quarta-feira, 12 de julho de 2006

Guiné 63/74 - P953: Cansissé, terra de encantos mil (Parte I) (Idálio Reis, CCAÇ 2317, Julho de 1969)

Guiné > Região de Gabu > Cansissé > CCAÇ 2317 > Julho de 1969 > Entre as forças militarizadas, agora juntas, foi criado um forte espírito de coesão. Até ao Unimog, lhe coube um papel relevante para esse reforço, pois possibilitou a muitos dos milícias ter a grata sensação de desfrutar de um meio de transporte desconhecido.


Guiné > Região de Gabu > Cansissé > CCAÇ 2317 > Julho de 1969 > A cultura do amendoim. Em volta do campo chão da povoação, praticava-se uma agricultura com uma relativa extensão, ainda que realizada essencialmente à custa de trabalho braçal.


Fotos e legendas: © Idálio Reis (2006)


1.
Mensagem do Idálio Reis, ex-Alf Mil, CCAÇ 2317, BCAÇ 2835, Gandembel e Ponte Balana 1968/69)(1)

Caro Luís:

À tua notificação para escrever algo sobre Cansissé (2), aqui o faço com incontido prazer. Desta vez até com algumas fotos (região de Gabu > Cansissé), reabilitadas de uns slides pelo profissionalismo do nosso Albano Costa. Tudo segue em forma anexada. Se achares demasiado longa, partilha-a à tua forma.

Quanto às fotos, a minha intenção foi a de exprimir o que o grupo viveu naquele tempo em Cansissé.

E agora, tenho de compulsar os arquivos da minha Companhia, para falar sobre Gandembel/Ponte Balana. Procuro também algumas fotos representativas.

Luís, que gozes umas boas férias em companhia dos teus. Um abraço do Idálio Reis.

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Assunto: Cansissé, terra de encantos mil, como anfitriã do primeiro grupo do Exército que aí se alojou (Julho de 1969).

Caro Luís e demais Tertulianos.

Cansissé merece que a releve com um enlevo muito especial, que evoco de uma maneira fortemente impressiva e dedicada, porquanto reconheço hoje ser o meu complacente lugar da saudade, tão suavemente enternecida e meiga.

Lá longe, no sortilégio daquele chão da região de Gabú, foi possibilitado ao meu grupo fruir de certos encantamentos que julgávamos desapegados e esconsos, pois que os tempos passados até então tinham sido endemoinhados, por um qualquer espírito pérfido, malévolo, cruel.

Estava-se em Julho de 1969, com três partes da comissão vencida (1), e o que buscávamos com uma sôfrega avidez era um qualquer ameno recanto que nos portasse a um estado de tranquilidade repousante, penhor de paz. De tão requestada, ansiávamos uma serenidade confiante para corpos descoroçoados e ofegantes poderem revigorar, de tão insidiosamente assolados por uma guerra sem tréguas.

Estávamos convictos que a poderíamos almejar, e ante aquele sinal-símbolo que sempre norteou a nossa conduta, do «pare, escute e olhe», lenta e conscientemente fomos avançando, e julgo que o soubemos fazer da melhor forma, com a dignidade que nos competia e que era nosso dever, primando na excelência das nossas acções com a população autóctone. E o primeiro grupo da tropa colonial a demandar Cansissé, orgulha-se desse facto.

(i) Cansissé era uma grande tabanca, localizada num vasto perímetro de terra plana e de elevada potencialidade agrícola. Típico aldeamento rural, onde conviviam dois grupos étnicos islamizados, embora de diferenciadas características comportamentais, que determinava com que a tabanca fosse atravessada longitudinalmente por uma larga passagem divisória. A parte ocidental, mais populosa, pertencia aos fulas, enquanto a poente se sediavam os mandingas.

À entrada do povoamento, deparava-se um extenso terreiro. Aí havia um pavilhão-armazém, suficientemente amplo, já construído há alguns anos, porventura quando a Lei do Indigenato se interessou na construção de algumas infra-estruturas destinadas ao forçado armazenamento e comercialização dos produtos agrícolas, e em que preponderavam o milho e o amendoim. Também neste vasto espaço, sobressaía uma árvore de grande porte, de um espesso tronco e de uma copa de abundantes frondes, ponto de encontro para convívio com os anciãos e de remanso ameno e refrescado para o contento solitário das leituras.

E logo surtiam as moranças, mais aprimoradas que nos povoamentos que havia no Sul da Província. Todavia, havia uma certa distinção para as do régulo, mais espaçosas, de uma construção mais estruturada e ostentosa, onde cabia todo o seu harém e quiçá alguns convidados, sendo todas elas envolvidas por um tapume em função de resguardo. E o aldeamento prolongava-se até aos lhanos campos de cultivo.

(ii) Chegámos a 14 de Julho, num dia benfazejo por uma chuva quase incessante, tendo calcorreado os cerca de trinta quilómetros que distavam de Nova Lamego, em menos de uma hora, o que desde logo era uma missão inatingível nas zonas por onde tínhamos deambulado, e portanto de difícil compreensão para todos nós.

Apesar de encharcados, Cansissé aí estava, e ante a surpresa ora deparada parecia estarmos satisfeitos, pois que os antecedentes que este novo destacamento nos propunha, de acordo com informações obtidas, animávamo-nos a acalentar uma esperança desejada e a garantir um maior grau de confiança, para os dias que iríamos aqui permanecer.

A entrada em Cansissé mereceu honrarias especiais, pois o régulo e os homens-grandes, e um grupo local de milícias, para além da população, nos esperavam com cordiais cumprimentos de boas-vindas. Prestado o reconhecido e público agradecimento, alojou-se o pessoal no arrumado pavilhão existente, exceptuando a minha pessoa e o Vasco Ferreira (ex-furriel, um dos muitos feridos de Gandembel, e em missão de voluntariado para esta missão), a quem foram ofertados guarida de maior requinte numa apresentável morança do régulo.

E por lá nos quedámos por um período de quase sete semanas, em desfrute de um tempo de contentamento e encanto, que ia conseguindo suavizar a nossa velada ansiedade do regresso definitivo, até porque nos parecia, com grata satisfação, que o delongar do tempo parecia agora querer escoar normalmente.

(iii) Os primeiros dias serviram para reconhecer a zona, como a verificação das condições de segurança do povoamento, a análise da capacidade do grupo de milícias, a auscultação dos nativos com enfoque especial para o seu estado sanitário, mormente dos mais idosos.

O grupo de milícias, com cerca de 30 unidades, era composto por homens de uma faixa etária dos 25 a 40 anos, que ali viviam com as suas famílias. Era um reduzido contingente com funções essencialmente de defesa local, e ainda armados com espingardas Mauser. Desde logo, procurou-se fazer o seu entrosamento, tendo-se criado uma empatia forte, cimentada por uma cumplicidade mútua de grande generosidade.

No que respeita ao grau de segurança da tabanca, em princípio era de molde a não ofertar perigos de maior, já que se dispunha de um largo raio de visão exterior, pois que era circundada por extensas plantações de amendoim, e a vegetação arbórea era rala. Porque não havia iluminação, estabeleceram-se postos de vigilância nos cantos da povoação, com uma integração equitativa e feita de forma rotativa. Durante a parte de dia, havia 2 postos avançados, que também desempenhavam funções de guardiãs das culturas.

Quanto à vertente dos cuidados de saúde, foi efectivamente o maior benefício que comprovadamente se lhes trouxe. Numa enfermaria improvisada, atendia-se a população que acorria cada vez em maior número, afluídos de outros aldeamentos. Sobre este apoio, recordo com agrado, que o medicamento preferido era o administrado por acção injectável, o tal pico, como gostavam de referir. Pequenos aconchegos de ontem, que muito provavelmente hoje não existem.

(iv) Logo aos primeiros dias, começámos a ter a grata sensação que estávamos a viver, porventura não no país da Alice, mas num outro qualquer rincão reencontrado, esquisito, singular, também com as suas maravilhas. À despedida de cada dia, recordo que se divisava em Cansissé um inebriante pôr-do-sol, de uma luminosidade reverberante que esbugalhavam os nossos olhos de espanto e pasmo, até que o céu se estrelasse em toda a sua amplidão, para podermos ler as estrelas, numa angustiada procura do nosso futuro mais imediato.

Sentíamos com uma incrédula e incontida emoção, que a situação sofredora da guerra ostensível e impenitente, aparentemente estava ausente, ainda que cada um de nós continuava a ter como fiel companheira a G-3. Contudo, a espaços, esta começava a perder parte das suas prerrogativas, pois de quando em vez a sua mudez de descanso trancado era suplantada pelo sussurro ciciante de uma bela nativa, num concupiscente ardimento de furtivos encontros. Esta busca delico-doce era também um generoso contributo que Cansissé nos primava em ofertar, já que teve a primazia da primeira vez, a de um grupo forjado em têmpera de ferro e fogo, vir conviver com as suas gentes.

(v) O meio natural onde Cansissé se inseria, era de uma rara e contagiante beleza, onde tudo parecia decorrer a um ronceiro e tardo ritmo, em acorde com infindas harmonias, qual anelo esperançoso e embriagador, que só se desentoavam surdamente muito para além do intemporal e infindo horizonte. Todo esse meio envolvente, era modelado em tranquilidade e acalmia, onde serenamente os dias se repetiam num compassado ciclo de uma movimentação recortada, pausada e vagarosa.

Por lá perambulavam um número infindo de aves, num constante e mavioso chilreio, trinando os seus gorjeios que nos especava em atencioso e surdo recatamento, para audição de sonatas do paraíso. Entre elas, estavam os periquitos na sua policromia esverdeada, as mansas rolas que nos circundavam emitindo os seus gemidos de agradecimento por algum bago de arroz. Também, com um carinho muito especial, havia um pequeno passeriforme de uma plumagem de um colorido brilhante e de grande beleza, que o rebaptizei de soberbo, com um sentido gregário notável, em que o (re)vejo numa imensidade de ninhos numa atarracada palmeira, feitos pelo entrelaçamento de fios de um fino trabalho de arte de tecelagem.


(Continua)
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Notas de L.G.

(1) Vd. posts anteriores:


19 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXIV: Um sobrevivente de Gandembel/Ponte Balana (Idálio Reis, CCAÇ 2317)


18 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXX: Um pesadelo chamado Gandembel/Ponte Balana (Idálio Reis, CCAÇ 2317, 1968/69)

12 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P866: De Cansissé e a Fonte dos Fulas ao Baixo Mondego ou como o mundo é pequeno (Idálio Reis)

(2) Não foi uma ordem, apenas um desejo, pronta e plenamente satisfeito pelo nosso camarada Idálio Reis: "... aguardo com curiosidade o teu relato das mil e uma noites que passaste em Cansissé, bebendo a água da sabedoria (e quiçá dos amores) da Fonte dos Fulas" (...)

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