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sábado, 2 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27981: Os nossos seres, saberes e lazeres (733): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
Desta feita vim até à mais conhecida residência real setecentista. Aqui impera o barroco e o rococó, há momentos em que parece que estamos a ver cenários de ópera, a carga decorativa é imensa, basta olhar para as balaustradas, com estátuas, no jardim superior, em frente ao Jardim de Neptuno, o lago perfila-se diante da fachada Robillon. Conhecer a história deste Palácio é entrar na vida de uma corte que a seguir ao terramoto de 1755 se prantou na Real Barraca da Ajuda, e houve sonhos de grandeza, daí a adesão a diferentes estilos, onde não falta a influência neoclássica. Quando se incendiou a Real Barraca, em 1794, Queluz passou a ser residência da Família Raal. As grandes obras de restauro começaram em 1933, houve um terrível incêndio em 1925 que consumiu a Sala dos Embaixadores, coube ao arquiteto Raul Lino dirigir as obras. Vinha com curiosidade de ver os trabalhos de restauro mais recentes, nunca me fora dado a visitar a capela, ainda há trabalhos em curso, mas é um espaço imponente, goste-se ou não dos barrocos ao gosto italiano. E satisfiz a minha gula em porcelanas e cerâmicas, como aqui vos conto.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254):
No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 1


Mário Beja Santos

Pelas minhas contas, o Palácio Nacional de Queluz tem aproximadamente 280 anos, se se tomar como referência a data de arranque das grandes obras iniciadas pelo Infante D. Pedro, em 1747. Partiu-se da residência da família Corte-Real, os seus bens tinham sido confiscados depois da Restauração e integrados no património da Casa do Infantado. O Palácio irá adquirir a dimensão de Palácio Real, as vicissitudes por que passou espelham as últimas décadas do absolutismo, o gosto do final do barroco e a sua exuberância rococó, os ricos investimentos em decoração, pintura, mobiliário, artes decorativas, com realce para a cerâmica. A partir da década de 1750, e até ao falecimento do rei consorte D. Pedro, ocorrida em 1786, seguida da morte prematura do príncipe herdeiro D. José, a Real Quinta de Queluz conhece um primeiro período de habitação real marcada por uma vivência lúdica e festiva. É o que se pode visitar na opulenta Sala do Trono, Sala dos Archeiros até à sala de música, sem me querer esquecer a Sala dos Embaixadores que viveu um incêndio devastador e conheceu a sua reabilitação acompanhada pelo arquiteto Raul Lino. Por aqui andou um dos grandes arquitetos, escultor e gravador do seu tempo, Jean-Baptiste Robillon.

Queluz ganhará o estatuto de residência permanente da Família Real após o incêndio em 1794 da Barraca Real da Ajuda, era habitação real desde que o terramoto de 1755 destruíra, daqui partiu D. Maria I e o regente D. João e mais membros da Família Real para o Brasil, em novembro de 1807. Junot levou daqui uma série de peças, e até sonhou instalar em Queluz o próprio Napoleão. Família Real regressa a Portugal em 1821, houve obras da recuperação do Palácio. Aqui faleceu em 1834 D. Pedro IV. D. Maria II e o seu marido, D. Fernando II, irão preferir Sintra e o Palácio da Pena. O rei consorte até aproveitou a oportunidade para deslocar algum recheio para os jardins do Palácio das Necessidades, Alfeite e Tapada da Ajuda. Só há notícia que D. Luís e D. Maria Pia passaram em Queluz o verão de 1874, e D. Carlos e D. Amélia fizeram visitas esporádicas e obras de beneficiação, caso da Sala de Jantar, Sala do Café e Sala de Fumo. Veio a República, por aqui andou uma escola agrícola e a partir de 1955 passou a ser residência oficial de Altos Dignatários e Chefes de Estado em visita oficial ao nosso país.
Começa a visita pela Sala do Trono, de que guardo as melhores memórias e conto porquê.

Dá gosto ver as benfeitorias, tudo bem dourado e estucado, até os tetos ganharam relevo, dá gosto olhar lá para cima. Tive o privilégio de aqui assistir a concertos memoráveis no âmbito do Festival de Música de Sintra. Vi e ouvi pianistas de grande craveira como Sequeira e Costa, Aldo Ciccolini, Maria João Pires, Andreas Staier, Vladimir Ashkenazy e Ivo Pogorelich. Não resisto a contar histórias destes dois últimos. As cadeiras eram douradinhas e com palhinha, um senhor que era vereador, bem pesado, dispunha desconfortavelmente da sua corpulência na cadeira elegante mas frágil; tocava Ashkenazy, uma conhecida sonata de Beethoven, quando se ouviu um estalo e caiu um dos pés da cadeira, o senhor, com ar muito encavacado, bem tentava manter o equilíbrio; Ashkenazy levantou-se, pôs o pé da cadeira ao pé de si e deu-lhe um lugar que é reservado a quem faz mudanças nas partituras, o vereador só olhava para o chão; fim do concerto e depois de vários extras, Ashkenazy pegou no pé da cadeira e mandou a assistência segui-lo, era hora de todos irmos para a cama.

Com Ivo Pogorelich foi mais dramático. Era uma noite quentíssima, quem financiava o recital era a EDP, vieram as senhoras dos diretores, bem encasacadas, à entrada ofereceram-lhes belos ramalhetes de rosas envolvidos numa película de celofane. Pouco antes de se iniciar o concerto, veio uma menina informar que o senhor que a seguir ia dar o concerto exigia que as portas fossem todas fechadas, não queria palmas, nada de interrupções enquanto ia tocar as suites inglesas de Bach, seguiam-se obras de Rachmaninoff, e depois uma catadupa de Scriabin. O que interessa é que algumas daquelas senhoras ficaram ofegantes dentro da estufa em que se tornou a Sala do Trono, uma delas teve o sacrilégio de começar a remexer no celofane, o genial pianista lançou-lhe um olhar terrível, eu estava em frente e vi como a senhora ficou intimidada, de mansinho pôs as rosas no chão, as senhoras iam fazendo manobras para tirar os casacos impróprios para aquela sauna. Mas estou felicíssimo agora com estes restauros, tudo brunido e luzidio, se por aqui aparecesse Luís XV seguramente ficaria enternecido.

A Sala de Música também teve beneficiações, lá ao fundo D. Maria I olha-nos atentamente, tenho a impressão de quando ela ouvia aqui o cravo bem temperado aqueles dois jarrões não existiam.
É a primeira vez que vejo a Capela Real de Queluz. É um deslumbramento de volumes, formas e conteúdo que não me enche a alma, mas reconheço que é um belíssimo restauro. A Capela foi projetada por Mateus Vicente de Oliveira, por volta de 1752. A cúpula da capela-mor tem uma cobertura exterior em forma de bolbo, revestida de cobre, ao gosto centro europeu. A talha dourada é de inspiração rococó e as paredes e teto são decorados com pintura de fingidos imitando mármore e lápis-lazúli. O retábulo do altar-mor representa Nossa Senhora da Conceição, que é o orago de Queluz e nos altares laterais temos S. Pedro, S. Paulo e S. Francisco de Paula. Leio na legenda que algumas das pinturas do altar-mor são da autoria das infantas, irmãs de D. Maria I.
Pormenor do teto
Saindo da capela-mor entramos numa sala ao gosto do Império, lá ao fundo D. João VI olha-nos com uma certa bonomia e a mesa vitrina está cheia de belos objetos.
Travessa da Dinastia Qing, período Qianlong 1760-1780

Perdi-me na sala das cerâmicas, aqui não faltam peças fabulosas de porcelanas chinesa e europeia e faianças portuguesa e europeia, deixem-me fazer alguns comentários. O acervo da porcelana chinesa destaca peças riquíssimas, as Dinastias Ming e Qing estão representadas por pratos, cabaças, potes, jarras, gomis, há para ali deslumbrantes peças “chocolate” e “família rosa”, não faltam canudos e defumadores e frascos de chá, e, cereja no bolo, um incompleto serviço de jantar, chá, café e chocolate, parei a admirar uma travessa, daí a fotografia abaixo. A porcelana europeia é da mais rica do seu tempo, com destaque para porcelanas de Meissen, belas peças francesas e doutros países; a faiança portuguesa também está altamente representada, há objetos da Real Fábrica do Rato, de inegável qualidade e a puro estético; e temos cerâmicas da Holanda, Inglaterra e Espanha. Para quem gosta de porcelana e cerâmica tem aqui muito para contemplar.
As salas multiplicam-se, dou comigo a pensar como o viajante só tem a ganhar em preparar-se para a imensidade de património que lhe vai desafiar a atenção. Não me detive aqui ao acaso, quem decorou esta sala tem sapiência para decoração e ornamentação. Percorrer todas estas divisões, quartos de dormir, salas e aposentos, por onde andaram artistas portugueses, franceses e italianos, entalhadores, escultores e ourives, e depois de todas as voltas que deu este património encontrar uma solução que realce o bom gosto, tem méritos que apraz realçar.
Aqui se interrompe o passeio, temos aqui um pormenor da chamada escadaria Robillon, não faltam leões, este senhor sabia de arquitetura e de muitas mais coisas, entenda-se esta escadaria como uma ligação entre o jardim superior e aquele que leva a um imenso espaço lúdico à volta da Ribeira do Jamor, lá ao fundo há uma imensa cascata e diversas estufas, olhando esta imagem sinto-me feliz com património conservado, todo este trabalho deve custar uma fortuna, aqui, a curta distância está uma azulejaria riquíssima a pedir conservação, não sei se a degradação que vemos é fruto do céu aberto ou do vandalismo, quem visita o Palácio Nacional de Queluz tem tudo a ganhar em passear-se pelos belíssimos jardins.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 25 de Abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27953: Os nossos seres, saberes e lazeres (732): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (253): No Convento de Chelas, revivendo o passado na Guiné (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27980: Fotos à procura... de uma legenda (205): de que etnia ou grupo etno-linguístico seria a jovem mãe do "mininu" Adão Doutor ? O Cherno Baldé diz que não era felupe/jola, mas balanta-mané... Seria ? Uma desafio aos nossos leitores, no Dia da Mãe (que é amanhã)

 


Guiné > > Região do Cacheu > Bigene > c. 1966/67 > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o médico, "tuga", que a assistiu no porto.

Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Quem seria esta jovem mãe de Bigene ? Felupe/jola (lê-se: djola) ou balanta mané ? Ou até senegalesa ?

Esta é uma fotografia histórica fascinante e um testemunho tocante do nosso camarada Adão Cruz. A imagem capta um momento de profunda humanidade no contexto da assistência médica militar às populações locais durante o conflito.  

No entanto, identificar uma etnia específica apenas por traços visuais ou indumentária não é tarefa fácil, à distância de 60 anos (a idade do nosso "Adão Doutor", se for vivo, como desejamos que esteja). Para mais, tratando-se de uma localidade fronteiriça como Bigene, numa região caracterizada por grande porosidade demográfica, cultural e migratória (de um lado o Cacheu, na Guiné-Bissau,  e do outro Casamança, no Senegal).

Mas vale o esforço, tanto mais que amanhã, 3 de maio, primeiro domingo de Maio, é o Dia da Mãe em Portugal e na Guiné-Bissau.


2. Recorde-se a origem desta imagem e da história, feliz, que está por  detrás dela. Foi-nos contada pelo nosso camarada Adão Cruz, ex-alf mil médico, CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68). E ele foi o protagonista, juntamente com a primeira jovem mãe que "estreou" o "serviço obstétrico" do posto médico miliar montado em Bigene (c. finais de 1966/princípios de 1967). 

O primeiro parto a que ele assistiu deve ter ocorrido no princípio de 1967. E ninguém, da localidade, entendia a língua da jovem mãe:

(...) Quando cheguei à Guiné, uma das primeiras preocupa­ções que tive foi começar a conhecer as pessoas e os costumes (...).

Conhecer um povo, ainda que pequeno, originário de quarenta grupos étnicos, fragmentado e encurralado física e psicologicamente em zonas estanques por impo­sição de uma violenta guerra de guerrilha, não era fácil e a desvirtuação constituía um perigo possível.

Tentei iniciar a penetração neste novo mundo através da abertura que a minha missão de médico facultava e facilitava. (...)

As mulheres de Bigene, e não só de Bigene, pariam no mesmo local onde defecavam, uma pequena cerca de esteiras nas traseiras da tabanca, longe da vista das pessoas e sobretudo dos homens, como se o acto de parir fosse indigno e imprudente, obrigando ao mais submisso recato.

Como se não bastasse, uns dias antes da data prevista para o parto atulhavam a vagina com bosta de vaca, a qual sofria pútridas fermentações que exalavam o cheiro mais nauseabundo que imaginar se pode. 

Os tétanos, quer da mãe quer do recém-nascido, eram extremamente graves e frequentes, soube eu mais tarde.

Neste primeiro contacto fiquei boquiaberto e decidi atuar. Não seria difícil imaginar a resistência destas pessoas a qualquer tipo de reforma dos costumes, se não fosse tido em conta um facto importante. 

Ao contrário do que se diz e do que se pensa, os negros, sejam eles homens ou mulheres, são muito espertos, nada ficando a dever aos brancos e superando-os em muitas coisas dentro da mesma escala de cultura. (...)

Só assim foi possível a rápida aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca acerca de infeções e higiene, acerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efetuado na nossa enfermaria, ainda que pequena e modesta.

Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar nesta altura a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto.

Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. (...)

Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho que, apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim. Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia antirracista da natureza.

Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, indispensável aos primeiros meses de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de ma­neira tão eutrófica e tão perfeita.

Umas semanas após o nascimento vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente:

- Doutor, vou dar-lhe uma linda notícia que a mim, pes­soalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio... aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se?... A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de Adão Doutor. (...) (*)



3. Comentário do Cherno Baldé (**)

(...) O Sector de Bigene é predominantemente habitado pelo subgrupo balanta-mané, um substrato de população que resultou da assimilação de balantas sob o dominio mandinga (séculos XVIII-XIX) da mesma forma que aconteceu com os Banhuns, Djolas, Pajadincas, Landumas, Fulas, entre outros cujo processo foi interrompido com a entrada em cena da islamização, da autonomização e ascensão dos fulas e finalmente com as conquistas e partilha dos territórios entre as potências coloniais (segunda metade do séc XIX).

Desta feita, há uma grande probabilidade de a mulher da foto pertencer à etnia dos balantas-mané, um subgrupo em fase de transição entre o animismo e islamismo praticado na região, pelo menos é o que diz a sua postura e vestuário.´

A vila de Bigene, em meados dos anos 66 era um centro de trocas comerciais de produtos da época (amendoim, coconote, peles de animais, mel, cera, tecidos europeus, materiais e produtos para a agricultura entre outros), pelo que albergava uma população um pouco diversificada, empurrando os locais para a periferia fronteiriça.

sexta-feira, 1 de maio de 2026 às 12:05:00 WEST

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

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Guiné 61/74 - P27979: Fotos à procura... de uma legenda (204): "A mulher na imagem é igualzinha à minha mãe" (Cherno Baldé)..."Fermero, tua minina, tua mulher parte banana" (José Teixeira)



Guiné > > Região do Cacheu > Bigene > c. 1966/67 > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o médico, "tuga", que a assistiu no porto.

Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentários ao poste P27970 (*):

(i) Cherno Baldé

Cada época tem sua marca, sua imagem própria que nunca se confunde com outras de épocas diferentes. Anos 60, no território da Guiné (dita portuguesa) as imagens têm a marca da originalidade, de sofrimento agarrado a alma de gente simples, humilde, de gente que não controla o destino, de gente sujeita a violência e imprevisibilidade da guerra, uma guerra escondida em cada esquina, em cada árvore, em cada baga-baga.

A mulher na imagem é igualzinha à minha mãe, no tamanho, nas feições rudes e vincadas de uma mulher camponesa da Guiné dos anos 50/60. Os pés, duros e escarpados não sabiam o que era usar chinelas ou sandálias que, mesmo o que tivessem, para não atrapalhar no caminho da bolanha, preferiam colocá-los na cesta das roupas,  equilibrada encima da cabeça... Na verdade, eram mais para mostrar ao branco do que proteger os pés calejados de tanto morder a areia quente dos trilhos do mato.

A adornar o peito, aí estão os colares tradicionais feitos de sementes e raízes de aroma da maternidade africana que nenhuma mulher dispensava na época e que tinha o efeito benéfico de afastar o cheiro do leite com mistura do suor da criança colada ao seu corpo de forma quase permanente.

Quanto ao nome dado a criança, era sobretudo a vontade e a firma decisão da mãe, pois era um direito que ninguém podia questionar, mas na realidade o nome oficial e que seria válido dentro da comunidade, era sempre um direito do pai que, como mandam as regras, devia obedecer aos critérios da tradição do grupo étnico. 

Todavia, para a mãe e as crianças do núcleo familiar, em respeito à dor e sofrimento que constituem o dificil processo do parto, ela será sempre o "Adão Doutor" da sua querida e sofrida mãe.

quinta-feira, 30 de abril de 2026 às 19:48:00 WEST



Guiné- Bissau > Bissau > Maio de 1997 > "Eu e a minha mãe"

Foto (e legenda): © Cherno Baldé (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



(ii) José Teixeira

Como já contei no blogue, eu tratei uma bebé com alguns meses de uma crise de paludismo. O seu estado de saúde era muito grave, com elevada temperatura, muitos vómitos. E
stava tão débil que nem no peito da mãe pegava. Abusivamente, cometi um ato médico que lhe salvou a vida. Ao fim de duas horas, começou a baixar a temperatura. Pouco tempo depois, mamou um pouco. Foi uma tarde inteira de luta e sofrimento para mim e para a mãe, mas valeu a pena.

No dia seguinte, a mãe veio trazer-me a menina, logo de manhã, como combinado e trazia também um cacho de bananas. A primeira frase dela foi: "Fermero, tua mulher parte banana". A partir dessa data, ficou a ser minha mulher. Todos os dias de manhã, enquanto estive em Mampatá elas (mãe e filha) vinham visitar-me:  "Tua mulher parte mantenhas". Trazia quase sempre fruta ou uma caneca de água fresquinha que ia buscar à fonte de Iroel para mim.

À noite, ficavam as duas à porta da casa, a aguardar a minha passagem para o abrigo para partir mantenhas.

Fui cerca de dois meses para a Chamarra. Duas vezes por semana ia a Mampatá em serviço de apoio ao enfermeiro africano que me substitui. Procurava a minha menina para lhe fazer festinhas. No regresso definitivo para Buba, passei por Mampatá. Para minha grande alegria e grande sofrimento, lá estava a mãe com a minha mulher ao colo: "Pega minina. Leva tua mulher contigo!"

Este momento continua gravado na memória, pelo sofrimento que me causou, pela recusa que tive de dar.






Guiné > Região de Tombali > Mampatá (1)> 1968> O 1º cabo enfermeiro Teixeira (CCAÇ 2381, Buba e Empada, 1968/70), com a sua inseparável amiguinha Maimuna.

Foto (e legenda): © José Teixeira (2005). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27978: Bom dia. desde Bissau (Patrício Tibeiro) (64): Hoje, Dia do Trabalhador, foi tudo para a praia.. Só cá ficaram os que saíram na 3ª caravela do Vasco da Gama, na passagem para a Índia, como eu...





Foto nº 1 > Mamoeiro (Carica papaya), que cresce no meu quintal. Pé de mamon (em crioulo)





Foto nº 2 > O meu escritório, na minha casa em Bissau


Foto nº 3 > Capa do livro Colecção de Gravuras Portuguesas - Guiné (Organização e Edição de Camacho Pereira. Lisboa. 1974). São 30 gravuras antigas, ficavam bem no livro sobre a Guiné lançado recentemente pelo nosso amigo Mario Beja Santos.


Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Data - 1 de maio de 2026, 14:56
Assunto - 1º de maio de 2026 em Bissau

Bom dia, desde Bissau.

Hoje no Dia do Trabalhador, em que a Cidade de Bissau está parada, porque toda a gente foi a banhos nas diversas praias da Guiné.

Há, alguns que saíram na 3ª caravela do Vasco da Gama para a Inda e na passagem aqui, ficaram a trabalhar até hoje em Bissau.

Não saíram a salto, como diz o meu amigo Rosinha, mas sim de caravela.

Seguem 3 fotos.

Bom dia de trabalho para todos.


Abraço

Patricio Ribeiro

IMPAR Lda
Av. Domingos Ramos 43D - C.P. 489 - Bissau , Guine Bissau
Tel,00245 966623168 / 955290250
www.imparbissau.com
impar_bissau@hotmail.com

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Nota do editor LG:

Últimlo poste da série > 10 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27808: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (63): O antigo hospital militar, HM 241 (e depois "complexo hospitalar 3 de agosto"): "E tudo o vento levou"...

Guiné 61/74 - P27977: Efemérides (389): O 15.º Encontro do Núcleo de Mar dos Ex-Combatentes do Ultramar reuniu camaradas em S. Bartolomeu do Mar, Concelho de Esposende, no passado dia 26 de Abril (Fernando Cepa, ex-Fur Mil Art)

Fernando Cepa, (ex-Fur Mil Art da CART 1689 / BART 1913, Catió, Cabedú, Gandembel e Canquelifá, 1967/69) cidadão do Concelho de Esposende, é uma pessoa activa, ligado aos assuntos que interessam aos Antigos Combatentes e à Cultura e Desporto na sua freguesia de S. Bartolomeu do Mar


15.º Encontro do Núcleo de Mar dos Ex-Combatentes do Ultramar reuniu camaradas em S. Bartolomeu do Mar

Realizou-se no passado dia 26 de abril, na freguesia de S. Bartolomeu do Mar, o 15.º Encontro do Núcleo de Mar dos Ex-Combatentes do Ultramar, uma iniciativa já marcante no concelho de Esposende e que voltou a reunir antigos combatentes, familiares, amigos e diversas entidades locais, num ambiente de grande confraternização, memória e homenagem.

O programa, diversificado e cuidadosamente preparado, proporcionou vários momentos de convívio entre os participantes, fortalecendo os laços de amizade e companheirismo que permanecem vivos ao longo dos anos. Para além do espírito de união, este encontro ficou igualmente assinalado pela recordação emocionada de todos aqueles que já partiram, homenageando os antigos camaradas que deixaram a sua marca na história e na memória coletiva, tendo sido efetuada a habitual romagem ao cemitério, onde foi prestada a homenagem de todos os que já faleceram, tendo sido depositada uma coroa de flores num ato de valor simbólico e de saudade, bem como uma missa presidida pelo senhor padre Armindo Patrão.

A cerimónia contou com a presença de várias entidades oficiais, nomeadamente do Presidente da Câmara Municipal de Esposende, Dr. Carlos Silva, do Presidente da Assembleia Municipal de Esposende, senhor Alberto Figueiredo, da Vereadora da Cultura, Dr.ª Paula Cepa, do Presidente da Junta de Freguesia de Mar, Eng.º Carlos Lima, e do Presidente do Centro Social da Juventude de Mar, Estevão Abreu.

Durante a iniciativa, foi ainda destacada a dificuldade que este núcleo enfrenta para poder dispor de uma sede própria. Nesse sentido, o Presidente da Junta de Freguesia de Mar, Eng.º Carlos Lima, manifestou total disponibilidade para ceder o edifício da Junta de Freguesia, permitindo que o núcleo ali possa reunir sempre que necessário.

Foi igualmente transmitida pelo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Esposende, a informação de que o Município está fortemente empenhado para que, num futuro próximo, o Núcleo de Mar dos Ex-Combatentes do Ultramar possa finalmente dispor de uma sede condigna, num gesto de justiça, reconhecimento e gratidão que a sociedade portuguesa deve a todos aqueles que, durante muitos anos, lutaram em nome da Pátria.

A presença destas individualidades veio enaltecer a importância deste encontro, que representa não só um momento de reencontro entre antigos combatentes, mas também uma justa homenagem a todos quantos serviram o país em tempos exigentes.

Mais uma vez, o Encontro dos Ex-Combatentes do Ultramar afirmou-se como uma jornada de partilha, respeito e preservação da memória, reforçando valores de amizade, solidariedade e reconhecimento.

Deposição de uma coroa de flores no monumento aos Ex-Combatentes
Ex- Combatentes e familiares junto ao monumento
Homenagem aos Ex-Combatentes falecidos em combate
Homenagem aos Ex-Combatentes falecidos em combate
Presidente da Câmara Dr. Carlos Silva no uso da palavra
Almoço-convívio
Presidente do Núcleo de Mar no uso da palavra
Bolo de aniversário
Cantando os Parabéns
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Nota do editor

Último post da série de30 de Abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27972: Efemérides (388): Memórias de Abril (1970/71/72) (José Câmara, ex-Fur Mil Inf)

Guiné 61/74 - P27976: Notas de leitura (1918): Carta de Bertrand-Bocandé sobre o islamismo no Casamansa, 1851 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
À procura de documentação atinente a esta tentativa de encontrar relatos de olhares estrangeiros sobre a Guiné do século XIX e primeira metade do século XX, encontrei este extrato de carta que Bertrand-Bocandé, de que iremos ver um relevante trabalho que fez sobre a Senegâmbia portuguesa ter enviado a Ferdinand-Denis uma carta de que o Boletim da Sociedade de Geografia de França publica um extrato. Tem a ver com as arremetidas de gente oriunda do Futa-Djalon contra os Mandingas Soninqués ou bebedores, isto é gente teoricamente islamizada, mas que bebia bebidas experimentadas, seria esta a sua ligação ao Estado idólatra. o autor dá nota do assunto, a gente do Futa não se confinou ao Casamansa, desceu até às regiões de Cacheu e de Geba. Implicitamente Bocandé compara o grau de civilização destes povos islamizados, fala em pilhagem e velhacaria e alude ao sucesso de missões que começavam a espalhar-se na região. Importa não esquecer que quer o Casamansa quer o chão Felupe detinham uma maioria de povos da etnia Djola, animistas, que resistiram aos Fulas e que sempre procuraram conservar a sua identidade, daí a tensão permanente em que vivem com a República do Senegal.

Um abraço do
Mário


Carta de Bertrand-Bocandé sobre o islamismo no Casamansa, 1851

Mário Beja Santos

A folhear a documentação referente a olhares estrangeiros sobre a Guiné, encontrei no Boletim da Sociedade de Geografia de França, ano de 1851, julho/dezembro, o extrato de uma carta de Bertrand-Bocandé, residente francês em Carabane (Casamansa) ao Sr. Ferdinand-Denis, como data de 2 de fevereiro desse ano. Emmanuel Bertrand-Bocandé tem a ver com a história da Guiné; explorador, homem de negócios e administrador colonial francês, teve desempenho na influência francesa no Senegal, principalmente na ilha de Carabane. Deve-se-lhe um importante testemunho desta região em tempos coloniais. Na oportunidade aqui se falará do seu trabalho Notas sobre a Guiné Portuguesa ou Senegâmbia Meridional, publicado no Boletim da Sociedade de Geografia de França em 1849. A carta que iremos traduzir aqui informalmente encontra-se na edição francesa original no link https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k37657w/f427.item

Junto à minha carta um documento que se prende com a história atual da região de África onde resido; tem a ver com os processos do islamismo na África ocidental; peço-lhe que utilize estes elementos como melhor lhe convier.

Uma guerra religiosa ocorreu no Casamansa setentrional depois de 1840. Os seus promotores são gente do Futa-Djalon. Convocados pelos Mandingas islamizados, que se designam por Marabus ou Mouros, subjugaram os Mandingas idólatras ou Soninqués (nome que é dado a todos os que bebem bebidas fermentadas). Eles projetaram alargar as suas conquistas e converter o resto do continente até ao mar, desde a sua fronteira do Futa-Djalon. Eles mandaram já clamar tributos aos diferentes entrepostos europeus, a Geba, Farim, Selho.

Correm mil histórias absurdas sobre o seu número de guerreiros e a sua bravura; e foi assim que todos iam cedendo à sua invasão. Passada a primeira surpresa, os Soninqués tentaram resistir-lhes; menos de 50 homens na pequena povoação de Banhuns, em Jaroumi, travaram a sua marcha, devido a dois ataques diferentes, quando eles procuravam uma passagem em direção da Gâmbia; eles fracassaram também em duas tentativas de retomar na povoação Soninqué-Mandinga de Canjénou, entre o Casamansa e o rio Grande de S. Domingos ou Cacheu; os Fulas pastores, que são também Soninqués e que estavam reunidos com os Mandingas, provocaram-lhes perdas. Apesar de todas as ameaças e de novos projetos, os esforços de gente de Futa-Djalon não tiveram sucesso no Casamansa; aqui ou aí, todo o país Mandinga ficou sobre o seu domínio, com exceção de algumas povoações Soninqués, onde temos o nosso forte de Selho.

Antes da chegada de gente do Futa-Djalon, nenhuma povoação maometana estava fortificada ou murada por paliçadas, os Soninqués eram considerados como proprietários da terra, e fortificaram as suas povoações. Os habitantes Soninqués de um mesmo território não têm, regra geral mais do que um ou dois patronímicos que são conhecidos por todos: nas povoações muçulmanas cada individuo tem um nome de família próprio, de modo que é evidente que o país dos Soninqués é povoado pela agregação de famílias conduzidas por um chefe enquanto as povoações maometanas são gradualmente formadas pela reunião de indivíduos vindos cada um da sua região e atraídos pelo comércio ou a esperança de vender amuletos e qualquer tipo de artesanato.

Depois dos chefes muçulmanos terem dominado pelo número, procuraram dominar pela força. Creio que é esta a história do islamismo numa grande parte do interior de África, aqui é fácil de observar como as coisas se passam. O Futa-Djalon é há muito tempo inteiramente maometano; também já dominam no Casamansa, fortificaram as suas povoações e destroem as dos Soninqués. Nas margens dos rios de São Domingos ou Cacheu, ou do rio Geba, os maometanos são em grande número, mesmo quando estão sob a dependência dos Soninqués; todos os povos em contacto com os Mandingas adotaram aos poucos os usos e a língua destes, acabando por se confundir com eles. Assim essa etnia aumenta à custa de Felupes, Banhuns, Balantas e Biafadas que se tornam Mandingas Soninqués; os Mandingas maometanos procuram dominar em toda a parte onde se sentem bastante fortes.

Importa observar que é menos o espírito do proselitismo que expande a religião de Maomé que a cupidez. Os Futa Fulas são atraídos pelo espírito da pilhagem. Se o islamismo venceu a idolatria é menos porque emprega a força que pelo facto de se fazer avançar por uma civilização mais avançada.

As civilizações vindas do interior de África são menos desenvolvidas que as que os nossos missionários estabelecem na costa ocidental de África; só que a fé no cristianismo não consegue repelir o maometanismo para o interior de África. A nossa missão cristã em Dahar, perto de Gorée, nos maometanos jalofos, fez poucos progressos, tiveram mais sucesso em Joal e também nos povos idólatras. Têm uma capela onde os cânticos da igreja se cantam em língua serere, escrita em caracteres latinos; propõe-se formar missões na orla costeira; os povos, convertidos a uma religião que ensina a caridade onde estavam os submetidos ao cristianismo, acabam por reconhecer que os prosélitos maometanos se comportam como velhacos.

Há um facto simples que também pesa como dado civilizacional, os povos da costa não se alimentam só de arroz enquanto os do interior se alimentam de milho e dos alimentos do tarrafe, caso dos caranguejos, amêijoas e ostras.

Sobre este assunto encontramos na Inteligência Artificial o seguinte:
“No século XIX, os Fulas do Futa-Djalon, frequentemente referidos como Futa-Fulas, exerceram influência significativa na Casamansa, marcada por expansão militar e islâmica. Estes grupos, oriundos da região da atual Guiné-Conacri, realizaram incursões e ataques contra populações locais, como os Mandingas, num contexto de luta pelo poder após a desintegração do Império de Kaabu. 

 - Ataques e Conflitos: Em meados do século XIX, os Fulas do Futa-Djalon realizaram ataques contra os Mandingas na região, gerando conflitos intensos. Um exemplo citado é o episódio "turrubam" (o fim da sementeira), onde populações preferiram a morte a serem capturadas.

- Islamização: A presença dos Fulas do Futa-Djalon intensificou a islamização na região, consolidando o Islão como força política e religiosa.

- Influência Regional: Embora focados na luta pelo poder e expansão, a sua influência inseria-se no contexto de desestabilização da Casamansa durante o século XIX, que também envolvia a rivalidade colonial entre Portugal e França.

Esses povos, conhecidos pela sua organização militar, procuravam dominar as rotas comerciais e assenhorear-se das populações locais, intensificando a instabilidade e as transformações sociais na Casamansa.”


Encontrámos também um documento universitário que pode ser útil a quem queira aprofundar conhecimentos sobre esta matéria: https://repositorio.iscte-iul.pt/bitstream/10071/29871/1/master_mamadu_nanque.pdf

Carta da Guiné por Bertrand-Bocandé, 1849
Ninte Kamatchol e mais pequeno a escultura da Deusa Nimba
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Nota do editor

Último post da série de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27959: Notas de leitura (1917): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27975: O PIFAS, de saudosa memória (22): Semelhanças e diferenças com o programa norte.amerciano "Good Morning, Vietnam"


Cartaz do filme, "Good Morning, Vietnam" (EUA, 1981, 121 m, a cores) (em portuguès, "Bom Dia, Vietname). (Cartaz: cortesia da Wikipedia), Ver aqui o "trailer" oficial (2' 39'').

Disse o Cinecartaz do Público quando o filme se estreou em Portugal:  "Foi com este filme que Robin Williams se tornou numa estrela internacional, interpretando um tipo de personagem que retomaria frequentemente: o rebelde bem disposto e brincalhão, incompreendido pelas autoridades. Em 'Bom Dia, Vietname', Williams é um locutor pouco convencional da rádio do exército americano estacionado no Saigão, que ganha enorme popularidade entre os soldados com o seu estilo extravagante. 'Bom Dia, Vietname' deu a Williams a sua primeira nomeação para um Óscar, prémio que o actor conquistaria em 1998, na categoria de melhor actor secundário no filme de Gus Van Sant «O Bom Rebelde' ". PÚBLICO


O boneco do Pifas


1. Haverá semelhanças entre o Pifas  (Programa das Forças Armadas, no CTIG) e o "Good Morning, Vietnam" ? Sim, há pontos de contacto mas também diferenças fundamentais.

 Antes de mais,  os EUA era uma democracia política, e Portugal vivia numa ditadura, com polícia política, censura e um partido  único. Os EUA era o maior exército do mundo... Portugal tinha um grande império mas era "pobreta"... Até 1969, a guerra colonial era praticamente tabu, nomeadamente na comunicação social e no debate público. As poucas notícias que chegavam aos jornais  era os  telegráficos comunicados das Forças Armadas com a lista dos mortes nas 3 frentes (Angola, Guiné e Moçambique).

No EUA a guerra do Vietname era dada em direto na televisão, o que teve um efeito contraproducente na opinião pública e na população jovem em idade militar. 

Em Portugal, em contrapartida,  a guerra chegava por aerograma e "boca à boca"... O resto era a paz dos cemitério e das ruas... E, claro, a solidão sofrida dos antigos combatentes que, com a "peluda",  voltavam às suas vidas cinzentas ou emigravam (nomeadamente nos Açores e na Madeira, para as Américas...).

Tanto o PIFAS na Guiné Portuguesa (atual Guiné-Bissau), durante o comando do general António de Spínola (final dos anos 1960/início dos 1970), como o famoso programa de rádio "Good Morning, Vietnam!", associado ao locutor Adrian Cronauer durante a Guerra do Vietname (1965), são exemplos de programas de rádio militares com um impacto cultural e psicológico significativo em contextos de guerra,  colonial, de contraguerrilha,  ou regional  (como foi o cas o da guerra do Vietname, com uso de meios bélicos poderosos). 

As duas guerras não são comparáveis... Aliás, Portugal não estava em guerra com nenhum país estrangeiro... Mas a Guiné foi o "osso mais duro de roer" das Forças Armadas Portuguesas, na época.

1.1. Vejamos os pontos de "similitude" entre os dois programas:

(i) Objetivo e público-alvo

PIFAS: criado ainda em 1967 mas popularizado no tempo de Spínola, visava melhorar a imagem de Portugal junto das populações locais, transmitindo música, notícias e mensagens em línguas africanas, além de crioulo e português; era uma ferramenta de "ação psicológica" (sic) para ganhar corações e mentes, num contexto de guerra (colonial, ta,bém dita "subversiva"). 

"Good Morning, Vietnam!"
 (com o 
 DJ interpretado por Robin Williams):  também tinha como objetivo levantar o moral das tropas americanas no Vietname, mas acabava por chegar de igual modo à população local alguma da qual se esforçava por aprender inglês (aliás, o Adrian Cronauer também era professor de inglês, no filme); usava música popular americana, humor e um tom irreverente e descontraído, contrastando com a dureza da guerra. Mas o propósito principal era mesmo  animar os soldados no terreno.

(ii) Uso da música popular

Ambos usavam música popular (rock, pop, música local) como forma de comunicação e aproximação. A discografia, do lado português, era necessariamente muito mais limitada, para não dizer "indigente"...   A grande maioria das NT não estava ainda sensibilizada para a música anglossaxónica predominante já na época. Dos discos mais pedidos pelo soldado na mato era... o do Conjunto Maria Albertina, já muito popular na diáspora lusófona!

O PIFAS incluía músicas africanas e portuguesas (e uma ou outra canção de "cantores proibidos": Zeca Afonso, José Mário Branco,  Manuel Freire, etc.), enquanto o programa de Cronauer usava sobretudo  rock'n'roll e hits americanos.

(iii) A linguagem era adaptada ao público

O PIFAS usava crioulo e línguas locais, para chegar à populaçáo guineense. Cronauer usava  a linguagem brejeira e o humor irreverente, com muito calão de caserna, para fidelizar o público militar.

Em ambos os casos,  a rádio servia como companhia no isolamento no mato; era um 
estímulo psicológico; e uma tentativa de aliviar o stress da guerra. 

O humor e a música  eram “armas leves”; música popular, discos pedidos, recados, anedotas, humor, etc., tudo isso aparece nos dois contextos. A ideia era humanizar o quotidiano militar e quebrar a tensão.

(iv) Contexto de guerra e propaganda

Os dois programas surgiram em contextos de guerra, 
 prolongada, difícil, com forte componente psicológica. E crescentemente impopular na retaguarda (com manifestações nos EUA, o que em Portugal era ainda impensável)  e cada vez mais contestada no plano internacional (levando, no caso português, a um boicote no fornecimento de material bélico e ao isolamento diplomático).

Tanto na guerra colonial portuguesa como na guerra do Vietname, a propaganda e a comunicação eram essenciais para manter o apoio ou, pelo menos, a neutralidade das populações, a par do moral das tropas.

O PIFAS era parte de uma estratégia de "pacificação" e "sedução" de Spínola (e do seu estado-maior, de resto brilhante), enquanto o programa de Cronauer era sobretudo  uma forma de "escape" para os soldados americanos (a par do elevado consumo de álco0ol e de substâncias: marijuana,  LSD, cogumelos alucinógenos, metanfetaminas, heroína...).


(v) Impacto cultural e memória

O "Good Morning, Vietnam!" tornou-se icónico, especialmente depois do filme de 1987 com Robin Williams, que imortalizou a figura de Cronauer.

Embora inspirado na figura de Cronuaer,  e na sua história,  o filme vive muito do inimitável talento de Robin Williams e tem cenas de ação ficcionadas. Foi rodado na Tailândia.  

O PIFAS não era de todo conhecido internacionalmente, é hoje apenas lembrado por quem  trabalhou na Rep ACAP - A Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica  como uma inovação na guerra psicológica portuguesa, embora com resultados limitados face à realidade do conflito (e que, de resto, nunca chegaram a ser estudadas de todo). 

É também lembrado por alguns dos ouvintes na época. Já se passou mais de meio século, é difícil (senão impossível) fazer hoje uma avaliação retrospectiva do seu impacto. 

1.2. Vejamos algumas diferenças importantes:

PIFAS: era uma ferramenta de propaganda política e militar, dirigida sobretudo aos militares e às populações locais, com um tom mais institucional, com meios humanos e técnicos limitados (três emissões diárias, de 1 hora cada, difundidas pelo Emissor Regional da Guiné, localizado em Nhacra). Era da responsabilidade da Rep ACAP.

"Good Morning, Vietnam!": era um programa de entretenimento para tropas, com um tom mais informal e irreverente, sem uma agenda política explícita.

O grau de liberdade era muito diferente: o DJ do filme (baseado na figura de Adrian Cronauer) é marcado pela irreverência, crítica mordaz e até choque com a hierarquia militar. Terá havido, no terreno,  mais liberdade para a contestação interna, liberdade também possível pela enorme popularidade do programa "in loco".

O PIFAS era, pelo contrário, um instrumento mais institucional, enquadrado na estratégia político-militar portuguesa e na política spinolista "Por Uma Guiné Melhor".  Portanto, mais conservador e ponderado, nos seus conteúdos, na sua "playlist", etc..  mais 
alinhado com a política oficial do regime, enquadrado por oficiais do quadro como Otelo e depois Ramalho Eanes.

Os radialistas que por lá passaram, estavam sujeitos a censura e sobretudo à autocensura ("a pior das censuras", segundo o Armando Carvalhêda). E  não havia nenhum "cromo" com o enorme  talento do Robin Williams no papel do Adrian Cronauer. 

Conclusão:

Há, de facto, similitudes no uso da rádio como ferramenta de comunicação,  influência e propaganda em contextos de guerra, mas com objetivos e públicos distintos. Ambos refletem a importância da comunicação de massa em conflitos modernos e a necessidade de manter em alta o moral dos combatentes.

(Pesquisa: LG + Wikipedia  + IA (ChatGPT / Open AI  | Le Chat / Mistral AI)
(Condensação revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27974: Parabéns a você (2480): Manuel Luís Lomba, ex-Fur Mil Cav da CCAV 703 / BCAV 705 (Bissau, Cufar e Buruntuma, 1964/66)

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Nota do editor

Último post da série de 29 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27966: Parabéns a você (2479): Giselda Pessoa, ex-Sarg Enfermeira Paraquedista da BA 12 (Bissalanca, 1972/74)

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27973: Convívios (1064): Almoço-Convívio comemorativo do 55.º aniversário do regresso da Guiné, do pessoal da CCAÇ 13 e CCAÇ 14, no próximo dia 30 de Maio de 2026, nas Caldas da Rainha (Eduardo Estrela, ex-Fur Mil Inf)

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Nota do editor

Último post da série de 25 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27952: Convívios (1063): 54.º Convívio da CCAÇ 414, que se realizará no próximo dia 3 de Maio de 2026, em Aveiro (Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro)

Guiné 61/74 - P27972: Efemérides (388): Memórias de Abril (1970/71/72) (José Câmara, ex-Fur Mil Inf)

José Câmara, um dos nossos camaradas da diáspora americana, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3327 e Pel Caç Nat 56 (Brá, Bachile e Teixeira Pinto, 1971/73)


1. Mensagem de José Câmara com data de 29 de Abril de 2026:


Memórias do mês de Abril

Recentemente, numa passagem que fiz pela página pessoal do meu mano e editor Carlos Vinhal, deparei com o artigo que refere a sua chegada à Guiné e o cantar dos miúdos aos novos periquitos. Para ele, para todos nós, a chegada àquela província ultramarina era o princípio de uma nova e longa jornada de esperança de vida e retorno ao seio familiar. Li e reli.

Mergulhei nas fontes de saudades, de fé, de esperança. As minhas memórias dos meses de Abril de 1970/71/72, lições físicas e mentais, marcaram a minha vida militar e pessoal até aos dias de hoje.

No ano de 1970, acabada a recruta no fim do mês de Março, vi partir os meus companheiros ao encontro dos seus familiares. A Páscoa de Abril era deles. Eu e a maioria dos açorianos estacionados no CISMI, em Tavira, não tivemos esse direito. Mais que a vida militar era esse tipo de tratamento diferente que me magoava.

No ano seguinte, no dia 6 de Abril, ainda estou a ouvir o 1.° Cabo Isolino Picanço gritar “Malas às costas”. Naquele dia a CCaç 3327/BII17, ainda periquita, partia para a Mata dos Madeiros. Pessoalmente, para trás ficava a Guarda ao Palácio, as luvas brancas e os atacadores da mesma cor. O Bachile seria testemunha noturna do maior combate à bofetada que alguma vez tive a oportunidade de viver. Os mosquitos da zona concentraram-se nos alpendres dos edifícios onde pernoitamos.

No dia seguinte fomos acampar no meio do nada na Mata dos Madeiros. No Sábado de Aleluia o 4.° Grupo de Combate, ao qual pertencia a minha Secção, acompanhado pelo 3.° grupo, fez a sua primeira saída de vinte e quatro horas de segurança. O regresso na manhã do dia de Páscoa, sem dúvida o dia da maior festa religiosa dos açorianos, seria marcado com a saída dos 1.° e 2.° Grupos de Combate. Inserido no 2.° Grupo ia o Furriel Miliciano Fernando Silva, que nesse dia casaria por procuração.

O comandante da companhia, Sr. Capitão Rogério Rebocho Alves, um homem de grande coração, mandou regressar aqueles dois grupos ao acampamento. Havia que celebrar o casamento do Fernando Silva. Entre os vivas, as pingas e alguns olhos marejados pelo ambiente, chegou o momento de botar palavra. A mais esperada era a do Fernando Silva. O seu discurso simples e assertivo, “Porra, eu aqui a ração de combate e ela em Lisboa a comer bolo”, foi aplaudido de pé. Mas o Fernando e aqueles dois grupos de combate tinham que continuar a cumprir a sua missão. As formigas, os mosquitos e as aves noturnas acompanhariam o Fernando na noite de núpcias. A lua sorridente seria testemunha privilegiada dos orgasmos daquela noite.
O Fernando Silva bebendo água do cantil no dia do seu casamento por procuração (Domingo de Páscoa, 11 de Abril de 1971) na Mata dos Madeiros. Ao seu lado direito o Fur Mil Operações Especiais Carlos Pereira da Costa, do 1.° GComb. A seguir o FurMil Minas e Armadilhas Joaquim Fermento, do 2.° GComb. Na frente o Fur Mil At Inf João Cruz, do 2.° GComb, que cedeu esta fotografia.

Na Segunda-Feira de Páscoa fomos chocados com o acidente sofrido pelo Soldado Manuel Veríssimo de Oliveira, que viria a falecer no dia 23 daquele mês de Abril. Seria a nossa única baixa mortal. Fui designado para assistir aos familiares. A troca de correspondência com a mãe do Manuel continua gravada no coração. Não cheguei a tempo de lhe dar um abraço, de apaziguar um pouco a sua dor.

Em Abril de 1972, fazendo parte do Pelotão de Caçadores Nativos 56, sediado no Destacamento de São João, em hora de folga fui até ao porto daquela zona que distava duas centenas de metros da porta-de-armas. Adorava ver os raios solares avermelhados do pôr do sol. Porém, naquela tarde do dia 12, seria bafejado com a visão de raios de fumo sobre o canal de Bolama. O IN entendeu fazer festa com o lançamento de “foguetes 122”, nada que eu não estivesse habituado nas minhas terrinhas dos Açores, com a diferença que os nossos eram acompanhados com música. Por sorte um dos foguetões não apanhou uma fragata que estava estacionada em frente a Bolama.

Mês de Abril, lições de vida que o tempo se encarregou de suavizar. Saudades sinto daqueles que ao meu lado viveram fizeram e fazem parte das minhas recordações.

Abraço transatlântico.
José Câmara

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Nota do editor

Último post da série de 25 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27951: Efemérides (387): "O POEMA", alusivo à efeméride de hoje, 52 anos do 25 de Abril de 1974, da autoria do nosso camarada Juvenal Amado, ex-1.º Cabo CAR do BCAÇ 3872

Guiné 61/74 - P27971: Caderno de notas de um mais velho (António Rosinha) (60): Os refratários na "retraite"

1. Mensagem de 27 de Abril de 2026 do nosso mais velho António Rosinha, que foi Fur Mil em Angola, 1961/1962; topógrafo em Angola; emigrante no Brasil, e mais tarde na Guiné-Bissau, onde trabalhou, de 1978 a 1993, na empresa TECNIL:


Foram muitos milhares ao longo do interior beirão e transmontano que despovoaram grandes aldeias a caminho da França, para evitar o recrutamento para a tropa durante a guerra do Ultramar.

Já havia antes dessa guerra, iniciada em 1961, nessas regiões, mais junto da fronteira espanhola, a tradição de ir para a França "a salto" através de passadores, mas nunca sem antes cumprir o seu serviço militar obrigatório, o que seria um dia vantajoso, pois abriam-se portas para o seu futuro, como seguir a carreira militar, ir para polícia, guarda republicana, guarda fiscal e outros, até ser pide, por exemplo.

Já tinham sido dessas regiões, a que juntamos o Minho, que mais tinham partido para a "colonização" à portuguesa, de tamancos, das colónias africanas e de todas as esquinas de Rio de Janeiro e São Paulo, com botecos, tabernas, padarias e comes e bebes.

Mas partir para "a França e em força" foi apenas a partir de 1961, com a idade de 16, 17, 18, e 19 anos, e que hoje septuagenários estão todos aposentados com "reformas à francesa" e que,  com as remessas durante todos os anos, salvaram aquelas regiões muito pobres por esquecimento eterno desde Dom Afonso Henriques.

E que hoje, graças a muitos desses refratários, e graças ao SNS, que veio depois do 25 de Abril, aquelas regiões são um paraíso.

E que sem os filhos já franceses que não permanecem nas férias nessas benditas terras, preferem o apartamento nas praias do Oeste e Agarve, que os velhos lhe põem à disposição, aqueles paraísos aguentar-se-ão, pelo menos se de septuagenários chegarem a centenários, esses refratários com suas "reformas à francesa".

E prefiram os lares de idosos das suas "terrinhas" e quando morrerem poupam dinheiro que não precisam de vir com os pés para a frente, o que é uma maçada.

Nesta altura do ano já se começa a ver a circulação mais assídua de matrículas francesas com 100 cavalos de potência, pelos caminhos das antigas carroças com apenas um cavalo.

Os filhos dos velhos refratários nem se apercebem, nem querem saber o que se passou naqueles cus de judas, terras dos seus pais e avós.

De lamentar, mas pouco, que os netos dos velhos refratários "esqueceram" o idioma do avô e da avó.

Também a avó, relembremos, muitas também foram "a salto" e não eram refratárias.

Alguns desses refratários, passaram tanto ao lado da história da guerra do Ultramar, que perguntam "o que tem a ver o 25 de Abril com as colónias"?

Tudo passou!

Cumprimentos
Antº Rosinha

Porto de Leixões > Cais do Marégrafo ou do "Relógio", onde embarcaram milhares de portugeses em pequenos botes que os levariam aos "vapores" fundeados ao largo, cujo destino era, principalmente, o Brasil.

A devida vénia a Imagens Antigas do Concelho de Matosinhos

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Nota do editor

Último post da série de 16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27827: Caderno de notas de um mais velho (António Rosinha) (59): A terapia dos almoços da tropa