de Albuquerque ou de Alberto de Almeida Teixeira sobre Alves Roçadas, muita pesquisa feita no Arquivo Histórico Ultramarino, descreve-nos neste resumo a ocupação de Angola, escreve de modo incisivo, gostando das descrições naturalistas exuberantes como vai fazer sobre a região dos Dembos, detalha as campanhas de ocupação por toda a Angola e o que houve que fazer quando os alemães invadiram o sul. e não se esquece de enfatizar que a escassos quilómetros de Luanda a hostilidade das populações era praticamente total. Iremos seguidamente ver o que aconteceu em Moçambique.
Um abraço do
Mário
Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 8
Mário Beja Santos
Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência.
Abordámos anteriormente o chamado Regime dos Prazos, no fundo concessões a particulares, que se veio a revelar desastroso, passou-se em revista as companhias majestáticas e chegámos agora à ocupação efetiva. De novo o Marquês do Lavradio nos faz revelações surpreendentes que, em boa-fé, nos leva a interrogar como foi possível termos vivido à sombra daquele mantra do Estado Novo de que estávamos de pedra e cal há 500 anos em África.
Veja-se o que ele diz da nossa presença em Angola, Guiné e Moçambique:
“Em Angola, no distrito do Congo, no interior de Landana, o estado de guerra era permanente; no distrito de Luanda, às portas da capital, os Dembos consideravam-se independentes; na Lunda negociávamos, mas não tínhamos posto algum; no distrito de Benguela, onde a influência portuguesa se estendia mais, ainda em 1902 o gentio atacava a Fortaleza do Bailundo; no distrito de Moçâmedes o posto militar do Humbe era insuficiente para dominar a região e nem sempre se podiam considerar seguras as suas comunicações com o litoral; além Cunene dominavam os Cuamatas e Cuanhamas, que opunham tenaz resistência ao domínio português.
Na Guiné, não éramos quase autorizados a sair da Praça de Bissau durante o dia e nunca o podíamos fazer durante a noite.
Em Moçambique, ao sul do Save, dominava o Gungunhana, cujas hostes chegavam a ameaçar Lourenço Marques; na Zambézia, os prazos que cercam Quelimane eram portugueses de facto, mas a Maganja colocara-se num estado de completa independência; nos territórios de Manica e Sofala, que iam fazer parte da Companhia de Moçambique, não havia sinal algum de ocupação e domínio; no distrito de Inhambane apesar da submissão dos indígenas, vivia-se sob o peso do terror que inspiravam os Vátuas.”
E num tom quase de epopeia, e com pormenores onde domina o sopro épico, o Marquês do Lavradio fala de uma época gloriosa, de heróis destemidos que submeteram o gentio. Em termos literários, a narrativa chega a ser empolgante. Não nos sendo possível alongarmos em minúcias, começa-se com o retrato do que foi a ocupação de Angola:
“Subir a majestosa serra da Chela, atravessar o planalto, passar o Cunene, internar-se nas vastas regiões do Cuamato, Cuanhama e Evale não era possível no princípio do século atual.
Foi em 1845 que pela primeira vez se tentou a ocupação do Gambos, seguindo-se em 1859 a tentativa de ocupar o Humbe para o que para ali seguiu uma pequena força; a falta de recursos em tropa regular e dinheiro fizeram abandonar a ideia de ocupar o Cunene. Em 1863 retiram os postos militares do Humbe e dos Gambos e em 1880 a ocupação do distrito de Moçâmedes reduzia-se a algumas feitorias da Costa.
Em 1880, o estabelecimento de uma colónia bóer no planalto de Huila e a fundação da missão católica do Espírito Santo chamaram de novo a atenção do Governo português para essas regiões e o Humbe é novamente ocupado.
Em 1885 os Hotentotes atacam o posto do Humbe, no regresso à reação aos rebeldes o comandante do posto é morto juntamente com 52 dos seus homens.”
A descrição é completíssima, escrevem-se as diferentes expedições e a forma como iam sendo dominados os povos dentro do território angolano. O custo em sangue suor e lágrimas foi enorme. Falando das operações sobre os Cuamatos, dirá o autor que houve dez ações que custaram a vida a 5 oficiais, 53 praças brancas, 8 indígenas e registaram-se 139 feridos, foi assim que se ocupou o sul de Angola.
Voltando à região dos Dembos, às portas de Luanda, o autor lembra uma frase de Henrique Galvão, que era “uma região negra, impenetrável, onde nem sequer os indígenas que trajavam à europeia eram admitidos”. Dava-se o caso de o nosso domínio e influência ter sido grande no fim do século XIX, quando da inauguração do caminho-de-ferro de Matadi, os enviados do rei do Congo, ao serem apresentados aos representantes de Portugal, deram sinais de submissão. Em 1872 uma revolta não castigada levara os Dembos à independência, desdenhando do nosso poder e manifestando-se agressiva e insolentemente.
É muito bela e expressiva a apresentação que o autor faz desta região dos Dembos:
“A região é das mais inóspitas da África portuguesa; negras cadeias de montanhas encabeleiradas de exuberantes abundâncias de vegetais, espessas, emaranhadas, pujantes, assentando numa série de contrafortes que servem de base a planaltos interiores, atingindo por vezes altitudes de 1300 a 1500 metros; vales atulhados de vegetação, ásperas ravinas, ora cortadas a prumo ora em declives vertiginosos; subidas tão ásperas que tornavam necessário cavar degraus para os cavalos passarem; descidas tão penosas que os próprios homens, agarrados às trepadeiras e arbustos, mal se aguentavam; planícies alagadiças; linhas de água frequentes, que na época das chuvas transformam as margens em lameiros intransitáveis; vegetação luxuriante, que chega a forma maciços impenetráveis; temperaturas que atingem 47 a 48ºC; terreno empestado de mosquitos e mosca tsé-tsé; tal era a região onde, em 1907, uma coluna de 900 homens, em grande parte formada por condenados, ia escrever uma das mais belas páginas da nossa história colonial.”
Heroísmo atrás de heroísmo, a ocupação da Lunda, depois de duras campanhas, ocupação, em 1887, de Santo António do Zaire, mas em 30 de janeiro de 1900 os povos do congo atacavam e roubavam a missão católica de Santo António do Zaire.
Vamos seguidamente falar das páginas de heroísmo da ocupação de Moçambique.
D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
A batalha de Mongua, sul de Angola, 1915.
“O combate durou três dias, entre 17 e 20 de Agosto de 1915, e terá constituído a maior batalha campal alguma vez ocorrida em solo africano entre tropas indígenas e europeias. Apesar da diferença qualitativa, dum grau de eficácia e letalidade incomensuravelmente superior do armamento luso, a verdade é que o cerco às nossas tropas durou três dias, tendo um só combate durado 10 horas, chegando as forças nativas a aproximarem-se até a uns escassos 50 metros do quadrado.”
Imagem retirada da RTP Ensina, série As guerras de ocupação, com a devida vénia
_____________
Notas de editor
Vd. post de 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27840: Notas de leitura (1906): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (7) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 23 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27850: Notas de leitura (1907): "Os Descobrimentos Portugueses, Viagens e aventuras", I volume, por Luís de Albuquerque, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Editorial Caminho, 1991 (Mário Beja Santos)




4 comentários:
1851! Portugal está falido.
É preciso voltar ao principio. Depois da extinção das Ordem Religiosas e da Desarmotização é preciso começar a trabalhar, para produzir riqueza. Portugal começa a trabalhar e é apelidado de " A granja da Europa" e com alguma razão. Os aforamentos que até aí eram a base de transmissão da terra, dão lugar à venda da terra e é essa relação dos produtores com a terra, que faz aumentar a produção.
O Professor José Augusto Seabra faz aprovar o primeiro Código Civil em 1867 e regulamenta também as chamadas áreas do Dominio Público Maritimo com o Decreto de 31 de Dezembro de 1864, depois colher toda a informação dos Salgados de Aveiro, Figueira da Foz, Tejo (nomeadamente a margem Sul), Setúbal e Algarve. Com a criação deste quadro legal, os portugueses começam novamente a produzir riqueza.
Tudo o que o Marquês conta (em Angola) foi totalmente verdadeiro. e militarmente horrivel no caso do sul de Angola, Cuanhamas Cuamatos e Alemães, e acessos para desanimar e voltar para traz.
Ainda em 1960 acessos muito complicados, a partir de Luanda uma noite de navio até Mocâmedes, e a seguir 1250 Klm, só com viaturas todo o terreno, embora, já existisse em 60 um comboio muito ronceiro e uma cremalheira pelo meio.
Ainda em 1960 havia gente bastante nova que viveu de perto aquela guerra (1914)
Talvez pouca gente (hoje), esteja com vida, que tenha percorrido todo aquele percurso, e pisado aqueles areais sem água, das várias lutas.
Mas como durante meses vivi trabalhando em toda essa região, imaginava que quem morreu naquela lutas, morreu sem saber onde estava, morreu sem enfermeiros à cabeceira de um hospital, sem evaquação possível, talvez só de padiola, durante semanas, sem qualquer meio de comunicação, morreu sem correio para mandar carta para a madrinha de guerra,
E lembramo-nos da história que nessas batalhas, em que penso que a definitiva foi a da Mongua, caiu para o lado português, já foi com o Pereira d'Eça, depois de o General Roçadas, ter saído daí completamente derrotado com muita gente perdida.
É como que houve ali duas fases de batalhas.
Mas essa de os portugueses não terem estado em África há 500 anos, como o nosso incansável Beja Santos diz que se comprova, claro que havia portugueses em todo o lado, mas com comerciantes de Marfins, ouro, escravos...não como autoridade, evidentemente.
Há aquele episódio do encontro de Livingstone, que percorrendo toda África foi encontrar um comerciante português Silva Porto a perto de mil Klm no cu de judas, mas nem considerava a presença desse português, pois este nem sabia geograficamente onde se encontrava.
A colonização portuguesa não foi à inglesa nem à alemã com grandes companhias apoiadas por bons exércitos bem pagos e bem armados.
Como combatente que fui na região dos Dembos, no norte de Angola, não posso deixar de depositar aqui algumas palavras.
O caminho de ferro de Matadi não tem absolutamente nada a ver com os Dembos. Fica no que é agora a República Democrática do Congo e liga a cidade portuária de Matadi, na margem esquerda do Rio Congo ou Zaire, à capital Kinshasa.
Não foi no fim do séc. XIX que o rei do Congo deu sinais de submissão a Portugal, como Beja Santos afirma. Já no séc. XVII essa submissão existia, "graças" ao tráfico de escravos, ao qual o rei do Congo foi incapaz de se opor. As relações entre Portugal e o Congo foram um exemplo paradigmático da forma como um relacionamento, que começou por ser prometedoramente amistoso, foi completamente arruinado pela ganância e pela falta de escrúpulos. Já no séc. XVI, o rei do Congo tinha escrito uma carta ao rei de Portugal a solicitar a libertação de um seu filho, que tinha sido levado como escravo para o Brasil. Nem a família real do Congo escapava ao tráfico negreiro! A submissão do reino do Congo a Portugal era total.
Na sua recensão, o Mário Beja Santos transcreve uma passagem do livro do Marquês do Lavradio sobre a região dos Dembos, que passo a reproduzir:
“A região é das mais inóspitas da África portuguesa; negras cadeias de montanhas encabeleiradas de exuberantes abundâncias de vegetais, espessas, emaranhadas, pujantes, assentando numa série de contrafortes que servem de base a planaltos interiores, atingindo por vezes altitudes de 1300 a 1500 metros; vales atulhados de vegetação, ásperas ravinas, ora cortadas a prumo ora em declives vertiginosos; subidas tão ásperas que tornavam necessário cavar degraus para os cavalos passarem; descidas tão penosas que os próprios homens, agarrados às trepadeiras e arbustos, mal se aguentavam; planícies alagadiças; linhas de água frequentes, que na época das chuvas transformam as margens em lameiros intransitáveis; vegetação luxuriante, que chega a forma maciços impenetráveis; temperaturas que atingem 47 a 48ºC; terreno empestado de mosquitos e mosca tsé-tsé; tal era a região onde, em 1907, uma coluna de 900 homens, em grande parte formada por condenados, ia escrever uma das mais belas páginas da nossa história colonial.”
Esta descrição da região dos Dembos é espantosamente exata, salvo em um aspeto: o das altitudes. A altitude média dos Dembos anda por volta dos 800 metros, as cristas das serras chegam a ultrapassar os mil e tal metros e nos vales mais profundos a altitude pode baixar para os 600. Mas, enfim, isto é apenas um pormenor sem importância, perante o rigor da descrição.
Para se poder fazer uma ideia do que era a região dos Dembos, permito-me chamar a atenção para a seguinte vista aérea da mesma região, que encontrei há tempos num vídeo e que terá sido registada pouco tempo depois de ter chovido:
https://drive.google.com/file/d/1SSEvEDjfAsNGeudhLeI38FlKuM-KT3s6/view?usp=sharing
Os aviões da TAAG que faziam as carreiras regulares entre Luanda e Carmona e entre Luanda e Maquela do Zombo sobrevoavam a região dos Dembos. Desde o momento em que se passava pela Pedra Verde e até à aterragem em Carmona, o que se via do avião era somente um encapelado "mar" coberto de selva, uma selva tão densa como a da Amazónia, do Bornéu ou da Papua-Nova Guiné, até onde a vista podia alcançar. Era lá em baixo que estavam os "turras"; não era em terreno descoberto. Foi lá em baixo que, durante cerca de um ano, fiz 10 ou 11 operações com a duração de quatro dias cada uma, mais 20 a 22 operações de três dias cada e ainda 10 ou 11 ações de ir num dia e vir no outro. Isto tudo, é claro, além das colunas, proteções, escoltas e outras tarefas que me eram cometidas. Não me posso queixar de que não tinha nada para fazer...
Outra imagem dos Dembos, registada a partir de um helicóptero:
https://drive.google.com/file/d/1pweNBIVSMXNyiGYNvJOAYzr4LLJQ8rlY/view?usp=sharing
Pois é Fernando Ribeiro, foi no sul em 1914 na I grande guerra, e nessa fabulosa região dos Dembos que Portugal foi obrigado em obediência aos acordos da conferência de Berlim que fomos obrigados a pegar em armas, para dizer que aquilo era Angola e capital Luanda, mas eles eram teimosos, e foram duas guerras terríveis, mas a dos Dembos foi desde mil oitocentos e cinquenta até 1914.
Mas só para lembrar que esta matas dos Dembos e de quase todo o Norte de Angola dão talvez o melhor café do mundo, o Café Robusta, que tem duas vezes mais cafeina que o Arábica que alguns dizem que este é de superior qualidade.
É deste café, das fazendas dos colonos, que se inspirou Antonio Jacinto, Monangambé cantado por Rui Mingas e José Mario Branco.
Fiquei apreciador do Café e do António Jacinto.
Enviar um comentário