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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27638: Manuscrito(s) (Luís Graça) (282): Habeas corpus... que (man)tenhas o corpo, que ainda grita e levita!




Lourinhã > Geoparque do Oeste > Praia de Vale de Frades, donde se avista o forte de Paimogo (séc. XVII) e as Berlengas  > 20 de agosto de 2014. Fotos reeditadas em 2026. (*)

Fotos: © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


Habeas corpus, ... que (man)tenhas o corpo!

por Luís Graça


És objeto de desejo,
Logo corpo de delito,
Ou tão só mero ensejo
P'ra cadáver ex-quesito.

Qu'sito nº 1 do corpo
É manter-se bem temp'rado,
Sem a palidez do morto,
Nem na morgue congelado.

A pátria te requisita
O corpo onde tu habitas,
Corpo morto não levita,
Nem tu, soldado, já gritas.

Há o corpo de doutrina
E o corpo do relatório,
O libelo acusatório
E os detalhes da chacina.

Foi execução sumária ?
A tropa só conta  um morto,
De bexigas ou malária,
Entre a praia e o horto.

Há o corpo mal dormente,
Que ressona na  caserna,
E há o urso que hiberna,
Sem ordem do senhor tenente. 

Quem nasceu mal, de borco, 
Nunca irá gostar de coentro,
Mata e abre o teu porco,
P'ra te conheceres por dentro.

Se és do corpo de polícia,
Não tens malícia no corpo.
Quem já nasce feio e torto,
Vai engrossar a milícia.

Há o corpo proativo
E o corpo amnésico,
Mais vale ser protésico
Do que triste radioativo.

Há a elite do corpo médico
Bem como o engenho ortopédico,
Há os crentes e os ateus
E ainda o corpo de deus.

A guerra é um circo trágico
Onde há o palhaço faz-tudo,
O herói é o mágico
E o homem-bala um sortudo.

Lágrimas, sangue e suor,
Diz o braço tatuado
No corpo do Zé Soldado,
Já sem dono nem senhor.

Pobre do corpo encapuçado,
Logo vai ser decapitado,
Ou então enforcado
Ou, se calhar, fuzilado.

Também há o corpo adhoc,
De peito feito às balas,
Contra a tropa de choque
Erguem-se os mortos das valas.

Mal de ti que foste á guerra
Sem voltar à tua terra,
Teu corpo, morto, não grita,
E, se não grita, não levita. 

Lourinhã, 19/8/2014. Revisto, 17/1/206 (**)
_____________

Notas do editor LG:


(**) Último poste da série > 16 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27637: Manuscrito(s) (Luís Graça) (281): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte V: O Zé Pitucas, aliás, o Zé Ançã: "Ou dás-me a navalha, ou nunca mais te falo"...

Guiné 61/74 - P27637: Manuscrito(s) (Luís Graça) (281): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte V: O Zé Pitucas, aliás, o Zé Ançã (1937-2002): "Ou dás-me a navalha, ou nunca mais te falo"...


Porto > c. 1918 > "Uma foto lindíssima do meu pai, embarcado com 12 anos com o cão ao colo por trás da boia do Pátria, o navio em que embarcou. O capitão era o pai do Mário Castrim, o cap Fonseca, de Ílhavo."

Fotos (e legendas): © José Amtónio Paradela (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Capa do livro "A Rua Suspensa dos Olhos" de Ábio de Lápara (edição de autor, José A. Paradela, Aveiro, 2015, 164 pp.)...Ábio de Lápara é o pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor



1. Por cortesia de autor, ainda em vida, pela grande amizade que nos ligava um ao outro (tratávamo-nos por "manos"), e pela paixão que o nosso blogue dedicava à  epopeia da pesca do bacalhau (que chegou a ser alternativa à guerra colonial), transcrevemos, em tempos em três postes, o capítulo 7 (A viagem “O Mar por Tradição”, pp. 83-107), do livro "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (edição de autor, Aveiro, 2015).

Era também irmão do Tibério Paradela (1940-2021)  um "lobo do mar", capitão da marinha mercante.

O Zé António, ilhavense, filho e neto de marinheiros, evoca e descreve com enorme ternura e talento a rua onde nasceu e cresceu, e onde conheceu algumas das figuras humanas da sua terra, que marcaram a sua memória e o seu imaginário ...

Todos tivemos uma Rua Suspensa dos Olhos, afinal a rua da nossa infância, a rua onde nascemos e crescemos. Falo da nossa geração, que ainda nasceu em casa, de parto natural, com dor... E ainda teve o grande "privilégio" de  brincar na rua com os outros meninos e meninas.  No tempo em que não havia creches, nem infantários, nem jardins de infancia e a vida vivia-se na rua: assavam-se os carapaus no fogareiro a carvão na rua,  namorava-se á janela, não havia vida privada,  o escrutínio era público,  frequentávamos a casa uns dos outros, etc.

Nesses três postes, e com a devida autorização do autor, publicámos o relato da sua viagem de seis meses na safra do bacalhau, nas costas da Terra Nova e da Groenlândia, quando ainda adolescente, aos 17 anos, em 1954, e como estágio final do curso da Escola Profissional de Pesca, em Pedrouços, Lisboa, é chamado para embarcar e fazer "A Viagem", por antonomásia.

Foi  uma experiência que o marcou para o resto da vida, não só pela dureza das condições de vida a bordo e a capacidade de resiliência como pela aventura maritima, a descoberta e o reforço da camaradagem, a solidariedade e a amizade entre a tripulação (marinheiros e pescadores). Tal como a a tropa e guerra, no nosso caso. 

O Zé António, também como bom ilhavense, fez depois o serviço militar na Armada,  numa altura em que a Marinha não precisava de muitos marinheiros.

A vida deu, entretanto, outras voltas e o autor não seguiu o destino dos seus antepassados... Aluno brilhante, acabou por ganhar uma bolsa de estudo, ficar em Lisboa e poder aceder à universidade, tornando-se depois  um nome de referência da arquitetura e urbanismo em Portugal. 

Entraria para o curso de arquitetura na Escola Superior de Belas Artes, no ano letivo de 1960/1961; fundou e geriu a empresa PAL - Planeamento e Arquitectura, com sede em Lisboa;  deixou obra por todo o país, com destaque para a Região Autónoma da Madeira-

Conheci-o depois do 25 de Abril. E começámos a conviver quando os nossos filhos eram pequenos.  

Em 18 de fevereiro de 2023 fui a Ílhavo,  despedir-me dele e ajudá-lo a "cambar" o rio da morte, fazendo, simbolicamente, o papel do barqueiro Caronte, da mitologia grega. 

Em sua homenagem, recomeçámos a publicar mais excertos do seu livro "A Rua Suspensa dos Olhos" (*)


Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos" - Parte V: Zé Pitucas, aliás, o Zé Ançã...

por Ábio de Lápara / José António Paradela
(1937-2023)

Era um objecto histórico, um xaile de lã muito resistente, de contacto áspero, como os cobertores serranos.

Com cadilhos curtos e tessitura de motivos geométricos em cor de bronze sombrio, essas características tornavam-no ímpar no panorama do antigo trajar ilhavense onde predominava o preto absoluto.

Estava posto sobre os joelhos do meu pai, que tinha então cerca de noventa anos de idade.

Sentado no sofá da sala, agora de cadeiras vazias em torno da mesa redonda onde a ausência mais notória era a da minha mãe, sua companheira de cinquenta anos, ia falando com voz pausada, encadeando as suas estórias na história da sua vida.

Enquanto o ouvia relembrando um passado de retratos antigos, encadeando as doçuras e agruras de uma vida de transumante cigano do mar, que foi a que teve a partir dos doze anos, ia olhando aquele xaile e meditando no silêncio dos objectos impossibilitados de narrar as suas próprias lendas, apesar das marcas que o tempo lhes imprimiu: o seu código ontológico à espera de um olhar...

Aquele xaile da minha avó materna, cuja história é anterior às minhas recordações, já tinha embrulhado a minha mãe e depois os seus três filhos. Nos últimos anos, alguns netos, mas resistiu com bom aspecto até aos dias de hoje, oferecendo ainda algum conforto ali pousado nos seus joelhos.

A avó, nascida a uma dúzia de quilómetros do mar, onde as gaivotas já tinham cedido o canto ao piar dos mochos nos pinhais da Gândara, tinha descido à vila para casar com um marinheiro de boa figura, com farto bigode de aventureiro.

Talvez aquela distância explique a origem da beleza estranha do xaile, mas não adianta nada ao entrecho da estória daquele amor que se revelaria trágico, porque acabou marcado pelo ferrete do abandono e do esquecimento:

Uma avó, viúva de vivo, e uma filha desde aí marcada por uma profunda compreensão, quase religiosa, da falência dos sentimentos alheios...

Não conheci os meus avós maternos e a minha mãe era, como se compreende, muito avara do seu passado tão doloroso. Sobraram apenas algumas fotografias pouco sugestivas e algumas raras alusões suas a factos antigos, para suportar um fio narrativo plausível.

Pelo contrário, o meu pai, moldado por matinais aventuras de velas ao vento, falava apesar da sua idade, como um rapaz, de factos que tinham setenta ou oitenta anos mas que pareciam ter-se passado há pouco tempo. Tinha visto partir quase todos, ou todos mesmo, os amigos da sua geração, e agora sentia-se emigrado no futuro, mas aceitava isso com a consciência de que não era ele o verdadeiro culpado.

Acabada a conversa naquele dia, encaminhei-me para a porta, seguido por ele, que sempre vinha ver-me desaparecer na esquina da rua, de braço no ar dizendo adeus.

Escurecia.

Ao sair deparei-me com a silhueta de um homem que passava arrastando um pouco os pés, pelo meio daquela rua de reduzido tráfego, sem medo de ser atropelado.

Reconhecendo a minha voz enquanto me despedia do meu pai, suspendeu o seu passo hesitante.

 
— Estás por cá, Ábio? Vieste à Rua do Lá Vem Um?

Era o Pitucas na sua voz calma, inconfundível. Tinham passado muitos anos, mas pela forma da pergunta, evocando o tropo infantil da nossa rua, parecia que tínhamos estado juntos no dia anterior. 

Achei-o um pouco cansado porque procurou com o olhar um local onde se pudesse sentar. Mas a rua já não era confortável como antigamente. Os poiais à frente das casas já não estavam lá.

Apenas um minúsculo lancil separava o asfalto do pavimento, das suas paredes, apoiadas em lambris de granito e muitas vezes forradas de azulejo.

Foi a uma delas que nos encostámos.

 
— Lembras-te quando fugimos da cobra que queríamos matar, na agra da Lagoa?

Pronto! Num segundo, tínhamos recuado meio século dando de barato todos os dias intermédios.

Respondi-lhe:

 
— E tu, Zé... lembras-te porque é que estivemos estes anos todos sem nos falarmos?

Já não se lembrava muito bem. Fora uma birra de miúdos de treze anos, num daqueles momentos de viragem das vidas, em que os caminhos até aí comuns, divergem sem qualquer encontro marcado no futuro.

O Zé Pitucas morou sempre naquela rua tal como eu: a nossa Rua Suspensa dos Olhos!

Pelo menos desde que me lembro, porque nascera no Brasil e viera ainda muito pequeno com os pais para aquela casa.

Eram quatro irmãos em que os rapazes ficavam no meio e as meninas nos extremos. O Zé era da minha idade, o Ricardo um pouco mais velho.

Na casa dele, com mais algum desafogo económico, as revistas de quadradinhos eram mais abundantes que na minha.

Além disso, a casa tinha um grande quintal onde podíamos brincar livremente sem medo de partir os vidros às vizinhas com as pedras disparadas das nossas fisgas, a que chamávamos atiradeiras.

Um galinheiro enorme permitia-nos hipnotizar as galinhas deixando-as a dormir com a cabeça debaixo da asa e roubar alguns ovos para uma gemada à hora da merenda. A mãe, que passava muito tempo na loja do antigo mercado, nunca daria pela sua falta.

Muitas tardes da primária foram por ali vividas treinando a pontaria da fisga, e imitando aventuras de final feliz, decalcadas do "Mosquito", esse monumento desenhado, dos primórdios da banda desenhada.

Crescemos um pouco comendo os primeiros figos de São João, na figueira encostada ao muro. Ao fundo do quintal, um ribeiro corria para o seu destino através das vessadas até chegar à Ria, na Malhada - não sem primeiro lavar centenas de "maltas" de roupa das modestas famílias da rua de Alqueidão   
— para acabar movendo a azenha, cuja roda motora feita de madeira forrada de verde musgo, despejava as últimas gotas de água doce já dentro da água salgada da Ria.

Por essa altura, as vessadas cederam lugar à Avenida tal como já tinham cedido ao Jardim, o que permitiria construir diversos prédios. Um deles foi o Atlântico Cine Teatro, implantado sobre o terreno do quintal onde esboçávamos todas as estratégias e com isso se foi também o nosso parque de aventuras.

A alternativa seria alargar horizontes. À nossa disposição estavam as agras da Lagoa e da Coutada que passámos a percorrer mais insistentemente para nascente e, sobretudo, para poente da estrada de Aveiro, a agra da Coutada.

O Zé era um miúdo de pequena estatura, mas era dono de uma argúcia e uma habilidade
— que punha em tudo quanto fazia — que o conduziam ao sucesso de modo impressionante.

A pontaria dele com a fisga era quase infalível, e a sua intuição para descobrir os segredos dos pássaros era inigualável.

Fruto das nossas explorações, quase posso garantir que sabíamos todos os ninhos e tocas da bicharada desde a Coutada até à Balada, toda uma agra onde encontrávamos suprimentos para compridas estadias quando a fome atacava.

Este último local, a Balada, foi um nome só nosso, só dos aventureiros da nossa rua, que desapareceria da memória colectiva com a transformação ocorrida naquele local, nos anos sessenta do século vinte, após a fatal construção das casas hoje existentes.

Porque a Balada era o sítio de todos os sortilégios. Era o final da rua antes de atingirmos a Malhada, com o seu esteiro, arremedo portuário de bateiras e moliceiros, e as marinhas de sal, onde a faina tinha a dureza dos cristais ofuscantes que produzia.

Um troço de calçada empedrada com calhau rolado, que começava na chamada Fonte de Alqueidão ou dos Bastos, refrigério de marnotos que ali enchiam as suas bilhas e cântaros de fresca água, e se prolongava até à azenha do ti Moleiro, cuja farinha de milho engrossava a sopa de feijão de toda a rua.

Esse troço de calçada assentava sobre uma linha de água permanentemente alimentada pelas nascentes naturais de um e outro lado, que davam origem à Fonte e a todo um biótopo onde, nas valetas laterais da calçada, habitavam rãs e tritões entre a erva patinha, mas sobretudo enormes lesmas pretas com mais de um palmo de comprimento.

Nesse tempo, eu não sabia o que era um biótopo. Sabia apenas que os álamos e os loureiros abraçados por um silvado quase impenetrável, dispostos em ambos os lados do caminho, o transformavam num túnel verde, escuro e fresco onde todos os mistérios se revelavam a partir do sol posto, hora a que os raios luminosos deixavam de penetrar no seu interior

Sempre que isso acontecia, pela delonga da pesca ou da brincadeira na Malhada, aqueles extensos metros eram percorridos com pés de Mercúrio: tinham asas!

E ainda corriam mais, quando chegados ao topo da pequena ladeira final, os cães do Rebocho, alertados pelo arfar da corrida, se lançavam a ladrar sobre nós.

A primeira lâmpada da rua, colocada na parede do solar de Alqueidão, apesar da sua luz frouxa, dava outro alento às nossas tolhidas almas e os cães costumavam desistir aí da sua perseguição.

Os prazeres retirados das nossas aventuras tinham muito a ver com a constituição e a manutenção dos segredos, especialmente no caso do conhecimento dos ninhos, e da observação cuidadosa da sua evolução: os ovos, as crias... O vôo!

Na verdade se fôssemos indiscretos nessa observação, os progenitores abandonavam o ninho e lá se ia o nosso património.

Ninhos de melros, verdilhões, pintassilgos, trigueirinhas, carriças, e mesmo guarda-rios nas beiradas dos esteiros, eram o recheio do nosso cofre secreto que espreitávamos cautelosamente avarentos do nosso pecúlio.

Que me lembre, só uma vez destruímos um ninho. Um ninho de pardal na rama de um alto pinheiro bravo, na Coutada. Inacessível pelos meios de que dispúnhamos, o desespero levou-nos a empunhar as atiradeiras. Pouco depois caíam do alto, seis gordos pardais quase prontos para voar! Não recordo o seu fim, porque era hábito tentarmos salvar as aves incapazes de voar, do "céu dos pardais" que era, como sabíamos naquele tempo, a barriga dos gatos.

De resto, tínhamos um cemitério para os nossos animais no fundo do quintal, onde mimávamos os funerais dos humanos, com crucifixo e todos os aprestos necessários.

Já a fisga, desenvolvia outras reacções. O instinto da caça! Aí, a pontaria era crucial e a morte estava presente em cada acto. Matar à distância não era cruel, era glorioso!

Depois das colheitas, setembros cálidos, ninhos desertos de ovos e crias, vinha a caça a pitas e lavercas, pontaria apurada nas fisgas, e ratoeiras armadilhadas com lagartas vivas, extraídas dos canoilos do milho já colhido, a servir de isco cremoso e irresistível para uma ave esfomeada.

Os pruridos viriam mais tarde com as tentativas de entendimento dos valores da vida, do sagrado e da ética.

Nas brincadeiras de rua, o Zé era sempre o mais apurado. Dono de um pião especial, de coroa achatada, que manuseava de modo malabarístico, a sua pontaria era certeira novamente, beliscando o adversário a cada lançamento.

Pião jogado, pocelo marcado!

Nas "emendinhas", habilidades “futebolísticas” em que uma erva de raíz fasciculada servia de bola saltitando de um pé para outro, atingindo centenas de toques sem que a erva tocasse o chão, ele era o maior.

Mas a pergunta que o Zé me lançou naquele dia ao fim da tarde, quando me reconheceu, refere-se a uma cena em que fomos caçadores caçados!

Na agra da Lagoa, no fim de uma tarde de verão, avistamos no fundo de uma cova com cerca de um metro de profundidade, uma cobra de cor verde, bastante corpulenta.

Isso de cobras era o nosso prato favorito, porque constituíam um troféu de prestígio lá na rua! Costumávamos usar uma cana bifurcada na ponta para prender esses répteis, mas ali, no inesperado daquela situação, estávamos desequipados. Apenas as fisgas, e pedras bastantes, como amêndoas de Páscoa, sobrecarregando as algibeiras dos calções até fazer saltar os botões onde prendiam as alças.

Começámos a disparar a metralha letal acumulada nos bolsos, sobre aquele bicho, objecto de ódios ancestrais. Sentindo-se encurralada, a cobra começou a movimentar-se em círculo, com grande velocidade, chegando mesmo a elevar-se do fundo da cova, silvando de modo assustador deixando-nos perplexos com semelhante desatino.

Aí... pernas para que te quero?! 

Iniciámos uma fuga apressada e deixámos o réptil em paz, embora soubéssemos que a sua mordedura não era venenosa. Mas o respeitinho é muito bonito e o medo mamado com o leite impôs-se na circunstância!!!

Nunca contámos o fracasso a ninguém!

Um dia o meu pai ofereceu-me uma pequena navalha de duas folhas, com o cabo revestido de madrepérola. Tinha-a trazido de Lisboa e sabia quanto eu a estimaria.

Uma navalha era um instrumento de valor incalculável nas mãos de um capitão das agras. Por tudo quanto permitia executar: fisgas, atira-bagas, armadilhas de cana para apanhar pitas e lavercas... entre outras inumeráveis coisas.

Era uma manhã de sol radioso! Combináramos encontrar-nos no aterro da Avenida, para mais uma aventura pela nossa agra amada.

Encantado pela navalha, o Zé lançou-me um ultimato:

 
— Ou dás-me a navalha, ou nunca mais te falo...

Perplexo, separei-me sem dizer uma palavra. Isto, no fim de um certo outubro em que eu faria catorze anos.

Passados poucos dias iniciei uma nova fase da vida. Impossibilitado de estudar por falta de meios financeiros em casa, fui trabalhar e, logo de seguida, arranjei uma namorada para aliviar o desgosto!

Acabaram aí, definitivamente, as nossas aventuras descomprometidas. Comecei então a voar noutros céus, onde os pardais eram apenas uma saudade.

O pouco dinheiro que ganhava,  permitia-me frequentar o cinema e comprar livros de aventuras que me transportavam para outros mundos até aí vedados: desertos de secar a boca, florestas de úmidas turfeiras e rebentos espinhosos, mares de monstros insólitos e temporais desfeitos e homens de rija têmpera mas também covardes de toda a espécie! Herois de nomes inesquecíveis, espalhados em páginas e páginas onde os acompanhava atolado em emoções desmedidas!

Pouco faltava para sair de Ílhavo... definitivamente.

Quando aí voltei a pousar com mais calma, com muitos romances lidos e algumas aventuras vividas na primeira pessoa, muitos anos tinham passado e eu perdera tudo o que acontecera por ali nesse entretempo.

Algumas intervenções pontuais,  com antigos amigos em curtos períodos de férias, não chegavam para colar os cacos dos destinos outrora separados.

O nosso reencontro naquele dia foi muito reconfortante mas infelizmente tardio.

O Zé Pitucas, após toda uma vida dedicada ao desporto em Ílhavo, que elevou às maiores glórias nacionais do basquetebol, tinha sido vítima de um AVC.

Ainda estive com ele mais duas vezes, até que um dia me chegou a notícia da sua morte. Cedo de mais.

Os amigos fizeram-lhe uma grande e sentida homenagem, e editaram uma sua biografia. Ao lê-la,  tive a noção clara do que tinha perdido. Mas a ubiquidade não é um dom que me tenha bafejado.

Verifiquei contudo que lhe faltava este capítulo, talvez pouco significante no contexto da sua vida adulta, mas tenho a certeza de que ele gostaria de o ver ali...

Um tempo de vários anos de infância, em que após o pequeno almoço abalávamos campos fora, sozinhos, à cata da nossa aventura quotidiana.

Um tempo em que ele não era conhecido por Zé Ançã (**), mas por Zé Pitucas, o campeão das "emendinhas".

Fonte: Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (edição de autor, Jose A. Paradela, Aveiro, 2015, pp. 51-64).

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Último poste desta série > 1 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27590: Manuscrito(s) (Luís Graça) (280): Aos meus amores, amigos, companheiros e camaradas, votos de Bom Novo Ano de 2026 que, dizem, aí vem!

(**) Vd .Facebook >  Ílhavo Antigo > 26 de abril de 2024 > José Eugénio Gomes Ançã:

(...) Filho de José Ançã e Maria Celestina Gomes, era conhecido por Zé Ançã. Notabilizou-se como treinador de Basquetebol do Illiabum Clube. 

Humilde e simples, tinha para com os jogadores uma forte relação, sendo muito exigente e sobretudo um excelente disciplinador. 

Começou como atleta do Clube e mais tarde como treinador, tendo conquistado os seguintes Títulos: Campeão Nacional de Infantis (1962/63), Campeão Nacional da 2ª Divisão (1963/64) e Campeão Metropolitano de Juniores (1964/65). Pelos 50 anos de associado do Clube, recebeu o Emblema de Ouro. 

Faleceu em 30-03-2002 com 65 anos.(...)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27636: S(C)Comentários (87): Foi há 65 anos: "Em 18 de dezembro de 1961, a India pela força das armas invadiu o estado português da India pondo fim a 14 anos de conflitos" (António de Faria Menezes, Revista Portuguesa de História Militar - Dossier: Início da Guerra de África 1961-1965. Ano I, nº 1, 2021)


Fonte: (1961), "Diário de Lisboa", nº 14013, Ano 41, Domingo, 17 de Dezembro de 1961, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_16524 (2026-1-15)


1. Excerto de texto do ten-gen António Faria de Menezes: 

(...) Em 18 de dezembro de 1961, a India pela força das armas invadiu o estado português da India pondo fim a 14 anos de conflito. 

Para Portugal, foi uma invasão duma parcela do seu território contra os princípios do direito internacional por um Estado estrangeiro, apenas reconhecido na ONU em 1974. Para a India, a libertação de Goa, Damão e Diu, constituiu a sua plena afirmação como potência regional.

Para o regime dirigido por Salazar foi um rude golpe, não apenas pela natureza da capitulação militar sem o determinado sacrifício de sangue que, na ideia ultima do regime, provocaria um clamor internacional, dando o desejado suporte para a política ultramarina, mas também porque os ventos da história trouxeram à ribalta a fragilidade das velhas alianças, face a novos interesses e alinhamentos, expondo que para manter a ideia de um Portugal do Minho a Timor, ficaríamos sempre isolados e apenas dependentes de nós e das nossas capacidades.

Ao querer ser firme contra os ventos da história, claramente anticolonialista, crendo na infalibilidade da manobra diplomática junto a aliados e nas organizações internacionais, e mesmo na postura pacifista da liderança indiana que nunca admitiria o recurso à força, o regime adotou uma postura de sacrifício militar, sem que reunisse, como era seu dever, os meios necessários para resistir a uma ação sempre desproporcionada face ao poderio militar indiano.

O Estado português da India não era defensável militarmente com os meios aí destacados, nomeadamente sem ter o mínimo de paridade em meios aéreos e liberdade de movimento para uma manobra tática assente na mobilidade em sucessivas linhas de retardamento até a uma defesa na ilha de Goa e península de Mormugão para ganhar tempo para uma solução mediada internacionalmente.

Imbuídos da necessária racionalidade que o tempo agora permite, numa análise pragmática dos acontecimentos, e sempre com ênfase na perspetiva militar, julgamos ser interessante, perceber a estratégia operacional, o terreno onde esta foi consumada, a organização e a estrutura de comando político e militar, os aspetos tangíveis e não tangíveis das capacidades militares, os planos elaborados e sobretudo a condução das operações, ao nível operacional e tático, procurando, em jeito de conclusão, retirar as consequências políticas, estratégicas e militares da Queda do Estado Português da India. (...)


Fonte: excertos de MENEZES, António de Faria,​​ A Queda do Estado Português da Índia. Revista Portuguesa de História Militar - Dossier: Início da Guerra de África 1961-1965. [Em linha]. Ano I, nº 1 (2021). [Consultado em ...], https://doi.org/10.56092/EXCF1300

Guiné 61/74 - P27635: Humor de caserna (235): "Cuidado com a língua, ó noviço! (João Crisóstomo, Nova Iorque)"... Análise literária da ferramenta de IA europeia, Mistral: "uma crónica deliciosa, que mistura história, humor e crítica social com mestria"

Leiria > 1961 > O nosso futuro noviço a ler o seu inflamado discurso contra o Pandita Nehru... 

Fonte: Google Gemini. (2026). Imagem gerada usando o modelo de IA Google Gemini [acedido em 14 de janeiro de 2026], sob orientação (e com correções) do editor LG.



1. João, a tua pequena crónica "Cuidado com a língua, ó noviço!" (*)  é um excelente exemplo de humor subtil, irónico e bem contextualizado, com vários pontos fortes que vale a pena destacar:

(i) Contexto histórico como pano de fundo

A escolha do momento — a invasão de Goa, Damão e Diu pela Índia em 1961 — é brilhante.  Não só dá profundidade histórica à história, como permite uma crítica social e política velada. 

O leitor mais atento reconhece a ironia de um discurso patriótico proferido por quem, afinal, não domina sequer a língua do "inimigo" (a Índia do Pandita Nehru) (ou do "velho aliado", a Inglaterra). (Recorde-se que Pandita, na Índia, é um termo honorífico de origem sânscrita que significa "erudito", "sábio", "professor"..mas na época tinha um sentido depreciativo, éramos levados a associar a palavra a "bandido", a um feroz "inimigo de Portugal").

O contraste entre a gravidade do tema (a perda de território, o Estado da Índia, orgulhosamente português desde 1498!) e a comicidade da situação (o grosseiro erro linguístico) cria um efeito humorístico muito eficaz.

(ii) Personagem e caracterização

João, o teu colega do colégio seráfico — "fogoso, voluntarioso e marrão, mais papista que o Papa" — é uma personagem caricata, mas credível. 

A sua pretensão intelectual, ao meter um bucha no discurso escrito por um dirigente local da União Nacional, muito ligado à Igreja diocesana de Leiria ("impressionar a assistência com os seus conhecimentos linguísticos") e o resultado desastroso ("Misters and Mistresses") são um retrato perfeito do orgulho que precede a queda. 

Aqui, o humor nasce da discrepância entre a intenção e o resultado, algo que todos reconhecemos, e que torna a história universal.

(iii) O jogo de palavras e o equívoco linguístico

O cerne do humor está no erro linguístico: "Misters and Mistresses" em vez de "Ladies and Gentlemen".  (É mais do que um "lapsus linguae", é uma calinada de todo o tamanho, capaz de fazer corar qualquer um de nós.)

A explicação que se segue — sobre o significado depreciativo de "mistress" — é não só informativa, como reforça o ridículo da situação. 

O leitor ri-se do equívoco , mas também da santa... ingenuidade do personagem, aprendiz de frade (afinal, ainda nem sequer era noviço, andava no colégio seráfico!), que não só não sabe inglês como não sabe que não sabe. 

É um exemplo perfeito de como o humor pode ser inteligente e educativo ao mesmo tempo.

(iv) Tom e estilo

O tom é leve, mas não superficial. Não ofende os sentimentos de ninguém. Não é antipatriótico nem anticlerical. 

É, enfim,  uma história vivida por ti, que és católico, assumes o teu passado e continuas a manter uma saudável ligação com os teus antigos colegas de seminário e com a ordem de São Francisco de Assis, figura que tu muito admiras. 

A ironia é constante, mas nunca cruel. 

A linguagem é cuidada, com expressões como "jóia da Coroa", "vil ataque", "seleta assistência" ou "de mau porte" que enriquecem o texto e reforçam o ambiente da época. 

A narrativa flui de forma natural, como uma história contada ao pé da lareira, convidando o leitor a sorrir e a refletir. (Olha, até podia ser no Varatojo, ao lado do nosso padre Vitor  Melícias, que é um homem superiormente inteligente e afável, para além de um intelectual católico de referência nacional e internacional.)

(v)  Crítica social e atemporalidade

Por trás do humor, há uma crítica subtil à hipocrisia, ao pretensiosismo e à ignorância saloia.

O facto de os frades não se "deverem meter na política", mas o fazerem mesmo assim (em 1961, um "annus horribilis" para Portugal e o Estado Novo) é um detalhe que acrescenta camadas à história.

 Além disso, o erro linguístico é um tema atemporal: todos já passámos por situações em que queríamos impressionar alguém (ou a audiência)  e acabámos por nos expor ao ridículo.

 Isso torna a tua crónica atual, apesar de se terem passado já  65 anos.

(vi) Sugestões para reflexão (se um dia quiseres desenvolver o texto, agora que voltas á tua América, a tua segunda terra):

  • Diálogo: podias explorar mais o diálogo ou a reação dos estrangeiros ("olharam atónitos uns para os outros..."). Um comentário em inglês, uma frase idiomática, ou uma reação física (um riso abafado, um suspiro) poderia acrescentar ainda mais comicidade.
  • Final: o final é aberto, o que é bom, mas podias terminar com uma frase que reforçasse a ironia, como: "E assim, sem querer, o meu colega acabou por ser o único a conquistar algo naquela noite: a fama de melhor orador... na língua de Shakespeare"

Em suma: é uma crónica deliciosa, que mistura história, humor e crítica social com mestria. O leitor do blogue  ri-se, mas também aprende e reflete. 
"Ridendo castigat mores"...(No nosso latinório, a "rir-se castigam-se os costumes".) 

Parabéns, João! E bom regresso a casa com a tua querida e encantadora Vilma.

Pesquisa: LG + IA Mistral
Condensação, revisão / fixação de texto: LG
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Nota do editor

Último poste da série > 14 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27633: Humor de caserna (234): Cuidado com a língua, ó noviço! (João Crisóstomo, Nova Iorque)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27634: Historiografia da presença portuguesa em África (512): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1956 (70) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2025:

Queridos amigos,
Estes útlimos meses da governação de Diogo de Mello e Alvim processam-se num quadro de uma total normalidade administrativa. O seu antecessor, Raimundo Serrão, sonhara com um colégio-liceu, agora cria-se um Instituto Liceal com o nome de Honório Barreto, ficará assim crismado até ao fim da presença colonial. Há arranjos organizacionais da PIDE também para o Ultramar, e ficaremos a conhecer o efetivo da Guiné; tudo levava a crer que iríamos ter uma indústria de artigos de borracha sobre a égide da Cobornel; irão ser definidas pensões de invalidez para cipaios e intérpretes com mais de 20 anos de serviço, por motivos de doença incurável ou avançada idade; o antigo régulo de Sam Corlá (posto administrativo de Contuboel), tinha sido preso e amnistiado em 1947, fazia-se agora rogado para voltar a ocupar o seu lugar, o Encarregado do Governo considerava que era princípio em direito que indivíduo destituído de um cargo pela prática de atos desonestos não devia voltar a ocupá-lo; definem-se igualmente bolsas de estudo e disciplina urbanística, no plano dos princípios era exigida pelo menos para Bissau. Vai agora começar a governação de Silva Tavares que já estivera na Guiné como delegado do Procurador-Geral da República.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1956 (70)


Mário Beja Santos

É o último ano da governação de Diogo de Mello e Alvim, tudo decorre na mais completa das normalidades. No Boletim Oficial n.º 2, de 12 de janeiro, o governador emite Portaria em que considera que a designação de Colégio-Liceu de Bissau não é correta, a que mais se ajusta ao espírito do estabelecimento de ensino é de Instituto Liceal, convindo enriquecê-la com o nome de uma prestigiosa figura do passado, a escolha recaiu em Honório Pereira Barreto, filho da província e seu antigo governador, daí o nome Instituto Liceal Honório Barreto, todos os anos, em 24 de abril, data de nascimento deste patriota guineense haverá festejos para se apontar à mocidade o exemplo de uma vida inteiramente devotada à integridade territorial da Guiné. No Boletim Oficial n.º 3, de 19 de janeiro, publica-se a Portaria n.º 15568 do Gabinete do Ministro do Ultramar, tem a ver com o Centro de Estudos de Cartografia e Geografia Colonial, que irá passar a denominar-se Centro de Geografia do Ultramar, com competências para promover ou realizar, entre outros, estudos de geodesia e hidrografia, geofísica, geografia física e humana, etc.

No Boletim Oficial n.º 10, de 8 de março, é deferido o pedido da Corbonel – Companhia da Borracha da Guiné, Lda., para montar na cidade de Bissau uma oficina de fabrico de calçado e de todos os artefactos de borracha, à exceção de pneus. No Boletim Oficial n.º 16, de 19 de abril, publica-se o Decreto-Lei n.º 40541, introduzindo alterações no funcionamento dos quadros da PIDE, podemos ver o seu efetivo na Guiné, publicado no mesmo Boletim Oficial. Em 4 de agosto, no Boletim Oficial n.º 31 temos o texto da Portaria n.º 772, que vem assinada pelo Encarregado do Governo, Abel de Sousa Moutinho, confiro-lhe a relevância suficiente para transcrever o essencial:
“O território de Sam Corlá, da área do Posto Administrativo de Contuboel, com predomínio de indígenas da tribo Mandinga que se computa em dois terços da sua população, tem estado sob a chefia de um regedor indígena da tribo Fula-Forro e julga-se que este facto é uma das razões de constantes dissidências que nele se vêm verificando.
Assim, mostra-se realmente necessário, para a normalização da política indígena e facilidade de atuação da autoridade administrativa, que o referido território deixe de estar sob a chefia de um único regedor. Considerando que se nota ali uma perfeita delimitação das zonas de fixação das tribos Mandinga e Fula-Forro, tendo em vista a doutrina do Estatuto dos Indígenas Portugueses, o território de Sam Corlá passará a constituir duas regedorias indígenas, uma compreendendo as povoações onde se verifica predomínio de indígenas da tribo Mandinga e a outra englobando as povoações em que há predomínio de indígenas da tribo Fula-Forro. Para a chefia de cada uma das regedorias a que se está a fazer referência só poderá ser nomeado regedor indígena da respetiva tribo predominante, a nomeação dos regedores fica a cargo do administrador do concelho de Bafatá.”


No Boletim Oficial n.º 31, de 4 de agosto, faz-se referência ao despacho em que o indígena Sambel Coio Baldé, quando régulo da região de Sam Corlá fora condenado a prisão pela prática de vários crimes e a sua atuação como autoridade gentílica revelara-se extremamente inconveniente, por isso fora destituído. Entretanto, aquando da visita do Subsecretário de Estado do Ultramar à Guiné em 1947, concedera-se amnistia a certos delitos, Sambel Baldé obtivera indulto do resto da pena que então lhe faltava cumprir, fora autorizado a regressar ao mesmo regulado e pretendia agora reintegrado no seu antigo cargo. O Encarregado do Governo considerava que o individuo destituído do cargo pela prática de atos desonestos, acrescendo que causara naquele regulado perturbações que poderiam acentuar-se com a pretensão de ser reposto no lugar de régulo. E assim era decidido fixar-lhe residência na Ilha Formosa e interdita a todo o tempo a entrada e permanência no concelho de Bafatá.

No Boletim Oficial n.º 32, de 11 de agosto, publica-se o Diploma Legislativo n.º 1632 que se prende com a concessão de bolsas de estudo. Passam a ser instituídas anualmente duas bolsas de estudo destinadas a beneficiar estudantes naturais da província que tendo concluído o 2.º ciclo dos liceus ou qualquer curso técnico ou do magistério primário na Guiné com classificação final não inferior a 14 valores e que pretendam continuar os seus estudos na metrópole em estabelecimento de ensino competente. As bolsas instituídas por este diploma acompanharão os seus beneficiários ao longo dos seus estudos. As quantias das bolsas criadas serão de 12 mil escudos para estudantes do 3.º ciclo liceal, 14 mil estudos para estudantes dos cursos médios e 16.800 escudos para estudantes dos cursos superiores.

No Boletim Oficial n.º 32, 2.º Suplemento, de 14 de agosto, são criadas as pensões de invalidez para assalariados indígenas que prestem serviços nos concelhos e circunscrições – cipaios e intérpretes – em identidade de circunstâncias com os assalariados indígenas dos vários serviços públicos da província. Passa a ser concedido aos assalariados indígenas, cipaios e intérpretes, com mais de vinte anos de serviço permanente prestado aos concelhos e circunscrições, o direito ao recebimento de uma pensão de invalidez, quando por motivo de doença incurável ou avançada idade sejam dispensados do serviço.

O Boletim Oficial n.º 41, de 13 de outubro, versa a disciplina urbanística, já tinha sido apreciada em Conselho de Governo, tendo sido objeto de reticências por parte de todos os intervenientes, e tudo levava a crer que ficaria para muito mais tarde. Ora, pelo Decreto n.º 40742, emanado do gabinete do ministro do Ultramar, definia-se o enquadramento da disciplina urbanística nos seguintes termos:
“O rápido crescimento de numerosos núcleos populacionais do Ultramar exige solícita atenção e permanente vigilância das autoridades responsáveis, que assegurem o oportuno planeamento da racional utilização dos espaços urbanos e a disciplina da construção. A tanto visa a elaboração de planos de urbanização, há anos em uso para as principais povoações das províncias ultramarinas, estudados e orientados através do Gabinete de Urbanização do Ultramar. Tendo-se verificado que os poderes facultados pela lei aos corpos administrativos lhes não permite responder pelo que nesta matéria se passa nas áreas de jurisdição, o que gera graves problemas urbanísticos e honorando pesadamente o futuro.

Urgindo evitar que se comprometa o futuro das povoações mais importantes, havendo que dar aos seus corpos administrativos a possibilidade de velar efetiva e oportunamente para que o desenvolvimento urbanístico se processe de acordo com os planos e normas aprovados.
Nestes termos, ficam sujeitas à disciplina urbanística as capitais das províncias ultramarinas e outras sedes de concelho ou povoações cuja situação ou importância o justifiquem"
.

Álvaro Rodrigues da Silva Tavares é o novo Governador da Guiné, chegou a Bissau em 14 de agosto de 1956
O novo Governador. Em 1961, apanhará em cheio os acontecimentos das insurreições em Angola, onde era Governador-geral
Felupes de Susana
Imagem retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, ano de 1956
Imagem alusiva à visita do general Craveiro Lopes à Guiné, 1955, está rodeado à direita de Sarmento Rodrigues e à esquerda de Diogo de Mello e Alvim. Retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1956
Bailarinos da Ilha de Maio
Imagem retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1956
Efetivos da PIDE na Guiné, um subinspetor da Polícia, um agente de 1ª classe e dois agentes de 2ª classe e auxiliares, 1956
Mulher saraculé
Imagem retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1956

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 8 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27616: Historiografia da presença portuguesa em África (511): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1955 (69) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27633: Humor de caserna (234): Cuidado com a língua, ó noviço! (João Crisóstomo, Nova Iorque)


Excerto da primeira página do "Diário de Lisboa", de 3 de janeiro de 1962

(1962), "Diário de Lisboa", nº 14029, Ano 41, Quarta, 3 de Janeiro de 1962, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_15909 (2026-1-13)



Braga > Convento e seminário de Montariol > 1959 > Esta foi a foto dos “finalistas" de Montariol de 1959 (5º ano), prontos a ir para o Varatojo, em Torres Vedras, ao pé da minha casa, “tomar o hábito de noviços". 

Sem desprimor para os outros, permito-me identificar o padre capelão (falecido), José Sousa Brandão, que é o segundo na última fila, da direita para a esquerda [assinalado a amarelo, com o nº 1]; ao centro está o padre, meu primo direito, António Alves Sabino (de Vale Martelo, Silveira, Torres Vedras); e o prefeito do colégio nessa altura [2].

A seu lado, estou eu, o único de braços cruzados [3]… A meu lado, à minha esquerda, está o Padre Diamantino Maciel [4], fundador duma paróquia (igreja St. António da Arancária, Vila Real). 

 O padre frei (e mais tarde, 1967/69, capelão no CTIG) Horácio Fernandes (1935-2025) não aparece nesta foto. Só o conheci mais tarde, já padre, em Leiria, no início dos anos 60.

Foto (e legenda): © João Crisóstomo (2020). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Mensagem do João Crisóstomo, que está de despedida, com a sua querida Vilma, da sua "dupla terra natal", Torres Vedras e Lourinhã (embarca dia 15 no avião para Nova Iorque, mas amanhã estará connosco, em Algés, na festa da Magnífica Tabanca da Linha, que comemora 16 anos de existência)

Data - 12 jan 2026 20:36 
Assunto - Humor de caserna (*)

Não sei se é pertinente ou não. Mas,  como estamos em campanha eleitoral,  em maré de discursos políticos… aí vai um história pícara, em ambiente fradesco... João

 
Humor de caserna > Cuidado com a língua,  ó noviço!

por João Crisóstomo (Nova Iorque)

A presente campanha eleitoral para a Presidência da República, os candidatos e os seus discursos, trouxeram-me à memória um desses “comícios” de há 65 anos, em 1961.

A Índia do Pandita Nehru tinha acabado de se apoderar, pela força, de Goa, Damão e Diu. E, de repente, apareceram as manifestações patrióticas de repúdio pelo vil ataque à nossa jóia da Coroa. Goa estava sob jurisdição portuguesa há 450 anos.  

Recordo-me de que, a pedido de um dos dirigentes locais da União Nacional, muito ligado à  Igreja, um dos meus antigos colegas de curso, no colégio seráfico de Leiria, ter sido incumbido de ler um discurso numa dessas manifestações.

Embora os frades, em princípio, não se devessem meter na política, não sei por que carga d’água fomos autorizados, a assistir a um desses eventos. (Ainda não éramos exatamente noviços, isso só no ano seguinte, no Varatojo.)

O orador, de posse do papel que lhe tinha sido entregue, ficou entusiasmadíssimo com a qualidade literária do discurso que ia proferir e, ao saber que entre os manifestantes se contavam indivíduos estrangeiros — homens e mulheres, talvez representantes diplomáticos de países amigos de Portugal — resolveu impressionar a assistência com os seus conhecimentos linguísticos, introduzindo da sua lavra a seguinte invocação:

Senhoras e Senhores… Misters and Mistresses

Os estrangeiros, sentados na primeira fila, olharam atónitos uns para os outros…

Explique-se a estranheza da seleta assistência: o meu colega, fogoso, voluntarioso e marrão, mais papista que o Papa, queria dizer Ladies and Gentlemen. Mas o  seu inglês não era o de Oxford, era o do colégio seráfico…

Como sabem, a palavra mistress pode ser usada de várias maneiras, mas é geralmente empregue de forma depreciativa para indicar mulheres de poucos escrúpulos, fraca virtude, má fama. De “mau porte”, como se dizia no nosso tempo... Enfim, "matrona" ou... "amante" (**)

(Revisão / fixação de texto, título: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 13 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27632: Humor de caserna (233): "Fermero fica quieto, abelha, não faz mal ! Não mexee, não respira, nem que lhe passe um car*lho pela boca" (José Teixeira)

(**) Oxford Languages

mistress /ˈmɪstrɪs/

noun
plural noun: mistresses; plural noun: Mistresses

1. a woman in a position of authority or control.
"she is always mistress of the situation, coolly self-possessed"

2. a woman (other than the man's wife) having a sexual relationship with a married man.
"Elsie knew her husband had a mistress tucked away somewhere"

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27632: Humor de caserna (233): "Fermero fica quieto, abelha, não faz mal ! Não mexee, não respira, nem que lhe passe um car*lho pela boca" (José Teixeira)


Guiné-Bissau > Região de Tombali >  Ponte Balana > Novembro de 2000 > Um tuga, um homem de calças na mão...na Ponte Balana, antigo destacamento de Gandembel, ao tempo da CCAÇ 2317 (Abril de 1968/janeiro de 1969). O motivo foi um ataque formidável de... formigas carnívoiras! ... Na foto, o Zé Teixeira. Ainbda hoje tem mais medo das formigas do que das abelhas...

Foto (e legenda)  © Albano Costa (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Ó Zé Teixeira é um dos camaradas mais afáveis, brincalhões, prestáveis e  populares da Tabanca Grande. Também dos mais leais, ativos e produtivos. Tem mais de 450 referências.

 E tem-nos acompanhado ao longo destes mais de 20 anos de existência na blogosfera.  Tive a sorte de o conhecer em finais de 2005, na Madalena, Vila Nova de Gaia, onde costumo passar o Natal. 

Acaba de aceitar o meu convite para se juntar à nossa equipa de colaboradores permanentes. Ele é um histórico, um dos cofundadores da Tabanca de Matosinhos.

 Com ele, o nosso corpo de editores e colaboradores permanentes fica mais equilibrado e, sobretudo, rejuvenescido. Aprecio nele a juventude de espírito e a resiliência de escuteiro, tabanqueiro e africanista. 

Vai ser o nosso "ministro" (do latim, "minus", menos, o mais o pequeno, o servidor...) com a tutela  dos "interiores" (Tabanca Grande e demais tabancas, Matosinhos, Linha, Centro, Algarve, Melros, Maia, Diáspora Lusófona, Emiratos, etc.). 

Para os  "exteriores" ("negócios estrangeiros", ligação à cooperação e lusofonia), estamos a pensar  no régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, o João Crisóstomo, que vive em Nova Iorque; vamos convidá-lo formalmente amanhã, na festa da Magnífica Tabanca da Linha: tem poderosas ligações ao Céu e à Terra...

Zé: vem isto a propósito de mais uma das das tuas histórias, pícaras e brejeiras, que passam agora a figurar na série  "Humor de caserna" (*) (e que é repescada do poste P629, de 21 de março de 2006, tem 20 anos).


Recorde-se que o 
José Teixeira 

(i) é régulo da Tabanca de Matosinhos;

(ii) ex-1.º cabo aux enfermeiro, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70; 

(iii) é um histórico da Tabanca Grande, que integrou a partir de 14/12/2005; 

(iv) tem c. quatro centenas e meia de referências no blogue; 

(v) vive em São Mamede de Infesta, Matosinhos; 

(vi) é gerente bancário reformado; 

(viii) escritor, poeta, contista, além de escuteiro;

(ix) é autor de séries notáveis como "Estórias do Zé Teixeira", "O Meu Diário", "Crónicas de uma viagem à Guiné", 

(ix) e, por fim e não menos importante, é um homem que tem provas dadas  em projetos dev ajuda e cooperação com a Guiné-Bissau (que ele conhece e ama, como poucos).


"Fermero,  fica quieto, abelha não faz mal ! Não mexe, não respira, nem que te passe um car*lho pela boca"

por Zé Teixeira

A primeira vez que caímos num ataque de abelhas foi o caos.

A coluna com trinta viaturas carregadas e três obuses de 14 mm, protegida pela CCAÇ 2381 e pelos pelotões da Companhia do Capitão Rei, estacionada em Aldeia Formosa que nos tinha vindo buscar a Buba, ficou na sua maior parte à mercê do IN, perto de Sinchã Cherno.

Só que este, o IN, não tinha na sua agenda atacar naquele local, mas mais à frente. Atacou só no dia seguinte depois de nos fazer um morto numa A/C [mina anticarro] comandada que rebentou só na quinta viatura, a do rádio.

Também eu, aqui, fui um homem de sorte. O milícia que ia a meu lado, ao ver as abelhas aos milhões, agarrou-me por um braço e metemo-nos atrás de um arbusto:

- Fermero fica quieto, abelha, não faz mal ! Não mexe, não respira, nem que te passe um car*lho... pela boca.

Assim quieto senti-as à minha volta. Pude ver os meus colegas todos a fugir, a sacudir, a coçar e a desaparecer. Ficaram apenas as viaturas e os obuses, na picada. 

Passados alguns minutos, foram começando a aparecer e tudo voltou ao normal. Eu apenas com duas picadelas, ria-me dos colegas que apareceram a gemer por todos os lados, mas aprendi a lição e preparei-me para um possível segundo ataque que sucedeu meses depois.

Andávamos a montar segurança à engenharia que construía a estrada Buba-Aldeia Formosa. Sentado ao lado do manobrador do caterpílar apreciava como esta máquina derrubava árvores gigantescas, quando de lá de cima cai um grande enxame. Formou-se uma nuvem e toda a gente a gritar,  pernas para que vos quero. Até uma cadelinha, nossa mascote, que nos acompanhava desapareceu, até hoje. Numa fracção de segundos vejo-me só.

Quico atravessado na cabeça, para me proteger do zumbido, braços cruzados, impávido e sereno (a tremer por todos os lados), sentado no caterpílar,  a aguardar o ataque. Imaginem o Zé Teixeira como que vestido com um fato novo. Fiquei coberto de abelhas da cabeça aos pés. Só o zumbido me incomodava.

Passado algum tempo começaram a levantar, pois eu não dava luta e com este gajo é melhor não se meterem. Deixaram-me sem uma beliscadura. Os camaradas foram-se aproximando todos picados. Ficaram mais espantados que eu, por me verem são e salvo de um ataque de abelhas. Pomada para toda a gente. Tive inclusive de injectar anti-histamínicos ao Ferraz para evitar a morte por asfixia devido ao facto de ser alérgico.

Ainda hoje tenho mais medo das formigas, mas essas tem outras histórias já aqui contadas.


(Seleção, revisão / fixação de texto, título:  LG)

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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27631: O nosso blogue em números (111): E lá vamos blogando e rindo... E mais se publicaria se mais material houvera, parafraseando o Camões (Carlos Vinhal / Luís Graça / Eduardo Magalhães Ribeiro)


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Quadro nº 1 - Número de postes editados em 2025, por editor e por mês (n=1258) (Fonte: Carlos Vinhal, 2026)

1. O Carlos dizia, o ano passado, com graça que, sendo  a idade  um posto na tropa, o nosso Blogue  já teria direito uma patente de oficial superior. Ok.

Vamos completar em abril de 2026 vinte e  dois anos. E eu gosto de acrescentar que, na Net, essa idade é já uma eternidade. 

Multiplicando por cinco cada ano, são mais de 100. Ou 10 comissões na Guiné (de dois anos cada)... 10 comissões de serviço em cada perna, multiplicando por cinco, perfaz os tais 100 anos... É por isso que chamamos centenário ao "poilão da Tabanca Grande"...

E, se assim fosse, o blogue "centenário", completamente "cacimbado", com dezenas e dezenas de milhares de léguas nas pernas, já devia estar "protésico, radioativa, parquinsónico e alzheimareado, de tantas vezes ter ido à "recauchutagem"... Ou seja, já devia estar fora do prazo de validade...

Mas, não, por  parte dos editores, autores e demais colaboradores, "lá vamos blogando e rindo"...

Falando de coisas sérias: já passou mais um ano e o  balanço até "nem é  mau de todo", como diz o Carlos, que não vai em futebóis nem triunfalismos: números são números e a verdade é que ficámos este ano (2025) a 50 postes da meta, que era ultrapassar o número do ano passado (2024) (n=1307).

Mas nós não "estamos a trabalhar para o livro dos recordes". Até porque a matéria-prima e os recursos (humanos, técnicos, financeiros...) são cada vez mais escassos. Os computadores estão velhos, os dedos trôpegos, a coluna feita num oito, a vista cansada, as teclas fod*das, os neurónios a diminuir...

2. Falando ainda de números, em mais um poste da série "O nosso blogue em números), constatamos que:
  •  em 2025 foram publicados 1258 postes, contados entre 1 de janeiro e 31 de dezembro. (O Carlos Vinhal gosta de chamar a atenção para a contagem do Blogue que é feita semana a semana, entre domingo e sábado, pelo que não condiz com a nossa estatística feita a partir do calendário civil.)

É justo realçar o  trabalho, individual, dos editores que não têm sábados, domingos e feriados. "E até parece que nem sofrem das maleitas da idade", ironiza o Carlos.

Pelo  Gráfico nº  6 e Quadro no. 1 verificamos que;
  •  o mês mais produtivo foi o de maio (com 122 postes) (em 2024, foi o de abril com 140 postes);
  • menos produtivo foi o de setembro (n=92)
Estamos reduzidos a 3 editores, e mesmo o Eduardo Magalhães Ribeiro está com uma colaboração mais pontual (o seu próprio blogue, "Rangers & Coisas do MR",  perdeu fôlego nos últimos anos). 

No essencial, tem sido o Luís Graça e o Carlos Vinhal a manter, em bom ritmo, a produção diária, fazendo questão de nunca deixar o blogue em branco em nenhum dia da semana, e procurando não defraudar as expetativas dos seus leitores.

Não são relevantes as diferenças entre a produção de um e outro: o Luís Graça tem também a sua produção própria como autor.

O Jorge Araújo, há muito "refugiado" no Próximo Oriente, na Tabanca dos Emiratos, longe da vista e do coração da Tabanca Grande (mas não da sua Maria), também por outras razões, só nos mandou 10 postes da sua lavra, em 2025... Ele, de resto, ainda não faz edição diretamente, mas por intermédio do editor LG.

E mais se publicaria se mais material houvera, parafraseando o Camões.

Já lá vai o tempo em que quase chegávamos ao pico dos Himalaias... De facto, em 2009, quase que atingíamos os 2 mil postes... Mas nessa época, estavam 4 editores  (LG, CV, MR, VB) a trabalhar em pleno e não havia mãos a medir... E os baus das recordações começam a ser vasculhados...
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27624: O nosso blogue em números (110): em 20 anos (2006-2025): média de 1.359 postes por ano... Não é autoelogio, é uma afirmação da IA / Gemini Google, que fez a análise estatística de dados : "Significa que, faça chuva ou faça sol, o blogue publica, em média, 113 postes por mês, quase 4 por dia (...), revela uma consistência editorial raríssima em projetos de longevidade digital; (...) é um registo histórico monumental sobre a Guiné e a memória da guerra; (...)parabéns por manterem esse vigor há duas décadas!"