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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27915: Casos: a verdade sobre.... (66): Kalashnikovomania - Parte I: Até Moçambique (embora caso único no mundo...) tem na bandeira, símbolo nacional por excelência, a imagem da famigerada AK 47


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CAOP1 > 35ª CCmds (Teixeira Pinto, 1971/73) > Março de 1972 > "Durante a protecção aos trabalhos de desmatagem das margens, ou da pavimentação, da estrada entre Teixeira Pinto e o Cacheu."... Na foto, o alf mil 'cmd' Alfredo Campos, empunhando uma AK-47 .


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CAOP 1> 35ª CCmds (Teixeira Pinto, 1971/73) > Março de 1972 > Estrada Teixeira Pinto - Cacheu > Outro camarada da 35ª CCmds, que se rendeu aos encantos da AK-47, o alf mil 'cmd' António Rui de Mendonça Andrade, açoriano, que, mais tarde, após a evacuação do comandante da 35ª CCmds (cap mil inf 'cmd' António Joaquim Alves Ribeiro da Fonseca, ferido em combate)  foi graduado em capitão para assumir o comando daquela companhia a que pertenceu também o nosso grão-tabanqueiro Ramiro de Jesus, aveirense, tal como o Francisco Gamelas)

Fotos do álbum do Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73), adido ao BCAÇ 3863 (1971/73).

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Bandeira de Moçambique, adotada em 1983. Imagem do domínio público. Fonte: cortesia de Wikipedia.

Legenda: bandeira nacional da República de Moçambique:

(i) uma bandeira tricolor com fimbriações brancas e um triângulo vermelho;

(ii) o verde-azulado representa as riquezas da terra, as bordas brancas significam a paz, o preto representa o continente africano, o amarelo simboliza os minerais do país e o vermelho representa a luta pela independência:

(iii) inclui a imagem de uma espingarda automática Kalashnikov (AK-47) com uma baioneta fixada ao cano e cruzada a uma enxada, sobrepostos a um livro aberto;

(iv) a AK.47 representa a defesa e a vigilância, o livro aberto simboliza a importância da educação, a enxada  está associada á  agricultura e aos camponeses
 e, por fim,  a estrela  exalta o internacionalismo do país;

(v) é uma das quatro bandeiras nacionais entre os Estados-membros da ONU que apresentam uma arma de fogo, junto com as da Guatemala, Haiti e Bolívia.


1. Pode-se falar em kalashnikovomania, o culto da Kalashnikov pelos "tugas",  definida como uma forte atracção pelo armamento do... IN ? 

No TO da Guiné, incluía sobretudo a AK-47 mas também outras armas (como a "costureirinha"  e o RPG) ... 

Se a resposta é sim, esta tendência não era exclusiva dos nossos "rambos" na Guiné... Chegou inclusive à simbologia nacional de um país lusófono como Moçambique. E ao cinema: veja-se o filme Lord of War / O Senhor da Guerra (2005)...

Kalashikovomania:

Trata-se de um neologismo, inventado pelos editores do blogue da Tabanca Grande, que "paga direitos de autor"; um dia irá figurar nos novos Dicionários da Língua Portuguesa, como muitos outros termos que usávamos na guerra (por exemplo, dila=dilagrama, LGFog=lança-granada foguete, ameixa=granada, lobo mau= helicanhão).

Curiosamente, a bandeira de Moçambique [imagem acima], na actual versão (que vem de 1983), ostenta a AK-47, de origem russa, arma-padrão dos guerrilheiros da FRELIMO, bem como do MPLA e do PAIGC , que passou a ser símbolo nacional (!) da luta armada e da defesa do país de Samora Machel 

Registe-se que  é a única bandeira no mundo a ostentar uma arma de fogo  moderna (ainda por cima, estrangeira)... 

Singularidades da lusofonia ?... Dessa tentação, ao menos, livraram-se os nossos amigos guineenses.

 

Cartaz do "Lord of War", filme norte-americano de 2005, com Nicolas Cage, e que  passou em Portugal com o título O Senhor da Guerra (tradução literal)- 

 Cage interpreta a personagem de Yuri Orlov, um traficante de armas perseguido pela Interpol, que no filme faz o elogio da AK 47 (confesso que não o vi). 

Esse monólogo é de antologia pela forma irónica e crítica como o traficante promove a famigerada AK-47 (o mesmo é dizer, a kalashnikovomania). Eis aqui um excerto, com tradução para português:

(...) De todas as armas do vasto arsenal soviético, nenhuma foi mais lucrativa do que o Avtomat Kalashnikova, modelo de 1947, ais conhecida como AK-47, ou Kalashnikov.

É a espingarda de assalto mais popular do mundo. Uma arma que todos os combatentes adoram.

Uma combinaçáo, simples mas elegante, o de cerca de quatro quilos de aço forjado e madeira prensada.

Não se parte, não encrava, não sobreaquece. Dispara sempre, mesmo coberta de lama ou cheia de areia.

É tão fácil de usar que até uma criança a consegue manejar — e usam-na, as criancinhas por esse nundo fora-

Os soviéticos cunharam uma moeda com a sua efígiue. Moçambique colocou-a na sua bandeira, símbolo nacional.

Desde o fim da Guerra Fria, a Kalashnikov tornou-se o  maior produto de exportação dos russos.  
Depois vêm a vodka, o caviar e os romancistas suicidas.

Uma coisa é certa: ninguém fazia bicha  para comprar os carros soviéticos. (...)

2. Contexto histórico

A AK-47 foi desenvolvida por Mikhail Kalashnikov no final da década de 1940, em plena consolidação da União Soviética após a Segunda Guerra Mundial. 

A sua grande vantagem seria, alegadamente, a simplicidade, a robustez, o preço/qualidade  e o baixo custo de manutenção,  características ideais para a sua produção em massa e distribuição a exércitos e movimentos aliados (incluindo os que lutavam "contra o colonialismo e o imperialismo"). 

Durante a Guerra Fria, e num mundo bipolarizado, 
a União Soviética forneceu a AK-47 a inúmeros países e "movimentos de libertação" em África, Ásia e América Latina.

 Isso fez com que a arma, licenciada ou contrafeita,  se tornasse não apenas um instrumento militar, mas também um poderoso símbolo político. E mais: foi um eficaz instrumento da diplomacia soviética... Como,  de resto, são todos os produtos dos fabricantes de armas.

O caso de Moçambique é um exemplo dessa "idolatria" ou "fetichismo" pela AK-47. É o único país do mundo (e ainda por cima lusófono!)  cuja bandeira nacional inclui uma arma de fogo moderna... 

Quer se goste ou não, o raio da Kalashnikov transcendeu o seu papel técnico (de arma de guerra ou "brinquedo de morte") para se tornar um ícone histórico.

Mas façamos uma pequena análise do tom crítico e irónico do supracitado  discurso de Yuri Orlov (a personagem de Nicolas Cage, no filme O Senhor da Guerra):

É um monólogo brilhante porque funciona em dois níveis:

(i) há uma aparente admiração técnica:  à primeira vista,  ele descreve a AK-47 com entusiasmo quase reverencial (“elegantemente simples”, “não encrava, não sobreaquece”, “até uma criança a consegue usar”); é a linguagem típica dos fabricantes e dos comerciantes, focada na eficiência, durabilidade,  design, preço/qualidade do produto;

(ii) mas, nas "entrelinhas", há uma ironia sombria, um  subtexto moral, profundamente crítico: o facto de qualquer criança-soldado  a poder usar (como podemos ver em imagens que nos chegam de  África, e até nas "áreas libertadas do PAIGC"  no nosso tempo, como nesta foto à direita, de Roel Coutinho), é profundamemte perturbador. 

De facto, a  sinistra “popularidade” da AK-47  
resulta da sua difusão em massa.


Criança-soldado do PAIGC

Em guerras, muitas delas civis e fratricidas.  E a referência  a Moçambique está longe de ser lisongeira...

A frase sobre “romancistas suicidas” e carros que ninguém quer comprar  (mesmo a preços de saldo...) introduz um humor negro que ridiculariza os estereótipos sobre a Rússia, faz contrastar bens culturais (literatura) com bens destrutivos (armas), sugere que o verdadeiro “sucesso” económico  e social do antigo país dos sovietes é algo de ainda profundamente problemático.

Enfim, no monólogo  do cínico  traficante de armas há uma crítica sujacente ao negócio global de armas, ao mesmo tempo que promove a kalashnikovomania... 

No fundo, o monólogo desmonta a lógica do mercado: a AK-47 é apresentada como o produto perfeito porque aumenta a "literacia de guerra", facilita a instrução  militar e paramilitar, ogimiza a violência em massa, banaliza a "violência revolucionária", usa a lógica redutora do  mundo dividido em opressores e oprimidos... 

 Ou seja, o discurso imita uma apresentação 
e vendas ( quase um pitch comercial),acabando 
por  expor o absurdo moral de tratar  "armas de guerra" como um qualquer outro produto de consumo.

Quem viu (e se lembra de) o filme, faz uma leitura mais profunda: o que é mais inquietante é que Yuri não está a mentir. Tudo o que ele diz é factual, mas a seleção e o tom criam uma espécie de “verdade desconfortável”: a eficiência tecnológica + a lógica de mercado + a geopolítica = uma arma, a AK-47, a dos "oprimidos", que moldou e alimentou conflitos em todo o mundo.

É isso que dá força ao texto: não é um discurso ideológico explícito, mas uma descrição fria que acaba por ser também, implicitamente,  uma crítica devastadora da kalashnikovomania (o culto da AK-47 e de todas as outras tecnologias de guerra e morte).

E aqui, temos que o reconhecer, não há "armas em boas mãos"...

(Pesquisa: LG + Wikipedia + IA / ChatGPT)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 31 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27874: Casos: a verdade sobre... (65): o acidente com canhão s/r 82, B-10, russo, que vitimou o 2º srgt António Duarte Parente, do Pel Caç Nat 53, no Saltinho, em 13 de maio de 1970

5 comentários:

Victor Costa disse...

E aqui temos que reconhecer "não há armas em boas mãos",
Será que devemos aplicar isto à letra?
Luís, eu aprendi na tropa a tratar a G3 por tu e na Guiné ela dormia ao meu lado sempre com a bala na câmara.
No dia 3 de Outubro de 1974, podia ter trazido uma Walter de 9 mm, mas não quis. O pouco tempo que lá estive chegou para ver que aquela vida não era para mim. Queimei tudo, menos uma muda de roupa civil e a farda de saída. Depois veio o PREC o "veneno" voltou. Depois do 25 de Nov. de 1975, voltou a parar.
Parecia que tudo tinha acabado e eu não quiz saber mais das armas mas, em 1978, tive de defender o que é meu e voltei ás armas. Avisei-os para não continuarem porque podia sobrar para eles, eles não acreditaram e eu tornei-me caçador, comprei uma Beneli de 8 tiros e por fim, eles perceberam que a pancada no sotão ainda não estava curada, conclusão:
O velho agradeceu e fez sentir, que o respeitinho é muito lindo, recomemda-se.É triste, mas existem seres humanos que precisam ser metidos na ORDEM, sob pena de vir a sobar para nós.
É apenas uma questão de sobrevivência, ou matas ou morres, foi isto que eu aprendi na Guiné.
Um Ab. V.C:

Paulo Santiago disse...

Oh Victor,deixa-te de estórias...dias atrás,no controlo de viaturas,era "puchei a culatra atrás"...agora,dormes com bala na câmara...
Benelli de 8 tiros para caçador!?!? Existe uma tal caçadeira?

Alberto Branquinho disse...

Luís

Procurando puxar pela memória para poder fazer uma comparação entre a "nossa" G-3 a Kalash e a PPSH ("costureirinha"), deixando de lado a Mauser, FBP, a FN e a USI, que apesar de vistas por aqui antes da partida, não eram, então, usadas "lá":
CARREGADOR
- Na G-3 tinha capacidade para 20 cartuchos 7,62/carregador direito e quadrangular;
- A Kalash 30 cartuchos e carregador curvo;
- A PPSH ou tambor (grande) com 70 cartuchos ou carregador curvo com 35 cartuchos; a munição era, também, 7,62, mas mais pequena;
(Nota: Seria (?) mais fácil transportar os carregadores extra da G-3 do que os da Kalash ou da PPSH (apesar de ser mais estreita)
CADÊNCIA DE TIRO
- A G-3 foi aquilo que nós conhecemos;
- A Kalash tinha um disparo firme, mais "pesado" que a G-3;
- Da PPSH todos nós (não todos...) conhecemos a cadência de fogo rápido, irritante (como aqueles cães pequeninos que nos ladram aos calcanhares...)
PRECIDSÃO DE TIRO
Apreciando a funcionalidade das três armas (G-3, Kalash e PPSH) em situação de fogo e em que o atirador pretendesse (ou necessitasse) disparar fazendo pontaria a um "alvo", a "nossa" G-3 (embora não fosse uma arma de precisão) era melhor porque o carregador era mais pequeno que o da Kalash (curvo com 30) ou da PPSH (tambor com 70 ou carregador curvo com 35 munições). Assim, a G-3 permitia que o atirador se "colasse" ao chão (defendendo-se ou atacando em tiro de precisão) sem ter que levantar a cabeça e ombros. Já a Kalash ou a PPSH, com o atirador deitado, os carregadores obrigavam o atirador a altear cabeça e ombros para poder usar alça e mira.

MAS... guerras bem longe! Ou melhor: em lado nenhum!
Abraço

Victor Costa disse...

Ó Paulo Santiago!
A Beneli de oito tiros ainda existe mas, claro tem de estar em casa, bem guardada e fechada.
Há uns dias atrás o meu fornecedor do Porto o Sr. Gaspar Meneses levou-a para o para um armeiro no Porto. Parece que já não é comercializada e perguntaram se queria vender.
Eu respondi ao Sr. Gaspar Meneses que eu não queria vender porque ela não comia palha. As munições ficam alojados por baixo do cano, o que a torna muito pesada para tiro instintivo. A arma possui todos os documentos, mais não posso dizer, porque não sou do Bangladeche.
Um Ab.Victor Costa.

Victor Costa disse...

Grande e bom comentário do Alberto Branquinho.
Eu fiquei em rendição individual e isso tem vantagens e inconvenientes.
A vantagem foi ter melhorado muito a minha capacidade fisica e o meu conhecimento e capacidade de manuseamento de armas, em particular a G3, mas a restante aprendizagem do Curso de Tavira não teve continuidade.
Nas provas de fogo na carreira de tiro, junto ao Parque de turismo do Urbitur na Gala (Fig. da Fof), nós, (eu e o Aspirante) contávamos todas as munições do cunhête ( caixa de munições selada), que depois dávamos aos soldados para realizar as provas.
No fim agarrávamos duas latas de cerveja e colocávamos uma para cada um de nós na rampa de areia que ficava por detrás dos alvos e começávamos o nosso treino de tiro instintivo. Eu aprendi a disparar a G3 só com a mão direita, servindo-me do apoio do braço e da anca para suportar a coronha, não me recordo da quantidade de munições que gastávamos, mas sei que eram muitas. A nossa fotografia com um dos Pelotões de recruta dos soldados, já foi aqui publicada.
Um Abraço a todos V.C.