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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28041: Fauna e flora (28): O "pis-cabalo", ou hipopótamo-comum (Hippopotamus amphibius): um futuro incerto: haverá, no máximo, umas 3 centenas na Guiné-Bissau




Guiné > Região do Cacheu > Có > 2ª CART /BART 6521/72 (Có, 1972/74) > s/d> "À falta de vaca, o hipopótamo avançou para o 'rancho' " (Ferreira, L. C., "Os Có Boys", ed. autor, s/l, 2025, pág. 82). Não sabemos se o animal foi caçado pela tropa ou por algum nativo.


Foto (e legenda): © Luís da Cruz Ferreira (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Guiné > Região do Oio > Farim > 1970 > "Quem não se acredita que não havia hipopótamos no rio Cacheu? Aqui está o malandro que dava cabo dos arrozais".


Foto do precioso álbum do Carlos Silva, ex-fur mil arm pes inf, CCaç 2548 / BCaç 2879 (Jumbembem, 1969/71).


Foto (e legenda): © Carlos Silva (2008). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






Pis-Cabalo (em crioulo) ou hipopótamo-comum (Hippopotamus amphibius) > Um dos mamíferos protegidos na Guiné-Bissau. Não confundir com o hipopótamo-pigmeu, dado como extinto na Guiné-Bissau há 50 anos.


Fonte: Guia de Identificação dos Animais da Guiné-Bissau. República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Deparatmento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d. (Já não está disponível em formato pdf, no sítio do IBAP, fomos recuperá-lo através do Aqruivo.pt).https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf


https://arquivo.pt/wayback/20210821092643/https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf




1. Perguntam os nossos leitores: na Guiné-Bissau, ainda há hipótamos (Hippopotamus amphibius", pis-cabalo" em crioulo) ? Onde ? Quantos não ? Estado de conservação ?


Com base na pesquisa em várias ferramentas de IA e ontras fontes da Net (como artigos cientificos em "open access", além do nosso blogue), pudemos apurar o seguinte

Os hipopótamos da Guiné-Bissau constituem um caso zoológico e ecológico muito interessante. E mais: é relativamente pouco conhecido fora dos círculos dos conservacionistas, em geral, e dos guineenses e portugueses, em particular

Existem duas populações distintas:

  • a população “marinha” ou estuarina dos Bijagós / Orango (que ficou célebre por frequentar águas salgadas e braços de mar como a água doce, que continua a ser imprescindível para a sua sobrevivência);
  • as populações continentais, de água doce, ligadas às grandes bacias hidrográficas do interior: Cacheu e Corubal; 
  • são estas que, do ponto de vista biogeográfico, são as mais importantes, ou que, pelo menos, nós conhecemos, mesmo que pontualmenmte, nos anos da guerra (1961/74).

(i) Uma relíquia, o que resta no extremo ocidental de África

No passado, o hipopótamo-comum africano (Hippopotamus amphibius), uma distribuição muito mais ampla na África Ocidental. Hoje, as populações da Guiné-Bissau representam o extremo ocidental da distribuição da espécie.

As populações continentais vivem sobretudo no sistema do Rio Corubal; rio Cacheu; e, no passado, mas em menor grau, rio Geba e rio Manso, em bolanhas inundáveis, lagoas temporárias (“vendus”) e galerias ripícolas associadas.

O Corubal, em particular, é frequentemente descrito por biólogos como um dos últimos grandes rios relativamente “selvagens” da África Ocidental.

Mas teme-se que o PAIGC (que não tinha consciência ambiental), tenha dizimado o hipopótamo do Corubal. Do macaco-cão ao hipopótamo, a predação foi muito grande. Era preciso alimentar os guerrilheiros e a população sob o seu controlo. A crise alimentar no pós-independência agravou a situação.

Na altura, a conservação ambiental não era uma prioridade para o PAIGC ou para o governo pós-independência. A sobrevivência imediata e a reconstrução do país foram os focos principais.

Nos anos 90, con o aumento da consciência ambiental e a criação de áreas protegidas (como o Parque Nacional de Orango e o Parque Natural das Lagoas de Cufada), começou a haver um maior esforço para proteger a espécie, embora a caça ilegal ainda ocorresse, especialmente em zonas remotas.

Mas a desfloretação continuou. O caso do Cantanhez é um exempplo com a intensificação da e a exploração madeireira: em março de  2008, quando lá estive,  já se notava a exploração madeireira ilegal, muitas vezes direcionada para o mercado chinês, que tem um "apetite voraz"  por madeiras tropicais (como o pau-rosa ou ébano). A Guiné-Bissau não tem capacidade para controlar o corte e exportação de madeira, e grande parte da exploração é feita sem qualquer regulação ou sustentabilidade.

A China (e outros atores internacionais) tem sido um dos principais destinos da madeira guineense, com contratos opacos e extração em larga escala, que devastam as florestas primárias. Isso afeta não só a biodiversidade, mas também os ecossistemas que sustêm espécies como o hipopótamo, o chimpanzé ou o elefante.

(ii) Diferenças em relação aos hipopótamos de Orango

Os hipopótamos dos Bijagós (sobretudo de Parque Nacional de Orango) tornaram-se "mediáticos" e "turísticos" devido ao seu "comportamento adaptativo, sem sucedido":

  • utilizam braços de mar e canais salobros;
  • entram em águas costeiras;
  • deslocam-se entre ilhas;
  • alimentam-se em zonas intertidais.

Já os hipopótamos continentais mantêm um comportamento mais “clássico”:

  • dependem de rios permanentes (Cacheu, Corubal);
  • procuram poços profundos durante a estação seca;
  • usam corredores florestais e margens densas;
  • deslocam-se de noite para alimentação em savana húmida e bolanhas.

Mesmo assim, na Guiné-Bissau existe alguma plasticidade ecológica rara: certos grupos usam estuários e zonas de água parcialmente salobra, sobretudo no Cacheu.


(iii) O Corubal: bastião principal

Tudo indica que a principal população continental sobrevivente esteja hoje associada ao corredor ecológico do Corubal-Dulombi, no sudeste do país. Essa região ainda conserva, felizmente:

  • florestas-galeria;
  • savanas arborizadas;
  • zonas húmidas sazonais;
  • baixa densidade humana relativa.
Os estudos recentes com ADN ambiental (eDNA) confirmaram a presença de hipopótamos no Corubal e reforçaram a importância internacional daquela bacia hidrográfica para a conservação. Ali coexistem ainda:

  • manatins;
  • crocodilos;
  • chimpanzés;
  • antílopes raros;
  • numerosas aves aquáticas.

(iv) Estado de conservação

Globalmente, o hipopótamo comum está classificado como “Vulnerável” pela UICN/IUCN. Na Guiné-Bissau, a situação inspira preocupação séria, embora não seja ainda considerada catastrófica. Quais são as principais ameaças ?

  • conflito com agricultores: é a ameaça mais antiga; os hipopótamos:entram em bolanhas, destroem arrozais, podem atacar pessoas quando surpreendidos, etc.;
  • após a independência, houve muitos "abates de retaliação": só na região de Cacheu terão ocorrido dezenas entre 1975 e 1996:
  • cresente pessão humana , sob a forma de desflorestação das margens; expansão agrícola; pesca intensiva; ocupação das zonas húmidas; redes elétericas para progere os arrrozais;
  • fragmentação populacional, reduzindo a diversidade genética e aumentando a vulnerabilidade.da espécie: populações parecem hoje pequenas e isoladas entre si: Cacheu Corubal; zonas de Bissorã/Carantaba; Bijagós;
  • caça: embora protegidos legalmente desde os anos 1990, continuam a ser vítimas da caça furtiva; abate por conflito agrícola; uso de carne e partes do animal localmente, incluindo os dentes que são de marfim.
(v) Quantos restam?

Os números são muito incertos, o que é típico da África Ocidental. Estimativas frequentemente citadas apontava há 10 anos atrás para:

  • cerca de 135–150 nos Bijagós /Orango;
  • cerca de 50 no Cacheu;
  • 60–65 nas zonas de Bissorã e Carantaba.Para o Corubal, os dados continuam incompletos, mas pensa-se que alberga ainda (ou já albergou) uma das populações continentais mais importantes do país.

Provavelmente, o total nacional não ultrapassará as 3 centenas (no máximo) de indivíduos.
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(vi) Importância simbólica e ecológica

Na Guiné-Bissau, o hipopótamo tem também dimensão cultural:surge em tradições bijagós;
é associado a tabancas e zonas sagradas; em certas regiões beneficia ainda de tabus tradicionais que limitaram a caça.

Ecologicamente, é um “engenheiro do ecossistema”: abre canais, fertiliza águas, influencia a vegetação ribeirinha; cria habitats para peixes e aves.

Mas o hipopótamo de Orango também enfrenta ameaças, provocadas nomeadamente pelas alterações climáticas. A subida do nível do mar e a erosão costeira reduzem e alteram os seus habitats. As alterações climáticas geram impactos diretos e severos no ecossistema único destes animais:

  • destruição do habitat: a subida do nível da água do mar aumenta a salinidade, provocando a erosão costeira e a destruição das zonas de mangal, essenciais para o abrigo e alimentação da subespécie;
  • escassez de água doce: com a intrusão salina nos lençóis freáticos, as lagoas de água doce (vital para os hipopótamos banharem-se e refrescarem-se durante o dia) secam ou tornam-se demasiado salgadas;
  • perturbação comportamental: estes animais desenvolveram uma adaptação única para tolerar a água salgada, transitando entre o mar e a terra; no entanto, fenómenos climáticos extremos alteram as marés e as correntes, dificultando as suas rotas diárias e a procura de vegetação;
  • pressões socioecológicas: as alterações climáticas também ameaçam as populações humanas locais, forçando-as a intensificar a pressão sobre os recursos hídricos e florestais, o que agrava a partilha de espaço e a perda do habitat natural dos hipopótamos.
Resumindo: a presença de hipopótamos no continente (fora dos Bijagós) é esporádica e localizada, com confirmação apenas para a zona de Cacheu. No Corubal, a presença é histórica, mas não há dados recentes que confirmem populações estáveis. Para Geba e Mansoa, não há registos atuais de presença significativa.

Conclusão: Um futuro incerto

A Guiné-Bissau é um microcosmo dos desafios da conservação em África: 

  • há leis e parques (no papel) mas a fiscalização é inexistente: não há guardas florestais em número suficiente, nem meios para patrulhar áreas vastas e remotas;
  • corrupção e interesses económicos: muitos responsáveis políticos e militares beneficiam da exploração ilegal (madeira, caça, mineração), o que torna a conservação um obstáculo aos seus interesses;
  • na prática, a sobrevivência humana é que dita a lei, sobrepondo-se  à proteção da natureza;
  • a par disso, as alterações climáticas estão a ter uma dramática erosão do sistema socioecológico, com consequências trágicas a longo prazo:
  • organizações como a IUCN ou o IBAP (Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas) tentam implementar programas, mas esbarram na falta de vontade política e na instabilidade crónica do paísno;
  • sem uma mudança estrutural (governança, educação ambiental, alternativas económicas para as comunidades), o homem e o animal selvagem continuarão em conflito direto, com a natureza a perder.
A sua sobrevivência depende, no fundo, da preservação dos grandes rios guineenses — sobretudo do Corubal, um verdadeiro corredor biológico entre o Fouta-Djalon e os estuários atlânticos. Um dia em que se fizer uma barragem no Corubal matam os hipótamos que restam (se é que ainda restam).


(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos
_________________________

Nota do editor LG

(*) ÚLtimo poste da série > 5 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27795: Fauna e flora (27): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - II (e última) Parte

1 comentário:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Em 2011, foram contadsos cerca de 200 hipopótamos em Orango:

24 de dezembro de 2012
Guiné 67/74 - P10854: Recortes de imprensa (62): Um caso de sucesso: a proteção dos hipopótamos de água salgada da ilha de Orango, nos Bijagós (RTP África, 10/12/2012)