Ilustração: Entropia. Luís Graça (1999)
1. No nosso tempo de tropa, ensinaram-nos que "mais valia perder um minuto na vida do que a vida num minuto"... Ensinaram-nos ? Bom, o termo é lisonjeiro para a generalidade dos instrutores... O exército, nesse tempo, não se preocupava muito com a pedagogia. (Que era, por defeito, aquela que já conhecíamos, de casa e da escola, a do pau e da cenoura.)
A expressão Safety First (a segurança em primeiro lugar) é uma variante deste slogan. Em muitos casos, não passa(va) de um chavão. Num país como o nosso que, na época, ficava mal na fotografia europeia da sinistralidade por todas as causas (e nomeadamente, acidentes de trabalho, de lazer e de viação).
Todavia, numa abordagem sociotécnica, deixa de ser apenas um mero slogan de cartaz, "securitário", obrigatório por lei, e que a gente pode ler nos taipais de um estaleiro da construção civil, quando passamos na rua, para se tornar um princípio estruturante da relação entre homens, tecnologia e organizações.Em "sistemas sociotécnicos", complexos e abertos, entende-se que o desempenho organizacional (numa empresa, numa hospital, numa escola, num quartel...) depende da interdependência entre o sistema social (pessoas, formação, cultura, comunicação, relações de poder) e o sistema técnico (ferramentas, processos, máquinas).
O que é isso significa na prática ? Eis aqui os alguns dos seus princípios:
(i) A segurança como propriedade emergente
Na abordagem sociotécnica, a segurança não é um kit, algo que se "instala" numa máquina; é uma propriedade emergente.
Não basta ter o software mais seguro ou o melhor hardware (equipamento técnico) nem mesmo o mais competente e dedicado humanware (as pessoas, os operadores, os recursos humanos)... É preciso verificar se a cultura organizacional não é accident-prone, propensa ao acidente: por exemplo, se pressiona no sentido do one best way, de metas inatingíveis, de prazos impossíveis, da lógicas de custo-benefício.
O Safety First implica que a segurança surge do ajuste harmonioso entre as capacidades humanas e e as limitações técnicas, e vice-versa, as limitações humanas e as capacidades técnicas.
(ii) O erro humano como sintoma, não como causa
A abordagem sociotécnica inverte a lógica tradicional de culpa e da dicotomia simplista erro humano / falha técnica:
- o operador errou porque foi negligente (explicação tradicional ou de senso comum) e, portanto, deve ser admoestado ou punido;
- o "erro" é um sintoma de um deficiente design técnico (concepção e planeamento), ou de uma organização do trabalho disfuncional (visão sociotécnica).
(iii) O equilíbrio entre eficiência e segurança (ETTO)
Existe um conceito central chamado Efficiency-Thoroughness Trade-Off (Compromisso entre Eficiência e Rigor).
- no dia a dia das organizações, há uma tensão constante: ser rápido (eficiente, fazer depressa, com redução de custos) vs. ser cuidadoso (fazer bem, com segurança, com rigor, com qualidade);
- Safety First em termos sociotécnicos significa que a organização valida e apoia o trabalhador quando este escolhe o rigor em detrimento da velocidade, garantindo que os incentivos financeiros ou imperativos produtivos não atropelam os protocolos de segurança.
(iv) Duas lógicas de gestão opostas:
- Prevenção de "custos de acidentes" (diretos, indiretos e ocultyos)
Na lógica sociotécnica, o custo de implementar medidas de segurança (formação, treino, redundâncias, ergonomia) é quase sempre inferior ao custo do desastre, do acidente (acarretando danos materiais e pessoais). A efetividade é medida pela continuidade operacional e a integridade da vida humana.
Custo: implementação de protocolos, programas de saúde, segurança e bem-estar
Efeito: zero acidentes, interrupções, erros, danos (pessoais e patrimoniais).
- Fator humano como investimento
Diferente da visão tradicional, puramente mecanicista, a análise sociotécnica entende que trabalhadores / operadores seguros e bem integrados no sistema tecnológico produzem mais e melhor.
Segurança psicológica: aumenta a proatividade e a detecção precoce de erros.
Ergonomia: reduz o absentismo, melhora a qualidade de trabalho, aumenta a longevidade da força de trabalho.
- Sustentabilidade do sistema
Uma organização que negligencia a saúde e a segurança no trabalho pode ter um bom "custo-benefício" a curto prazo (economiza em equipamentos, software, pessoal de saúde e segurança no trabalho), mas não é custo-efetiva a longo prazo, pois o sistema torna-se frágil e propenso a acidentes, falhas, erros, colapsos, que podem destruir a imagem, a cultura, o clima, o moral, a reputação ou a viabilidade da empresa.
Visão tradicional (Custo-Benefício):
- segurança é um custo que reduz a margem de lucro;
- foco no retorno financeiro imediato das medidas;
- o erro humano é uma falha a ser punida.
- segurança é a base que permite ao sistema funcionar sem falhas;
- foco na resiliência e na otimização da relação homem-máquina;
- o erro humano é um sintoma de um sistema mal desenhado.
Resumo das Dimensões
Dimensão | O que Safety First exige
- Técnica | Interfaces intuitivas, mecanismos de paragem de emergência, redundâncias
- Social | Cultura de confiança e de participação onde se pode reportar falhas sem medo de ser punido
- Organizacional | Priorização da segurança nas decisões de topo, não apenas ao nível operacional.
II. O "desastre" (sic) do Cheche (6 de fevereiro de 1969) devia, nas nossas "escolas de guerra", ser um caso de estudo, trágico e paradigmático, de como a falha num sistema sociotécnico sob pressão extrema conduz entropoia, à catástrofe, in limine, à morte.
Analisando o evento pelo prisma sociotécnico:
O "sistema técnico" aqui era composto por um jangada improvisada, um "sintex" com motor fora de bordo e a própria geografia do Rio Corubal.
Falha de "design" (incluindo a conceção e o planeamento da operação):
- a jangada não foi projetada para o peso excessivo de dezenas de homens com equipamento completo, nem para a instabilidade de um rio, relativamente largo e com corrente;
- foi feita a "olhómetro", com materiais locais (canoas...) e aparentemente não foi testada;
- confoiu-se na experiência dos operadores;
- degradação técnica: a travessia do rio em Cheche ocorreu, na sequência de uma operação (Mabecos Bravios) após a retirada do quartel de Madina do Boé, em contexto e em clima de guerra;
- a compamhia de Madina (CCAÇ 1790) estava isolada há mais de um ano e sujeita a frequentes ataques e flagelaçóes (c. duas centenas e meia);
- a distância de 40 km entre Madina do Boé e Cheche foi feita sob grande stress físico e piscológico:
- o equipamento (jangada, sintex...) estava sob esforço máximo.
- o fator humano estava no limite da resistência física e psicológica;
- pressão temporal: havia uma pressa crítica para retirar a tropa da zona, eventualmente com o receio de um ataque ou flagelação do PAIGC que, à distância, acompanharia a operação;
- a pressa é a inimiga clássica da segurança sociotécnica (Efficiency-Thoroughness Trade-Off);
- cadeia de comando: em sistemas de alta fiabilidade, a segurança exige que qualquer elemento possa interromper a operação se detetar perigo ou risco; este princípio é, de algum modo, incompatível com o princípio da unidade comando-controlo em vigor num exército clássico.
- pânico: sociotecnicamente, o pânico é uma resposta à quebra de confiança no sistema técnico;
- quando a jangada adornou, o sistema social colapsou.
(iii) A falha organizacional: o Safety First inexistente
A nível macro, a decisão de abandonar Madina do Boé foi uma decisão política e estratégica de alto risco. Terão sido ponderados todos os prós e contras ?
Falta de redundância: um princípio sociotécnico essencial é a redundância (ter um plano B).
No Corubal, não havia meios de salvamento, botes pneumáticos, fuzileiros, mergulhadores, e outro pessoal da marinha (exceto o condutor do sintex), boias, coletes salva-vidas..., coisas que hoje são elementares numa simples passeio de barco no estuário do rio Tejo,
A operação parece ter sido do tipo "tudo ou nada"...
Invisibilidade do risco: o comando da operação, focado na logística da retirada, subestimou o perigo da travessia física (a "cambança"), tratando-a como um detalhe tático ou operacional e não como o ponto crítico (ou até o mais crítico) da missão.
Comparação sociotécnica:
Madina do Boé vs. Segurança integrada (ou vista hoje)
Elemento | No Desastre do Cheche (1969) | Numa Operação Safety First |
- Carga | Excesso de peso para cumprir horário | Limites técnicos respeitados rigorosamente
- Comunicação | Silêncio rádio e pressão de comando | "Cultura justa e responsável" (capacidade de dizer "não")
- Equipamento | Improvisação sob stress | Certificação e redundância de meios.
- Ambiente | Hostil e imprevisível | Monitorização e mitigação de riscos ambientais.
O "desastre" do Cheche demonstra que, quando o sistema técnico (a jangada rebocada por sintex) é precário e o sistema social (os soldados) está exausto e sob pressão externa, qualquer pequena variação pode levar ao colapso total.
Último poste da série > 10 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27722: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (1): Os desastres (do Cheche a Alcácer Quibir das Cheias de 1967 à tempestade Kristin) e a teoria do bode expiatório


3 comentários:
Vd. a origem da palavra "desastre"...
É fascinante como a raiz das palavras revela a visão de mundo dos nossos antepassados. No caso de "desastre", a culpa não era nossa, mas do céu, condomínio dos deuses...
Significado e Etimologia > Desastre (s.m.): "Qualquer coisa que acontece de natureza ruinosa ou angustiante; qualquer evento infeliz", especialmente uma desgraça súbita ou grande. Origem: Do francês "désastre" (séc. XVI), pelo italiano "disastro" .
Sentido literal: "Má-estrela" ou "estrela desfavorável".Composição: "dis-": prefixo pejorativo (equivalente ao português !mis-" ou "des-"), significando "mau" ou "afastado"; + "astro": do latim "astrum" e do grego "astron" ("estrela").
Termos relacionados:
Desastroso (adjetivo: que descreve algo que causa grande dano ou fracasso);
Desastrosamente (advérbio; de uma maneira que resulta em desastre):
Ill-starred (em inglês): nascido sob uma má estrela
Alusão direta à origem astrológica (ter azar ou destino infeliz).
Conexão astrológica: a palavra carrega a herança da astrologia medieval. Antigamente, grandes calamidades (pestes,. fomes, terramotos, guerras, derrotas militares) eram atribuídas à posição desfavorável dos planetas. Se o "astro" estivesse desalinhado ou em posição "sinistra", o resultado era um "des-astre".
Esta ideia de que o destino ("fado", em português, "fatum", em latim...) está escrito nas estrelas chegou até aos nossos dias em expressões como "ter boa estrela", "estrelinha da sorte"...
Fascinante o caminho das estrelas e das palavras... Em conclusão, quando escrevemos o "desastre" do Cheche, estamos a alijar a carga, a "naturalizar" o acidente, no fundo, a "lavar as nossas mãos"...
Luis, eu não vivi esses tempos, mas para mim, além da trajédia é uma lição de vida para recordar.
Não vou mensionar nomes, mas um dia também falarei da pessoa que fez o Requerimento, para a C.Caç.4541/72 ter acesso aos documentos do MFA. Entretanto vou registando nomes, datas e decisões tomadas, do periodo que eu vivi.
Um abraço,V.C.
Hélder: gostava que desses uma vista de olhos a este pposte... Tu que és engenheiro e especialista em segurança, tens por certo algo a dizer, mesmo passados mais de 57 anos sobre o "desastre" de Cheche... E mesmo não dispondo nós de toda a informação (por exemplo, o relatório que terá sido feito pelo cor cav Ferreira Cavaleiro; será que existe cópia no Arquivo Histórico-Militar ?).
Afinal, arranjou-se um bode expiatório, que era o elo mais fraco da cadeia, o ex-alf mil Dinis, da CART 2338...Felizmente, acabou ser ilibado em tribunal militar...
Mas será que algum professor da Academia Militar já usou esta "história" como estudo de caso ?
Um abração, Luís
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